Annexe : Campagnes exp´ erimentales ONERA
A.2 Visualisation de l’´ ecoulement
anos. Essas previsões eram difundidas, inclusive, nos documentos oficiais do governo, como, por exemplo, no censo de 1920, materializado no texto de apresentação de Oliveira Vianna (1922). Este texto é uma prova cabal de que o governo era avalista do projeto de branqueamento.
Uma história real e que ajuda a exemplificar essa questão é a de Chica da Silva, uma escravizada, personagem que ganhou filmes e telenovelas por sua incrível ascensão social. De acordo com Gates Jr. (2014, p. 58) “Chica da Silva era negra, mas sua conquista de poder na comunidade foi parte de um esforço consciente de branqueamento. ‘Ela agia como se fosse uma branca’, disse a professora. ‘Vestia-se como branca. Foi sepultada na igreja dos brancos’”. Não se trata de julgar as escolhas de Chica, uma vez que essa era a única forma de ascender socialmente naquele momento histórico. A questão aqui é refletir até quando nós, enquanto sociedade, continuaremos a acreditar em uma suposta democracia racial, uma suposta meritocracia, negando ou suavizando todo o sangrento processo histórico de constituição deste país.
Se o Brasil mostrar sua cara, que cor ela terá?
1.5 SOBRE GÊNERO
Ao falar de gênero falamos, inevitavelmente, sobre poder, saber, hierarquias e opressão. Falamos, também, sobre conceitos e imagens de feminilidade e masculinidade criados por um centro de poder, no qual habita o masculino, o branco, o ocidental e o burguês. A própria concepção de mulher foi criada arbitrariamente por homens, a partir de si mesmos, do que eles consideravam atraente, belo e correto.
Estar ciente das muitas diversidades possíveis ajuda a lembrar que o ideal de sucesso e beleza, por exemplo, habita em padrões inatingíveis, e é esse mesmo o seu papel. Ser inacessível, para que vidas e mais vidas sejam vividas em busca de algo que jamais será alcançado. Dessa forma, as pessoas consomem cada vez mais para, assim, quem sabe, ter a ilusão de estar mais próximo do centro de poder. Essa lógica cruel submete os indivíduos em nomenclaturas, modos de ser e pertencer que foram forjados antes mesmo do nascimento. Expectativas pesadas que, em muitos casos sem perceber, limitam as pessoas, as formatam em uma vida já traçada pelos outros. Um forte submetimento criado antes mesmo do nascimento é o próprio gênero – o que será ensinado e vivido é traçado a partir da descoberta do sexo do bebê. No entanto, sexo não está diretamente relacionado a gênero.
Ao discutir a questão de gênero é preciso ir além da biologia. Não se pode questionar que os sexos se diferem na constituição social. As mulheres amamentam e dão à luz e isso tem importantes consequências na vida social. Uma questão central ao debate é o motivo pelo qual as atividades desenvolvidas por mulheres são tidas como inferiores em relação às atividades desenvolvidas por homens, e não as atividades em si. É necessário pensar como as construções sociais de gênero foram articuladas em função dessas diferenças para gerar opressão e desigualdades.
Joan Scott (1995, p. 78) traz um aspecto interessante sobre essa questão:
Uma teoria que se baseia na variável única da diferença física é problemática para os/as historiadores: ela pressupõe um significado permanente ou inerente para o corpo humano – fora de uma construção social ou cultural - e, em consequência a a-historicidade do próprio gênero.
A concepção de gênero, como tantas outras, é mutável e repleta de significações sociais, que podem ser percebidas de modos diferentes por pessoas ou grupos diversos. De qualquer modo, é preciso refletir sobre o sistema sexo/gênero enquanto aparato social sistemático que forma uma matéria-prima (o sexo/a fêmea) transformando-a em um produto (o gênero/a mulher domesticada).
O termo mulher não denota uma identidade única: são inúmeras lutas, vivências e especificidades além da trama complexa de gênero, raça e classe, por exemplo. Ou seja, fazem parte da constituição das identidades pessoais e de grupo. As noções de classe, gênero e raça são diferentes em cada lugar; logo, não podemos perceber as classes em todos os lugares de forma igual. As vulnerabilidades podem ser parecidas, mas as lutas são diferentes.
É preciso lembrar que os papeis atribuídos às mulheres são diferentes de acordo com a cor de sua pele, por exemplo, enquanto as mulheres brancas lutavam por direito ao voto, muitas mulheres negras ainda eram escravizadas (inclusive por outras mulheres). Enquanto mulheres brancas queriam conquistar o direito legítimo de trabalhar fora de casa, quantas mulheres negras já haviam perdido a vida trabalhando forçosamente em lavouras? Até hoje, quando muitas mulheres brancas saem de casa para trabalhar, geralmente são as mulheres negras e periféricas que cuidam de seus filhos, enquanto as crianças negras e periféricas permanecem, muitas vezes, sozinhas. Enquanto para muitas mulheres brancas mostrar o corpo é uma questão de subversão aos paradigmas sociais impostos, para muitas mulheres negras não mostrar o corpo é uma questão de resistência, uma vez que seus corpos foram historicamente construídos como bens de outras pessoas. No Brasil escravagista,
Seu corpo [das mulheres negras] não era apropriado apenas como produtor de riqueza, mas também como instrumento de prazer, gozo e culpa no caso dos proprietários, e de ódio, por conta do ciúme das senhoras. Aqui aprece pintada, e com tintas fortes, a sexualidade exercida na intimidade da alcova escravista: o autoritarismo senhoral ai se encontrava com a ‘aparente’ passividade da mulher escravizada, a qual era entes uma rendição apavorada. (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p. 93).
