Pensar sobre a escravidão no Ceará, a partir das evidências materiais presentes na exposição “Escravidão e Abolicionismo”, é um exercício de interpretação. Observando a Figura 12, percebemos um conjunto de objetos que remetem aos castigos físicos aos quais os escravos eram submetidos, tais como: gargantilhas, algemas e tronco para aprisionamento, estão disposto do lado da carranca (proa da barca Laura II, embarcação
onde ocorreu um levante de escravos em 1839 e que resultou na morte de toda a tripulação presente), o que nos evidencia a insatisfação dos negros em relação às suas condições de cativos, negando a passividade atribuída a eles.
Figura 12
Tronco de escravos, algemas e gargalheiras, figura da proa do barco Laura II. Fotografia realizada pelo autor, Fortaleza, Museu do Ceará, Módulo: Escravidão e abolicionismo, dia 28/02/2019.
Debater com os estudantes da educação básica sobre os valores dos objetos a partir de sua musealização, refletir sobre as tessituras que envolvem a construção da história utilizando a cultura material como fonte histórica, pensar sobre os escravizados como sujeitos de sua própria história, perceber os objetos como documentos históricos são algumas questões que podem servir de mote para pesquisa com os alunos da educação básica. Nesta sala, a desnaturalização do discurso de passividade dos cativos e, em consonância com a renovada historiografia sobre escravidão no país, reconhecendo suas lutas contra as exploração as quais eram submetidos, a sensibilização dos estudantes à compreensão dos horrores provocados por esta chaga na história do Brasil, por meio dos objetos representados na proposta narrativa do MC, o exercício de criação de novas histórias a partir das leituras dos estudantes sobre a exposição, são meios de apropriação das potencialidades que a sala possui.
Na figura 13 temos em destaque o quadro “Fortaleza Liberta”, de José Irineu de Souza, que retrata o ato oficial de soltura dos cativos cearenses de sua capital, em 24 de março de 1883, onde estão retratadas várias personalidades, como Francisco José do Nascimento (Dragão do Mar). O ato foi realizado no Palacete Senador Alencar, prédio
que hoje abriga o Museu do Ceará.
Figura 13
Livro de registros de escravos do Ceará do séc. XIX, Mesa e quadro “Fortaleza Liberta”, representando a libertação dos escravos no Ceará. Fotografia realizada pelo autor, Fortaleza, Museu do Ceará, Módulo: Escravidão e abolicionismo, dia 28/02/2019.
Nesta exposição ainda temos a referência a personalidades que participaram do movimento abolicionista, representados por algumas pinturas; bandeira da Sociedade Libertadora; carta de Joaquim Nabuco ao cearense José Correia do Amaral (membro da Sociedade Abolicionista Perseverança e Porvir); livro com a capa de prata oferecidos pelos portugueses residentes em Fortaleza, para ser inscrita a ata da abolição dos escravos do Ceará. Essas evidências nos possibilitam pensar sobre as condições que fizeram do Ceará Terra da Luz, mas nos mostram também a luta para a efetivação da liberdade dos cativos, pois mais do que um ato humanitário, ocorreram movimentos de luta.
Vários debates podem ser realizados partindo dos objetos em exposição neste módulo, e que tem como propósito realizar reflexões sobre: as políticas afirmativas de identidade cultural negra, como a obrigatoriedade dos estudos de africanidades; o cotidiano dos escravos no mundo do trabalho, moradia, sexualidade, nos movimentos de resistência e revoltas contra a submissão as quais os negros eram submetidos; as políticas de reparação sociais, como as cotas reservadas aos estudantes negros em concursos e vestibulares.
3.8 Módulo 6- Padre Cícero: mito e rito
Em “Padre Cícero: Mito e Rito”, observamos algumas peças referentes ao universo religioso que envolve Padre Cícero Romão Batista: de objetos de uso pessoal, como sua batina, chapéu e cajado, a instrumentos que evocam a devoção popular, como os ex-votos, estátuas e pinturas representativas da fé popular ao “padrinho”, a quem se atribui a realização de “milagres”.
