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Cada sociedade tem uma maneira muito própria de interpretar os acontecimentos que se vão sucedendo na vida real, particularizando de modo especial este ou aquele pormenor. Esta interpretação, feita à luz da cultura pela e na qual foi moldada, acaba por determinar, na generalidade das vezes e de forma inconsciente, a sua maneira de ver o mundo.

A partilha de saberes, de formas de fazer, de ser e de estar, de crenças e de valores entre os seus semelhantes, é feita de forma tão natural e intuitiva que passam a ser consideradas certezas absolutas. A tomada de consciência das diferenças culturais existentes entre «nós» e os «outros», apenas surge quando «tropeçam» nos limites culturais traçados por cada grupo, tornando-as então visíveis aos olhos (Pearce, 1999).

O contexto cultural influencia a nossa relação com a saúde e a doença. Como tal “…os fenómenos da saúde e da doença não podem ser abordados de forma universal, uma vez que são culturalmente determinados” (Abreu, 2001, p.15). Falar do conceito de saúde e de doença, não é apenas elaborar uma definição, mas sim evocar e exprimir toda uma cultura colectiva com os seus valores e

crenças, tomando no entanto consciência, de que as outras sociedades possuem diferentes noções (Ramos, 1993, 2004, Silva, 2004).

Apesar de não ser um fenómeno recente, os problemas que a migração acarreta continuam a ser intemporais. A vulnerabilidade do indivíduo e família, causada pelo isolamento, a falta de informação, a situação de pobreza com carências sanitárias, alimentares, habitacionais e de saúde, são fruto da desorganização do seu mundo através de rupturas laborais, familiares, sociais e culturais. Sem o apoio da “sua” comunidade e tendo de sobreviver sozinhos num mundo do qual desconhecem elementos como a língua, a cultura, a organização social, política, laboral e burocrática e quais os recursos de saúde dísponíveis, os migrantes sentem-se ameaçados e desenraizados, excluindo- se e sendo excluídos pela sociedade de acolhimento, com grandes riscos para o desenvolvimento e para a saúde do indivíduo e da sua família.

Todos esses conflitos fazem dos migrantes um grupo de risco e a gestão que deles fazem, pode ser causa de futuras perturbações e desequilíbrios a nível da sua saúde física e mental. Como nos diz Grinberg (1986) “…a reacção mais comum face à experiência da migração é a angústia” (Ramos, 2004, p.276).

Couvreur (2001) afirma que a saúde e a doença não são elementos estáticos nem independentes. Eles estão em constante interacção e proporcionam um equilíbrio instável, onde a doença surge como um sinal de desequilíbrio da homeostasia do nosso organismo, ocasionado por uma mudança.

A complementar essa opinião cita a teoria de Holmes que nos diz que: “As pessoas não são capazes de ultrapassar um certo número de unidades de mudança; uma vez ultrapassado o limiar, a sua saúde sofre consequências” (ibidem, p.39)

No caso específico dos migrantes e minorias étnicas, esse limiar de unidades de mudança encontra-se, grande parte das vezes, no seu limite se não largamente ultrapassado, potenciando o risco de vir a desenvolver um processo de doença, contribuindo desse modo para uma deterioração da sua qualidade de vida.

Doyle (1991), Narang(1994), Anderson (1995), Reijeneveld (1998), Lazarus et al. (1995), Maisondieu (1997), Ramos (1993), são autores citados por Ramos (2006) e que defendem que os migrantes e as minorias étnicas, devido à precaridade das suas condições de vida, à discriminação, à perda das suas referências culturais, ao isolamento social, à exclusão, à limitação aos serviços e bens que promovem a saúde e previnem a doença e à maior dificuldade apresentada no acesso aos serviços de saúde, originando diagnósticos e tratamentos tardios, etc., desenvolvem quadros de sofrimento psicológico e desespero sobretudo no período inicial da migração.

“Trata-se de um sentimento de vergonha, desespero e impotência, face a uma situação dolorosa e stressante que o indivíduo não consegue controlar, que o afecta nas suas vivências e expectativas quanto ao futuro, nas suas relações, nas suas capacidades em exigir e defender os seus direitos, podendo associar- se a outros síndromes depressivos e pós-traumáticos” (Maisondieu, 1997) citado por (Ramos, 2006, p.342).

De acordo com esta opinião está Oliveira (1996, p.69), quando cita Simões (1986) ao afirmar que “…os especialistas concordam com o facto de que as diferenças entre a cultura dos migrantes e a cultura do país de imigração (Língua, crenças, comportamentos face à doença) configura a manifestação de sindromas psiquiátricos. Entre estes sindromas consideram-se como típicos: as reacções paranóides, sindromas depressivos, condições psico-somáticas e neuroses sexuais.”

O mesmo autor, considera ainda que existem dois períodos de maior risco para os migrantes: o que precede imediatamente a imigração e outro após vários anos de permanência no país de acolhimento (ibidem).

Opinião algo diferente, sobretudo quanto à sua saúde apresentava o Ministério da Saúde Português (2000), através das actas da conferência de Évora citado por Sousa (2003, p.61):

“Os padrões do estado de saúde dos imigrantes podem ser melhores ou piores do que o estado de saúde da população nativa do país de acolhimento. Na verdade, as pessoas que imigram são, em média, mais saudáveis do que a população do país de origem e, frequentemente, são mais saudáveis do que as

populações do país de acolhimento. Esta constatação vai contra a percepção dos países de destino que vêem os imigrantes como um importante factor de risco na introdução de doenças que afectarão a saúde global da população…”

De acordo com Ramos (2004), para fazer face às perturbações do seu estado de saúde físico e/ou mental, o migrante necessitará de possuir uma base de apoio, onde poderá restabelecer o seu estado de desequilíbrio ou conseguir melhorar o seu equilíbrio precário.

As redes de apoio social são, como o próprio nome indica, um conjunto de pessoas e contactos sociais com o qual o indivíduo se relaciona, capazes de proporcionar a este e/ou à família um apoio e uma ajuda efectiva e duradoira. Podem ser formais, o que inclui os técnicos e os serviços que estão organizados para proporcionar um tipo de assistência mais técnico e administrativo ao nível das estruturas formais da sociedade; ou podem ser informais, onde estão englobadas o grupo de pessoas com o qual o individuo possui laços afectivos, que lhe permita obter apoio a nível psico-emocional. Desse conjunto de pessoas, o grupo mais privilegiado e sem dúvida o mais importante é a família, nuclear e/ou alargada. É nela que o migrante vai buscar as suas referências culturais, sociais e relacionais e, é através dela que mantém vivos os laços com o seu país de origem, revivendo e recriando as práticas tradicionais.

A autora (1993, 1998) citada por Soares (2003), salienta ainda a importância do grau de coesão familiar na preservação dos valores e referenciais culturais. Assim, se a coesão do grupo é fraca, existe uma ruptura com as tradições do país de origem, desaparecendo as referências às práticas tradicionais de educação e de cuidados a prestar à criança. A ausência, em substituição, de uma interiorização dos novos referenciais culturais da sociedade receptora, gera um vazio, uma ansiedade e uma insegurança no comportamento dessas famílias. Por oposição, quando o grau de coesão é forte, verifica-se que apenas os comportamentos com expressão para o exterior sofrem uma modificação. As crenças ancestrais mais profundas, nomeadamente em relação à saúde e desenvolvimento das crianças, mantêm-se intactas. Existe também a preocupação de manter vivas as tradições e os elos ao país de

origem, recriando dentro das paredes do lar, as práticas mágico-religiosas, a postura, a gestualidade, a transmissão da história através da oralidade, etc.

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