Nesta seção, vamos estudar condições para que subvariedades (imersas ou mergulhadas) de uma variedade semi-Riemanniana (Nn+k, h) xada, onde n + k = dim N e n, k ≥ 1, possam herdar uma métrica da variedade ambiente.
Denição 1.50. Seja N uma subvariedade (imersa ou mergulhada) de (N, h) e denote por i : N ,−! N a inclusão. Então, N é dita subvariedade semi-Riemanniana de N se i∗h é uma métrica em N, isto é, se (N, i∗h) é uma variedade semi-Riemanniana.
Quando h é denida (positiva ou negativa), todas as subvariedades de N são semi- Riemannianas e de mesmo índice de h. No entanto, esse não precisa ser o caso se h é indenida, como veremos na seção 3.2. Para o restante da seção, xe (Nn, i∗h) ⊆ (N , h)
subvariedade semi-Riemanniana de N de dimensão n ≥ 1.
Para cada p ∈ N, o espaço dip(TpN ) ⊆ TpN é não-degenerado em TpN e isométrico a
TpN. Do lema A.5 segue a decomposição
TpN = dip(TpN ) ⊕ dip(TpN )⊥. (1.51)
Em particular, note que ind i∗h ≤ ind h. Dena os conjuntos
X(i) := {X : N −! T N : X é suave e Xp ∈ TpN , ∀p ∈ N }
X||(i) := {X ∈ X(i) : Xp ∈ dip(TpN ), ∀p ∈ N }
X⊥(i) := {X ∈ X(i) : Xp ∈ dip(TpN )⊥, ∀p ∈ N }
dos campos sobre i, tangentes sobre i e normais sobre i, respectivamente. Por exemplo, se X ∈ X(N), temos que di(X) ∈ X||(i)e se Z ∈ X(N), Z ◦ i ∈ X(i). Os conjuntos acima
denidos se tornam C∞(N )-módulos com as operações usuais de soma e multiplicação
ponto a ponto, com X||(i) e X⊥(i) sub-módulos de X(i).
Proposição 1.52. A aplicação di : X(N) −! X||(i) é um isomorsmo de C∞(N )-
módulos.
Demonstração. Que di é morsmo injetor de C∞(N )-módulos é imediato de sua denição.
Para a sobrejetividade, tome V ∈ X||(i). Daí, para cada p ∈ N, V
p ∈ di(TpN ). Como
dip é injetora (i é imersão), existe único Xp ∈ TpN tal que dip(Xp) = Vp. Fica então
bem denido o campo vetorial X sobre N. Uma vez que mostremos sua suavidade, é imediato que di(X) = V , donde seguirá a sobrejetividade. A suavidade de X decorre de uma análise em coordenadas para uma carta (U, ϕ) qualquer de N e a carta induzida em N correspondente.
1.8. Subvariedades semi-Riemannianas 35
Proposição 1.53. X(i) = X||(i) ⊕ X⊥(i), onde ⊕ denota a soma direta de espaços veto-
riais.
Demonstração. Que X||(i) ∩ X⊥(i) é trivial segue de di
p(TpN ) ∩ dip(TpN )⊥ ser trivial,
para cada p ∈ N. Daí, basta mostrarmos que X(i) ⊆ X||(i) + X⊥(i). Fixe V ∈ X(i)
e, para cada p ∈ N, escreva Vp = Xp + Zp, onde Xp ∈ dip(TpN ) e Zp ∈ dip(TpN )⊥.
Ficam bem denidos os campos vetoriais X e Z. Uma vez que forem suaves, X ∈ X||(i)e
Z ∈ X⊥(i), donde segue então V ∈ X||(i) + X⊥(i). Para a suavidade, xe p ∈ N, U ⊆ N aberto contendo p e campos20 E
1, . . . , En+k ∈ X(i|U) ortonormais tais que21 E1, . . . , En
são paralelos e En+1, . . . , En+k são normais. Dessa forma,
V |U = n+k X i=1 ViEi, onde Vi ∈ C∞(U ) (pois Vi = hV, E
iihEi, Eii). Da escolha dos campos Ei segue X|U =
Pn
i=1ViEi e Z|U =Pi=n+1n+k ViEi, donde segue a suavidade de X|U e Z|U. Como p ∈ U ⊆
N é arbitrário, X ∈ X||(i) e Z ∈ X⊥(i) e encerramos a prova.
Devido à proposição 1.52, dado um V ∈ X(i), escrevemos Vk e V⊥ para as partes
tangente e normal de V , respectivamente. Vamos denotar também as conexões de Levi- Civita de N e N respectivamente por ∇ e ∇.
