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Autour d’une vocation

II- M EDIATION : LA BELLE ILLUSION

III.2 Autour d’une vocation

Os familiares com quem Pedro Nava convivia nas primeiras décadas do século XX, período em que ele ainda era um menino com menos de dez anos de idade, possuíam uma rotina em que o material escrito estava sempre presente. Sendo a presença desses materiais tão frequente, comum e natural na vida dos adultos nada seria mais “normal” que oferecer às crianças da família material impresso, revistas para folhear e cortar. Dessa maneira, com menos de cinco anos de idade, Pedro Nava estava não somente mergulhado em espaços letrados,165 com pessoas que liam e escreviam cotidianamente, mas também tinha, ele mesmo, a possibilidade de conhecer os materiais que circulavam em sua casa, na sociedade de sua época. Mesmo sem ser alfabetizado ainda, folheava e cortava revistas que ganhava de presente de suas tias:

164 GALVÃO (2002), em seu estudo sobre os ouvintes de cordel em Pernambuco, entre as décadas de 1930 e

1950, mostra como analfabetos participavam da cultura escrita mesmo sem saber ler e escrever. Também SOARES (1998, 2003) mostra como pessoas que ainda não dominam a tecnologia da escrita envolvem-se em eventos de letramento.

165 Como mostramos anteriormente, no capítulo II, as casas onde Pedro Nava viveu a maior parte de sua

infância tinham um cômodo destinado aos livros, às partituras, às estantes, à escrivaninha. Em geral, nesse gabinete, o escritório da casa, muitas vezes, com também já mencionamos, aconteciam as conversas e os debates entre os parentes de Nava e amigos da família. Em geral, ele, menino que era, ouvia com frequência a essas conversas.

[...] Eu tinha diante dos olhos o exemplo de meu Pai, de suas irmãs, de seus cunhados, permanentemente atracados num volume da coisa impressa. Não possuía noção de leitura e já minhas tias mandavam para Juiz de Fora revista infantil que eu folheava e cortava. Vejo isto numa carta escrita por meu Pai a 22 de fevereiro de 1908, agradecendo a remessa de publicação chamada Fafasinho.166 Viveu só dois anos, 1907 a 1908. Não conheceu o destino de O

Tico-Tico,167 que durou mais de meio século, 1905 a 1959. [...] (NAVA, BO,

2002, p.353-354).

Ainda que não dominasse a tecnologia do ler e do escrever,168 Pedro Nava convivia quase que espontaneamente com materiais escritos em sua casa e com os usos que deles faziam seus parentes. As revistas, Nava ganhava de presente. Os livros estavam nas estantes. Seus parentes comentavam o que liam; alguns deles, recortavam textos dos jornais para colar em cadernos. A leitura e a escrita compunham o cotidiano de seus familiares e engendravam muitas de suas relações.

O trabalho de escrever unia-se tanto às necessidades dos familiares de Pedro Nava (como, por exemplo, as anotações que resultavam dos estudos de seu pai para os concursos de médico legista que faria no Rio de Janeiro), quanto a seus sentimentos. Enquanto viveu

166 Em recente levantamento bibliográfico, não encontramos uma revista denominada Fafasinho, nem estudos

nos quais esse impresso se configurasse como objeto ou fonte de investigação. Localizamos, no entanto, um artigo de Andréa Leão (2004) em que a autora, ao se debruçar sobre as relações entre Francisco Alves e a formação da literatura infantil no Brasil, em fins do século XIX, analisa as histórias e os personagens do livro Era uma vez, editado em novembro de 1909, comparativamente com o personagem Fafasinho. Segundo Leão, a criação de Viriato Correia assinava a “coluna literária Gazeta das Crianças, no jornal Gazeta de Notícias” (2004, p.10). Muitos dos contos do livro Era uma vez, de acordo com a pesquisadora, já teriam sido lidos pelas crianças no jornal, na época em que Viriato Correia, escritor maranhense que desembarcara no Rio de Janeiro, em 1903, “na pele” de Fafasinho, publicava suas histórias na Gazeta.

