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VII/ Importance du contexte et ressenti vis à vis des entretiens

Na época, começava a ocorrer, na Europa, um intenso fluxo de concepções e princípios pedagógicos. Entre nós, manifestava-se, claramente, a influência francesa (Villares, 2003). Um fluxo porventura favorecido pelos contactos estabelecidos durante as invasões francesas e, sobretudo, pelas muitas famílias que, no vaivém político dos governos e das revoluções que coloriram o século XIX português, conheceram o exílio e, posteriormente, regressaram à pátria. A esta situação, acrescia a facilidade crescente de comunicações via correio.

E se, nalgumas famílias, como era o caso da família Rio Maior, esse contacto se estabelecia directamente, por vontade própria e desejo de conhecimento, traduzido no envio regular de livros e periódicos estrangeiros, para a maioria dos portugueses, o veículo preponderante era a imprensa periódica nacional e, por isso, a informação era de carácter circunstancial, e dependia da interpretação que, das concepções originais, faziam os autores dos artigos que vinham a público.

Para os mais abastados, o contacto com a Europa, fazia-se ainda através das viagens, quer se tratasse da viagem pela Europa com que, tradicionalmente, os filhos varões davam por terminada a sua educação (Nobre, 2003) quer das peregrinações habituais entre os católicos e que tinham, como principais destinos, Lourdes e Roma.

No início dos anos 60, Teresa de Saldanha refere-se a uma dessas viagens, efectuada pela infanta D. Isabel, na companhia da sobrinha, Maria Amália de Mendonça:

Ontem estive em Benfica com a Sereníssima Infanta. Saímos de casa às 6 horas e ouvimos dar 10 horas estando ainda em Benfica! A Sereníssima Infanta, D. Maria de Almeida, a mamã, João de Vilhena e eu. Que visita tão comprida, não é verdade? Por fim já estava com sono, mas ao mesmo tempo gostei de ouvir contar tantas coisas de Roma. A Infanta tem um álbum quase do tamanho do do Papá, cheio de retratos. Principia pelos do Santo Padre e seguem os de quase todos os Bispos que foram à canonização. Alguns destes que vieram do Oriente têm grandes barbas, alguns são bastante velhos, mas há muitos que são muito moços, com caras de talento. A Infanta gostou tanto que fala em voltar, mas não já. O Visconde de Alba parece que lhe fez uma recepção magnífica. Remeto-te (...) as contas que te trouxe a Maria Amália. Diz que procurou muito para achar uma medalha, como tu querias, de prata, mas não achou. Espero que aches bonitas as contas. (...) A Maria Amália trouxe-me uma lembrança muito bonita. Umas contas todas enfiadas em prata, uma cruz também de prata, são uma contas lindas. Recomendou-me que guardasse segredo, porque não trazia para outras pessoas e para evitar ciúmes era melhor não dizer nada. (...) (ADSCS, C 6379, de TS à cunhada, Marquesa de Rio Maior, 4 Ag [1862])

Teresa de Saldanha realizou duas grandes viagens: a primeira em 1867, em que visitou a Exposição de Paris,36 passando por Madrid, Burgos e Bordéus (ADSCS, C 6861; IAN/TT,

AC, Cx 40; Rio Maior, 1987; Thiaucourt, 1987) e outra, dez anos mais tarde, com destino a Roma (ADSCS, C 0756; Thiaucourt, 1987). Nessas viagens, estabeleceu diversos contactos e visitou instituições de assistência social e de ensino. Pelo valor histórico, mas também pelo interesse que tem para o presente estudo, transcrevemos uma carta que Teresa escreveu de Paris, em 1867, à sua amiga e companheira, Maria Augusta Campos:

36 De acordo com Manique da Silva (2002) a Exposição Universal de Paris, foi, como a que se lhe seguiu, em

Viena, em 1873, uma das que deu maior destaque à questão do ensino e das condições do ensino e das escolas nos vários países.

