Schumacher e Meleis (1994) sugerem que a preparação e o conhecimento são fatores facilitadores, enquanto os indivíduos se movem através de uma transição.
Para Gibbins e Thomson (2001) o processo de construção de expectativas em relação ao trabalho de parto é influenciado por uma variedade de fontes de informação, onde se inclui a preparação para o parto; o relato do seu próprio nascimento; o discurso de figuras influentes como o médico, outro profissional de saúde ou figura significativa; histórias de amigos e familiares; representações do que já viu em filmes e na televisão ou leu nos livros e revistas. O conteúdo das seguintes unidades de registo corroboram esta referência e, como tal, definiu-se
Subcategoria: Sentir-se preparada para a experiência de trabalho de parto
Achei que estava preparada. Eu queria muito aquele dia. (E1)) Mas também me sentia preparada. Já tinha tudo feito, o plano de parto, as roupas. (E3) Foi um dia muito programado e vínhamos preparados para tudo, fosse qual fosse o cenário do parto.
(E4))
á heià ueà a ueleàdia,à oàestavaàp epa adaàpa aàlida à o àa soluta e te…Nada. (E6) É curioso que ao mesmo tempo me mentalizava que tinha que estar preparada para aquele momento.
(E7)
Se calhar até estava preparada para o parto, mas acho que não tinha essa noção, pelo menos como tenho agora. (E8) Quer dizer, eu acho que durante toda a gravidez mentalizei-me que não estava preparada para lidar com o parto. Não me sentia segura. (E9)
Subcategoria: Sentir-se capaz para a experiência de trabalho de parto
No início, eu achava que não ía ser capaz de pôr um filho neste mundo. Eu não vou ser capaz. (E3) Eu achava que não seria capaz. (E4) Euàa havaà ueà oàíaà o segui àpo ueàoà euà o po ta e toà eàpode iaàp ejudi a à … (E5) … àpe savaà ueàpodiaà oàse à apazà …) (E5) Euàs àpe sava:à Euà oàvouàse à apaz.àEuà oàvouàse à apaz.àEuà oàvouàse à apaz. àEuà oà o seguià pensar positivo. Eu não consegui pensar que poderia conseguir. (E7) Eu achava que se visse o parto dessa forma, poderia subestimar ainda mais a minha capacidade de dar à luz. Eu tinha medo que me passasse uma coisa dessas pela cabeça. E mais uma vez poderia pôr tudo em questão. (E9)
77 a subcategoria – onde aprendi, através da qual se evidenciou as várias possibilidades de aceder à informação sobre o acontecimento do trabalho de parto, conferindo dinamismo ao processo de construção das expectativas A partir desta subcategoria, definiram-se outras cinco subcategorias que traduzem as diferentes fontes de informação utilizadas pelas mulheres.
A preparação para o parto representa um dos fatores major, que influencia a mulher na construção de expectativas sobre o trabalho de parto. Diversos autores, como Hallgren [et al.] (1995); Figueiredo, Costa e Pacheco (2002) e Jordaan (2009), consideram que a preparação para o parto, pela possibilidade de aumentar o conhecimento e a autoeficácia percebida sobre o trabalho de parto, auxiliando na criação de expectativas realistas, tem como objetivos diminuir a intensidade da dor, do mal-estar e da ansiedade, ajudar a mulher a lidar com os
Subcategoria: Preparação para o parto
Tentei usufruir ao máximo do curso de preparação. Eu comprei a bola e fazia em casa os exercícios. (E1) Fizàasàaulasàdeàp epa aç oàpa aàoàpa toà … àFizàosà oveàte as,ài lusiveàoàdeàt a alhoàdeàpa to … (E2) … àa hoà ueà e o iàaàu à a a ialàdeàsituaç es,àdesdeàoà u soàdeàp epa aç oàpa aàoàpa toàta toàaà nível teórico como a nível prático (..) (E5) Então, fiz a preparação para o parto no Hospital da Póvoa em que aprendi uma série de respirações e posições, que poderia adotar para alívio de vários desconfortos durante a gravidez e que, também, me ajudariam durante o trabalho de parto. (E6)
Subcategoria: Relato do seu próprio nascimento
Pela experiência que a minha mãe me conta sobre como foi com ela, quando chegou ao hospital eu estava pronta para nascer. (E7)
Subcategoria: Relato de figuras influentes
… à asàdepoisàem conversas das parteiras deste hospital cheguei à conclusão que se eu apresentasse um plano de parto, os profissionais iriam respeitar as minhas decisões e então achei que o Hospital da Póvoa poderia ser uma boa opção para o nascimento do meu bebé e que iria correr bem. (E6)
