Os “saberes tácitos”, segundo Aranha (1997), têm também sido denominados “conhecimentos tácitos”, qualificações tácitas, “savoir-faire” e “saberes do trabalhador”. Isso bastaria para explicar a dinâmica dos saberes e dos conhecimentos tácitos, engendrados das diferentes relações de trabalho. “Esses saberes resultariam do caráter não previsível da relação entre os homens e seu meio laboral, quando do exercício de determinada atividade técnica, condicionando-os a produzir formas de conhecer e intervir nessa realidade” (RODRIGUES, 2012, p. 159).
O saber tácito, resultante das relações do trabalho na carpintaria naval, configura-se como uma das dimensões do saber social, apresentando características político-sociais próprias de elaboração e significação de saberes, bem como de resolução de situações- problema e de desafios oriundos das relações dos artesãos com a atividade34 que praticam. Tratar-se-ia, por assim dizer, de:
[...] saberes voltados para atividades de produção, que estariam circunscritos tão somente ao domínio de um conhecimento técnico, mas com força política para estabelecer negociação entre patrão e trabalhador, porque necessário para a execução de um determinado trabalho. Logo, esses saberes, que podem ser traduzidos em gestos, expressões e sensações, possibilitam ao trabalhador uma maior determinação de como resolver situações-problema oriundas de suas atividades laborais (RODRIGUES, 2012, p. 67).
Os saberes tácitos, em grande parte, são adquiridos e legitimados como ações coletivas entre os trabalhadores no conjunto de relações profissionais e sociais que desenvolvem no trabalho da carpintaria, caracterizando, portanto, uma relação do aprendizado e da formação profissional. Nesse sentido, saberes e conhecimentos tácitos podem ser explicados “como um processo de socialização de conhecimentos a partir da troca de experiências na forma de modelos mentais ou habilidades técnicas compartilhadas” (FARTES, 2002, p. 242).
34 “A atividade propriamente humana só se verifica quando os atos dirigidos a um objeto para transformá-lo se iniciam com um resultado ideal, ou finalidade, e terminam com um resultado ou produto efetivo, real” (VÁSQUES, 1977, p. 187).
Tal relação de aprendizagem é dinamizada, de acordo com Fartes (2002), no aprender fazendo, uma prática educativa bastante difundida na transmissão dos saberes vinculados ao trabalho, o que supõe articulação da prática formativa como atribuição de novos significados aos saberes tácitos desenvolvidos pelos trabalhadores. Nessa mesma perspectiva, Araújo (2012) afirma que:
[...] toda prática formativa é uma prática social que se constitui num processo por intermédio do qual os sujeitos vão produzindo as condições materiais, espirituais e as relações sociais que garantem a sua existência; consiste num fenômeno social integrante das relações sociais, econômicas, políticas e culturais de uma determinada sociedade, cujas finalidades e meios do processo formativo se subordinam à estrutura e à dinâmica das relações entre as classes sociais, sendo, pois, socialmente determinado. Isso significa dizer que, além de ser construída, é constituinte dessas relações, e compõe- se, segundo Frigotto (1995), num campo de disputa hegemônica, nas diversas esferas da vida se dão em sintonia com os interesses de classes (ARAÚJO, 2012, p. 161).
Materializada nas ações do trabalho artesanal da carpintaria regional, a prática formativa se caracteriza como produto e processo nas relações de transmissão dos saberes e dos conhecimentos necessários à vida dos trabalhadores, sendo capaz de produzir, dentre outros aspectos, um conjunto de relações políticas, sociais, econômicas e culturais no universo educativo presente na atividade profissional da carpintaria.
Isso significa que outras estratégias de formação dos trabalhadores são também construídas como processos formativos mediados pelo trabalho na carpintaria. Assim, os saberes tácitos “gerados pela relação dos trabalhadores no interior de atividades produtivas por eles desenvolvidas” (RODRIGUES, 2012, p. 68) também dinamizam sua amplitude e diversificação, correspondendo a perspectivas sociais distintas que estão para além do caráter formativo direcionado apenas ao trabalho, dado que:
Do ponto de vista macrossocial, os processos formativos decorrem da organização política e econômica de uma sociedade, constituindo uma dinâmica de aprendizagem contínua e incidental que ocorre no meio social, em todas as instâncias e atividades sociais, de modo informal, permanente e não organizado, durante toda a vida de homens e mulheres. Dinâmica que proporciona o desenvolvimento de potencialidades e apropriação do saber social, num conjunto de conhecimentos, habilidades, atitude e valores produzidos pelas classes no contexto histórico de relações sociais, de acordo com os interesses e necessidades de uma dada sociedade. Ocorre, portanto, na família, na comunidade, no ambiente de trabalho, na escoa, nos espaços de lazer, em todas as redes da mídia social [...] que vinculam formas de desenvolvimento sócio cultural para cada sujeito social, em forma de conhecimentos, valores e atitudes (ARAÚJO, 2012, p. 161).