Chegámos a Paris a 25 de Agosto, tendo ficado em Madrid dois dias, e outros dois dias em Bordeaux. De Lisboa a Madrid estivemos 29 horas a fio, no caminho de ferro, tendo tido só, para descansar, vinte minutos; e não tendo nas estações que comer, de maneira que passámos fome, pois o calor era tão forte que algumas coisas que tínhamos levado para comer nos vagons, estragaram-se com a força do calor. Essa parte de Espanha que atravessámos é feíssima, o mais árido possível, sem gente, sem casas, parece um país abandonado. Madrid é uma cidade muito diferente de Lisboa. Há bairros mais animados do que os de Lisboa; mas Lisboa é uma cidade mais bonita e mais alegre. Faz novidade as espanholas, sempre na rua, sempre a correr com o abanico na mão, é tão diferente do que se vê em Lisboa! Visitei em Madrid algumas Igrejas e vi um estabelecimento de Irmãs da Caridade, aonde há aulas externas, órfãos e visitas aos pobres. Tudo muito pobre, excepto a capela, que é muito bonita. Faz-me lembrar dos nossos colégios. Em Bordeaux, vi também um estabelecimento das Irmãs, que também tem aulas externas, e visitei o hospital, que é magnífico. Algumas das Irmãs que estão em Bordeaux, estiveram em Lisboa e tiveram um grande gosto vendo-nos. Ouvi Missa na Igreja de São Domingos, os dois dias que estivemos em Bordeaux. Vi a catedral, a igreja dos Carmelitas, que ambas são muito bonitas e no estilo gótico. A viagem toda de Madrid a Bordeaux e de Bordeaux a Paris é muito bonita. A passagem dos Pirinéus é admirável, pelas dificuldades que decerto tiveram que vencer e admira-se a inteligência que Deus deu ao homem para executar semelhantes obras. Atravessam-se 61 túneis, e acaba-se de passar por um, para nos acharmos sobre uma ponte perigosíssima, à borda de um precipício; é uma viagem bastante perigosa, mas que nós, graças a Deus, fizemos muito bem. Aqui, em Paris, não tenho parado e tenho visto coisas admiráveis. O palácio da exposição, ao princípio não parece ser magnífico; o exterior não é grandioso, há muitas bandeiras, muitos restaurantes, faz lembrar uma feira; mas depois, visitando-se o palácio, é que se vê coisas belíssimas. São galerias, umas depois das outras, aonde estão expostos os produtos dos diferentes países, e classificados de maneira que podem-se comparar e ver quais são os melhores. Em cristais há coisas lindas e os melhores são os ingleses. Na parte inglesa há nos ourives objectos de imenso valor. Há um colar, brincos e cruz de diamantes avaliados em noventa contos! Está vendido. Há tanta coisa, e de tanto género que levaria horas a contar-te tudo. Há a parte das máquinas, aonde se faz, em dez minutos, um par de botas. Vê-se cortar a fazenda, cozer, pregar a sola, tudo pela

ajuda da máquina. Fazem-se chapéus também num momento e é curioso ver os diferentes processos, para se conseguir ter um chapéu. Bilhetes de visita, diz-se o nome e em dois minutos, aparecem um cento de bilhetes. Em todas estas repartições, há raparigas que trabalham. Por toda a parte há raparigas que estão nas lojas e que fazem as contas. Deixando a Exposição, venho falar-te em outras coisas que talvez te interessem mais. (...) Fui ver o Hospice Eugène Napollon, aonde há órfãos, e que é sustentado pela Imperatriz. Tudo o que se diga da boa ordem deste estabelecimento, é pouco; está numa perfeição, e aqui estão as Irmãs de São Vicente. Vi outro d'Enghieu, aonde há todas as obras, e dá-se educação a mil e cem crianças! Há casa de asilos, aula externa, orfanato para rapazes e raparigas e ensinam os jeunes ouvriers, que trabalham numa fábrica, e vão à noite aprender a ler, e aos domingos recebem instrução religiosa. Esta obra fez-me lembrar a nossa e começou do mesmo modo; foi um jeune ouvrier que pediu a uma Irmã que lhe ensinasse. Hoje são 400! Esta casa d’Enghieu, vê-se que tem poucos meios e, quanto a limpeza deixa muito a desejar. O que aqui vejo, por toda a parte, é que procuram todos os meios de trabalhar e ganhar. Fazem fazer as crianças todos os trabalhos possíveis, bordam, cozem, pintam. Isto é que é muito necessário arranjar em Portugal. (ADSCS, C 0331, 4 Set 1867, sublinhado no original)

