LES ORIENTATIONS QUI SE DEGAGENT
3) Viser l’efficience dans l’utilisation des ressources
“Agressão!”.“Banditismo!”.“Assassinado!”.“Torpes!”.“Covardes e facínoras!”. Assim um jornal da capital de Santa Catarina definia os últimos acontecimentos da campanha para presidência da República no estado. As manifestações de indignação preencheram as páginas do Diário da Tarde, periódico vinculado à União Democrática Nacional, do dia 20 de novembro de 1945.28 O motivo, informava o jornal, fora uma série de insultos e agressões comandados por próceres pessedistas que culminaram com a morte de Hercílio Tambosi, vice-presidente da UDN de Rodeio –município localizado na região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina.
A tragédia aconteceu durante comício do PSD, quando Nereu Ramos, ex-interventor federal, principal líder do partido no estado e candidato ao senado, fez “referências desairosas” aos dirigentes udenistas. Isso teria levado Hercílio Tambosi a aparteá-lo. Nereu Ramos, então, ordenou à sua “guarda de choque” que o fizessem calar imediatamente. Tambosi foi “covardemente assassinado” por Nicomedes Silva, conhecido como Mesinho, chofer ligado a Celso Ramos, irmão mais novo de Nereu.29
No entanto, aquele não fora o único caso de agressão registrado durante a campanha eleitoral. Em Timbó, município limítrofe de Rodeio, também no Vale do Itajaí, Tupy Barreto foi agredido durante comício pessedista. Em nota, o prócer udenista descreveu os acontecimentos que terminaram em violência: “No momento em que o senhor Nereu Ramos, da tribuna, fazia ataque mentiroso e grosseiro a mim, respondi com rápido aparte. Bastou isso para que Celso Ramos, sargento Pamplona, Teodolindo Pereira, Hugo Hoepcke, coletor federal, e seus capangas me agredissem violentamente de revólveres”.30
Em contrapartida, o jornal A Gazeta, que fazia campanha aberta para o PSD, noticiava tumultos em comício udenista no município de Palhoça – localizado na região da Grande Florianópolis. De acordo com o periódico, Wanderley Júnior, um dos principais
28Diário da Tarde. Florianópolis, 20 nov. 1945.
29 Assassinado! Diário da Tarde. Florianópolis, 20 nov. 1945. 30 Agressão! Diário da Tarde. Florianópolis, 20 nov. 1945.
20
nomes da UDN na capital do estado, teria sacado um revólver ao discutir com moradores. Isso porque “o povo esclarecido não quis ouvir a patranhada dos salvadores. E, num movimento espontâneo, abafou-lhes as vozes com as senhas da vitória pessedista: Du-tra, Ne-reu, Ge-tú-lio”. Quando conseguiu alguns instantes de silêncio e disse as primeiras palavras, o político udenista foi questionado sobre denúncia apresentada à delegacia de polícia contra “três distintas senhorinhas palhocenses”. Ao tumulto seguiram-se vaias de crianças que inviabilizaram o comício e deixaram Wanderley Júnior irritado a ponto de sacar seu revólver, “para ameaçar aqueles ruidosos e inofensivos filhos de Santa Catarina”.31
Evidentemente, as narrativas dos jornais merecem devida relativização, afinal, são influenciadas por posicionamentos políticos e pelo fervor das disputas eleitorais. Todavia, elas nos informam sobre os modos como os partidos faziam suas campanhas. Apartes desferidos por próceres partidários durante os comícios de seus rivais, brigas e agressões ocupam espaço privilegiado nos jornais durante as semanas anteriores ao pleito de 1945.
Nesta perspectiva, os eventos de Rodeio e Timbó foram exaustivamente explorados. O periódico udenista destacou no alto de sua primeira página a frase de Tupy Barreto: “Nereu Ramos e seus capangas assassinaram o nosso correligionário Hercílio Tambosi, de Rodeio”.32José Medeiros Vieira, acadêmico de Direito, jornalista e presidente da União da Juventude Democrática, destacou em sua coluna a revolta pelo “trucidamento” de seu correligionário. A “barbaria”, os “requintes sinistros” e a “sintomática cumplicidade que o condicionou, eclipsam tudo o mais, todas as outras violências provocadas até agora pelos ex-detentores da situação”.33
Na edição seguinte, o Diário da Tarde não se limitou a expor a indignação perante a morte do líder udenista. Em sua primeira página, o jornal acusava Nereu Ramos de ter orquestrado e premeditado o “assassinato”.34Destacava também um relato de Henrique Rupp Júnior, líder udenista e rival histórico da família Ramos, o qual, baseado em
31 De revólver em punho, o senhor Wanderley Júnior. A Gazeta. 01 dez. 1945. 32Diário da Tarde. Florianópolis, 20 nov. 1945
33
VIEIRA, José Medeiros. Covardes e facínoras. Diário da Tarde. Florianópolis, 20 nov. 1945.
