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Na expectativa de encontrar entre o espólio de Júlio Dinis algo que ajudasse a responder a algumas questões, sobre aspetos da sua vida pessoal e social, leram-se cadernos e papéis que constituem o seu espólio, em formato digital, na BPMP309. São cinquenta e oito os ficheiros de documentos inventariados e organizados por assunto ou por caderno. Importa salientar o facto de Júlio Dinis ter repetido muitas vezes a sua assinatura, como que ensaiando, a forma completa e a abreviada, de registar o seu nome e o seu pseudónimo. Esta é uma questão interessante: Seriam apenas gestos distraídos? treinos? Estaria a tentar mudar a sua assinatura? Quereria distanciar a sua assinatura associada ao nome de batismo, da assinatura do pseudónimo? Às vezes assina GC310, outras vezes assina com os dois nomes311 - Gomes Coelho e Júlio Dinis. Em novembro de 1869, no Funchal, assina j-diniz, com letra minúscula.

306

«Era hábito de Júlio Dinis escrever rascunhos, trabalhar papéis e notas avulsos, em que esboçava os

planos nucleares das histórias que ficcionava, delineando, ainda que a traços muito gerais, as personagens, os acontecimentos e os cenários que imaginava. Tal método de trabalho revela o cuidado que punha na escrita, na preparação dos ambientes, dos momentos principais da acção e na caracterização das personagens.», idem, p.496.

307

«A Egas Moniz ficou a dever-se a descoberta e identificação de dois manuscritos que estiveram na

origem de romances como As Pupilas e a A Morgadinha dos Canaviais», ibidem, p. 497. 308

Ibidem, p. 500.

309

Cf. anexo: Júlio Dinis - Inventário dos documentos de uma colecção particular (Porto) , BPMP, Biblioteca Pública Municipal do Porto, papéis de Júlio Dinis ( cópia digital), Os originais são propriedade particular. Todas as imagens digitalizadas apresentadas nesta tese foram gentilmente cedidas pela BPMP.

310

Idem, JD 37. 311

Ibidem, JD 41. Descrição: F [Manuscrito]: [caderno] / Julio Diniz. [4], 182, [2] p. ; 20x14 cm Na p. [3]: “J. G. Gomes Coelho, Julio Diniz, Impressões do momento, 1865”.

58

Fig. 1.2 - Espólio de Júlio Dinis: Relação dos livros que empresto312

312

59

Não se trata de um espólio volumoso, no sentido de uma coleção de objetos e papéis reveladores de toda uma vida. Não encontrámos jornais lidos, nem recortes pessoais. Júlio Dinis parece ter sido um homem meticuloso, pois nos seus cadernos surgem apontamentos relativos a despesas e receitas a propósito da sua obra e a relação313 de livros emprestados e que tomou de empréstimo314, para além dos livros que comprou. Uma leitura atenta e dedicada, dirigida a este setor do espólio do autor, permite-nos identificar alguns dos seus interesses culturais e literários, pela relação dos livros que comprou e que lhe emprestaram. O autor era meticuloso, registando a data de empréstimo e a data de devolução.

Na “Relação dos livros que empresto” 315

não são muitos os registos; emprestou livros aos seus amigos Luso316 e Passos317 e ainda ao Chaves (assim identificado no caderno do autor) e a Constança, a sua sobrinha Ana Constança Gomes Coelho; alguns não são devolvidos, mas muitos deles têm data de entrada em 1862, em 1863-65 quase não há registos. 1865 foi o ano em que o escritor terá deixado de utilizar este caderno para registo de livros, ou terá deixado de fazer o registo.