Araújo (1993), Clemente (2002a, 2002b) e Ferreira (2002) dão-nos conta de vários livros, particularmente de autores franceses, como Chateaubriand e Lammenais, traduzidos em português, que traziam para Portugal os conceitos mais recentemente divulgados noutros países, tornando-os acessíveis a um outro público, com menos relações com o exterior, mas que encontrava, nestes textos, argumentos para as suas posições ideológicas. O mesmo se pode dizer de literatura menos filosófica, mas nem por isso menos influente, como os romances, que ditavam os costumes e que vinham também, em boa parte, de França (Barreira, 1992): Honoré de Balzac, Victor Hugo, Eugène Süe, Alexandre Dumas, Émile Zola, entre outros.

Teresa de Saldanha manifesta, nas suas cartas, que tem conhecimento do que vai acontecendo pela Europa, principalmente em França. Em Agosto de 1870, por exemplo, dá conta da entrada do exército prussiano em França: “Estou com dó dos franceses, vai tudo mal. Talvez a estas horas os Prussianos tenham entrado em Paris. Pobre nação!” (IAN/TT, AC, 40, 105, de TS à cunhada, Marquesa de Rio Maior, 28 Ag 1870); “De França sempre más notícias. Pobre

França!” (IAN/TT, AC, Cx 40, 106, de TS à cunhada, Marquesa de Rio Maior, 30 Ag 1870). Alguns meses mais tarde, refere-se aos massacres que ocorreram em Paris: “Hoje que notícias de França? Quando entraram na Roqueta, acharam todos os prisioneiros massacrados, mais de trezentos eclesiásticos!” (ADSCS, C 5307, de TS à cunhada, Marquesa de Rio Maior, 2 Jun 1871). E, três dias depois: “E os santos Mártires em Paris? Os nossos Dominicanos foi toda a comunidade (...). Saíam por uma porta uns atrás dos outros e matavam-nos. (...) Supõe-se que morreram muitas Irmãs de S. Vicente. Que houve um massacre de muitas” (ADSCS, C 5308, de TS à cunhada, Marquesa de Rio Maior, 5 Jun 1871).

É com França que, inicialmente, Teresa de Saldanha mantém contactos, porque é de França que lhe vêm, como veremos, as principais leituras e a motivação ideológica. Mas as relações que, mais tarde, estabelece com a Irlanda e com a Inglaterra, vão revelar-se de extrema importância para o desenvolvimento da sua obra. Teremos oportunidade de as referir.

Nas cartas de Teresa de Saldanha, encontramos inúmeras alusões a pessoas, livros e leituras. Vemos que, frequentemente, pedia a outras pessoas, por exemplo à cunhada (IAN/TT, AC, Cx 40, 85), que lhe trouxessem livros do estrangeiro e comentava as últimas leituras efectuadas.

