De maneira geral, o conceito de qualidade da cooperação foi entendido pelos entrevistados como o relacionamento interpessoal entre os colaboradores, relacionado a quesitos como colaboração e amizade, sendo de grande importância para os entrevistados.
Na análise realizada pelo software Atlas.ti identificou-se uma concentração em torno de relações interpessoais de sentimentos de identidade relacionados ao Banco.
Essa categoria está presente na visão dos gestores, tanto no que diz respeito às relações que acontecem com os funcionários da empresa no Brasil, como com as relações dos funcionários locais no exterior.
E4 ao falar de cooperação refere-se ao relacionamento interpessoal dos funcionários do Banco X no Brasil, como mais forte se comparada com a relação entre os funcionários da dependência na França. Para exemplificar, comenta que é comum colegas de trabalho no Brasil saírem depois do expediente “para tomar um chope, fazer um happy hour” e entre os
funcionários na França isso não é comum. O entrevistado atribui essa relação menos próxima ao próprio sentimento (ou falta de) pertencimento à organização:
Talvez seja a própria questão da falta desse sentimento de pertencimento. Os funcionários locais na França chegavam de manhã no horário e saía, também, no horário. Tanto é que a gente tinha dificuldade de marcar um encontro. A gente tentou implementar. A presença deles nas festinhas organizadas era bastante limitada, os que iam, não ficavam muito tempo. Tinham muitos que nunca iam.
Por outro lado os entrevistados deixaram claro que o sentimento de cooperação assume significados diferentes nos distintos países. A este respeito, o entrevistado E3 compara a cooperação percebida nas dependências do Banco X no Brasil com a percebida na dependência na Alemanha. No Brasil, os funcionários colaboram com todo o processo de trabalho, eles visam o resultado do processo como um todo. Já, na Alemanha, o entrevistado ressaltou o individualismo, a maior preocupação do funcionário é fazer bem feita a sua parte, entendendo que se cada um fizer sua tarefa bem feita o processo todo será bem sucedido.
É impressionante o respeito à individualidade, isso se dá não só na execução das
tarefas como também no uso das coisas pessoais, a liberdade de cada um vai até onde começa a liberdade do outro. O sentimento de
cooperação para o alemão existe, ele sabe que se ele não fizer a parte dele bem feita, vai comprometer a parte do outro. É diferente da visão de cooperação do brasileiro, que se preocupa com o resultado final e não com o que cada um vai fazer. Ele se preocupa que o trabalho seja realizado chegando até o fim, se for interrompido alguém deverá vir ajudar. Na dependência da Alemanha se acontecer de alguém ter alguma dificuldade ele mesmo vai buscar apoio e ajuda.
Ao falar dos funcionários da dependência do Banco X, em Londres, o entrevistado E7 também relata maior individualismo, contrastando com as relações de amizade no trabalho que vivenciou no Brasil. Apesar de reconhecer que os colaboradores locais no Reino Unido são sociais, o entrevistado distingue as relações das vividas no Brasil ao afirmar:
Em Londres eles são muito individualistas, eles se socializam, mas em momentos definidos, trabalho é trabalho, possuem o núcleo de amigos à parte. Aqui no Brasil misturam-se amigos com trabalho, acaba fazendo núcleo de amigos no trabalho. Os funcionários ingleses seguem sua cultura local de privacidade, de uma forma amistosa, eles são normalmente muito educados, mas também formais.
Neste contexto de relações mais formais e menos próximas da dependência no Reino Unido, o entrevistado E7 faz comentário sobre um funcionário local, de Londres, considerado exceção pelo carisma e pela capacidade de se aproximar dos colegas, contribuindo para as relações interpessoais na dependência. No entanto, apesar de estar atuando na Inglaterra, esse funcionário é português. Sobre o caso, comenta E7: “O funcionário português era um diferencial, tinha um carisma próprio, muitos amigos. Todos gostavam dele, algo natural. O que ajudava muito a gente.”.