Subcategoria: Histórias de amigos e familiares
(..) a população vai passando as suas ideias, as suas mensagens, os seus mitos. Diziam-me que o
t a alhoàdeàpa toàe aàho ível,à ueàe aà uitoàpe osoà … (E2) Eu imaginava o parto, pela forma como muitas pessoas descreviam (...) (E5) Ao longo do tempo, fui perguntando às pessoas como tinham sido as experiências de parto, como a
minha mãe e as minhas colegas de trabalho. (E7)
… àou e -se histórias de mau atendime toà … à E
Subcategoria: Leitura de livros
Ta à o p eiàu àliv o,à asàa hoà ueà oàfoiàu aà oaàopç o.à … (E1) Depois fui lendo. Gosto muito de ler e gosto muito de me enriquecer culturalmente para saber como é que as coisas acontecessem. (E2) Para além disso, fiz a leitura de muitos livros (...) (E6)
Subcategoria: Representação das imagens de filmes
… àáh,àta àfuià ài te et.àLe o-me que vi no youtube um filme. (E1) Quando eu assistia aos partos na televisão, eu via aquelas mulheres e achava que ia ser como elas. (E7) Vimos alguns partos na internet. (E9)
78 medos relacionados com o trabalho de parto e sedimentar níveis maiores de segurança, confiança e controlo, de modo a proporcionar à mulher experiências de trabalho de parto positivas. Das nove mulheres entrevistadas, seis frequentaram um curso de preparação para o parto, ou no centro de saúde ou no hospital de referência. Algumas, nos seus relatos, referiram-se inclusive à valoração da preparação para o parto:
Acho que o melhor do curso da preparação para o parto, era para além de aprendermos esses exercícios e técnicas, era a vertente social, se é que assim se podeà ha a .àOuàseja,àaàt o aàdeàexpe i iasà o àasàout asàg vidasà … (E1)
… àat av sàdasàaulasàde preparação para o parto foi possível desmitificar ideias. (E2)
As aulas de preparação para o parto ajudavam- eàaà elaxa à … (E3)
… àti haàaà o s i iaàque quantos mais exercícios eu praticasse, quanto mais eu exercitasse o meu corpo, isso fazia com que eu achasse que ía ser mais capaz de ter u àpa toà o alà … (E5)
E se eu não tivesse ido às aulas, não teria conseguido controlar-me daquela forma. (E8)
Todavia, uma das participantes, que frequentou o curso de preparação para o parto, manifesta uma não-identificação perante o conteúdo e o formato da preparação para o parto que frequentou:
Então, eu achava que o que eu estava ali a fazer poderia não ser muito útil porque as experiências de parto são tão diferentes. Eu estava-me a preparar para uma determinada ideia de parto que poderia nunca ter. A aprendizagem que eu estava a ter era muito voltada para um parto normal. Se acontecesse alguma coisa de urgente e tivesse-se que partir para uma cesariana, nada daquilo iria servir para absolutamente nada. …) A determinado momento, achei que a preparação que eu estava a fazer não me ía servir para absolutamente nada e facto é, que acabei por deixar de ir às aulas de preparação para o parto. Nós estávamos 20 grávidas numa sala e todas estávamos a ser ensinadas para o mesmo, mas nenhuma de
sàíaàte àu àpa toàigualàpo ueàasà oisasàs oàassi à … (E7)
Este testemunho desperta-nos para o espartilho em que os programas de preparação para o parto continuam a ser configurados, mostrando-se incapazes de corresponder às reais necessidades, preferências e expectativas de diferentes tipo de mulher. Segundo Hallgren [et al.] (1995) a preparação para o parto só ganha significativa utilidade a partir do momento que os profissionais da saúde tomem em consideração as perceções individuais da mulher acerca da experiência de trabalho de parto. Será possível considerar positivo uma combinação de intervenção do formato individual e do formato em grupo, na preparação para o parto? De facto, se por um lado, as sessões de grupo encorajam o contacto social com outras mulheres e ajuda àaà o aliza àasàdúvidas em relação ao trabalho de parto (Renkert e Nutbeam, 2001); por outro lado, as sessões individuais ajudam cada mulher, ou cada casal, a desenvolver as
79 suas próprias expectativas, interrogações e desejos sobre esta experiência (Gagnon e Sandall, 2007).