De entre os autores referidos nas cartas, destacamos Lacordaire, pelo ênfase que Teresa de Saldanha coloca nas referências que faz, revelando inequívoca admiração pela pessoa e sintonia, ou mesmo identificação, com os princípios que defende. Na década de 60, Teresa de Saldanha escreve à cunhada:

Tenho lido o Lacordaire e muito gosto. Mas, que impressão, parece-me que se está aqui passando o mesmo que naquele tempo se passava em França. (...) O estabelecimento dos Jesuítas, o que já faziam, as leis tão opostas e depois, o que o Lacordaire sentia: desejos e receios; isto que tão bem percebo. (...) Mas, tenho quase vergonha de dizer isto, receando que possa fazer supor eu me atrevo a pôr-me na altura do Lacordaire, tão cheio de talento, e tão superior! (ADSCS, C 6357, de TS à cunhada, Marquesa de Rio Maior, [1866])

Mais tarde, Teresa recomendará a leitura deste autor ao Abade de Souselas,37 com quem

trocará correspondência a propósito de uma fundação em Vila do Conde (Ribeiro de Castro, 2003). De uma carta do abade, extraímos o seguinte:

Ontem quando escrevi a V. Ex.ª, por ser à pressa, esqueceu-me falar sobre o Lacordaire (...) tenho as obras dele em seis volumes. No primeiro tem – a memória ao meu país – sobre o restabelecimento das Ordens Religiosas em França e a vida de São Domingos. Nos outros – os discursos – e a explicação e refutação do sistema filosófico do Lammenais.38 Tive conhecimento do Lacordaire quando em 1856 escrevi e imprimi a

refutação à parte do sistema filosófico ensinado no Liceu de Braga pelo Professor Pinheiro. A edição que possuo é de 1857. Fui e sou apaixonadíssimo do Lacordaire, sem contudo partilhar, ou antes, dar inteira adesão, à escola em que se filiou com o Conde de Montalembert.39 Ora se os dois volumes, que a Ex.ma Senhora Condessa com tanta

bondade me emprega, tratam doutro objecto muitíssimo desejava vê-los. (IAN/TT, AC, Cx 41, 11 (18), 9 Nov 1873, sublinhado no original)

Refere-se aos “dois volumes da vida íntima e religiosa do P. H. D. Lacordaire por B. Chocarne” que alguns dias depois recebeu pelo correio, como atesta em carta de 13 de Novembro (IAN/TT, AC, Cx. 41, 11 (19)).

As biografias de Lacordaire, segundo Chocarne e segundo Besson, e a correspondência que trocou com Madame Swetchine,40 mereceram entusiasmo semelhante que Teresa partilha com

a cunhada, a mãe e várias amigas (ADSCS, C 0463, C 1904, C 2835, C 7133).

37 Padre José Ferreira Marnoco e Sousa.

38 Félicité Robert de Lamennais (1782-1854). Defensor das ideias liberais, fundou com Montalembert o jornal

L’Avenir, a que se juntou Lacordaire. Depois da condenação do jornal pela encíclica Mirari Vos, deixou a Igreja, movimento em que não foi acompanhado por nenhum dos dois companheiros.

39 Charles-Forbes-René, Comte de Montalembert (1810-1870). Católico liberal, autor da célebre expressão “uma

Igreja livre num Estado livre”. Co-fundador de L’Avenir. Defensor, com Lacordaire, da liberdade de ensino.

40 Sophie-Jeanne Soymonof Swetchine (1782-1857). De origem russa, radicou-se em Paris onde ficou conhecida

pelos serões que juntavam em sua casa nomes importantes do pensamento francês do século XIX, como Maistre, Tocqueville, Lacordaire, Guizot, Falloux, Montalembert. As cartas que trocou com estes e outros ficaram

A viagem que, em 1877, Teresa de Saldanha realiza a Roma, teve como ponto alto a visita ao Convento de Santa Sabina, onde tinham vivido Lacordaire e, também, Besson (ADSCS, C 5390), um dos primeiros que se juntou a Lacordaire na restauração da Ordem Dominicana (ADSCS, C 0049).