34 “Os trágicos acontecimentos de Timbó e Rodeio não foram fortuitos. Há tempos já se encontravam
concatenados. O ex-interventor semeara os ventos com dilatada antecedência”. Diário da Tarde. Florianópolis, 21 nov. 1945.
21
depoimentos de pessoas presentes, inclusive o pai de Hercílio Tambosi, descrevia as ações do comício.
Segundo ele, Nereu Ramos, enquanto discursava, foi interrompido pelo grupo que lhe ouvia com “vivas ao Brigadeiro e à democracia e abaixo a ditadura”. Indignado, o candidato do PSD ao senado ordenou que seus “capangas” dissolvessem o grupo que entoava palavras de ordem em prol do presidenciável udenista. Nereu, “em voz alta, ouvida distintamente por todos”, então afirmou: “Corram com esses canalhas sob minha responsabilidade. Matem esses covardes que quando eu reassumir o poder hei de marcá-los com ferro em brasa”. Ouviram-se treze tiros. O chofer de Nereu avançou sobre Hercílio Tambosi e deu-lhe uma coronhada. Cambaleante, Tambosi tentou fugir da “fúria assassina” quando foi alvejado pelas costas, “tombando sem vida”. Mesinho, o chofer, foi até Nereu e entregou-lhe a arma do crime, sendo, em seguida, preso pelos populares. Na descrição, Rupp Júnior ainda afirma ter ouvido do pai de Hercílio Tambosi, José Tambosi, que Nereu sacara sua arma e a apontara em direção do grupo onde estava seu filho. Instintivamente, José foi em direção ao político para segurar-lhe o braço. Nereu virou-se e apertou três vezes o gatilho em sua direção. O revólver, no entanto, “negou fogo”. Os atos de violência por parte da caravana pessedista já eram previstos, conclui o narrador. Prova disto é que o delegado de polícia da cidade de Rodeio, “às vésperas da chegada do dr. Nereu”, desarmara toda a população. A caravana, por sua vez, viera armadíssima, “trazendo até metralhadoras”.35
O jornal O Estado, adquirido por Aderbal Ramos da Silva em setembro de 194536, rebatia as duras críticas veiculadas no periódico udenista. No dia 21 de novembro, um dia após as primeiras reportagens sobre as agressões e a morte em Rodeio, O Estado publica uma defesa de Nereu Ramos. Afirma que, enquanto o ex-interventor federal “aqui estava, com os catarinenses, a sofrer com eles as suas dores, a chorar as suas lágrimas, a sentir as suas alegrias, convivendo, lutando e sofrendo com sua gente”, os “falsos amigos do povo, os democratas de fancaria que por aí agora pululam, se refestelavam nos seus cômodos e
35 RUPP JÙNIOR. Henrique. A verdade sobre os fatos ocorridos em Rodeio. Diário da Tarde. Florianópolis,
21 nov. 1945.
36 A informação sobre a data de aquisição do jornal O Estado encontra-se em: PIAZZA, Walter F. (org.). Dicionário político catarinense. 2 ed. Florianópolis: Edição da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, 1994. p. 589.
22
perfumados apartamentos, em Porto Alegre e na capital da República”. Por isso, o povo catarinense sabe que Nereu seria “incapaz de ordenar um assassinato”.37
Expressões como “ex-detentores da situação” e “democratas de fancaria”, usadas pelos jornais, remetem a rivalidades regionais anteriores ao processo de redemocratização. As rixas oligárquico-familiares serão analisadas posteriormente. Convém, antes, explorar a retórica pessedista sobre os acontecimentos de Rodeio e Timbó.
