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A difusão do turismo como alternativa de lazer nas sociedades contemporâneas fez surgir um setor de atividade econômica que cria e transforma paisagens naturais e culturais em produtos de exploração turística. “Ao oferecer de forma lúdica, um modo de repor as energias e aliviar o estresse do cotidiano, o turismo vem se destacando como fator de motivação para os deslocamentos humanos” (SOARES, 2011, p.17). Segundo Andrade (1995, p.38) o turismo pode ser definido como: “o complexo de atividades e serviços relacionados aos deslocamentos, transportes, alojamentos, alimentação, circulação de produtos típicos, atividades relacionadas aos movimentos culturais, visitas, lazer e entretenimento”.

Em termos mais específicos, essa definição revela que a atividade turística deve ser analisada a partir de três parâmetros: o recurso turístico, o produto turístico e a oferta turística. O recurso turístico representa o conjunto de atrativos locais, compondo um patrimônio natural e cultural, reunindo meio ambiente, clima, beleza natural, paisagens, hospitalidade, gastronomia, herança histórica, manifestações culturais e a interação com as os habitantes locais. Mas apenas os recursos não perfazem um produto turístico. O recurso se transforma em produto quando se estrutura para o uso e desfrute turístico. Assim a criação de vias de acesso ao recurso turístico, o desenvolvimento de uma infraestrutura que propicie ao turista o uso do recurso, seja na forma de bens e serviços urbanos disponíveis no município, seja sob a forma de bens, equipamentos e serviços de hospitalidade disponíveis, tais como hotéis e pousadas, restaurantes e bares, receptivos, parques temáticos (CHIAS, 2007).

Porém o que converte o produto turístico em oferta turística, passível de ser desfrutada, é a sua promoção junto aos mercados emissores. De acordo com Chias (2007, p.26) “somente então, quando aparecem os turistas, é que são gerados recursos para o lugar e se consolida o destino, criando-se empregos. Conclusão: alcança-se um maior bem estar”. Muitos municípios brasileiros; notadamente os litorâneos; tem acreditado nessa alternativa estratégica como solução para equacionar e promover o desenvolvimento.

Assim, contratam-se especialistas e assessores, para realizar um inventário de recursos turísticos, e posteriormente, um plano de desenvolvimento turístico, para elaborar o produto à imagem e semelhança do que querem os mercados emissores. Posteriormente, empresas especializadas em marketing turístico elaboram o plano de marketing para divulgar e promover os destinos. Com a vinda dos turistas, o ciclo se completa e obtêm-se o esperado crescimento econômico. Como relatado por Batista (2003, p.1):

Esta nova indústria é capaz de oferecer um rápido crescimento econômico em termos de nível de emprego, distribuição mais justa de riqueza, melhoria de qualidade de vida e incremento de alguns setores industriais ligados à atividade turística.

Considerado sob o aspecto econômico, o turismo é uma das atividades econômicas que mais gera riquezas no mundo. Os geradores dessas riquezas são os turistas, que com seus gastos diretos geram um efeito multiplicador na economia, através de uma extensa cadeia produtiva, que inclui não só os estabelecimentos que lidam diretamente com o visitante, mas muitos outros, incluindo até mesmo esportes, alimentação, saúde, educação, vestuário, comunicação e agricultura (GOELDNER et al., 2002).

Rabahy (2003, p.66), demonstrando os efeitos multiplicadores dos gastos turísticos, assim os descreve:

Inicia-se com os gastos efetuados pelos visitantes, os quais geram salários e rendas para os diversos setores envolvidos, de natureza bem diversificada, como os hotéis, restaurantes, agências de viagens, empresas de transporte, localidades de recreação, comércio e uma série de outros ramos de produção de bens e serviços. Os gastos efetuados em um dado setor concorrem para a geração de renda em várias outras etapas precedentes, pela solicitação de bens primários, intermediários ou finais de outros setores produtivos.

Este autor, apontando dados do relatório FIPE: Multiplicadores de renda e emprego para o Brasil, cita o índice multiplicador de gastos como sendo da ordem de 2,85; ou seja, para cada unidade monetária gasta pelo visitante, haveria um acréscimo de 2,85 unidades monetárias, geradas por negócios indiretos. O mesmo relatório indica o índice de 5,5 em relação à geração de emprego, de forma que cada emprego no setor turístico tende a gerar 5,5 empregos nos outros setores indiretamente afetados (RABAHY, 2003).

Kotler e Rein (1995, p.211) corroboram a idéia acima, ao destacar a importância que o turismo tem para a divulgação dos produtos locais:

As estimativas dos gastos dos turistas e dos participantes de convenções com presentes, roupas e souvenires estão na faixa de 15 a 20% dos gastos totais. A proporção com que esses produtos são feitos ou montados no local afeta seu impacto na economia de exportação do mesmo.

Mas o turismo não pode ser enfocado apenas por alguns aspectos positivos derivados do crescimento econômico da atividade; é necessário considerar também que o turismo “tem a capacidade de causar danos irreparáveis aos recursos naturais” (BATISTA, 2003, p.10). Nesse sentido, não se pode naturalizar a questão do desenvolvimento como consequência do crescimento econômico advindo da atividade turística, pois como lembra Gomes Silva (2006, p.32) o turismo “sendo uma atividade capitalista, não está em sua lógica resolver os problemas de distribuição de renda e emprego”. Essa lógica deve ser considerada ainda mais na análise do turismo no Brasil, onde o modelo de crescimento econômico, ao qual também se subordina a atividade turística, é concentrador de renda, excludente e perpetuador de desigualdades (ALMEIDA, 2004).