Denição 1.54. A conexão induzida sobre i (por ∇) é a aplicação D : X(N) × X(i) −! X(i) que satisfaz22:
1. D é C∞(N )-linear na primeira entrada;
2. D é R-linear na segunda entrada;
3. DX(f V ) = (Xf )V + f · DXV, para f ∈ C∞(N ), X ∈ X(N ) e V ∈ X(i);
4. DXp(Z ◦ i) =∇dip(Xp)Z, para quaisquer X ∈ X(N), Z ∈ X(N) e p ∈ N.
Teorema 1.55. Existe uma aplicação â : X(N) × X(N) −! X⊥(i) C∞(N )-bilinear e
simétrica que satisfaz, para quaisquer X, Y ∈ X(N):
DXdi(Y ) = di(∇XY ) +â(X, Y ),
ou seja, di(∇XY ) = (DXdi(Y )) k
e â(X, Y ) = (DXdi(Y )) ⊥
. A aplicação â é chamada de shape tensor ou tensor de segunda forma fundamental.
20 X(i|U)são os campos suaves Y : U −! T N com Yq ∈ TqN , ∀q ∈ U.
21 Tome (e1, . . . , en) ⊆ TpN base ortonormal, U ⊆ N aberto contendo p e E1, . . . , En∈ X(U )ortonormais
tais que Ei(p) = ei, i ∈ {1, . . . , n} (lema 1.5). Tome (en+1, . . . , en+k) ⊆ TpN base ortonormal de
dip(TpN )⊥ e F1, . . . , Fk ∈ X(N )tais que Fi(p) = en+i, ∀i ∈ {1, . . . , k}. Aplicando o método de Gram
Schmidt para os campos di(E1), . . . , di(En), F1◦ i, . . . , Fk ◦ i e reduzindo U se necessário, obtemos
campos E1, . . . , En+k∈ X(i|U)ortonormais, de forma que Ei= di(Ei), i ∈ {1, . . . , n}. Daí, E1, . . . , En
são paralelos e, portanto, En+1, . . . , En+k são normais.
Demonstração. Pode ser encontrada nas páginas 99 e 100 de O'Neill (1983), nos lemas 4.3 e 4.4.
Como â é C∞(N )-bilinear, ele pode ser denido pontualmente: se p ∈ N, â
p : TpN ×
TpN −! dip(TpN )⊥ é R-bilinear. O shape tensor relaciona a geometria da subvariedade
N e da variedade N ambiente. Por exemplo, consideramos um cilindro (mergulhado) em R3
= R30. Ainda que não tenhamos provado, o cilindro tem curvatura (seccional,
por exemplo) nula, pois cada ponto seu está contido em um aberto isométrico ao plano Euclideano R2. Entretanto, o cilindro parece curvo. Esse fenômeno se deve ao shape
tensor do cilindro, que é não-nulo.
A discussão do parágrafo anterior pode se tornar bastante mais precisa e geral por meio da equação de Gauss e da equação de Codazzi, que relacionam os tensores de cur- vatura de N e de N (o leitor interessado pode consultar O'Neill (1983) nas páginas 100, 101, 114 e 115). Neste trabalho, entretanto, vamos nos contentar com apenas estudar o comportamento de curvas numa subvariedade semi-Riemanniana:
Lema 1.56. Seja α : I −! N curva qualquer. Então, temos
(i ◦ α)00(t) = diα(t)(α00(t)) +âα(t)(α0(t), α0(t)), ∀t ∈ I,
onde (i ◦ α)00 é o campo aceleração da curva i ◦ α : I −! N em N e α00 é a aceleração de
α em N.
Demonstração. Pode ser encontrada na página 103 de O'Neill (1983).
Na notação do lema acima, segue que α é geodésica em N se, e somente se, (i ◦ α)00 é
sempre normal a N, ou seja, (i ◦ α)00(t) ∈ di
α(t)(Tα(t)N )
⊥
, ∀t ∈ I.
Denição 1.57. A subvariedade semi-Riemanniana N é dita ser totalmente geodésica se â = 0.
Se N é totalmente geodésica, pelo lema 1.56 uma curva α : I −! N é geodésica em N se, e somente se, é geodésica em N (isto é, i ◦ α : I −! N é geodésica). De fato, vale também a recíproca:
Proposição 1.58. Para uma subvariedade semi-Riemanniana N de N, são equivalentes: 1. N é totalmente geodésica;
2. se α : I −! N é geodésica em N, então α é geodésica em N;
3. se p ∈ N e v0 ∈ TpN, denindo v := dip(v0) ∈ TpN segue que existe ε > 0 tal que
γv|(−ε,ε)= i ◦ γv0|(−ε,ε),
1.8. Subvariedades semi-Riemannianas 37
Demonstração. Pode ser encontrada na página 104 de O'Neill (1983).
Corolário 1.59. Sejam N subvariedade semi-Riemanniana de N totalmente geodésica e α : I −! N geodésica em N tal que p := α(0) ∈ N e α0(0) é tangente a N (ou seja, α0(0) ∈ dip(TpN )). Então, existe ε > 0 tal que para t ∈ (−ε, ε) temos α(t) ∈ N. Além
disso, α|(−ε,ε) é geodésica em N.
