CHAPITRE 4 : MÉTHODE
4.5 Volet quantitatif
A sétima e última “base fundamental” afirma que os espetáculos em benefício de operários só serão oferecidos por intermédio de solicitação feita pelas comissões administrativas dos sindicatos a que pertencerem os necessitados. E só serão atendidos os sindicatos que prestarem auxílio ao Grupo Teatro Social. De novo, ficam evidentes aqui os vínculos que o grupo pretendia estabelecer com os segmentos organizados da classe trabalhadora. Primeiramente, não seria qualquer trabalhador que poderia se beneficiar das atividades do conjunto teatral; apenas os sindicalizados teriam tal direito. Além disso, nas relações entre o grupo e os sindicatos, exige-se dos últimos uma reciprocidade para com o primeiro. Isso valorizava o trabalho dos amadores (não era qualquer sindicato que podia cobrar os serviços do respeitável grupo) e garantia uma relação de mútua deferência entre o grupo e as associações de classe vinculadas a ele. Essa cláusula é mais uma das que evidenciam o caráter “operário” que o conjunto teatral queria conferir a si.
Segundo a nota publicada em Novo Rumo, depois de aprovadas as “bases” acima comentadas, foram aclamados M. C. Nogueira (secretário), Antonio S. Monteiro (tesoureiro) e M. Ferrer (diretor de cena). Quanto a Antonio S. Monteiro, vimos já o seu nome subscrito naquele balancete anual do grupo analisado anteriormente. Afora esse registro, não encontramos mais nenhum outro vestígio do tesoureiro na imprensa operária da época. É provável que Antonio Silva Monteiro nem sequer tenha subido ao palco para representar qualquer papel.
O mesmo não ocorreu com os outros representantes aclamados em assembléia. Os nomes de Mariano Ferrer e M. Couto Nogueira aparecem em anúncios e notícias esparsos por alguns dos órgãos da imprensa operária carioca. Sabemos, por exemplo, que pelo menos um deles (Mariano Ferrer) participou de um outro grupo amador do Rio intitulado Teatro Livre. Este conjunto teatral apresentou uma trajetória um tanto descontínua – senão mesmo enganadora. O primeiro registro que encontramos deste nome desponta na edição de 20 de julho de 1906 do periódico Novo Rumo. Trata-se de um anúncio bem detalhado de uma festa prevista para o dia 11 de agosto no “salão
teatro do G. D. Furtado Coelho”, situado na Rua Visconde de Sapucaí, nº.103. Na primeira parte do programa estava prevista a representação do drama El Ocaso de los Ódios (de E. Carral), “em espanhol”. Um dos atores que atuariam neste drama era justamente Mariano Ferrer, que mais tarde, como vimos, seria aclamado diretor de cena do Grupo Teatro Social. Temos ainda no elenco desta peça, outros amadores freqüentemente citados nos órgãos da imprensa operária carioca e que também pertenciam ao Grupo Teatro Social. Este é o caso de Portas e seus pequenos filhos Armando e Tata101. Ainda de acordo com o anúncio, participaria também da encenação de El Ocaso de los Odios a Sra. Carmen. Trata-se, com certeza, de Carmen Ferrer, que, segundo Edgar Rodrigues, era “companheira” do já citado Mariano102. A terceira parte
da programação anunciada para aquele evento previa a encenação da “comédia social” A Escala. Esta, assim como a peça anterior, era bastante encenada nos salões das “festas de propaganda”. O elenco que tomaria parte em sua representação era formado, dentre outros, pelos “operários” M. Couto Nogueira (depois aclamado secretário do Grupo Teatro Social) e Ulisses Martins. Este último seria mais tarde um membro ativo da Liga Anticlerical do Rio de Janeiro, atuando como amador no grupo dramático vinculado àquela entidade.
Imagem 4 – anúncio publicado em Novo Rumo (20.07.1906)
Até aqui, tudo bem. As migrações acima citadas, como tantas outras, expressariam os constantes deslocamentos que marcavam as trajetórias bem errantes de dos amadores que estudamos. Era comum um determinado amador atuar em diferentes
101 Em notícia publicada em A Terra Livre de 4 de agosto de 1907, o autor (C.M.), ao se referir a um
espetáculo do Grupo Teatro Social, afirma que “o camarada Portas tem em casa um viveiro de futuros artistas, porque a Tata e o Armando, que sempre trabalharam no `Mestre´[de Rousselle], são um encanto”.
grupos, concomitante ou sucessivamente. O problema é que nem sempre (ou quase nunca) nossas fontes dizem o que queremos ouvir. Em 19 de setembro de 1906, o mesmo periódico Novo Rumo publicou uma notícia comentando o evento cuja programação fora veiculada no anúncio acima citado. Nessa notícia, no entanto, aquele que no anúncio fora chamado de Grupo Teatro Livre, aqui (na notícia) recebia o nome de Grupo Dramatico Social. Ficamos assim diante de um impasse em que se descortinam três possibilidades distintas. Primeira: o autor da notícia (C.M.) errou o nome do Grupo Teatro Livre, chamando-o, em seus comentários posteriores, de Grupo Dramatico Social. Segunda: estaríamos diante de um terceiro grupo - nem Teatro Livre nem Teatro Social, mas sim Dramatico Social. Terceira: o grupo chamado no anúncio de Teatro Livre nada mais seria do que o próprio Grupo Teatro Social, na notícia designado em sua variante “Dramatico Social”103.