Diante dessa perspectiva é preciso planejar o turismo sob uma perspectiva que leve em consideração não apenas as necessidades mercadológicas e a opinião do turista, mas, principalmente, os interesses da população local; pois não é suficiente planejar o turismo apenas na perspectiva de construção do produto e da oferta turística, é preciso dimensionar os impactos econômicos, socioculturais e ambientais, que acompanham a modificação da vida do local no contato com o turismo; e que podem ser tanto positivos como negativos, indo desde a geração de emprego e renda, expansão do mercado de produtos locais, aumento da demanda por produtos agrícolas e da arrecadação municipal; até fatores negativos como a descaracterização de populações tradicionais e a desfiguração da paisagem e do ambiente, como afirmado por Seabra (2001, p.27):

Os exemplos de degradação ambiental e sociocultural decorrente do turismo são abundantes, assim como o são para outros setores industriais. Como na indústria extrativa, o turismo explora a matéria-prima até o total esgotamento; em seguida, ocorrem o abandono e a transferência para outros locais de exploração. Além do uso indiscriminado dos recursos ambientais, a indústria do turismo provoca danos socioambientais e socioculturais bem mais acentuados que muitas indústrias consideradas poluentes.

Mas da mesma forma que não se pode naturalizar a questão do desenvolvimento através do turismo, também não se deve fazer o processo contrário de invalidar a atividade turística, negativando-a com o rótulo de predatória. Como afirma Lanzarini (2009, p. 9) a atividade turística é “apenas ambígua, pois ao mesmo tempo em que promove riquezas, empregos, melhoria de vida [...] também produz pobreza, exclusão social e fragmentação do espaço”. É preciso ampliar os espaços de participação da comunidade no processo, tanto na implantação, como na gestão dos planos de turismo. Sem a participação dos principais interessados, será muito difícil qualquer forma de desenvolvimento promovida a partir do turismo. Se apenas os interesses do mercado e do capital forem atendidos e respeitados, à população local restará a exclusão, a descaracterização e o sentimento de que o turista não é um parceiro e sim um invasor, e que as relações por consequência não são de hospitalidade, mas sim de conflito.

É forçoso lembrar que quando se fala em participação da comunidade, não necessariamente se está fazendo alusão aos processos representativos de participação política, cristalizado no ato de eleição dos representantes do povo. Aplicando os postulados da teoria do desenvolvimento local ao contexto do turismo, pode-se dizer que é necessário um processo de democracia direta, no qual os atores envolvidos possam expressar se desejam ou não a implantação de determinado projeto turístico, e de que forma pensam que este deva ser estruturado. Pelo Brasil registram-se uma série de casos em que o poder político local, na ânsia de aumentar a arrecadação ou de resolver demandas pontuais, tem permitido projetos turísticos sem os necessários estudos de impacto e sem a imprescindível participação da comunidade, fazendo com que o lugar torne-se propício para que o capital “travestido de turismo rapidamente descaracterize o tipo de trabalho e de vida, cause a desestruturação cultural, a agressão ambiental e uma paisagem degradada distante do imaginário do turista” (ALMEIDA, 2004, p.2).

A construção do espaço turístico se faz à custa da desconstrução do espaço local, gerando transformações do ambiente natural e modificação das relações sociais que anteriormente permitiram a existência da comunidade. A relação da sociedade local com o ambiente natural passa a ocorrer em função das da atividade turística. Tudo é feito para agradar o outro, para cativar o turista, objetivando assim a conservação do atrativo e não valoração local. Essa desconstrução ocorre da maneira demonstrada por Almeida (2004, p.5):

A consequência imediata é a transformação do ideário em relação à natureza que passa a ser considerada pelo valor atribuído pelo turista e pela renda que a atividade turística permite auferir [...] A natureza é capital, capital e mercadoria de realização atual e futura. Similar ocorre com o patrimônio cultural: festas, o artesanato, a gastronomia, revalorizadas pelo olhar do turista, transformam-se em atrativos turísticos. Desterritorializam-se.

Nesse sentido o processo de valoração das imagens para o visitante termina afetando a imagem que o local faz de si mesmo. Dessa forma o impacto maior; ao contrário do que se pensa (em função de ser de mais fácil observação); não está no meio ambiente natural, e sim no mundo simbólico, que estrutura a conduta da sociedade receptora (CARA, 1996). Vários exemplos desse processo são citados na literatura, como o de Bonito em MS, das cachoeiras nas terras dos Kalunga no Norte Goiano e de inúmeras praias no litoral nordestino (ALMEIDA, 2004). No âmbito da gastronomia pode ser citado o exemplo do acarajé, que teve o seu tamanho, forma e recheio alterado em função das preferências dos turistas, deixando completamente de lado o seu aspecto de prática religiosa, ligado à alimentação dos orixás (RADEL, 2007).

É preciso considerar sempre a natureza ambígua e complexa do turismo, enquanto atividade que compreende ao mesmo tempo a produção e o consumo, articulando diferenciados setores econômicos; transformando visitantes e visitados; apropriando-se de:

lugares exóticos, de paisagens naturais, transformando-os em lugares que deverão ser observados para se obter conhecimentos culturais, históricos, possibilitar o descanso e vários outros motivos simbólicos ou reais [...] Sacraliza-se assim, tanto a natureza como a história passada, transformadas em mercadoria (RODRIGUES, Arlete, 2002).

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