A1: A conversa era assim: _ Oi, eu preciso pagar alguma coisa… E ela sabia Libras
e isso era bom! E eu voltava pra sala de aula. Foi quando a pedagoga me viu conversando com essa pessoa. Me viu sinalizando, que eu uso Libras, e me cumprimentou. Quando ela precisou ela lembrou que essa funcionária poderia servir como intérprete de Libras. A pedagoga pediu para essa funcionária interpretar pra mim e ela aceitou. E em dois meses nós refizemos as atividades, interagimos, já estava quase no fim e eu fiz a segunda chamada. Também fiz apresentação. Tudo
76 em Libras e escrevi um texto, foi feita correção, e assim interagindo. Na Sociologia também consegui. E aí pensei na faculdade, não sabia qual fazer. O professor me deu uma lista de cursos. Eu li e escolhi três: administração, ciência da computação e direito. E eu ficava pensando qual vestibular fazer, o da Ufes ou outra faculdade, ficava procurando, pensando. Daí eu fui na igreja batista e eu encontrei uma intérprete. Aí puxei assunto: _ Oi você é intérprete? Estuda na Ufes? Que bom… Eu queria futuramente tentar vestibular pra um desses cursos: administração, ciências da computação e direito, mas como vai ser a comunicação que não ocorre? Preciso dar um telefonema, mandar um email precisa escrever português corretamente, não dá! Parece que assim não vou consegui um emprego. Vão chamar um surdo? Deficiente? Não vão chamar. Administração é comunicação toda hora seja por telefone ou e-mail. Ciência da computação eu preciso ter acesso às informações, sempre surge novidades na área tecnológica e eu fico sem informações? No direito, a barreira linguística com o ouvinte. Seja um caso de separação, como eu vou falar com o juiz? Intérprete naquele tempo não tinha, isso foi antes, como eu ia fazer? Fiquei pensando, era difícil. Aí eu pedi a opinião da intérprete e ela me sugeriu que eu fosse professor de Libras, dar aula para ouvintes, que eu receberia salário e não precisaria me preocupar com essa parte administrativa de fazer ligações, mandar e- mails, e etc... só ensinar Libras e escrever, assim como um professor de história, geografia. Ela sugeriu: _ Melhor pra você é pedagogia. Você quer ir junto comigo na prefeitura de Vitória visitar? Eu respondi: _Mas, eu nunca… será que vão permitir? Eu não trabalho… _ Não você pode atuar como se fosse um estágio simples, como voluntário. Eu vou pedir autorização da diretora. Houve a autorização, eu fui, fiquei observando mas não sabia o que fazer. Ela atuava como professora de Libras e me mostrou como eu poderia fazer. Eu fui vendo como ela fazia e eu fui absorvendo aquilo ali e quando foi a minha vez eu fiz do meu jeito, adaptando a maneira como ela fazia, e fui seguindo o plano de aula dela. Daí eu gostei, fui acostumando. Depois de uns seis meses eu fui fazer vestibular, fui tentar. Primeiro tentei me comunicar, escrevi… no começo eu estudava na Faesa, ah! Faesa não! Não pode colocar isso! Eu estudava numa faculdade particular, eu estava fazendo Pedagogia, e não tinha intérprete. Os conteúdos eram reduzidos. Foi difícil! Demorou um ano e eu ficava solicitando intérprete até que eu processei a faculdade, mas eles se recusavam. Aí eu resolvi fazer uma prova, lembra aquela minha amiga da Ufes, intérprete? Eu perguntei a ela: _ Lá na Ufes tem intérprete? Ela me respondeu: _ Saiu uma lei nova há pouco tempo garantindo intérprete, então aceita intérprete, mas naquela outra não vai aceitar não. Aí eu decidi tentar uma prova para transferir do curso de pedagogia. Fiz a prova e depois de um mês me avisaram me dando os parabéns que eu havia passado. Eu nem acreditei! Fiquei na dúvida, será que passei mesmo? Ligaram pra minha mãe e ela me avisou por torpedo. Eu estava trabalhando numa escola particular da Praia do Canto. Quando eu recebi o torpedo eu não acreditei! Voltei correndo pra casa pra perguntar a minha mãe o que havia acontecido. Ela me disse que ligaram avisando que eu passei na Ufes que eu poderia fazer a transferência para o curso de pedagogia. Aí eu fui rápido na Faesa trancar o curso e não paguei mais. Me desculpei com eles mas não tinha intérprete, eu vou mudar pra outra que tem. Aí eles disseram: _ Não, não, nós vamos providenciar intérprete… Mas, não quis mais, sinto muito. Pedi o currículo, o histórico, a grade curricular, levei tudo e entreguei na Ufes. Depois começaram as aulas de pedagogia na Ufes, mas não tinha intérprete. Eu comecei a reclamar, fiquei uns três meses reclamando até que eu disse: _ Se não contratarem um intérprete eu vou chamar a reportagem: TV… aquele do canal 7?
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A: SBT
A1: Isso, SBT… eu chamo o jornal A Tribuna, A Gazeta, tanto faz, eu vou denunciar.
Também abro um processo no Ministério público. Daí a mulher ficou preocupada com o meu atrevimento e me respondeu: _ Olha, eu vou ligar para o MEC e vou procurar me informar como proceder pois eu não sei como solicitar intérprete porque não tínhamos esse pedido antes, você é o primeiro a pedir. Eu respondi: _ Não tem problema, Faça! Aí ela me pediu um prazo de uma semana, daí eu respondi: _ Tudo bem, eu espero. E eles conseguiram três bolsistas voluntários. Primeiro eles vieram como voluntários depois conseguiram bolsa. E assim foi minha trajetória até chegar no Letras Libras, fiz mestrado em educação e lá tinha intérprete de Libras, tudo certinho.
A: Parabéns! Muito bom, ótimo! Podemos dar uma pequena pausa.