Demonstração. Como v := α0(0) é tangente a N, escreva v = di
p(v0), com v0 ∈ TpN.
Pelo item 3 da proposição anterior, tome ε > 0 tal que (−ε, ε) ⊆ I e γv|(−ε,ε)= i ◦ γv0|(−ε,ε).
Daí, pela denição de γv, segue que
α|(−ε,ε)= γv|(−ε,ε) = i ◦ γv0|(−ε,ε),
ou seja, α|(−ε,ε) ca em N. Além disso, a função α|(−ε,ε) : (−ε, ε) −! N coincide com
γv0|(−ε,ε) e, portanto, é geodésica em N, como queríamos.
Usando os dois últimos resultados, é muito simples vericar-se que subespaços vetoriais não-degenerados de dimensão n < n + k de Rn+k
ν , ou mais geralmente as subvariedades
ans de Rn+k
ν paralelas a tais subespaços (no sentido geométrico usual), são exemplos de
subvariedades totalmente geodésicas de Rn+k
ν , uma vez que contêm todas as suas retas
tangentes.
Para um ponto p ∈ N, denotando h := i∗ha métrica em N, denimos o vetor curvatura
média em p pondo #» Hp := 1 n n X k,l=1 hkl(p) ·â(vk, vl) ∈ dip(TpN )⊥, (1.60) onde (hkl(p)) n k,l=1= (h(vk, vl)) n
k,l=1e (v1, . . . , vn) ⊆ TpN é base. Uma conta simples mostra
que H#»p ca bem denido. Fica também bem denido23 o campo curvatura média de N
como o campo H ∈ X#» ⊥(i) dado pontualmente pela equação acima.
Vamos agora denir uma noção mais fraca sobre uma subvariedade do que ser total- mente geodésica, mas que também será também bastante útil para nossos propósitos. Denição 1.61. Um ponto p ∈ N é dito ser umbílico se existe z ∈ dip(TpN )⊥ tal que
âp(v, w) = hv, wi · z, ∀v, w ∈ TpN. Quando todo ponto p ∈ N é umbílico, então N é dita
ser totalmente umbílica.
Note que se N é totalmente geodésica, então claramente N é também totalmente umbílica. Além disso, quando p ∈ N é umbílico, se (e1, . . . , en) ⊆ TpN é base ortonormal,
εi = hei, eii e z ∈ dip(TpN )⊥ é como na denição 1.61, temos
#» Hp = 1 n n X i=1 εi· â(ei, ei) = 1 n n X i=1 εi· hei, eii · z = z,
ou seja, um ponto p ∈ N é umbílico se, e somente se, â(v, w) = hv, wi ·H#»p, ∀v, w ∈ TpN.
Daí, N é totalmente umbílica se, e somente se, â(V, W ) = hV, W i ·H, ∀V, W ∈ X(N )#» . Em particular, N é totalmente geodésica se, e somente se,H = 0#» .
Quando f : N −! R é suave e c ∈ R é valor regular de f, temos que N := f−1(c) é
subvariedade (mergulhada) de codimensão 1 de N. Que hipóteses sobre f devemos fazer para que N seja subvariedade semi-Riemanniana de N? Bem, se i : N ,−! N é a inclusão, sabemos que i∗h é (0, 2)-tensor simétrico em N. Precisamos garantir então que i∗h seja
não-degenerado em N e tenha índice constante. Como para um p ∈ N temos24
TpN = Ker(dfp) = (R · (∇f )(p)) ⊥
,
TpN é não-degenerado se, e somente se25, R · (∇f)(p) é não-degenerado, ou seja, ou
(∇f )(p)é temporal ou espacial. Quando (∇f)(p) é temporal, temos ind TpN = ind N −1.
Quando (∇f)(p) é espacial, temos ind TpN = ind N. A m de que o índice de i∗h seja
constante em N, é necessário e suciente que h∇f, ∇fi seja sempre positivo em N ou sempre negativo em N. Fica assim provada a seguinte proposição:
Proposição 1.62. Se f : N −! R é suave e N := f−1(c), com c ∈ R valor regular de
f, então N é subvariedade semi-Riemanniana de codimensão 1 de N se, e somente se, ou h∇f, ∇fi|N > 0 ou h∇f, ∇fi|N < 0. No primeiro caso, temos ind N = ind N e no
segundo caso temos ind N = ind N − 1.
Na notação da proposição acima e para ind N = 1, quando h∇f, ∇fi|N < 0 dizemos
que N é subvariedade espacial de N (já que ind N = 0) e, quando h∇f, ∇fi|N > 0,
dizemos que N é subvariedade temporal (já que ind N = 1). Finalmente, quando h∇f, ∇f i|N = 0, N é dita subvariedade luminosa e não é uma subvariedade semi-
Riemanniana de N!