167 Semanário que circularia, no Brasil, a partir de 1905 (LEÃO, 2004, p.9), a revista almejava o mesmo

prestígio gozado pelos livros destinados às crianças uma vez que publicava contos e poesias de autores consagrados, bem como anunciava novidades da literatura infantil. Tal qual os livros que constituiriam uma “Biblioteca Infantil” (p.9), publicados por Francisco Alves, O Tico-tico seria um dos componentes de uma coleção dirigida às crianças, para leitura realizada fora da escola. Primeira revista de quadrinhos do Brasil (VERGUEIRO; SANTOS, 2005), fundada por Bartolomeu de Souza e Silva (SILVA, 2005, p.37), o impresso carioca teria sido inspirado em publicações infantis européias de grande sucesso desde fins do século XIX, tal como a Petit Français Illustré de 1889 (CHINEN, 2005, p.104). Ao lado das histórias em quadrinhos, O Tico-tico reunia, em suas páginas, histórias ilustradas e grande diversidade de gêneros textuais: “charadas, adivinhações, lições de história, ciências, boas maneiras e civismo, curiosidades” (AUGUSTO, 2005, p.6), “partituras e letras de músicas, peças teatrais [...], textos sobre cinema” (SANTOS, 2005, p.122), “notícias esportivas, entrevistas e anúncios publicitários” (MERLO, 2005, p.126). Teve como leitores, entre as gerações de brasileiros que divertiria e educaria, além de Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo, Nelson Rodrigues, Lygia Fagundes Telles, Ana Maria Machado, Moacyr Scliar, Ziraldo, Assis Chateaubriand, Fernando de Azevedo, Gilberto Freyre, José Midlin, etc. (VERGUEIRO; SANTOS, 2005), embora fosse uma revista originalmente “feita para meninos” (VERGUEIRO, 2005, p.176).

168 Para SOARES (1998, p.39), “aprender a ler e escrever significa adquirir uma tecnologia, a de codificar

com os pais, os irmãos, com tio Salles e as tias paternas no Rio, entre os anos de 1910 e 1911, Nava presenciava todo o processo de escrita do tio. O trabalho de Antônio Salles sobre um poema que ofereceria à Alice, sua mulher, envolvia a escrita, a leitura, a oralidade:

[...] Todas as manhãs ele sentava-se cedo a essa mesa e escrevia até as dez, onze horas. Riscava, corrigia, lia baixo, rasgava, recomeçava; relia, rasgava outra vez, tornava a principiar, lia alto, retomava, até engastar o fecho de ouro na ourivesaria difícil do soneto ou do poema. Aí ele respirava aliviado, deixava cair a lima, o camartelo, o cinzel e acendia meio charuto. Em torno dele, a musa adejava com gestos precisos e silenciosos, nítidos e inaudíveis como o bater de asas de borboleta. Vem ver se está bonito, minha filha... Estava. E ela pagava com um beijo.

Tu és a companheira estremecida, Que enfrentando, animosa, o fado rudo, Me tens servido de piedoso escudo Contra os golpes mortíferos da vida. ... Este livro em que uma alma se retrata, Como se num espelho ela se visse, É uma pequena e comovida oblata

Que deponho a teus pés, oh! minha Alice. (NAVA, BO, 2002, p.318).

Praticamente um turno do dia de Antônio Salles era dedicado a produzir um texto. A produção não envolvia apenas processos que seriam característicos da produção de um texto escrito, a qual se constituiria apenas dos atos de ler e escrever, tais como riscar, corrigir, ler baixo, descartar aquilo que não lhe parece bom suficientemente, escrever de novo, reler. A escrita, no caso do tio de Pedro Nava, incluía também a revisão das versões do texto utilizando, para isso, a mediação da voz. Não bastava ler silenciosamente o que se havia escrito, era necessário ler alto, em voz alta (ainda mais no caso de um poema) para encontrar “o fio da meada”, a maneira mais adequada de produzir o texto que se desejava escrever. De todo esse processo era permitido que Pedro Nava participasse.