No dia seguinte, 22 de novembro, O Estado deixa a defensiva. Em sua primeira página, o jornal coloca Nereu Ramos como vítima dos agitadores oposicionistas. De acordo com o articulista, os tumultos em comícios eram recorrentes, sempre insuflados por líderes udenistas. No caso de Rodeio e Timbó, Nereu “escapara ileso”, no entanto “um homem do povo – que não figura nas chapas premiadas da oposição – pagou o preço da obediência cega aos insufladores”. Antes, em Laguna, litoral sul de Santa Catarina, “a provocação se iniciaria com o espoucar de dez dúzias de foguetes de assobio”. Em Itajaí, o motorista de Irineu Bornhausen “foi incumbido de chefiar a desordem”. Em Blumenau, o comício pessedista também contou com membros da UDN destinados a tumultuar o evento. Segundo o jornalista, o aparteante do operário Xavier “recuou antes da consumação, abandonado pela ‘escolta’.”
A responsabilidade pelos episódios de violência, portanto, passa para os opositores, chamados de “ordens secretas da turbação”, os quais acompanharam a caravana pessedista com o único e deliberado propósito de tumultuar e incitar a violência. Afinal, afirma o redator da matéria, “os udenistas lá não foram com intenção de virar a casaca”. E Nereu Ramos, caso estivesse com intuito de agredir adversários políticos, “não se faria acompanhar da excelentíssima esposa”. Por fim, conclui o jornalista, os acontecimentos revelam os reais interesses dos “oposicionistas”. A violência, na verdade, seria o principal instrumento de luta política da UDN, repetindo “antecipadamente os acontecimentos da era perrepista”. Uma vez no poder, os “arcabuzeiros”, “que foram a Rio Vermelho ameaçar chefes pessedistas, reproduziriam os espancamentos de longa lista”. E finaliza: “Eles ainda são os mesmos”.38
37 Nereu Ramos. O Estado. Florianópolis, 21 nov. 1945. 38 Ação terrorista. O Estado. Florianópolis, 22 nov. 1945.
23
No mesmo tom, outra reportagem rebatia a afirmação de Rupp Júnior. Publicada no
Diário da Tarde, contestava que a caravana pessedista contasse com metralhadoras e atacava: “ou as Forças Armadas pactuam com os instintos sanguinários da comitiva, ou a farsa ficará sobejamente desmascarada”. O autor da matéria deixa claro ser partidário da segunda hipótese. Afinal, Nereu Ramos “tem dignidade e fibra bastantes para revidar à altura os ataques de seus pérfidos adversários”. Para o articulista, os ataques pessoais a Nereu Ramos pretendiam “criar um ambiente de desconfiança e prevenção contra os candidatos do Partido Social Democrático”. Procurava-se, por conseguinte, “dividir a família catarinense”, “lançar irmãos contra irmãos”. O objetivo era incentivar a “rebelião”, “perturbar a ordem”. Neste sentido, o autor da matéria apontava o nome de três próceres udenistas a serem responsabilizados caso outro episódio de violência se concretizasse: Wanderley Júnior, “principal orientador do movimento de rebelião que se anuncia”; Oswaldo Rodrigues Cabral, “um dos mais responsáveis pelo que, em Florianópolis, vier a acontecer”; José Medeiros Vieira, “paranoico” e “irresponsável”, “deve ser citado pelos muitos desatinos que há cometido e pelos muitos que ainda, por certo, cometerá”.
A reportagem, de tal modo, chama-nos a atenção pelo uso político de expressões como “ordem” e “família”. Conceitos associados à “civilidade” e que o periódico pessedista incorporou ao discurso para justificar a permanência do partido no poder. O jornalista responsável pela matéria buscava, assim, construir uma identidade civil-partidária que vinculasse o Partido Social Democrático à manutenção de uma sociedade assentada nos valores da moralidade e da família. Em contraposição, o projeto representado pela União Democrática Nacional a descrevia como “oposicionista” e disposta a “espancamentos” e outros artifícios para fomentar a “desordem” e conquistar o poder. Estabelecia-se um maniqueísmo em que ficava a cargo do eleitor a responsabilidade pela manutenção da (boa) ordem social de então.
