A conquista de um espaço social; tudo aquilo que nos possibilita ampliar repertório...
Existe produção de espaço em um estado de liberdade necessária? Podemos analisar da seguinte maneira: o desejo da criança pode não estar envolvido nesta ação, mas ela a pratica. No caso da obrigação da frequência escolar, esta ação é praticada por muitas outras crianças, quase
que ao mesmo tempo77, já que esse tempo e esse espaço são geridos não apenas pela família, mas principalmente pelo Estado. Dessa forma, percebemos, nos espaços públicos da cidade, nas ruas, pontos de ônibus, realizando trajetos, sobretudo nos horários de chegada e saída das escolas, a presença da criança, individualmente ou em grupo, mas que, neste momento, mesmo não estando efetivando um desejo individual (ou de grupo), estão representando um coletivo, uma classe: a infância. Nós outros, adultos, a percebemos neste movimento: a infância também está presente na cidade. Assim, acreditamos que é possível considerar que a liberdade necessária, quando relacionada à frequência escolar, produz uma apropriação (coletiva) do espaço urbano. A liberdade necessária provocaria, desse modo, um movimento de reapropriação infantil do espaço público, mesmo que sem a intenção direta das crianças.
A obrigatoriedade ou imposição que marcam a liberdade necessária garantem, de uma forma ou de outra, que a infância mantenha contato com o espaço público. Para as crianças de famílias pobres, esse contato obrigatório é muito mais constante e intenso, já que muitas vezes o deslocamento a pé é o que prevalece.
Consideramos que, na liberdade necessária, não seria possível falar em apropriação individual, já que não estamos falando de uma ação executada a partir do desejo da criança. No entanto, a presença de crianças nas ruas, ou mesmo nos carros e ônibus, marca/define um espaço que é compartilhado com elas. Poderíamos dizer que na liberdade necessária, de forma coletiva, as crianças se reapropriam desses espaços, ou seja, este tipo de “liberdade imposta” garante que, mesmo em uma situação de privação urbana para a infância, ainda assim, vejamos crianças nas ruas.
Poderíamos dizer que se trata de uma produção do espaço (social) a partir da liberdade necessária. Uma produção concreta, do ponto de vista da presença física de crianças nas ruas, como de caráter social, com a afirmação da sua existência na cidade, frente ao mundo adulto e adultocentrado da produção do espaço urbano.
Se pudéssemos isolar a experiência provocada por um estado de liberdade necessária, diríamos de uma experiência superficial do espaço e das relações que nele se estabelecem. A experiência das ações feitas às pressas, do andar rápido, de um movimento que quase não se registra e de um espaço que quase não existe. Sem o seu desejo envolvido, a criança deseja que passe logo, que chegue logo, que acabe logo. Quem quer fazer algo que não queira por muito tempo? ou demorar em um lugar quando se tem algo melhor à espera? Mas não podemos isolá- la completamente. No espaço da liberdade necessária encontramos outras liberdade associadas
77 Referimo-nos aos horários de entrada e saída das escolas que estabelecem “picos” de movimentos de crianças pelas ruas da cidade, no início e final da amanhã e no início e final da tarde.
a esta. Embora ir para a escola todos os dias possa parecer uma tarefa cansativa para a maioria das crianças, pode ser que não seja sempre, ou que nunca o seja para outras. Algumas vezes, é na escola que está o único lugar da brincadeira, dos amigos, dos jogos. Pode ser que o caminho até a escola seja considerado muito ruim, por ser longe ou pelo calor que se sente, mas estar na escola pode ser divertido. Clénisson, por exemplo, reclama da distância que tem que percorrer diariamente até a escola, mas este é o único lugar onde lhe é permitido (pela mãe) brincar com outras crianças.
- E qual a parte desse caminho que você mais gosta de passar?
- Nenhuma. [Nenhuma você gosta de passar? Você gosta de vir andando?] Não. [E você gostaria de vir de quê?] De nada, eu não gostaria de vir. [para a escola?] Não, eu gostaria de estudar perto de casa. Mais perto que essa escola aqui, só que minha mãe não quis. (Clénisson, 12 anos)
- E os amigos?