Observando a Figura 14, temos a batina, o chapéu e o cajado de um dos personagens mais emblemáticos da História do Ceará, Pe. Cícero Romão Batista, objetos esses de adoração e reverência por meio de muitos católicos devotos que frequentam o espaço do MC. Do “Milagre em Juazeiro”, ocorrido após a suposta transmutação de uma hóstia em sangue, quando o padrinho celebrava missa e dava a comunhão à beata Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo, em 1889, à Sedição de Juazeiro, conflito entre as elites cearenses e que resultou na deposição do presidente da província do Ceará, Franco Rabelo, em 1914. A exposição navega do sagrado ao profano e possibilita aos professores de História uma ampla e variada gama de discussões: cultura popular, fé e religiosidade, movimentos políticos na república velha, coronelismo, política do “café com leite”, “política dos governadores”e “política das salvações”.
Figura 14
Batina, chapéu e cajado pertencentes a Pe. Cícero. Fotografia realizada pelo autor, Fortaleza, Museu do Ceará, Módulo: Padre Cícero: mito e rito, dia 28/02/2019.
No MC há vários objetos que representam a história da Sedição de Juazeiro,235 como fotografias posadas dos combatentes do Pe. Cícero, incluindo romeiros, cangaceiros e capangas dos coronéis da região do Cariri que foram responsáveis pela defesa da “Terra do Pe. Cícero”, e que foram invadindo várias cidades (Crato, Miguel Calmon, Baturité, Quixeramobim) no trajeto até a deposição de Franco Rabelo em Fortaleza – balas de canhão, fuzil, dragonas militares que representam o prestígio do padrinho não só no campo religioso, mas também por meio de ações políticas.
Conforme observamos na Figura 15, os professores de História podem trabalhar com os alunos diversas narrativas de uma história social, por exemplo, solicitando aos alunos a comparação do discurso proposto na exposição com as notícias de jornais, em que, muitas vezes, os devotos do “padim” eram acusados de serem “fanáticos ignorantes”.
Figura 15
Fotografias da Sedição de Juazeiro, espingarda, balas de canhão e dragonas. Fotografia realizada pelo autor, Fortaleza, Museu do Ceará, Módulo: Padre Cícero: mito e rito, dia 28/02/2019.
No âmbito político, Pe. Cícero foi figura de destaque no Ceará sendo um dos responsáveis por emancipar Juazeiro da cidade do Crato, sendo inclusive seu primeiro prefeito em 1911. O prestígio do Pe. Cícero aumentava conforme as romarias se popularizavam, e com isso os muitos lucros. A cidade sagrada dos fiéis dava lucro aos
235 (EM13CHS602) Identificar e caracterizar a presença do paternalismo, do autoritarismo e do populismo na política, na sociedade e nas culturas brasileira e latino-americana, em períodos ditatoriais e democráticos, relacionando-os com as formas de organização e de articulação das sociedades em defesa da autonomia, da liberdade, do diálogo e da promoção da democracia, da cidadania e dos direitos humanos na sociedade atual. (BNCC, p. 579).
“profanos” comerciantes e artesãos, que produziam diversos artigos religiosos: estatuetas, orações, terços, velas, medalhas, retratos e pinturas.
A questão do processo de “romanização”, em que a Igreja Católica, após o Concílio Vaticano I (1869-1870), buscou criar diretrizes e ações no sentido de fortalecer a hierarquia da estrutura clerical, é importante para os professores de História debaterem com os alunos a postura da Igreja de condenar o “milagre”, investigado pela Sagrada Inquisição em 1894, e impor a reclusão e o silêncio a Pe. Cícero, que só teve licença para celebrar missa em Juazeiro após viagem a Roma, em 1898. A figura de pai espiritual, cantado em cordéis e presente no imaginário popular, é cada vez mais forte à medida em que a memória dos fiéis é ressignificada pelas peregrinações, pelos conselhos espirituais e pela mensagem evangélica.
Esses objetos expostos em um lugar de memória oficial, compondo uma narrativa discursiva que reforça e, ao mesmo tempo, provoca são indícios históricos importantes para o entendimento das diversas possibilidades de leitura sobre os fatos do pretérito.