Registou a lista dos lugares por onde passou, de 1863 a 1870, sob o título de Ausências:

313

Ibidem, JD36.. Descrição: A [Manuscrito]: [caderno] / Julio Diniz. 206 p. ; 22x16 cm Na p. [1]: “J.G. Gomes Coelho, Livro de assentos, 14 de 8bro de 1861”; [Diário dos capítulos escritos de Uma Família inglesa] (p. 71); “Relação dos livros que me emprestam” (p. 75); “Relação dos livros que empresto” (p. 95); [Caracterização das personagens de Morgadinha dos canaviais] (p. 105); [Relação de capítulos de Uma família inglesa] (p. 109); “Despesa feita em livros desde 1854” (p. 115); [Diário dos capítulos escritos de As pupilas do senhor reitor] (p. 134).

314

Em “Relação dos livros que me emprestam” que começa em 1855, tem muitos títulos de 1860, 1861, 1862, poucos de 1863 e 1864; termina em 1865. Muitos destes livros são do seu amigo Passos, com que também mantém correspondência regular, durante as suas estadias no Funchal.

315

Idem, JD 36, Relação dos livros que empresto.

316

«os herbários de Augusto Luso, professor do Liceu Central, referente à flora do Porto e arredores e o

de Júlio Dinis, com dedicatória a Augusto Luso, relativo à flora da Madeira, ambos datados de 1870»,

Cf. http://cct.portodigital.pt, consulta de 12.07.2016.

317

«(…) enviou [Júlio Dinis, em 1860] poemas para a revista "A Grinalda", dirigida pelo ourives

Nogueira de Lima e na qual colaboravam também os seus amigos Custódio de Passos[ irmão do poeta

Soares dos Passos], Augusto Luso e Soares de Passos», Cf. Universidade do Porto, https://sigarra.up.pt, consulta de 12.07.2016.

«António Augusto Soares de Passos nasceu no Porto a 27 de novembro de 1826 e faleceu na mesma cidade a 8 de fevereiro de 1860. Frequentou o curso de Direito em Coimbra. Enquanto estudante, funda o jornal O Novo Trovador. Nele colaboraram poetas da segunda geração romântica. Terminado o curso, regressa ao Porto, onde colabora nos jornais O Bardo e A Grinalda. Os seus poemas foram publicados em 1856 numa colectânea intitulada Poesias. Soares de Passos faleceu prematuramente, sendo, no entanto, um dos mais significativos poetas ultra-românticos portugueses. A sua composição mais conhecida é "O Noivado do Sepulcro", de que os escritores realistas fizeram grande chacota.» Cf.

http//alfarrábio.di.uminho.pt. consulta de 12.07.2016.

«Joaquim Guilherme Gomes Coelho morreu na madrugada de 12 de setembro de 1871, na casa de uns

primos, na Rua de Costa Cabral. Na sua companhia estava Custódio Passos, primo e fiel amigo, com quem trocou inúmeras castas, às quais ainda hoje temos acesso.» Cf. https://sigarra.up.pt, consulta de 20.07.2016.

60 «1863 — Ovar.

1864 — Felgueiras, Amarante, Leiria, Alcobaça, Batalha, Nazaré, Aveiro, Ovar. 1865 — Felgueiras.

