Há muita curiosidade e disponibilidade para aprender. Quando saímos do senso comum, abrimos as portas para um aprendizado efetivo, global. Entre os professores ainda há uma resistência, um receio a respeito do novo. Toda mu- dança pode gerar desconforto; porém, com o tempo, aca- ba tornando-se prática inerente aos costumes da educação (AIETA, 2013, s.p.).
É consenso que a criatividade é inerente ao ser humano; por- tanto, em que parte do caminho nossos alunos ficaram apáticos ao aprendizado? Em que parte da caminhada nos desconectamos do todo e preferimos as partes? Esquecemos o exemplo dos pro- cessos cíclicos e conectados da natureza? Com qual objetivo nos tornamos individualistas, compartimentados, fechados? Acredita- mos que estamos imunes às influências naturais e inevitáveis do contexto em que vivemos? Responder a esses questionamentos talvez não seja a principal questão. Mas, na atualidade, depois de ter assistido e vivido o que a segregação fez com a humanidade, com o planeta, com a educação, com a vida, é lícito clamar pela união! É imprescindível responder à questão primordial: por que segregar?
No âmbito educacional talvez a professora Luiza possa auxi- liar oferecendo uma das possíveis respostas para a fragmentação de conhecimentos:
Um dos desafios foi justamente buscar a adesão dos pro- fessores, não apenas porque o projeto gerou mudança de cultura, mas porque existiam dúvidas sobre as reais habili- dades dos professores para praticar a interdisciplinaridade, já que a graduação de muitos foi segmentada e não se dis- cutia a vinculação entre disciplinas (AIETA, 2013, s.p.).
Muitas vezes não é o medo da mudança que assusta, é a consciência da própria limitação. Assim, sabedores de nossa ina- ta incompletude, cientes da necessidade de estar sempre apren- dendo, o desafio está em aceitar essas verdades e lançar-se rumo à qualificação. Tanto no aluno como no professor o desejo pela aprendizagem e a criatividade são inatos. Dessa forma, se for pro- porcionada aos protagonistas da educação informação de quali- dade e de forma significativa, o aprendizado se torna prazeroso e efetivo.
Conforme aposta Luiza Aieta (2013, s.p.), “a tarefa fundamen- tal da interdisciplinaridade é socializar conhecimento, não apenas transmitindo, mas reconstruindo o saber”. E, embora muitos justi- fiquem sua prática estanque no engessamento do currículo, isso nada mais é que desculpa, seja pela falta de conhecimento, seja pelo medo ou indisposição à evolução, tanto enquanto professor/ profissional como enquanto ser humano. Pois, conforme explica Lima (2007, p. 9), “[...] os currículos não são conteúdos prontos a serem passados aos alunos. São uma construção e seleção de co- nhecimentos e práticas produzidas em contextos concretos e em dinâmicas sociais, intelectuais e pedagógicas”.
As palavras do físico Fritjof Capra, a seguir, inspiram a pensar sobre a interdisciplinaridade num contexto holístico de palavra/
ação; pois, sabedores das mudanças que estão ocorrendo em todas as esferas do planeta Terra, sejam mudanças ambientais, magnéticas, de consciência, entre outras, a educação não ficará de fora. Mesmo que resista às mudanças, terá de se adaptar.
Talvez seja conveniente, neste ponto, resumir as caracte- rísticas-chave do pensamento sistêmico. O primeiro crité- rio, e o mais geral, é a mudança das partes para o todo. Os sistemas vivos são totalidades integradas cujas proprieda- des não podem ser reduzidas às de partes menores. Suas propriedades essenciais, ou ‘sistêmicas’, são propriedades do todo, que nenhuma das partes possui. Elas surgem das ‘relações de organização’ das partes, isto é, de uma confi- guração das relações ordenadas que é característica dessa determinada classe de organismos ou sistemas. As proprie- dades sistêmicas são destruídas quando um sistema é dis- secado em elementos isolados (CAPRA, 1999, p. 46).
A geração atual vive uma mudança de consciência com re- lação à visão segregada e inicia um olhar que vai das partes para o todo. Essa visão sistêmica vem avançando em todas as áreas e contextos sociais, desde a física quântica, até à sala de aula. Na escola, essa busca por integração trouxe a metodologia interdis- ciplinar de ensino, ou seja, a interdisciplinaridade.
Felizmente o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa inovou e alcançou resultados na qualificação da educa- ção básica nunca vistos antes. Isso reafirmou que o profissional que recebe formação adequada e continuada desempenha com eficiência seu trabalho, pois muitas vezes deixa de realizar as propostas governamentais e teóricas da academia, não por não querer, mas simplesmente por não saber, por não estar qualifi- cado.
A experiência vivida com a turma de professoras alfabetiza- doras, nos encontros de formação do PNAIC de 2015, e o estudo
sobre a prática interdisciplinar de ensino desmistificaram medos e dúvidas; e, após a compreensão de como realizá-la, também pro- porcionaram uma atuação pedagógica com maestria por parte das professoras participantes da formação.
A experiência provou ser possível uma educação de qualida- de quando há união. E, se na esfera da educação já se vivencia através da interdisciplinaridade a possibilidade da junção das partes, quem sabe nossa ação multiplicada possa resultar em um ser humano que busque também a integração, a colaboração e suprima a competição e a segregação. Certamente, a vivência da integração traz felicidade e realização.
REFERêNCIAS
AIETA, L. S. Projetos interdisciplinares. Revista Pátio, Porto Alegre, ano V, n. 16, mar./maio 2013.
BRASIL. Ministério da Educação. Portal do MEC. Disponível em: <http:// portal.mec.gov.br/ideb-sp-1976574996>. Acesso em: 27 set. 2016. ______. Secretaria de Educação Básica. Diretoria de Apoio à Gestão Edu- cacional. Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Organiza- ção do trabalho pedagógico. Unidade 2. Brasília: MEC, SEB, 2012. ______. Secretaria de Educação Básica. Diretoria de Apoio à Gestão Edu- cacional. Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Planejan- do a alfabetização; integrando diferentes áreas do conhecimento: proje- tos didáticos e sequências didáticas. Unidade 6. Brasília: MEC, SEB, 2012. ______. Secretaria de Educação Básica. Diretoria de Apoio à Gestão Edu- cacional. Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. Projetos didáticos e sequências didáticas na educação do campo: a alfabetização nas diferentes áreas de conhecimento escolar. Educação do campo. Uni- dade 6. Brasília: MEC, SEB, 2012.
FAZENDA, I. C. Educação no Brasil anos 60: o pacto do silêncio. São Pau- lo: Edições Loyola, 1985.
LIMA, E. S. Indagações sobre currículo: currículo e desenvolvimento hu- mano. Brasília: Ministério de Educação, Secretaria de Educação Básica, 2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Ens- fund/indag1.pdf.