• Aucun résultat trouvé

5. ANALYSE DES IMPACTS 1 Méthode

5.4 Volet « Santé animale »

observador, normalmente representado por um objeto físico de larga escala como um edifício, uma árvore ou montanha. Sua principal característica é a sua distinção e evidência no contexto em que está inserido. Alguns pontos marcantes situam-se em grande distância, desempenhando a função de direção, tais como torres e cúpulas. E para as pessoas mais habituadas a cidade, podem ser marcos menores, mais próximos, como fachadas de lojas e puxadores de portas, preferencialmente por estabelecerem um contraste com elementos próximos.

A cidade legível, memorável, com uma narrativa própria seria a que se valesse de partes distintivas, reconhecidas e organizadas em uma estrutura coerente. Ou o

71

que seria a identidade de Paris sem a presença da Torre Eiffel ou sem seus prédios no estilo Haussmann? Ou Nova York sem a Estátua da Liberdade ou sem o horizonte de Manhattan?

Tais detalhes, formas, elementos que estruturam uma imagem clara da cidade também podem servir para estruturar as lembranças pessoais nessa mesma cidade, o que provocaria segurança emocional e contribuiria para uma “relação harmoniosa entre si e o mundo exterior” (LYNCH, 1982, p.14-15). Isto porque, guardadas proporções, também apoiamos a organização de nossa memória e identidade em marcos espaciais e temporais. O que nos lembramos de ser aconteceu em algum lugar e em algum tempo e, assim como Nova York não seria Nova York sem as suas Torres Gêmeas que, embora não mais existam, ainda fazem parte da narrativa da cidade, a narrativa de identidade de uma pessoa seria outra se os lugares que se entrelaçam à sua trajetória de vida fossem também outros.41

Então, ao lembrarem-se do passado, os sujeitos podem se remeter à cidade de infância, aos lugares onde costumavam brincar, a alguma praça, a algum monumento. Enfim, a imagem de si pode coincidir com os mesmos elementos que ajudam a formar a imagem pública da cidade, mas esses últimos também podem ser irrelevantes, ou seja, completamente ignorados por outros itens mais pessoais (quiçá nem se encaixem entre os cinco elementos estruturadores propostos por Lynch — ou o façam de forma bastante idiossincrática).

Ainda recorrendo ao exemplo da Torre Eiffel, ela poderia ser desconsiderada se a imagem da cidade que se pretende investigar fosse mais uma imagem nostálgica do que uma imagem geral. Daí a Paris memorável talvez não fosse nem a da famosa torre de ferro e nem a dos prédios estilo Haussmann, mas, dependendo do grupo entrevistado, talvez fosse a Paris das estátuas do Jardin des Plantes.

Em qualquer dos casos, a leitura do espaço e a imagem a ele atribuído são feitas a partir da percepção dos sujeitos e da sua relação e experiência com os lugares, tal qual pretendemos para essa pesquisa. Da mesma forma que as mencionadas categorias trabalhadas por Lynch (legibilidade e imageabilidade) nos servirão de norte para a elaboração dos nossos próprios elementos-tipos no que concerne à nostalgia e assim, poder analisar como os lugares em que o passado é sentido nostalgicamente se mesclariam e influenciariam a imagem pública de Pelotas.

41 Carregamos uma filiação geográfica desde que nascemos. Somos imediatamente alguém de algum

lugar: Brasileiro, Paraense, Gaúcho e assim por diante.

72

1.2.2 Procedimentos

We have to remember that what we observe is not nature in itself but nature exposed to our method of questioning.42

(HEISENBERG, 2000, p.25) Foi caminhando por Pelotas que surgiram as questões que dariam o tom dessa pesquisa. E foram as lembranças de infância do meu marido as primeiras histórias a me acompanharem pela cidade. A partir delas, pude conhecer outras camadas temporais dos espaços que estavam diante de mim. Depois disso, por outros amigos, conheci outras nuances da cidade e também percebi que os relatos nostálgicos não eram exclusividade das histórias de Eduardo e nem de pessoas bem mais velhas, como se costuma esperar — afinal, até aquele momento, todos com quem eu conversara tinham em torno dos vinte e cinco e trinta anos de idade.

Além desses passeios, as demais conversas ocorriam predominantemente pela internet. Troca de e-mails, participação em fóruns, em sites de bate-papo diversos, a priori, pareciam funcionar perfeitamente para a coleta de dados. Contudo, logo ficou evidente que o fato dos sujeitos precisarem digitar as suas respostas os fazia economizar palavras e elaborar um discurso ainda mais editado do que o fariam se as entrevistas fossem conduzidas pessoalmente e, de preferência emulando meus primeiros contatos com a cidade, ou seja, diálogos durante caminhadas. Dessa forma, para proceder com a pesquisa, seria necessário ir além de ler o que escreviam, seria preciso escutar o que havia para ser contado e, quando possível, observar como os entrevistados reagiriam à cidade de suas narrativas.