1866 —

1867 — Aveiro, Ovar, Vila do Conde, Póvoa. 1868 — Matosinhos, Leça, Lisboa

1869 — Lisboa, Funchal, Coimbra, Fânzeres 1869 – 1870 —Lisboa, Funchal»318

Estudou e fez apontamentos para se preparar para escrever os seus romances. Encontramos muitas folhas com títulos e algumas com desenhos e contas feitas nas margens. De entre esses seus papéis e cadernos salientamos os manuscritos de «A vida nas terras pequenas»319 , em dois capítulos, com um total de catorze páginas, onde retrata a vida de um jovem médico de partido320: Estevão de Urzeiros, um jovem médico, filho de um modesto funcionário público - e, tal como ele, formado na Escola do Porto -, que se dirigiu a uma distante terra, a vila de Meloais do Duque 321, com a sua irmã Adelina, perante a necessidade de obter o seu sustento, por lhes ter falecido o pai. Trata-se, provavelmente, de um esboço de enredo - o esboço de um conto, ou um estudo para um conto. É um trabalho incompleto, sem data. Seria a preparação para mais um dos seus contos ou romances, sobre a vida de um médico de partido e a aldeia que o recebeu? Faria parte da sua preparação para a escrita de As Pupilas do Senhor Reitor, para a construção da personagem de Daniel ou João Semana? ou seria resultante das figuras de João Semana e de Daniel? Só a sua datação permitiria responder a estas interrogações. O enredo322 é constituído por uma deliciosa sucessão de dissabores para o jovem médico que, logo no seu primeiro dia na aldeia, recebe as personalidades locais e fica a par do que o espera. Estevão, o jovem médico, saíra do Porto, com a irmã de 18 anos, «levando em dois bahus toda a nossa pequena bagagem, em sete ou oito livros a minha sciencia e (…) os meus diplomas de formatura e a nomeação para facultativo municipal (…)»323.

318

Cf. Obras de Júlio Dinis, vol II,.p. 529.

319

Júlio Dinis, «A vida nas terras pequenas», in Obras de Júlio Dinis, vol. II, ob.cit., pp. 601-614 , Cf.

Júlio Dinis - Inventário dos documentos de uma colecção particular (Porto), JD 34. 320

Júlio Dinis - Inventário dos documentos de uma colecção particular (Porto). Este conjunto de papéis manuscritos, JD34, tem cinquenta e sete páginas. Nas últimas folhas o autor organiza lista de lugares e personagens.

321

Idem, p. 605.

322

Cf. Júlio Dinis - Inventário dos documentos de uma colecção particular (Porto), JD 34.

323

«Apurou, a muito custo, o dinheiro preciso para as despesas de instalação e de transporte, preparou a

bagagem e partiu na companhia da irmã para a sua nova terra, levando em dois baús todos os seus haveres, em sete ou oito livros a sua ciência e numa pequena caixa de folha os seus diplomas de formatura e de nomeação de facultativo municipal.», Júlio Dinis, «A vida nas terras pequenas», in Obras de Júlio Dinis, vol. II, p. 605.

61

Viajaram por estradas difíceis e chegaram de noite, depois de «uma fastidiosa jornada a cavallo, por estradas horriveis»324. Os habitantes vinham espreitar, com curiosidade, e atrás deles ficavam a comentar: «Ao passarem os nossos desconfortados viajantes, deixavam atrás de si uma esteira de comentários trocados de adufa para adufa, de uma loja para a outra, da rua para as janelas, ou entre os grupos que estacionavam nas esquinas e largos.»325 Vieram cumprimentá-lo o presidente da Câmara, o regedor, o boticário, o escrivão da administração, dois ou três negociantes e proprietários – todos com oferta dos seus serviços e diante dele todos contaram pormenores da vida local. Falaram do seu antecessor, o infeliz colega que cometeu alguns erros326. E o boticário apresentou a Estevão as suas ideias sobre alguns doentes, comentou que o seu antecessor se envolveu nas eleições locais e acabou por falar das «tropelias eleitorais do circulo»327. Falaram-lhe de corrupção, do boticário e do presidente, da sua mulher intriguista – ‘uma mulher sem educação’ - e das filhas que já tinham «dado que falar por causa d’uns namoros»328.

O jovem médico de partido fala consigo mesmo: Acabavam de perder o pai, que era um modesto funcionário público, e o sustento de ambos tinha de ser assegurado por ele, que, aos vinte e quatro anos, recebera o diploma para exercer medicina, apesar de não ser apaixonado pela sua ciência. Como explica Júlio Dinis, num texto sem rasuras e numa caligrafia clara, o jovem médico portuense, consciente de que deixava para trás a vida de estudante despreocupado e que ia tomar pela primeira vez,

«assento nos círculos sociaes, aceitar a tremenda e espinhosa tarefa de velar pela saude de centenas de pessoas, cada uma com o seu genio, com as suas repugnâncias, com as suas predilecções. Nunca me lembro de me sentir desfalecer como então, (…). Interrogava-me desapaixonadamente, achava-me inexperiente; procurava pesar a minha sciência (…).»