A organização política e econômica da sociedade (re)constitui-se, segundo Araújo (2012), de um conjunto de relações históricas que configuram o modo de ser e de existir de cada sujeito, dando margem para elaboração de processos formativos diversificados, que se manifestam como meio de apropriação do saber social. Essa dinâmica de ressignificação do saber, desenvolvida no interior das relações histórico-sociais dos sujeitos, faz-se necessária para a socialização de práticas, de saberes e de conhecimentos, que tem “o ser humano [como] elemento balizador das decisões” (ARAÚJO, 2012, p. 159).
Nessa estratégia de socialização dos saberes e dos conhecimentos historicamente construídos, caracterizam-se processos formativos diversificados, dentre os quais há os que consistem numa prática do aprendizado apoiada nas experiências de trabalho e adquiridas por outros sujeitos. Assim, “um indivíduo pode adquirir conhecimento tácito diretamente de outro” (FARTES, 2002, p. 242).
Já no cotidiano produtivo do trabalho, socializam-se, também, conforme observou Aranha (1997, p. 16), “uma variada gama de incertezas técnicas e organizacionais, o que obriga o trabalhador a adaptar o trabalho prescrito às condições reais de sua execução”, ou seja, no momento de materialização das operações de trabalho ocorre um processo de adequação dos saberes tácitos na resolução do trabalho, de maneira que isso é feito “articulando os seus conhecimentos teóricos e práticos com suas experiências acumuladas até mesmo fora do ambiente de trabalho” (ARANHA, 1997, p. 16).
Aprender com outro, conforme expõe Fartes (2002), consiste num desenvolvimento recíproco de socialização de saberes e práticas, na qual sua transferência caracteriza-se pela troca de saberes e conhecimentos entre os sujeitos. Assim, entendemos que os processos formativos mediados pelo trabalho artesanal “conferem [...] experiências de aprendizagem mútuas entre os trabalhadores, durante o exercício do trabalho” e no decorrer do aprimoramento da própria vida (FARTES, 2002, p. 251).
Logo, o saber tácito, enquanto processo formativo no trabalho da carpintaria, caracteriza-se também como uma dinâmica do aprender fazendo, na qual trabalhadores adquirem habilidades no exercício do trabalho, mediado por orientações de um trabalhador mais experiente, geralmente um carpinteiro oficial (cf. RUGIU, 1998), ou colegas de trabalho. No exercício profissional (cf. Capítulo 3), o carpinteiro mestre vai externalizando e transmitindo suas experiências ao aprendiz que, de forma processual e progressiva, internaliza os saberes e os conhecimentos tácitos, explicitados como processo formativo no ofício da carpintaria artesanal. Desse modo, a internalização é:
[...] o processo de incorporação do conhecimento explícito em conhecimento tácito. Para tanto, é preciso que o conhecimento tácito acumulado seja socializado com outros membros da socialização por meio da verbalização ou organização [...] facilitando a transferência do conhecimento explicito pela vivência indireta das experiências alheias (FARTES, 2002, p. 245). O conjunto de estratégias formativas, materializadas nas relações de trabalho na carpintaria naval artesanal, possuem complexidade e diversificação significativas na dinâmica de transmissão, assimilação e socialização dos saberes e dos conhecimentos. Tamanha dinamização nos processos formativos também é resultado do desenvolvimento dos saberes tácitos, que estão presentes nas práticas do trabalho, nos processos educativos e no universo de relações que os trabalhadores constroem para dar conta dos interesses da vida.
Como “as estratégias de formação dos trabalhadores não podem ser dissociadas de projetos de desenvolvimento social” (ARAÚJO, 2012, p. 159), é indispensável que o desenvolvimento dos saberes e dos conhecimentos tácitos sejam historicamente construídos e transmitidos de geração a geração, por meio de estratégias formativas, vinculadas ao trabalho artesanal.
Portanto, ao buscar conhecer como são construídos e transmitidos os saberes e os conhecimentos tácitos que se dinamizam, de forma transcendente, entre gerações de trabalhadores, percebi que, no interior desse conjunto de relações profissionais e sociais, decorrentes do trabalho na carpintaria naval, estão diversos grupos de sujeitos potencializando seus saberes e seus conhecimentos, caracterizados como projetos de desenvolvimento social da vida. Tais projetos se manifestam em forma de trabalho, mas também na educação e na cultura, nos valores sociais e humanos, nas crenças e demais relações que os sujeitos praticam, conforme se expõe na seção a seguir.