Non-ideal thermodynamics and two-phase equilibrium
3.2 Sharp-interface methods
3.2.2 Volume-of-fluid methods
Para o recebimento do Prêmio Literário da Cidade de Bremen, em 1958, Celan (2002 [1958], p. 55-58) escreveu o seguinte discurso:
Denken (pensar) e Danken (agradecer) são em
nossa língua palavras de uma mesma origem. Quem segue seu sentido entra no campo de significação de gedenken, “pensar em, recordar”,
eingedenk sein, “recordar”, Andenken,
1
Carta a Nelly Sachs em 30 de maio de 1958 (CELAN; SACHS, 2007, p. 17). 2
Poema Sprich auch du (Fala também tu), publicado em Von Schwelle zu
“recordação, lembrança”, Andacht, “meditação, recolhimento, oração”. Permitam-me expressar meu agradecimento nesse sentido.
A região de onde venho – por quais desvios!, mas por acaso existem desvios? – a região de onde venho deve ser para a maioria de vocês desconhecida. É a região na qual vivia uma parte, não pouco importante, daquelas histórias hassidíacas que Martin Buber nos fez conhecer em alemão. Era, se me permitem completar esse esboço topológico com algo que me surge agora diante de meus olhos desde algo muito distante, era uma região onde viviam homens e livros. Lá, nessa antiga província da monarquia dos Habsburgo, hoje caída em um vazio da história, que encontro pela primeira vez o nome de Rudolf Alexander Schröder: à leitura de “Ode mit dem
Granatapfel” de Rudolf Borchardt.1 É, então, lá que Bremen toma para mim certo contorno: sob a forma das publicações da Bremer Presse.
Mas Bremen, lembrada pelos livros e pelos nomes dos escritores e dos editores, guardava o eco do inacessível.
Acessível, longe, o lugar ao qual aceder se chamava Viena. Vocês sabem que, ao longo dos anos, lá se tornou o lugar dessa acessibilidade. Acessível, próxima e não perdida manteve-se, em meio a todas as perdas, somente: a língua. Sim, ela, a língua, manteve-se não perdida, apesar de tudo. Mas ela teve que atravessar sua própria falta de respostas, atravessar um terrível mutismo, passar através das mil trevas da palavra mortífera. Ela os atravessou, não cedeu em nenhuma palavra e pôde retornar “enriquecida” com tudo isso. Nessa língua busquei, durante aqueles anos e nos anos seguintes, escrever poemas: para falar, para me orientar, para saber onde me situar e aonde sou
1
Conforme nota do editor francês, “Ode mit dem Granatapfel” (1907), de Rudolf Borchardt (1877-1945), foi dedicado à Rudolf Alexander Schröder (1878-1962). “Esses dois escritores fundaram, em 1913, a editora Bremer
Presse, que começou suas atividades com a publicação de Die Wege und die Begegnung [Caminhos e encontros] de Hugo von Hofmannsthal” (CELAN,
chamado, para projetar a realidade diante dos meus.
Apropriação, movimento, caminho, tomada de direção. E, se me interrogo sobre seu sentido, creio dever dizer que em minha questão fala também aquela do sentido horário do relógio. Pois o poema não é fora do tempo. Certamente, ele se dirige ao infinito, busca passar através do tempo – através, não acima.
O poema pode ser, já que é um modo de aparição da linguagem, e, como tal, essencialmente dialógico, como uma garrafa lançada ao mar, jogada na água com a crença – a forte esperança, certa – de que ela poderá chegar a qualquer lugar, em qualquer tempo, a uma terra, Coração-Terra, talvez. Os poemas são, dessa maneira, um caminho: eles se apoiam em alguma coisa. Sobre o quê? Sobre qualquer coisa que esteja aberta, disponível, sobre um Tu, um Tu a quem falar, uma realidade a quem falar.