«O partido que ia vencer era pequeno mas asseguravam-me poder duplical-o

com a clinica das famílias abastadas da localidade onde não havia outro que me fizesse guerra.

Eu não tinha liberdade de recusar. O meu futuro era este e para qualquer parte que me voltasse encontrar-me-ia de frente com os mesmos espinhos e estorvos.»329

324

« (...) um pobre viajante, extenuado pelas fadigas de uma fastidiosa jornada, desconjuntado pelo

chouto de uma cavalgadura manhosa, numa palavra, maldisposto do corpo e do espírito, ao entrar de noite em uma vila do interior da província», Júlio Dinis, «A vida nas terras pequenas», in Obras de Júlio Dinis, vol. II, . p. 606.

325

Idem, p. 607.

326

« (…) o outro que daqui saiu; principiou a frequentar certa roda, a meter-se com certa gente …»,

idem, p.612. 327

Cf. Júlio Dinis - Inventário dos documentos de uma colecção particular (Porto), JD 34 .

328

Idem.

329

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Estevão de Urzeiros tinha vinte e quatro anos quando se formou, mas não era apaixonado pela medicina. Porém, com a morte do pai, a irmã Adelina ficou desamparada, olhou para ele como protetor e fê-lo sair do sonho de estudante e acordar para a vida social:

«Tendes reparado alguma vez n’esses pobres emigrados que, seduzidos (…) saem da sua aldeia e vem, em folgada peregrinação, até o porto de mar onde os espera o navio que tem de os levar a praias desconhecidas?

Antes de ver o oceano, essas imprevidentes creanças vinham alegres, riam, cantavam, sem saudades da sua terra, sem terrores do futuro e suspirando só pelo fim da jornada (…) Mas, á vista do mar, d’essa imensa quantidade de águas que nunca tinham sonhado; á vista do navio, essa movediça habitação que por muito tempo vai ser a sua (…) baixa-lhes ao coração uma nuvem de tristeza»330

.

Tendo tudo isto em atenção, o coração do jovem médico é toldado por uma ‘nuvem de tristeza’, e chegam as primeiras saudades da sua vida de estudante despreocupado: «Assim na vida, nós todos, iludidos como essas creanças»331. Na narrativa, Estevão continua a contar o que aconteceu e como se sente no seu 1º dia como médico de partido: a senhoria da casa a quem vão pagar nove moedas de aluguer conhece uma família Borges no Porto, que tem negócios no Brasil, e acha estranho que os dois irmãos não conheçam essa família. O médico e a irmã esforçam-se por dizer que o Porto é grande e que há muitas pessoas com apelido Borges. Mas é em vão. Estevão de Urzeiros já pensa desistir do lugar que acabou de aceitar. Estas são as características gerais da trama. Poderemos aqui especular se este trabalho foi simplesmente abandonado ou se, face às similitudes, se tratava um texto de suporte a uma reflexão para um dos seus romances, com a caracterização de personagens e de ambientes provincianos. Ao longo da leitura dos seus cadernos manuscritos, é-nos dado perceber que Júlio Dinis refletia e preparava para os seus romances, recolhendo informação e elaborando a caracterização das personagens. Assim, o órfão e jovem médico Estevão de Urzeiros e a população da vila de Meloais do Duque poderão ter sido ponto de partida ou um contributo para a caracterização de Daniel, no seu regresso à aldeia, onde toda a vizinhança da casa de seu pai, «afluiu curiosa às portas e às janelas para ver o facultativo novo e julgar dele pelas primeiras impressões. Era uma coleção de olhos arregalados e bocas abertas, a convidar o lápis de um artista»332. Na verdade, em nenhum dos seus romances surge o pobre jovem médico de partido, nem Daniel ou