- Não tenho. Eu tinha dois, mas eles se mudaram para Cajazeiras 10. [E não sobrou nenhum?] não. (...) [E para jogar um futebol, como faz?] Na escola. [Para brincar de pega-pega?] Na escola. [Nadica?] hunhun. Aí, no final de semana, minha mãe libera o Video Game, aí eu fico no video game. (Clénisson, 12 anos)
Assim como ocorre de o caminho até a escola ser ruim, mas a estadia na instituição ser boa, o contrário também pode acontecer. Se consideramos que tanto o ambiente escolar e institucional quanto o trajeto casa-escola ou escola-projeto, por exemplo, são espaços de liberdade necessária, na associação deste com a liberdade ativa, também pode ocorrer de a criança achar que o caminho até a escola ou até o projeto é a melhor parte, o que a leva a andar devagar, esperar os amigos, brincar com eles enquanto se caminha, fazer paradas estratégicas, como na bomboniere ou na loja de bijuterias. Todas ações que necessitam de um estado de liberdade ativa e/ou condicionada atuando conjuntamente.
A experiência presente em um estado de liberdade necessária encontra-se no nível do prático-sensível, pouco representada no espaço vivido da criança. Porém, quando pensamos na ação propriamente, percebemos que a liberdade necessária abre caminho para outros estados de liberdade, para outras experiência. Neste espaço de liberdade que se forma, reunindo diferentes estados, aparecem novas possibilidades de ação (autônomas e independentes). É possível também que a criança conquiste com a liberdade necessária um tipo de “experiência anterior” que poderá servir como argumento em uma negociação dentro de um estado de liberdade condicionada. É o que percebemos quando Jamile tenta argumentar com a avó a respeito de suas competências reconhecidas para algumas ações e desprezadas para outras.
- Eu gosto de andar sozinha no metrô. [Você já andou {sozinha}?] Não. Minha vó não deixa. Porque ela pensa que eu vou me perder. Quando é pra fazer coisa, minha vó fala para Vitória “Jamile é mais esperta que você”, ai eu falo “minha vó, já que eu sou mais esperta que ela, deixa eu andar de metrô?” minha vó fala que não. Eu falo de outra coisa, mas eu queria andar de metrô sozinha. (Jamile, 10 anos)
A experiência proporcionada pela liberdade necessária é, acima de tudo, uma experiência forçada, imposta. É uma experiência pela qual a criança passa, que independe do seu desejo - embora possa fustigar outros. A criança deve se deslocar de casa para a escola todos os dias da semana, deve ir para a banca, para o projeto, no mercado, levar o cachorro para passear ou colocar o lixo pra fora. Nesses caminhos, ações e trajetos, muitas possibilidades surgem: os encontros, a práticas espaciais, os desvios, a possibilidade de se perder, mas também de se encontrar e encontrar. É importante perceber que o estado de liberdade necessária se apresenta como um território de possibilidades, mas que só se concretizarão na associação com outras liberdades (condicionada e ativa).
Diferente do contato com o espaço que se estabelece na liberdade ativa e na condicionada, na liberdade necessária esse contato se caracteriza por uma experiência superficial, justamente por não envolver o desejo da criança. Porém, a longa exposição ao espaço público, marcado sobretudo pelo imprevisível, às vezes inevitável, pode suceder de ser acometida por um acontecimento que venha tirar a criança desse estado de apatia e colocá-la diante do imprevisto, onde se fará necessária uma reação imediata e criativa, uma ação emergente. Neste momento, o espaço público é o principal agente e a sua ação instaura instantaneamente um estado de liberdade ativa como resposta. Foi o que aconteceu com Larissa, quando conta que foi abordada por um homem desconhecido que a chamou para entrar no carro.
- E aqui {na escola das Mercês}, por que você não vem sozinha?
- Um homem tava olhando pra mim aí me chamou para dentro do carro, ai eu peguei... [E quem viu isso?] Eu, só eu. Eu peguei e sai correndo. [Foi uma vez que você estava vindo?] Não, eu estava saindo, esperando uma menina do colégio. Ele abriu a porta e me chamou para dentro do carro, aí eu peguei e sai correndo. (Larissa, 10 anos)