Portanto, a formatação da coleta de dados não haveria de ser a maior dificuldade, aliás, estava em consonância com a abordagem fenomenológica pretendida para a pesquisa. Porém, ainda seria preciso estabelecer critérios para o grupo a ser entrevistado. De quem seriam as lembranças de infância? Pessoas da mesma faixa etária minha e dos meus amigos? Ou pessoas mais velhas? Geração Y? Ou geração X? — para utilizar terminologias populares. Definitivamente, eu possuía maior abertura e facilidade para tratar sobre as recordações de pessoas que haviam vivido a infância no mesmo período que eu havia vivido. As conversas, até então, fluíam em tom de cumplicidade, como se a qualquer momento um “sabes bem do que estou falando...” pairasse no ar entre uma frase e outra. Uma típica

42 “Temos de lembrar que o que observamos não é a natureza em si, mas a natureza exposta ao

nosso método de questionar” (tradução nossa).

73

comunicação “não-violenta”, como a proposta por Bourdieu (2008, p.697), tomava corpo quando se pode recorrer a pessoas conhecidas e se estas se sentem mais à vontade, confiantes e seguros em colaborar.

Mas quais seriam os parâmetros além de “pessoas com a idade aproximada a minha e a dos meus amigos”? Para solucionar essa questão e, destarte, estabelecer uma amostra coerente e cujos critérios pudessem ser avaliados e replicados, foram elaborados e compartilhados através das redes sociais dois questionários. Ambos traziam questões sobre experiências e recordações gerais acerca da infância dos respondentes, sendo que o primeiro questionário, por omitir questões socioeconômicas que posteriormente seriam úteis para a delimitação dos sujeitos, foi desconsiderado e a decisão de focar nos nascidos entre 1977 e 1982 (de infância classe média e com nível superior completo), foi resultado apenas do segundo questionário. Esse esforço quantitativo em uma pesquisa predominantemente qualitativa se mostrou útil para que os lugares nostálgicos mencionados não evocassem a falsa ideia de que corresponderiam aos lugares nostálgicos de uma amostra da população como um todo, o que será mais bem explicado no Capítulo 2.

Após definição da amostragem, convites em busca de voluntários foram feitos por meio de redes sociais e, em pouco tempo, muitas candidaturas foram estabelecidas. O interesse em participar de uma pesquisa que requisitava o compartilhamento de lembranças de infância emergiu espontaneamente e pareceu evidente que o tema atraia interesse e motivação. Porém, apesar do retorno positivo, as dificuldades para colocar a pesquisa em prática apareceram assim que foi preciso estabelecer dias e horários para as entrevistas.

Dos inscritos, alguns não responderam aos e-mails do primeiro contato. Outros responderam, mas não tinham disponibilidade para entrevistas presenciais. Houveram os que marcassem o encontro, mas que não aparecessem no dia combinado. Também ocorreram desencontros por causa de doença ou pelo pretenso entrevistado não ter com quem deixar seu filho pequeno. Enfim, independente dos motivos que fizeram candidatos empolgados desistirem de suas participações, pesou o fato, como já comentado por Ecléa Bosi, que “a idade adulta é norteada pela ação do presente” (1994, p.76), isto é, as pessoas em plena atividade são absorvidas pelo hoje, e ainda que a ideia de recordar seja encantadora para alguns, a rotina, as lutas diárias se atravessam à vontade e esta só se torna viável quando entra em sintonia com as demandas atuais.

74

Não à toa foram as pessoas mais próximas que se disponibilizaram para participar dos encontros. Ocorreu que, dessa maneira, antes de parecer mais uma obrigação para ser alocada em algum horário vago, a pesquisa significou um evento de lazer para espairecer, devanear, para bater papo e relaxar entre amigos. Apenas é ilusório pensar que o ajuste de dias e horários foi imediato. Como adultos ativos socialmente, as incompatibilidades de agendas também existiram. A diferença maior pode ser percebida quando, muitas vezes, partia deles a iniciativa e o cuidado de avisar seus horários disponíveis. Quando o trato foi entre desconhecidos, a troca de mensagens se esvanecia assim que os obstáculos surgiam.

Então, até agora esclarecemos que foram utilizados questionário para determinar a amostra, e convite em redes sociais para atrair voluntários. As técnicas escolhidas para coleta de dados foram a entrevista com questões semiestruturadas e a observação durante caminhadas por Pelotas. Ainda sobre as entrevistas, elas ocorreram em lugar, dia e horário escolhidos pelos participantes. Ao todo foram dez pessoas (cinco homens e cinco mulheres), treze encontros (algumas entrevistas demandaram mais horas para serem finalizadas) que totalizaram 897 minutos de gravações. Durante as conversas, a decisão por utilizar um roteiro de perguntas semiestruturado (Apêndice S) serviu para evitar que as recordações se demorassem por períodos e lugares que não eram pertinentes para a pesquisa, além de servir como gatilho em caso de silêncios e esquecimentos. Entende-se como entrevista semiestruturada aquela que “combina perguntas fechadas e abertas, em que o entrevistado tem a possibilidade de discorrer sobre o tema em questão sem se prender à indagação formulada” (MINAYO, 2009, p.64).

Da mesma forma destacamos que qualquer depoimento, seja de rememorações do passado ou de comentários acercado tempo presente, está sujeito aos seguintes moduladores (ERRANTE, 2000):