330 Ibidem.

331

Ibidem. 332

63

João Semana, os médicos de As Pupilas do Senhor Reitor, revelam descontentamento com o exercício da medicina ou são personagens com as dificuldades económicas que levam o jovem médico a aceitar o lugar de médico de partido num lugar tão distante, numa terra encravada no interior da província333. É Júlio Dinis quem nos elucida: «Uma vila! Perdoem-me as muitas pessoas estimáveis constrangidas pelos fados a contar num desses circulozinhos sociais os trezentos e sessenta e cinco dias do ano, mas a minha sinceridade constrange-me a declará-lo: uma vila é a mais impertinente localidade em que um homem pode desgastar as rodas do seu complicado mecanismo.»334

Por outro lado, atente-se na semelhança entre as primeiras impressões de Adelina e de Estevão, ao chegarem, ao anoitecer, às portas da vila, com as suas ruas estreitas e mal iluminadas, as casas velhas e o grupo que, num vão de porta, à luz mortiça da lamparina de azeite, ia desfiando a crónica do dia335, e desalento e a profunda melancolia336 com que o lisboeta Henrique de Souzelas nos introduz na aldeia minhota de A Morgadinha dos Canaviais, onde chegou já de noite337, depois de uma longa, cansativa e desconfortável viagem.

Os ilustres habitantes de Meloais do Duque, caricaturados através daquele maldizer exposto por todos eles, na noite da chegada, são figuras em que podemos reconhecer traços de muitos dos habitantes dos romances rurais dinisianos, na taberna do Canada338 e na loja de João da Esquina339, centros cívicos da aldeia, onde todas as notícias chegam de forma célere e a crítica social e a maledicência são práticas comuns naquelas comunidades, enquanto entidade social viva e cheia de contradições e confrontos.

333

Júlio Dinis, «A vida nas terras pequenas», in Obras de Júlio Dinis, vol. II, p. 606.

334 Idem. 335

Ibidem, p. 607.

336

Júlio Dinis, A Morgadinha dos Canaviais, p. 14.

337

Idem, p. 16.

338

«Censurável descuido tem sido o nosso em não conduzir o leitor a um dos lugares mais importantes da aldeia, onde se passam os singelos episódios desta narração (…) onde se reúnem as principais personagens dela (…) onde se comenta o boato de ontem, se dão ao de hoje mil versões e se adivinha já o de amanhã? (…) Tudo quanto na terra havia de certa representação ali ia falar da coisa pública e também da particular; - da particular dos outros do que da própria, entenda-se.» Ibidem, pp. 134 e 135 339

«Então deveras não sabem o escândalo desta noite? E o Sr João da Esquina, no ardor da curiosidade,

e para fazer a boca doce ao orador, trouxe-lhe uma mão-cheia de figos secos de uma seira encetada e rejeitada por freguês pechoso; e a Sra Teresa esfregou as mãos, e ajeitou-se para ouvir melhor; e a menina Francisca puxou a cadeira em que estava para junto do mostrador.» Júlio Dinis, As Pupilas do Senhor Reitor, p. 285.

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Terminado o serão, Estevão e Adelina foram descansar, ele dizendo-se atordoado com a solicitude encontrada e ela considerando-os «muito obsequiadores»340. Assim termina o texto que se intitula de «Apontamentos biográficos d’um cirurgião de partido», subordinado ao tema «A vida nas terras pequenas», decerto um estudo para a escrita de alguns dos seus romances que aqui analisamos.

Fig 1.3 - Espólio de Júlio Dinis, A vida nas terras

pequenas341

340

Júlio Dinis, «A vida nas terras pequenas», in Obras de Júlio Dinis, vol. II, p. 607.