Jean Baptiste Henri Dominique Lacordaire (1802-1861) foi o restaurador da Ordem Dominicana em França, acontecimento a que Teresa de Saldanha não era indiferente. Mas, a esta circunstância se juntava a comunhão com a defesa dos ideais liberais que notabilizaram Lacordaire. Ficaram célebres os artigos que escreveu no jornal L’Avenir, em que colaborou com Lamennais e Montalembert, bem como os discursos que proferiu na Igreja de Notre- Dame, em Paris. Apaixonado pela educação da juventude como meio de renovação da sociedade, tornou-se responsável pela fundação de várias escolas cristãs e de uma congregação dominicana dedicada ao ensino. Encabeçou, com Montalembert, a defesa da liberdade de ensino. Convicto de que a religião católica era o único meio de salvação do Homem (Monserret, 1993), Lacordaire encarou a tarefa de ensinar como uma forma de evangelização, a mais necessária, que suscitasse nas gerações mais novas o entusiasmo na luta contra o mal (Metz, 1993). Era, como bem sintetiza Montserret (1993) no título do artigo que lhe dedica: “Mestre, porque pregador”.

Jossua (1996) identifica, no espírito de Lacordaire, duas afinidades entre o Evangelho e o que se procurava naquele tempo: a liberdade e a justiça. Liberdade cristã, “face ao absolutismo e ao cinismo políticos, como face aos abusos da autoridade dentro da Igreja e na sua relação com a sociedade” (p. 11); a justiça dos profetas “que denuncia o que é abominável aos olhos de Deus na maneira de tratar o pobre e o estrangeiro” (p.13). E sublinha o “sentido social” que, na luta pela justiça, o faz indignar-se com “a exploração indevida dos fracos, a inadmissível repartição das riquezas, a lei, demasiado dura, do trabalho e da pobreza” (p. 13). Na defesa, assumida, dos direitos do Homem, Lacordaire põe em causa a escravatura, defende os direitos dos índios, repudia qualquer forma de racismo (Jossua, 1996). Para Lacordaire, “A doutrina católica é a única que (...) produz a caridade da fraternidade”. E acrescenta: “A

célebres e muitas estão publicadas. De acordo com Mélonio (2003), Madame Swetchine teve um importante papel na reforma da Ordem Dominicana e da Ordem Beneditina.

fraternidade é a partilha recíproca do coração, do trabalho e dos bens; (...) esta virtude deveria colar-se a nós por uma fonte tão simples e natural como a nossa vida” (1996, p. 257).

Para além de Montalembert, Lacordaire admirava e sintonizava com outros personagens importantes como Chateaubriand,41 em quem via “a aliança rara da afirmação da fé e do amor

da liberdade” (Jossua, 1996, p. 16) e Ozanam.42 Este último, participara com Lacordaire e

com o Padre Maret, no projecto do jornal Ère Nouvelle (Lacordaire, 1996; Fontes, 2000) e concretizaria, na fundação das Conferências Vicentinas, o desejo de justiça e de regeneração social de Lacordaire. A sua oração fúnebre foi proferida pelo próprio Lacordaire (1996).

As alusões que Lacordaire faz a Tocqueville43 (Lacordaire, 1996) dão a entender que conhecia

a sua obra e se revia nos princípios deste ilustre personagem que ficou conhecido como percursor da democracia. O próprio Tocqueville assistiu a algumas das suas conferências em Paris e considerou-o “um jovem padre dotado de uma rara eloquência”, como escreveu a Lord Radnor, em carta, datada de 1835 (Tocqueville, 2003, p. 325).

O projecto pedagógico que Lacordaire levou a cabo, principalmente nos últimos anos da sua vida, espelhou os seus ideais. De acordo com Monserret (1993), na análise que faz da acção de Lacordaire como director da Escola de Sorèze (1854-1861), mais do que falar de uma pedagogia de Lacordaire, deve falar-se das suas perspectivas educativas e da maneira como usou os meios de que dispunha, para as concretizar. Desta análise, que nos interessa particularmente neste estudo, sublinhamos que:

* aproveitava as oportunidades que se lhe ofereciam para exaltar a dignidade e a liberdade dos alunos, incentivando-os a ser homens e cidadãos livres;

* favorecia a livre expressão, a troca de opiniões e o espírito de iniciativa, desde que assumido com responsabilidade e considerava livre a participação nos actos religiosos;

* utilizava as tradições, de origem militar, de recompensa e de atribuição de graus, do colégio, multiplicando as ocasiões de louvor;

41 François-René de Chateaubriand (1768-1848). Foi escritor influente, diplomata, ministro. 42 Antoine-Frédéric Ozanam (1813-1853).