O homem é considerado um participante fundamental no trabalho de parto (Premberg [et al.], 2011). Neste sentido, é importante envolver o casal na preparação para o parto, para que possam, em conjunto, tomar decisões informadas sobre o trabalho de parto, lidar melhor com os acontecimentos decorrentes (Joordan, 2009) e apoiar-se mutuamente (Widarsson [et al.], 2012). A preparação para o parto vivida a dois conduziu à definição da subcategoria – Preparar quem me acompanha e é sustentada pelas seguintes unidades de registo:
O Vítor participou em algumas aulas de preparação para o parto comigo para sa e à o oà à ueàasà oisasài ia àfu io a à … à sàfo osàap e de doàpa aà ueàoà Vítor durante o trabalho de parto tivesse um papel ativo e não estivesse a olhar e à espera que as coisas acontecessem. (E2)
Lemos textos sobre as semanas de gestação e vimos alguns filmes alusivos ao trabalho de parto e parto. Acho que fizemos um ótimo trabalho de casa. Além disso,àta àfize osàoàpla oàdeàpa toàe à o ju toà … .àTa àpa tilhavaà o à ele os exercícios das aulas de preparação para o parto. (E3)
Na verdade, foi mais prepará-lo a ele porque ele é leigo nestas matérias e portanto achei que se eu queria que ele estivesse e que fosse um momento muito sereno, ele tinha que ter noção da realidade das coisas. (E4)
O meu marido frequentou as aulas de preparação comigo e comentávamos muitas coisas sobre o que íamos ouvindo. Falávamos sobre o que eu queria e o que eu queria que ele fizesse. (E6)
A experiência relatada por amigos e familiares é apresentada pelas participantes como uma das fontes de informação sobre o trabalho de parto. Também Vaz-Serra, Antunes e Firmino (1986) consideraram que o conceito de expectativa se baseia nos relatos ou histórias contadas sobre as experiências de outras pessoas: Eu imaginava o parto pela forma como muitas pessoas o descreviam (E5). Algumas unidades de registo, apresentadas anteriormente ilustram mensagens negativas sobre o trabalho de parto dadas às mulheres. Neste sentido, os relatos de amigos e familiares são apresentados como um obstáculo e não como um elemento facilitador na projeção do evento, constituindo uma fonte de informação com um impacto negativo na perceção da mulher sobre o trabalho de parto.
N oàEstou S
A gravidez surge na vida de um casal como um marco, uma viragem no núcleo familiar. É uma experiência de mudança e de renovação, onde a mulher e o homem partilham uma fase de preparação para o trabalho de parto e para a experiência da parentalidade (Colman e Colman, 1994). Atualmente, existe um tipo de homem que tem o desejo de estar presente em
80 todos os momentos que envolvem o nascimento do filho; quer tornar-se pai ao mesmo tempo que a mulher se torne mãe. Os relatos de algumas participantes demostram como, juntamente com os seus companheiros, se prepararam para o acontecimento do trabalho de parto:
O meu parto foi muito pensado a dois. Eu e o meu marido, durante a gravidez, fomos falando muito sobre o que gostávamos que acontecesse naquele dia. (E4) Fomos falando, comunicando muito, em casa. (E5)
Bem, nós não fazíamos mais nada senão falar e fazer listas. Falávamos o que eu estava à espera que ele fizesse; o que queria que ele não fizesse; o que eu queria que ele visse e o que não queria; para quem queria que ligasse se alguma coisa
oà o esseà e ;àtudo…tudo. (E6)
Falamos, muitas vezes, sobre aquele dia. (E7)
“i .àDe idi osàosàdois,àdesdeàoài í ioà … .àFala osàso eàoà ueàeuà ue iaàeàoà ueà eu queria que ele fizesse. (E8)
Durante a gravidez acumulam-se tensões e anseios pela proximidade do trabalho de parto. Nesta ocasião de grande vulnerabilidade para a mulher, a vivência solitária desta fase de preparação representa uma ameaça ao autoconceito da mulher (Kitzinger, 1984). Por isso, proteger a mulher significa valorizá-la. Na verdade, estas oportunidades de envolvimento do pai na gravidez são, também, importantes para que este tome consciência do seu novo papel e para ajudar a reduzir a sua sensação de afastamento da mulher, durante a vivência da gravidez e do trabalho de parto,à o t a ia doà aà i age à deà e oà o se ado . Assim sendo, se a mulher promover este envolvimento paterno estará a contribuir para um processo de criação de uma relação afetiva precoce com o filho, onde a ligação pai-filho sairá fortalecida (Brandão, 2009).