O processo de coleta de dados contou com duas técnicas de pesquisa que foram exploradas na respectiva ordem, e serão explanadas a seguir: a observação participante e a entrevista. Esses procedimentos atuaram na busca pela realização dos primeiros objetivos específicos da pesquisa, o mapeamento do consumo e das concepções de gênero das crianças. A definição da amostra para aplicação de ambas as técnicas de pesquisa ocorreu de forma não-probabilística, os indivíduos foram selecionados integrando critérios de intencionalidade e conveniência. A forma mais acessível de conseguir contato com um número suficiente de crianças foi através da escola, que desempenha um importante papel no processo de socialização. Dessa forma, a amostra foi definida com base em três critérios: a acessibilidade por parte da escola; a idade das crianças, entre 7 e 8 anos; o ensino ser fundamental e público.
Levando em consideração as técnicas de pesquisa escolhidas, a acessibilidade da escola se tornou um dos principais fatores para a seleção da amostra, uma vez que, tanto a observação quanto a entrevista requerem a intervenção e participação no ambiente escolar.
Optamos pela idade de 7 e 8 anos, pois compreende o início da idade escolar, na qual, as crianças se encontram com a zona de desenvolvimento proximal em constante ação, e, a
partir das trocas sociais, é possível observar o quanto a aprendizagem direciona ao desenvolvimento, tendo como base aspectos apontados por Vygotsky (1991).
O ensino público foi selecionado devido a menor intervenção da religião, uma vez que, verificamos o papel desta no processo de socialização e a grande maioria das instituições privadas de Santa Maria são vinculadas a algum tipo de religião. Dessa forma, a opção pelo ensino público parece nos propiciar uma coleta de dados com maior imparcialidade.
A seguir elencaremos as especificidades das técnicas de pesquisa selecionadas.
3.3.1 Observação participante
―A fala da criança é tão importante quanto a ação para atingir um objetivo. [...] sua fala e ação fazem parte de uma mesma função psicológica complexa [...]‖ (VYGOTSKY, 1991, p. 28). A observação participante torna-se um método que possibilita a ponderação da fala e da ação de forma concomitante, como propõe Vygotsky. Dessa forma, se mostra uma estratégia adequada para auxiliar na compreensão das concepções e dos comportamentos infantis de forma completa.
A pesquisa participante, de acordo com Peruzzo (2009) diz respeito à inserção do/a pesquisador/a no ambiente natural do fenômeno a ser estudado. Ou seja, propõe uma lógica em que o/a investigador/a observa o contexto de dentro, inserido/a, compartilhando e vivenciando as atividades e o cotidiano do grupo estudado. Cabe ressaltar que o/a pesquisador/a mesmo estando inserido/a no contexto, é uma pessoa externa ao grupo, assim sendo, ele/ela ―nunca será idêntico aos observados‖ (PERUZZO, 2009, p. 127).
Ainda de acordo com Peruzzo (2009, p. 131) a observação participante na área da comunicação e especificamente neste estudo está ligada a observação de um fenômeno ligado ―a experiências populares de comunicação voltadas para o desenvolvimento social‖. Portanto, nos propomos a observar as concepções das crianças relativas ao consumo de mídia, bem como ao consumo material e às concepções de gênero, a fim de contribuir para uma transformação social. Seja desvendando a relação entre esses três aspectos ou propondo por meio desse estudo, novos pontos de vista para eles.
Peruzzo (2009) elenca alguns pressupostos no que tange o papel do/a pesquisador/a na observação participante. Esse/a deve estar inserido/a no grupo a ser pesquisado, acompanhando e participando das atividades desempenhadas pelo mesmo, mas o/a pesquisador/a não pode se confundir com um membro do grupo. O/a pesquisador/a é autônomo/a quanto a sua pesquisa, ou seja, os indivíduos do grupo não interferem na
construção da mesma. E o/a observador/a pode ser encoberto/a ou revelado/a, nesse caso, a opção foi por revelar.
Ao lidar com dados qualitativos e com a participação da pesquisadora na coleta desses dados, temos a noção de que a observação participante não propõe a criação de novos paradigmas ou, como já mencionamos, uma maximização dos resultados a uma teoria geral. Temos como objetivo a realização da coleta de dados com
maturidade intelectual suficiente para processar [...] [a] investigação com base em hipóteses ou questões de pesquisa sustentadas em teorias e, [...] captar os movimentos do fenômeno tais como são, distanciando-se, portanto, de [...] idiossincrasias e de um olhar parcial, superficial ou falso da realidade. (PERUZZO, 2009, p. 141)
Portanto, buscamos por meio da observação participante, interpretar pressupostos ideológicos relativos ao consumo e ao gênero, a fim de concretizar uma coleta de dados com clareza suficiente para aplicação da segunda técnica de pesquisa: a entrevista.
3.3.2 Entrevista
De acordo com Duarte (2009, p. 62) a entrevista é uma ―técnica qualitativa que explora um assunto a partir da busca de informações, percepções e experiências de informantes para analisá-las de forma estruturada.‖ Assim como a observação participante, a entrevista está mais direcionada à interpretação e cruzamento de informações, do que à definição de conclusões definitivas. Dessa forma, é uma técnica que propõe certa flexibilidade respeitando alguns pressupostos.
Diante dos diferentes tipos de entrevistas elencados por Duarte (2009), a que nos propomos a realizar é a entrevista semi-aberta. Esta compreende a construção de um roteiro de perguntas, previamente estruturado, que também cede espaço para novos questionamentos e hipóteses ao decorrer da entrevista.
Optamos pela técnica, pois ela permite, aliada a observação participante, uma articulação das respostas, assim podendo elencar com maior detalhamento e clareza as concepções de gênero e os modos de consumo.
A escolha dos/as informantes foi realizada de maneira semelhante a seleção da escola para a observação participante, mas neste caso os critérios foram mais direcionados a intencionalidade. A partir da observação participante ocorreu o direcionamento para a seleção de crianças com relatos diversificados e passíveis de maiores aprofundamentos em relação ao
gênero ou ao consumo. O processo de seleção das crianças será melhor detalhado logo em seguida, quando explanarmos sobre a descrição dos dados obtidos com a entrevista.