Para ler e escrever, havia, na casa de Aristides Lobo, um espaço destinado a essas atividades, bem como móveis e objetos característicos do lugar e dos processos que envolvem o trabalho da leitura e da escrita:

[...] A mesa que tio Salles, onde chegava, arranjava sempre igual, para trabalhar e onde ele colocava seus apetrechos de modo invariável.169 A pasta

confeccionada por ele. O renque dos dicionários. A espátula, o pote de goma, a tesoura, o porta-lápis barato, de metal dourado a purpurina e onde ficavam, em situação idêntica, a caneta de pena fina de tia Alice, a de pena grossa do próprio tio Salles, o bicolor azul e vermelho, a raspadeira para apontar os lápis e apagar a escrita feita a tinta. Numa caixinha ao lado, os prendedores, os percevejos, as borrachas. Outra caixa, a dos charutos, que ele fumava cortados ao meio. O porta-caixa-de-fósforos de metal amarelo. As resmas de almaço e os dois pesos de papel que me encantavam. Um, velha ferradura. Outro, a secção de um trilho de estrada de ferro. Também dourados a purpurina pelo poeta. [...] (NAVA, BO, 2002, p.318).

O cômodo da casa onde Antônio Salles produzia seus textos, onde também escrevia Alice, tia paterna de Pedro Nava, era frequentado pelo sobrinho. Nava conhecia tão bem essa parte da casa (provavelmente porque iria até lá sempre) que a reconstruiu com detalhes, em seu Baú de Ossos. O memorialista recordou o que existia nesse espaço em que os tios realizavam suas atividades letradas; lembrou-se dos dicionários (que não eram poucos), da maneira como Salles organizava os objetos na mesa destinada à escrita. Entre as reminiscências desse espaço da casa, vemos o fascínio e o olhar atento de Nava para cada um dos objetos que permaneciam sobre a mesa do tio.

Também o cotidiano de sua tia Cândida, outra das irmãs de José Nava, era acompanhado de perto por Pedro Nava na casa de Aristides Lobo. Durante parte do dia, Cândida dava lições de piano no colégio em que estudava a filha, e, o restante das horas de seus dias, ela passava lendo ou absorvida pela música:

[...] Minha tia voltava do Sacré-Coeur pelas quatro horas e passava o resto do dia ao piano ou agarrada aos livros. Eu gostava de admirá-la entregue a esses misteres e fascinava-me a capa de uma de suas coleções de romances, parece-me que chamada Horas de Leitura, onde havia uma dorida figura de senhora lendo e destacando seu perfil agudo e o luto de sua roupa contra a claridade de uma janela ao fundo. Parecia minha tia e comecei a amar os livros. [...] (NAVA, BO, 2002, p.323-324).

Pedro Nava, que, na época em que morou pela primeira vez no Rio de Janeiro, estava com aproximadamente oito anos, já gostava, de acordo com a sua reconstrução do passado, de observar a tia tocando piano ou entregue a suas leituras. O que encantava o menino era, especialmente, a materialidade de uma das coleções de romances de Cândida. Pedro Nava,

169 Esse é o momento em que o casal Antônio Salles e Alice chegavam do Ceará à casa de Aristides Lobo, no

Rio de Janeiro, enquanto lá também vivia Pedro Nava com seus pais e irmãos. Trata-se do período entre 1910 e 1911.

pelo que se verifica nas Memórias, ainda menino, deixava-se fascinar pela capa dos livros de sua tia, imerso que estava em um mundo em que eles eram muitos. A narrativa do escritor permite-nos perceber que a casa do Rio de Janeiro era bastante rica em termos de livros, por exemplo, visto que, no trecho aqui destacado, o sujeito-narrador não se refere a uma coleção de romances de sua tia, mas a uma das coleções de romances de Cândida. Tal construção textual nos sugere que haveria na casa não somente vários livros, como também, senão muitas, pelos menos algumas coleções de livros literários, de romances.

Outro ponto do trecho citado anteriormente que nos chama a atenção é a “naturalidade” com que Pedro Nava fala da origem de seu amor pelos livros. Em sua reconstrução do passado, no tecido mesmo da narrativa, parece não haver modo de ele não gostar dos livros. Em uma espécie de transferência de amor (a mesma afetividade que Nava nutria por sua tia Candoca, ele teria passado a nutrir pelos livros), ao ver, na capa de um romance, a figura que o faz reconhecer a tia admirada por ele, Pedro Nava teria passado simplesmente a amar os livros. Para o escritor, que, nesse sentido, comporta-se como um “herdeiro”, amar os livros fazia parte do curso natural dos acontecimentos de sua vida e não se apresenta a ele como um aprendizado contínuo, de longa data. Logo, para o memorialista, o mundo da leitura lhe chega como mais um elemento comum, natural e não como o resultado de suas vivências em um ambiente propício para a construção desse gosto.