É essa realidade que importa, penso, no poema. E creio também que os pensamentos que tomam esse caminho não acompanham apenas minhas próprias tentativas, mas igualmente as de outros poetas líricos da nova geração. Estes são os esforços de quem, sobrevoado por estrelas – que são trabalhos humanos –, sem teto, também neste sentido até hoje não pressentido e com isso da forma mais sinistra, ao ar livre, vai até a língua com seu ser, ferido de realidade e em busca da realidade.
O texto inicia por apresentar a relação entre pensar e agradecer, que, na língua alemã – sua língua materna –, possuem a mesma origem. Falar sobre uma mesma origem e língua – “nossa língua” – implica em uma tomada de posição frente ao pensamento de exclusão que sustentou, na língua alemã, todos os atos e discursos de extermínio. Consiste, também, em problematizar a questão acerca do lugar de origem, um lugar que irá se sustentar precisamente na língua (aquilo que “se manteve não perdido, apesar de tudo”). Celan não se furta a refletir sobre as perdas, apontando a perda de um território, de uma cultura, de um lugar ao qual poder retornar: um lar (Heim). Era “um país [Bucovina] onde viviam homens e livros”; a destruição, consequentemente, se refere à pátria, assim como a um grupo humano e
a uma cultura. O poeta lembra que ali – “o lugar de onde venho” – era uma região, conforme foi possível reconhecer pelas histórias hassidíacas contadas em alemão por Martin Buber, na qual o hassidismo tinha sua morada.1 Tratava-se de uma região, portanto, em que a intelectualidade judaica tinha crescido, constituído raízes, e, posteriormente, havia sido erradicada.2 Recordamos aqui um apontamento, feito anteriormente, quando tratamos do poema, escrito em 1953, Die Winzer (Os vindimadores),3 acerca da relação, feita por Celan, entre Menschen e
Juden (seres humanos e judeus), pois, no discurso mortífero nazista,
seres humanos e judeus eram categorias distintas.
Em meio a tantas perdas, e frente à inacessibilidade do país de origem, a língua manteve-se não perdida e como lugar (topos) – necessário – para atravessar as ausências de respostas, as sombras e as trevas. Sendo dialógica, a poesia é como uma “garrafa lançada ao mar”, com “a forte esperança, certa” de encontrar um “coração-terra”, um tu (Du) que esteja “disponível” e “aberto”.4
Podemos observar também a influência da leitura da obra heideggeriana feita por Celan em pelo menos duas passagens de seu discurso. A primeira diz respeito à exploração do campo semântico das palavras Denken (pensar) e Gedenken (pensar em, recordar), que remete à obra de Heidegger (1954), O que significa pensar? A segunda passagem surge na frase: “vai até a língua com seu ser”, com seu
Dasein. A palavra Dasein, traduzida para a língua portuguesa por “ser
aí”, e também por “existência”, aparece em todos os seus desdobramentos na obra de Heidegger (1927), Ser e tempo. Para Celan, os pensamentos (Denken) que tomam o caminho de traçar a realidade, de desenhá-la, por meio da linguagem, constituem a tarefa do poeta. Esse que vai até a linguagem, com sua existência, com seu ser, “ferido
1
O hassidismo é uma corrente mística, fundada pelo Rabi Israel, dito Baal Schem Tov (Mestre do Bom Nome), que se desenvolveu na Europa Oriental nos séculos XVIII e XIX. Foi um movimento de oposição à corrente erudita do judaísmo que buscava valorizar o sentimento religioso, a alegria de viver, a exaltação e a prática cotidiana da fé. Revitalizou as forças da vida social regiligiosa judaica na Europa Oriental, democratizando os conhecimentos da Torá por meio da devoção e do sentimento, não apenas por meio do saber intelectual. Desenvolveu-se, principalmente, em iídiche, chegando, assim, àqueles que não conheciam o hebraico (FUCKS, 2000).
2
Essa região, a Bucovina, era habitada por judeus desde o século XIII. 3
O poema Die Winzer foi apresentado, anteriormente, nas páginas 70 e 71. 4
de realidade e em busca da realidade”. Essa é a realidade que interessa à poesia: realidade tecida na escrita.
2.9 Stretto: “escrita-condução” – “condução pelo