Verifica-se, pois, que a poucas semanas das eleições para a Presidência, o Senado e a Câmara Federal, os episódios de violência eram utilizados pelos jornais como arma política. Não era possível negar a morte de um eleitor no comício pessedista de Rodeio, tampouco os tumultos frequentes. O objetivo era situar o candidato de seu partido à margem dos acontecimentos, ao mesmo tempo em que se buscava vincular diretamente o adversário ao ocorrido. Neste caso, o jornal udenista abusava do uso da narrativa – com
24
mocinhos inocentes, bandidos impiedosos e cenas dramáticas, como a tentativa do pai de Hercílio Tambosi de salvar o filho – para demonstrar que o principal líder do PSD no estado era um homem frio, calculista e disposto a tudo para eliminar seus adversários. Os jornais pessedistas, por sua vez, apelavam para a retórica da “ordem social” e da unidade da “família catarinense”. Afirmava que a ação dos oposicionistas durante o pleito procurava destruir a estabilidade social do estado e promover a desordem e a rebelião –estratégia discursiva adotada intensamente nos pleitos seguintes.
Episódios de violência como os anteriormente descritos foram veiculados seguidamente na imprensa às vésperas da eleição, o que não significa que sejam uma invenção do período democrático. Ao contrário, os próprios embates ocorridos em Santa Catarina no período anterior sugerem que os conflitos eram frequentes, sobretudo nos grotões do estado. Sara Nunes, ao estudar o assassinato de um caixeiro viajante, em Lages, no início do século XX, percebeu que, para além da explicação oficial de crime passional, a condenação dos réus trazia consigo complicadas redes de intrigas e disputas políticas locais.39 Paulo Pinheiro Machado, em sua análise sobre a formação das lideranças
sertanejas na Guerra do Contestado, também oferece importante contribuição sobre as tensões cotidianas que, não raro, se convertiam em crime no interior de Santa Catarina durante a Primeira República.
De acordo com o autor, em uma região na qual o poder era exercido por chefes locais (coronéis), era comum que as divergências resultassem em crimes passionais cometidos por capangas e patrocinados por um dos mandatários. O judiciário, formado a partir de uma série de nomeações políticas, transformava-se em mecanismo de coerção pelos detentores do poder. O delegado de polícia, nomeado entre pessoas destacadas pelo partido situacionista, poderia deixar o inquérito inconcluso, pedindo o comparecimento de testemunhas que jamais apareceriam. O corpo de jurados também estava sujeito à intimidação, seja por ameaça, seja por gratidão aos chefes locais. Portanto, Pinheiro
39 O caso em questão é o assassinato de Ernesto Canozzi e seu “peão”, Olintho Pinto Centeno, no dia 1º de
maio de 1902. Dias depois, os irmãos Thomaz e Domingos Brocato foram presos. De acordo com os autos, o crime acontecera em razão de Canozzi estar “enamorado” de Emília Ramos, membro da mais importante família da região, por quem Domingos tinha “sentimentos casadoiros”. A autora descobriu, no entanto, que por detrás da versão oficial perpassavam intensas disputas políticas e rixas pessoais que atravessavam diversas instituições da sociedade lageana, como o judiciário e a maçonaria. NUNES, Sara. Caso Canozzi: um
crime e vários sentidos. Florianópolis, 2007. 154 f. Dissertação (mestrado em História) – Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina.
25
Machado conclui que “ser situação política conferia determinadas ‘licenças’ e prerrogativas de força sobre os outros.” Sendo assim, restava às pessoas pobres a opção de “resolver à força a pendência, recorrendo a inimigos ilustres do seu agressor (que poderiam bancar uma luta judicial, ou mais simplesmente, empregar seus capangas para uma desforra).”
A partir da análise de José Ibarê Dantas, Pinheiro Machado aponta o poder coercitivo dos coronéis como ponto fundamental de seu domínio político. As vitórias eleitorais, durante a Primeira República, advinham mais de sua capacidade de intimidação e uso da violência do que da vontade do eleitorado. O autor destaca que os grupos oligárquicos estaduais se apoiavam nos coronéis respeitados em relação “à força de seu contingente de milicianos particulares”. No planalto catarinense, “muitas lideranças locais firmavam-se como tais sem ocupar quaisquer cargos públicos, mas exerciam seu poder e influência política pela quantidade de homens em armas que poderiam rapidamente mobilizar.”40
Portanto, o uso da violência não era uma novidade do período de eleições diretas. Entretanto, há diferenças substanciais em relação ao período precedente. A análise dos periódicos mostra que, antes das campanhas eleitorais, os casos de conflito e agressão não tinham tanto destaque nas páginas dos folhetins. Ou seja, mesmo sendo comum a resolução de querelas através da força, especialmente no interior, é no momento de disputa explícita entre facções que ela ganha notoriedade. Como vimos páginas atrás, a morte de um correligionário udenista durante comício do PSD é usada por ambos os partidos para auferir dividendos político-eleitorais. Isto é, se a análise da bibliografia consultada sugere a violência como forma comum de resolução dos conflitos, durante a democratização ela ganha a pauta dos jornais e transforma-se em instrumento de luta política.