Como nos traz Scott (1995), o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas em diferenças percebidas entre os sexos. Por isso, importa compreender que representações simbólicas são invocadas, como e em quais contextos. Nesse sentido, uma luta feminista não pode se “[…] limitar a inverter as posições, mas em vez disso, supõe aproveitar o deslocamento para demonstrar o caráter construído do centro – e também das margens!”. (LOURO, 2003, p. 43). O que torna uma diferença em desigualdade são os significados culturais que damos a essas diferenças, por isso é importante observarmos os contextos. Por atentar para os cruzamentos dos diversos contextos sociais, a perspectiva interseccional, muito pautada pelo feminismo negro, se mostra como uma lente sensível e potente para observarmos as desigualdades e entendermos um pouco melhor a construção da identidade feminina negra.
Percebo, especificamente a partir da obra Interseccionalidade de Carla Akotirene, a identidade “mulher negra” formada por um conjunto de muitas camadas, que não se sobrepõem, mas se entrelaçam. As tramas dessa identidade, forjadas no Brasil à base da história escravocrata, remonta a épocas muito mais distantes: vêm de uma epistemologia ancestral. Ser mulher negra na África, antes dos sequestros massivos, significava uma coisa. Outra é ser mulher no “Novo Mundo”, em uma sociedade completamente distinta e que não se escolheu viver. As marcas desse sistema ainda condicionam a formação das identidades e a discussão sobre raça deve ocupar, de acordo com esta pensadora, um espaço articulador dos debates quando se fala na categoria “mulher negra”.
Pelas diversas questões socio históricas construídas no período escravocrata e que ainda influenciam a construção das identidades que:
A interseccionalidade visa dar instrumentabilidade teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado – produtores de avenidas identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais. (AKOTIRENE, 2019. p. 19).
gênero em uma análise quando se fala em mulher negra. Essa identidade é construída com base em violências múltiplas, mas também de inteligência e ousadia. Assim como Sojouner Truth, nascida escravizada em Nova Iorque, proferiu em discurso em 1851:
Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher?. (TRUTH, 2014).
Percebe-se, então, que as construções das identidades femininas são feitas socialmente de modos diferentes para brancas e negras, prevendo comportamentos e destinos diferentes de acordo com a cor da pele.
Já estabelecendo o diálogo teórico entre o pensamento interseccional de Audre Lorde e Achille Mbembe, enquanto as mulheres brancas têm medo de que seus filhos possam crescer e serem cooptados pelo patriarcado, as mulheres negras temem enterrar seus filhos vitimados pelas necropolíticas que confessional e militarmente matam e deixam morrer, contrariando o discurso cristão elitista-branco de valorização da vida e contra o aborto - que é um direito reprodutivo. (AKOTIRENE, 2019, p. 22).
Apesar das muitas barreiras e dos racismos (não vivenciados pelas feministas brancas) e dos machismos estruturais, as mulheres negras articulam diversas estratégias de superação. O senso de irmandade atravessa o pensamento interseccional feminista negro que reconhece, também nas religiosidades de matriz negro-africana, um espaço de resistência:
Na diáspora africana brasileira, o prestígio político das grandes mães funciona estritamente nos terreiros de Candomblé, espaço de resistência negra restaurada por laços de afeto, família e hierarquia, no qual uma ialorixá carrega os valores ancestrais e culturais torneados de África. A mulher torna-se mãe dentro da relação com a ancestralidade, não-nuclear, podendo ser matrilinear, em que filhos independem dos laços sanguíneos e do estado civil. Significa então dizer que não somente homens adultos podem gozar de prestígios oportunizados pela antiguidade e postos na família não-nuclear e não-heteronormativa. (AKOTIRENE, 2019, p. 84).
Podemos refletir, então, que o gênero é uma categoria descritiva, analítica e epistemológica perpassada de todas as formas pelo conceito de poder. Gênero também diz respeito a uma forma de conhecer e de produzir conhecimento sobre o mundo. Todas as coisas do mundo possuem um valor relativo ao gênero. No sentido simbólico, gênero pode ser uma forma de nomear os indivíduos e também uma forma de hierarquizar e oprimir as pessoas.
2 AS RELIGIOSIDADES DE MATRIZ NEGRO-AFRICANA NO RIO GRANDE DO