No momento, inclinamo-nos a aceitar a terceira hipótese. Isso porque, para os anos de 1906 e 1907 (anos em que, como vimos, o Grupo Teatro Social foi bastante ativo), nenhum outro vestígio sobre o Grupo Teatro Livre foi encontrado. Além do mais, os amadores citados no anúncio do Teatro Livre (assim como na notícia do hipotético “Dramatico” Social) são praticamente os mesmos que atuavam no Teatro Social - e as peças que seriam encenadas por aquele (O Ocaso dos Ódios e Pecado de Simonia) faziam parte do repertório deste. Devemos ainda mencionar que, na mesma edição de 19 de setembro de 1906, o mesmo periódico Novo Rumo, ao transcrever o estatuto que analisamos acima, utilizou o nome “Dramatico Social” para se referir ao próprio Grupo Teatro Social.
No entanto, a solução por nós encontrada apresenta ao menos dois problemas. Primeiro, é que Edgar Rodrigues afirma, em Os Companheiros, que um “Grupo Dramático de Teatro Livre”, fundado na Associação Auxiliadora dos Artistas Sapateiros, surgiu no Rio de Janeiro em 1903104. No entanto, não encontramos nenhum registro desse nome na data que o autor oferece para a sua fundação. Como Rodrigues não menciona as fontes por ele consultadas, fica difícil saber se sua informação procede ou não. Caso tenha aparecido um grupo com esse nome em data tão recuada, certamente
103 Ver na página 42 desta pesquisa a transcrição do estatuto publicada em Novo Rumo de 19 de setembro
de 1906.
104 Sobre a questão, ver Rodrigues, Edgar. Os Companheiros – Vol. 1. Rio de Janeiro, VJR – Editores
Associados, 1994; p. 149. Ver também Rodrigues, Edgar. O Anarquismo na Escola, no Teatro, na
ele não é o mesmo ao qual estamos nos referindo aqui. Em nossa pesquisa, tomamos muito cuidado com as informações que o importante memorialista apresenta: elas nem sempre correspondem ao que encontramos nos documentos. Edgar Rodrigues não manifestava o rigor que é cobrado dos trabalhos acadêmicos. Acreditamos que muitas de suas informações têm como lastro apenas a sua memória. Isso não desmerece, é claro, o importante trabalho por ele realizado. Sem esse trabalho nossa pesquisa seria bem mais complicada!
O outro problema da solução por nós encontrada é que, de fato, existiu no Rio de Janeiro um grupo intitulado Teatro Livre. No entanto, as informações que temos sobre ele só se tornaram mais constantes a partir de agosto de 1908, ocasião em que já não aparecem mais informações sobre o Grupo Teatro Social (vimos que o último indício deste conjunto teatral aparecera em 14 de março de 1908). E o mais intrigante é que, em anúncio publicado no periódico A Voz do Trabalhador do dia 22 de novembro de 1908, está prevista para o dia 28 daquele mês uma festa em que o Grupo Teatro Livre, “ensaiado pelo ator Mariano Ferrer y Goñi, ex-ensaiador do Grupo Dramatico Teatro Social”, encenaria a peça Os Maus Pastores, de Octave Mirbeau (“tradução do amador Ulisses Martins”). Sendo assim, ao que tudo indica, é possível que, naquele momento (segundo semestre de 1908), o Grupo Teatro Social já não mais atuasse e o Grupo Teatro Livre tivesse se tornado o seu sucedâneo. No entanto, para além de Mariano Ferrer, é impossível saber se outros membros do Teatro Social estiveram também presentes no Teatro Livre.
O último indício que encontramos do Grupo Teatro Livre apareceu em A Voz do Trabalhador no dia 1º. de maio de 1909. Trata-se de um anúncio de uma festa prevista para ocorrer no dia 15 daquele mesmo mês. Dentre outras peças, consta da programação a representação de O Triunfo, de Carrasco Guerra. O anúncio informa que a peça fora proibida pela polícia em Lisboa e depois levada à cena naquela cidade com alguns cortes. Aqui, no entanto, a representação seria “na íntegra”! Outro traço curioso deste anúncio é que ele apresenta um dos raros momentos em que um grupo amador resolvia investir em si mesmo. Contrariando a tendência de realizar eventos em benefício de outrem, desta vez o Teatro Livre resolveu “colocar as manguinhas de fora”. Afirmava- se no anúncio que a renda da festa seria destinada “a cenários, adereços e guarda roupa” para as próximas encenações. A justificativa era a de que o grupo vinha recebendo uma
grande quantidade de peças novas e os gastos com os recursos cênicos estavam sendo “dispendiosos”. No anúncio, o grupo fez um apelo ao auxílio de todos.
Não sabemos se essa festa de fato ocorreu – não encontramos nenhuma notícia posterior relativa a ela. Também não sabemos se o Grupo Teatro Livre continuou atuando depois disso - nenhum outro registro dele foi encontrado nos órgãos da imprensa operária.
No entanto, veja que interessante! Se uns desaparecem, outros ressurgem. Dois anos depois, o periódico carioca A Vanguarda publicou uma pequena notícia informando que o Grupo Teatro Social estava “definitivamente reorganizado” 105. Por
meio desse registro, sabemos também que as suas “bases” seriam as mesmas já analisadas acima e que de seus serviços só poderiam se utilizar os sindicatos “desta Capital” (ou seja, do Rio). Outra coisa: depois de um longo entreato, o grupo voltava sob a direção de quem? De Mariano Ferrer, o mesmo que fora já seu diretor de cena e que transitara também pelo Grupo Teatro Livre. Não sabemos o que aconteceu com os demais membros da formação anterior. É provável que alguns deles tenham novamente se juntado à nova formação. Também não sabemos se esta reedição durou muito tempo. Ao que tudo indica, não – nenhum outro registro dela foi por nós encontrado. Daqui em diante, só encontraremos, no contexto do Rio, um outro grupo homônimo que apareceu bem mais tarde, em 1921. Mas, com certeza, sua constituição era bem diferente e esta já é uma outra história. Chega de confusões!.