Moreno (1992a) afirma que a espontaneidade e a criatividade não são necessariamente processos similares ou idênticos, são categorias distintas. A espontaneidade, segundo o autor, pode ser diametralmente oposta à criatividade. Um indivíduo pode apresentar um alto grau de espontaneidade, mas ser carente de criatividade. É o que Moreno (1992a) chama de idiota espontâneo. Por outro lado, pode-se encontrar um indivíduo com alto grau de criatividade que não apresente nenhuma espontaneidade. Este é o que ele considera um criador sem braços, ou um desarmado.
A espontaneidade é considerada um catalisador da criatividade. Sobre isso Moreno (1992a, p. 147) argumenta que a criatividade sem espontaneidade não tem vida. Sua intensidade vital aumenta e diminui em razão direta da espontaneidade da qual partilha. A espontaneidade sem criatividade é vazia e abortiva . Portanto, ambas devem caminhar juntas, pois é a espontaneidade que catapulta pessoas criativas e métodos criativos em direção à ação . (KARP, 1998, p. 61).
72
Ora, se a espontaneidade caracteriza o núcleo antropológico do homem como indivíduo, como que constituindo a sua própria essência, sua alma, também é verdade que, freqüentemente, ela é definida como um catalisador para as ações no mundo deste mesmo homem potencialmente criativo. Sob este ponto de vista, considerando que a criatividade é movimento de expansão no mundo que torna visível a espontaneidade, é natural que não se possa compreendê-las senão como um binômio, uma fazendo parte da outra, e daí a utilização do termo espontaneidade-criatividade amalgamadas como algo único. (PERAZZO, 1999, p. 4).
Tratar sobre espontaneidade e criatividade e relacioná-las com a importância de seu incentivo nas organizações torna-se relevante, porque é da aplicação da capacidade criativa das pessoas que nelas estão inseridas que se conseguirá crescimento, transformação. Ou seja, é por meio desse processo que serão atingidos alguns espectros da mudança organizacional. Segundo Blatner e Blatner (1996, p. 59) a criatividade ganhou importância na filosofia moderna desde que a civilização começou a captar as verdadeiras implicações do conceito de evolução o processo inevitável de crescimento e transformação . Então se conclui que, quanto mais respostas espontâneas e criativas as pessoas puderem dar, mais fácil ficará a busca pela mudança em todos os âmbitos.
A ênfase que Moreno dá à espontaneidade e à criatividade contribui para que se fortaleça a flexibilidade mental dos indivíduos para assumirem responsabilidade, e se estimule a investigação de novas possibilidades e tomadas de iniciativas, tudo isso, aliado ao fator confiança. Assumir responsabilidades e trazer a criatividade para o momento atual são os elementos básicos do psicodrama . (BLATNER e BLATNER, 1996, p.63).
Apresenta-se a seguir a figura 3.2 sobre os cânones da criatividade, com o propósito de esclarecer o continuum que Moreno define em sua teoria sobre espontaneidade e criatividade, introduzindo ainda o conceito de conserva cultural, definida pelo autor como o produto que surge da interação entre espontaneidade e criatividade.
Para entendimento de tal figura tem se que: E corresponde a espontaneidade,
73
considerado a expressão operacional da espontaneidade. O círculo representa o campo de operações entre E, C e CC.
Figura 3.2
Cânones de criatividade
Espontaneidade Criatividade Conserva
Campo de operações rotativas entre Espontaneidade Criatividade Conserva Cultural (E C CC)
Fonte: MORENO (1992a, p. 153)
Ocorre nessa figura o seguinte ciclo: na primeira operação a espontaneidade despertou a criatividade (E C). Na segunda operação a criatividade é receptiva à espontaneidade (E C). Na terceira operação, da interação ocorrida, resultaram conservas culturais. (CC. E C CC.) Já na quarta operação, as conservas (CC) acumular-se-iam indefinidamente e permaneceriam armazenadas a frio . Precisam renascer e o catalisador Espontaneidade as revitaliza. (CC E CC.) A E não
74
opera no vácuo, movendo-se ou em direção à Criatividade ou em direção às conservas . (MORENO, 1992a, p. 153).
A conserva cultural pode ser compreendida como tudo aquilo que foi um dia pensado, elaborado e acabado, ou seja, pode ser um livro, uma obra de arte, uma música, entre outros. Moreno (1997a, p. 158) afirma que a conserva cultural é uma mistura bem sucedida de material espontâneo e criador, moldado numa forma permanente. Como tal converte-se em propriedade do grande público, algo de que todos podem compartilhar .
Fonseca Filho (1980) complementa: a conserva cultural é produto da criatividade. Ela pode ser considerada um impulso do homem em relação à imortalidade, porém; por melhor que seja a criação espontânea, deixa de sê-lo, quando se conserva. Assim como na obra de arte, entende-se que o mais importante é o momento da criação e não a obra acabada.
A vida humana é muito mais inovadora que repetitiva, sua essência repousa em ser inovadora, não no que já está como conserva de nossa cultura. As conservas culturais repousam estáticas nos livros, nos museus, nas pinacotecas. Moreno dá muito mais valor ao ato da criação do que a criação do momento conservada, posteriormente, como pertence de uma cultura. (FONSECA FILHO, 1980, p.11).
Considera-se relevante fazer um paralelo entre a conserva cultural e a realidade das organizações, pois nesse contexto existe a necessidade de recriar, de reconfigurar respostas que atendam cada vez com maior qualidade a um ambiente extremamente competitivo. Respostas prontas, estereotipadas, comportamentos padronizados, devem ser substituídos por respostas inéditas, inovadoras e pela iniciativa das pessoas para a resolução de problemas enfrentados no dia-a-dia. Blatner e Blatner afirmam que (1996, p. 78) o comportamento automático, habitual, fixado, compulsivo, rígido, estereotipado, chegando até à esterilidade, é o oposto da espontaneidade .
75
É importante salientar que as normas, as regras ou a padronização de alguns procedimentos devem existir, porém essas não podem servir para aprisionar as pessoas, cristalizando comportamentos e tolhendo a sua capacidade criativa. Para Garrido Martín (1996, p.124), as conservas podem transformar o homem num robô previamente programado, pois surgem da ansiedade do homem, querendo ter assegurada a sua resposta diante do desconhecido .
Seguindo essa esteira, Bustos (1992, p. 20) afirma que as normas sociais de nosso meio de criação que adora símbolos do status, as conservas culturais, os produtos da criação em vez do ato criador, deixam cada vez menos espaço para a espontaneidade . Blatner e Blatner (1996, p. 60) complementam essa idéia com a seguinte afirmação: uma das principais razões do desvio do aspecto espontâneo de nossas mentes é que ele ameaça a estabilidade e a autoridade dos sistemas culturais hierárquicos .
Verifica-se que a tendência das organizações, mesmo passando por processos de mudanças, ainda é uma postura conservadora, não explorando devidamente o espontâneo e o criativo. Talvez aí esteja uma das causas pelas quais fique tão difícil realizar plenamente processos de mudança.