Por outro lado, ao falar da cooperação entre os funcionários locais na Bolívia, o entrevistado E1 relata haver diferenças entre as duas regiões onde viveu: Santa Cruz de La Sierra e La Paz: “Em Santa Cruz o pessoal é mais unido. Se um está doente, todo mundo ajuda. Em La Paz, não. Se havia um jantar, o pessoal de Santa Cruz ia todo, em La Paz, iam três, quatro pessoas”. O entrevistado relata uma experiência em que a cooperação extrapolou as fronteiras das relações profissionais, quando colegas, inclusive de outros bancos, no país, fizeram uma campanha para arrecadar dinheiro para ajudar um funcionário cuja casa havia sido destruída em um acidente natural. O que se pode interpretar como uma demonstração de sentimento de classe.
De maneira semelhante, ao falar sobre o relacionamento entre os funcionários locais nos Estados Unidos, o entrevistado E5 descreve maior proximidade. Cabe ressaltar que o quadro de funcionários da dependência nos Estados Unidos, segundo esse entrevistado, era composto por brasileiros, mexicanos, cubanos, guatemaltecos, peruanos e dominicanos e que os funcionários estadunidenses eram filhos de brasileiros ou eram brasileiros naturalizados. Assim, evidencia-se a influência cultural de diversos países de origem latina.
E5 explica a diferença existente nas relações entre os funcionários da dependência do Banco X no exterior e os funcionários da instituição estadunidense, que foi adquirida pelo Banco X nos EUA - BA. Essa nova empresa, originada nos Estados Unidos, manteve sua identidade e independência, apesar de ser uma subsidiária do Banco X. Diz o entrevistado E5:
Como nós temos a sorte de todos sermos latinos, nenhum americano (na
dependência). A gente fazia amigo oculto era aquela farra. Eles (os outros funcionários locais nos EUA) têm o mesmo espírito dos brasileiros, talvez por terem
essa latinidade, o envolvimento entre as pessoas é maior. As pessoas buscam o Banco pelo ambiente, porque sabem que lá estão num ambiente brasileiro, e desejam isso. Ao contrário do B.A. (banco americano adquirido), que tem muitos
funcionários norte-americanos, o local é bom, mas o ambiente é frio. A dependência do Banco X nos Estados Unidos tem o calor latino, tem alegria.
A relação entre os colaboradores dos diferentes países não é uniforme, o que pode ser observado pelos relatos dos entrevistados, referindo-se a comportamentos mais coletivistas ou mais individualistas, de relacionamentos de amizades no trabalho e mais próximas e a relacionamentos mais distantes, ou mesmo de um tipo de relacionamento, como o apresentado pelo entrevistado E3, ao falar sobre os colaboradores na dependência em Frankfurt, na Alemanha:
Você tem situações de conflito entre funcionários locais, entre funcionário e chefe, são normais essas situações. Existem relações de amizade, de afinidade dentro da dependência. Em outros casos o relacionamento é estritamente profissional e no ponto de vista pessoal não tem a menor possibilidade de estabelecer relacionamento. Você tem de tudo.
A síntese da análise da categoria qualidade da cooperação pode ser verificada no Quadro 14 abaixo.
Categoria de D’Iribarne Definição operacional de D’Iribarne Percepção sobre o conceito
Qualidade da Cooperação
Objetivos / propósitos organizacionais formais institucionalizados como forma de obter a cooperação dos empregados. Características das relações interpessoais entre funcionários. Modo de operacionalização de conflitos. Legitimidade das expressões de conflito no grupo (agressões verbais). Disputas entre indivíduos e entre unidades organizacionais Individualismo versus integração.
− Os objetivos do Banco estão claros, mas as relações de cooperação dependem das relações pessoais.
− No exterior essas relações dependem da cultura local.
− No Brasil a cooperação se dá mais por amizade, coleguismo, espírito de corpo.
− Socialização entre funcionários de forma distinta dependendo do país.
− Cooperação realizada em função das tendências culturais diferenciadas individualistas ou coletivistas.
Quadro 14 - Qualidade da cooperação
Fonte dos descritores: Souza, Fenili e Castro-Lucas (2012)
Observa-se que a definição de qualidade da cooperação, para os entrevistados, representam relações interpessoais, em especial os aspectos de relações de amizade.
Considerando que os entrevistados foram gestores nas dependências do Banco X em outros países, é possível identificar a distinção feita pelos entrevistados entre as relações interpessoais no Banco X no Brasil e as relações interpessoais existentes nas dependências do Banco X no exterior. No entanto, para os entrevistados, as diferenças, mesmo quando se tratam de questões como individualismo e coletivismo, não parecem influenciar no resultado percebido no trabalho dos colaboradores.