* cultivava a proximidade com os alunos, numa atitude de simplicidade, conservando a sua porta sempre aberta.

Montalembert, Lacordaire, Madame Swetchine, Dupanloup, são nomes a que a Marquesa de Rio Maior se refere no seu livro (1987), a propósito de uma sua viagem a França, em 1864, em que conheceu pessoas que se relacionavam com “todo aquele centro de onde também reviveram os dominicanos em França” (p. 48). Contactos que manteve, depois do regresso a Portugal. Dessa viagem trouxe, a Marquesa, diversos livros, sobretudo “obras que falavam dos Dominicanos” (p. 49). Teresa de Saldanha estabeleceu também, ela própria, contactos importantes com este “centro”, através, sobretudo, das Irmãs dominicanas de Nancy, fundadas sob inspiração de Lacordaire (Nicolau, 1996).

O nome de Dupanloup44 (1802-1878), merece-nos especial atenção. Para além de referido

pela Marquesa de Rio Maior, ele aparece, também, referido em dois relatórios da Associação Protectora de Meninas Pobres: “uma alma santa, tão conhecida pelas suas virtudes e pelos seus escritos” (ADSCS, D 3816, Relatório da APMP; 1877), “o grande apóstolo da educação” (ADSCS, D 3831, Relatório da APMP, 1908). Dupanloup deixou diversos escritos importantes, nomeadamente os três volumes de De l’Education (1887a, 1887b, 1887c) e que nos interessam pelos princípios de educação que neles enunciou. Entre estes, sublinhamos:

* a concepção de educação como processo activo de desenvolvimento das faculdades humanas (Educere) mais do que uma acção de instrução em que se fornece um conjunto de conhecimentos; se se trata de ‘desenvolvimento’, a educação tem um carácter progressivo;

* a consideração de que a educação tem um carácter integral porque o aluno a educar é um só: é “física, intelectual, disciplinar45 e religiosa” (Dupanloup, 1887a, p. 27) e “se uma

delas falhar, a obra fica incompleta” (Dupanloup, 1887a, p.101);

* a distinção clara entre educar e instruir: “A Educação desenvolve as faculdades. A Instrução fornece os conhecimentos” (Dupanloup, 1887a, p. 137);

* a afirmação de que a criança é um ser dotado de liberdade, que tem de ser respeitada: a criança “é o próprio homem,, depositário de todos os seus dons, de todas as suas

44 Felix-Antoine-Philibert Dupanloup, Bispo de Orléans.

esperanças, de todas as forças da humanidade, revestido (...) de toda a actividade, de toda a dignidade humana” (Dupanloup, 1887a, p. 181);

* a insistência no papel do educador e no seu dever de promover a acção do aluno: “Na educação, aquilo que o mestre faz por si mesmo é muito pouco; aquilo que ele faz fazer é muito” (Dupanloup, 1887a, p. 7). A educação só acontece se o aluno assumir o seu papel de agente da sua própria educação e trabalhar nesse sentido;46

* a necessidade de respeitar a idade das crianças, não exigindo que desenvolva, exageradamente, algumas das suas capacidades com prejuízo da sua integridade;

* o apreço pelos jogos, pelos momentos de recreação, como um dos grandes meios da educação:

É preciso que as crianças brinquem, se divirtam, descansem, despendam em prazeres inocentes a exuberância do seu vigor, a vivacidade do seu humor, o ardor do seu sangue. (...) a alegria dilata a alma da criança, se ele for alegre, contente, feliz, as más tendências cederão lugar às boas. (Dupanloup, 1887c, pp. 607-608)

* A escolha do amor, ‘pastoral, paternal’, pelas crianças como o meio mais importante