341

Júlio Dinis, Inventário dos documentos de uma colecção particular (Porto), JD 34, [Manuscrito]: apontamentos biographicos d’um cirurgião de partido. [8] f., 28 p., [8] f. ; 34x12 cm, apontamentos biographicos d’um cirurgião de partido. [8] f., 28 p., [8] f. ; 34x12 cm.

65

Mas, atente-se um pouco mais nos esboços encontrados no espólio de Júlio Dinis. Ao ler o documento JD33 é a vida na aldeia que continua a ser uma fonte de interesse ou preocupação:

«A vida das pequenas cidades e das villas oferece ao observador materia e considerações especiais. Em nenhuma outra parte se desenham melhor os tipos em todos os generos, do que nestes pequenos centros de população, que ressentindo-se ainda dos seus passados habitos de aldeãos aspiram já a apparentarem de grandes cidades, cujas magnificencias imitam, reduzidas em escala acanhadissima.»342.

É ainda sobre a vida na aldeia que, no espólio do autor, nos deparamos com JD 27. Sob o título Um retábulo de aldeia encontramos mais um aspeto da vida dos portugueses: «Uma irmandade ou confraria de certa parochia (…) «procurando dar applicação ao dinheiro que tinha em cofre, convoca assembleia para discutir o assumpto. Aventam-se vários e encontrados alvitres, e afinal resolve-se mandar pintar á cidade um retábulo para o altar da santa sob cuja invocação se erigiu a irmandade (….. )» 343

Mas, também encontramos nos apontamentos Júlio Dinis traços sobre a realidade urbana, na criação de uma nova personagem, Paulo Américo, para a qual não encontramos sequência na sua obra – excepto, talvez, em Henrique de Souzelas, : «Ahi pelos princípios da segunda metade d’este seculo (…) audaz na litteratura militante de Portugal, um talentoso rapaz de vinte e cinco anos, (…) Era o auctor da moda»344

. Paulo Americo vivia o sucesso da poesia, dos prólogos, das opiniões, da prosa porque «as folhas do dia disputavam os seus escritos para os seus folhetins »345. Era um escritor da moda, solicitado pelos jornais para as suas secções de folhetim, nas quais, como sabemos, muitas obras tiveram a sua primeira oportunidade de publicação346. Paulo Américo, dedicou-se muito cedo à escrita: «encetou prematuramente a vida de

342

Júlio Dinis - Inventário dos documentos de uma colecção particular (Porto), BPMP, JD33.

Descrição: «A vida das pequenas cidades e das villas…», [Manuscrito]. 14 f. ; 33x23 cm Parcialmente publicado em« Inéditos e esparsos», cap. “D. Doroteia”.

343

Idem, JD27. Descrição: Um retabulo de aldeia [Manuscrito]: programa. [2] f. ; 23x17 cm. (Novos

serões de província; 3º).

344

Ibidem, JD20. Descrição: Peccados litterarios [Manuscrito] / por Julio Dinis. 12 f. ; 33x12 cm; JD21. Peccados litterarios [Manuscrito]: programa. [2] f. ; 23x17 cm. (Novos serões de província).

345

Ibidem.

346

66 escriptor»347. Publicava, recebia zombarias da crítica. Só teve como família um tio rico e egoísta. Não havia carinhos de mulher nas suas recordações de infância. Este poderia ser o esboço de uma personagem: Paulo Americo, «escritor conhecido, lido clandestinamente pelos filhos, temido e abominado pelos pais»348, que escrevia romances «à imitação dos de uma certa escola francesa, em que o vício se adorna de galas sedutoras e a virtude é tratada com risos de zombaria, eram a sua produção favorita.»349 Mas, Paulo Américo muda-se para o campo e a «mudança de hábitos e de meio faz dele um outro homem e, tempos depois, apaixona-se por uma menina, filha de um facultativo pobre (…)»350. Mais uma vez, Júlio Dinis procura afirmar e demonstrar o