Talvez esta seja uma diferença que marca o novo período de eleições: o poder político não mais depende da quantidade de armas. Ao contrário, o assassinato de um membro da UDN foi usado pelo partido como mote de campanha contra a “barbaria” e o “trucidamento” provocados pelos “ex-detentores da situação”. Ademais, e esta é outra diferença marcante, os conflitos relacionados às disputas políticas ganham destaque nos jornais da capital. A imprensa, tanto a do PSD quanto a da UDN, repercutiu os episódios de
40 MACHADO, Paulo Pinheiro. Um estudo sobre as origens sociais e a formação política das lideranças sertanejas do Contestado, 1912-1916. Campinas, 2001. 497 f. Tese (doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas. p. 77, 78.
26
agressão ocorridos no interior. Ou seja, a violência, ao menos aquela relacionada à política, não mais ficava restrita às querelas locais. Num tempo de democracia incipiente, onde os partidos aprendiam, no “fazer-se” das campanhas, a atrair o eleitor – ou a afastá-lo de seu adversário –, é factível que os atores em jogo fizessem uso, em determinadas situações, de expedientes comuns do passado. Os conflitos entre correligionários após intervenções nos comícios dos adversários é um exemplo disso. Entretanto, o contexto era outro. Por extensão, a violência não era mais a mesma de outrora.
Na prática, os distúrbios e os apartes em comícios rivais eram estratégias recorrentes em ambos os partidos. Para além das disputas políticas através dos jornais, os expedientes usados pelas duas principais agremiações partidárias do estado eram parecidos. Por um lado, o comício tinha caráter de festa e confraternização, espaço privilegiado para o contato – ainda que assimétrico – entre político e eleitores. Em contrapartida, também era alvo de interrupções e apartes desferidos por adversários com intuito de tumultuar e inibir uma eventual identificação eleitoral. Neste sentido, os comícios adquirem uma dinâmica peculiar: iniciam-se com a convocação através da imprensa e dos demais canais de articulação, passam pelo acesso dos eleitores ao local do evento e pela preparação e ordenação das falas, até culminar nos festejos de encerramento. Com traços ritualísticos, os comícios tinham importante papel nas eleições pós-Estado Novo. A violência, nesta perspectiva, deve ser entendida como subproduto das estratégias políticas usadas amiúde para desestabilizar os atos públicos dos adversários.
Em Florianópolis, o PSD realizou dois grandes comícios, no dia 11 e no dia 30 de novembro. No primeiro, o destaque maior foi a presença de Nereu Ramos. Sua chegada à cidade foi noticiada pelo jornal pessedista O Estado, enfatizando a presença do grande número de amigos que fizeram questão de receber o político. Ou seja, a própria chegada do “consagrado tribuno e administrador catarinense” era tratada como um evento, merecendo menção na primeira página do jornal.41Ademais, os jornais pessedistas estamparam também sua página principal com chamadas para o “imponente comício” pró-candidatura Dutra.42Contudo, o evento principal era cercado de eventos menores, anteriores, com
41
Chegou o dr. Nereu Ramos. O Estado. Florianópolis, 10 nov. 1945.
42 “Domingo, às 20 horas, na Praça XV de Novembro, realizar-se-á um comício do Partido Social
Democrático em que falarão, além de próceres, vários partidários e entusiastas da candidatura do General Eurico Gaspar Dutra”. O Estado. Florianópolis, 10 nov. 1945; “... imponente comício de propaganda da
27
objetivo de movimentar os eleitores e, de certa forma, aproveitar a presença do principal líder do PSD no estado. Na manhã do mesmo dia, outros comícios foram feitos na região da Grande Florianópolis. Em “Cambirela”, atual município de Palhoça, ao sul da capital, houve um “meeting”, que contou com a presença de líderes pessedistas locais e foi encerrado pelo prócer maior do partido, Nereu Ramos.43 Parte da “caravana pessedista”