Um exemplo que demonstra que Winnicott compreendia sua teoria como um desenvolvimento e um progresso em relação à teoria psicanalítica tradicional está registrado na conferência “Da dependência à independência no desenvolvimento do indivíduo” (1965r [1963]). Nessa ocasião, comenta que, se fosse solicitado a dizer como entende o desenvolvimento emocional de uma pessoa 30 anos antes, faria sua apresentação baseado nas mudanças que ocorrem na vida instintiva do indivíduo, referindo-se às fases do desenvolvimento sexual - oral, anal, fálica e genital - proposta por Freud e outros autores. No entanto, passados esses 30 anos, reconhece sua dívida para com os ensinamentos de Freud, assumindo que, apesar dessa estrutura de pensar e teorizar ser verdadeira e, como ele afirma, estar em “nossos ossos” (1965r [1963], p. 79), dirigiu-se para outros aspectos do desenvolvimento emocional da pessoa, que resultaram em um novo desenvolvimento teórico na teoria psicanalítica geral.
Feito isso, Winnicott se posiciona a favor de descrever o “crescimento emocional em termos da jornada da dependência à independência” (idem), pois para ele, o “valor” de uma abordagem que considera a vida como um acontecer que ruma gradualmente de uma extrema dependência à independência “é que ela nos permite estudar e discutir ao mesmo tempo os fatores pessoais e ambientais” (ibid., p. 80). Sem grandes alardes, ele deixa evidente nessa conferência em Atlanta como mudou seu enfoque de compreensão no que se refere à natureza humana.
Ao enfatizar a importância de se considerar a pessoa e a situação ambiental concreta que a envolve, e traduzir isso em termos de jornada - metáfora que permite imaginar a infinidade de imprevistos a que está sujeito uma pessoa ao longo da vida -, ele abandona em definitivo a visão sobredeterminada e causal da psicanálise tradicional e caminha por um modelo diferente de fazer ciência. Pode-se dizer também que, ao descrever, como fez na palestra citada, sua escolha pela abordagem do desenvolvimento pessoal em termos de jornada da dependência para a independência, apropriando-se de parte da teoria psicológica freudiana e, afastando-se da teorização metapsicológica, Winnicott cumpriu de modo seguro e espontâneo - até porque não estava originalmente preocupado com isso - as condições básicas propostas por Kuhn para que determinada contribuição teórica possa ser avaliada como um progresso no interior de uma ciência: além de apontar as dificuldades encontradas e justificar a necessidade de novos desenvolvimentos, ele mantém e utiliza as contribuições da teoria anterior.41
Na palestra de 1961 para a Oxford University Scientific Society, anteriormente citada, Winnicott também demonstra que o procedimento seguido por ele ao propor uma mudança de enfoque na compreensão do paradigma do adoecer psíquico, deslocando-o da problemática do complexo de Édipo e centrando-o na resolução da tarefa primordial de todo ser humano, que é a de ser e se tornar uma pessoa, ou rumar da dependência absoluta para a independência, sempre relativa, também está em concordância com os pressupostos kuhnianos. Em primeiro lugar define que a psicanálise é “um termo que se refere especialmente a um método, e a um corpo teórico que diz respeito ao desenvolvimento emocional do indivíduo humano. É uma ciência aplicada que se baseia em uma ciência” (1986k [1961], p. XIII). Em seguida credita, como sempre faz, o pioneirismo dessa ciência a Freud e passa a definir o que entende ser a tarefa de um cientista. Diz que, para um cientista, “formular questões é quase tudo” e, quando as respostas a essas questões aparecem, afirma que essas respostas “conduzem a outras questões”. Acrescenta que “a idéia do conhecimento acabado é o pesadelo do cientista”, pois as certezas são domínio da religião. Uma ciência deve, por isso, “suportar uma infinidade de dúvidas” (ibid., p. XIV).
41 Irene Fast, em seu artigo “Object relations: toward a relational model of the mind”, trata da importância que as teorias da relação objetal estão assumindo na psicologia analítica, mas adverte, baseada em Thomas Kuhn, para a necessidade de essa condição acima colocada ser respeitada ( In: Barrow, James et al. 1992).
E quais dúvidas Winnicott enfrentou antes de propor o que diversas vezes nomeou desenvolvimento natural da psicanálise ou progresso na teoria? Há sinais claros em sua obra de que os problemas relacionados à depressão, em suas diferentes formas, tenham sido o aspecto que mobilizou Winnicott a rever a teoria psicanalítica e o levou à descoberta revolucionária de que a estruturação do psiquismo, associada ao desenvolvimento sexual e à resolução do complexo de Édipo, não conduziam a uma compreensão fidedigna dos processos que envolvem o desdobramento da natureza humana desde os estágios iniciais. É possível dizer que foi através do estudo da depressão que ele chegou à idéia da psicose como paradigma do adoecer humano.
Em um debate intitulado “Grief and Mourning in Infancy” (1989xe [1959]), Winnicott comenta que, até a década de 1920, a idéia de tristeza não era comum para ele, presentificando-se nessa época em razão de um comentário feito por Merril Middlemore, que com ele trabalhava, a respeito de um paciente. Ao olhar o rosto desse paciente, um menino, ela disse: “um caso de melancolia”. Surpreso, Winnicott considera que até então “isso [melancolia] se referia a crianças que achavam a vida difícil” (ibid., p. 326), mas, a partir desse incidente, percebeu e atestou que “a palavra ‘depressão’ estava à espera para ser usada na descrição dos estados clínicos de crianças e bebês” (idem).
A observação de que entendia a tristeza melancólica como parte do universo da infância mais tardia, explicíta que Winnicott, até esse momento, entendia a depressão como um tipo de neurose. Por outro lado, a idéia de que a ruptura com a teoria edipiana como estruturante do psiquismo foi iniciada a partir dessa observação clínica é confirmada pela constatação de Winnicott, diante dessa surpresa, de que por trás da tristeza, dos afetos e dos estados de humor há muito mais coisas a serem conhecidas a respeito de uma pessoa. A atitude do autor confrontado por essa descoberta foi imediata. Textualmente ele diz: “rapidamente alterei toda a minha linguagem” (idem). Mudar toda linguagem tem para Winnicott o sentido de uma total redescrição da teoria psicanalítica e a adoção de uma linguagem específica para descrever as necessidades e conquistas de um ser humano em cada estágio do amadurecimento pessoal.
Winnicott conta que, por essa época, estava começando seu trabalho com Klein, portanto, aprendendo os mecanismos da depressão e as defesas contra a depressão, ponto sobre o qual a psicanalista já trabalhava há mais de dez anos. Nesse seu trabalho com
Klein, soube dos estágios do luto, de protesto e negação do luto e da depressão, que se solidifica na defesa maníaca. No entanto, a proximidade e o peso da influência teórica da psicanalista não o inibiram de muito rapidamente discordar de Klein e, inclusive questionar a maneira de ela tratar como iniciais problemas profundos. Apesar de admitir que foi o conhecimento dos estudos kleinianos que lhe permitiu aproveitar (teórica e clinicamente) as observações que vinha realizando com crianças, não podia negar as evidências contidas nas “observações que fizera em muitas centenas de crianças cujos distúrbios psicológicos começavam nas primeiras semanas, até mesmo dias, de suas vidas e que eram casos psiquiátricos em pleno andamento, antes da época em que o complexo edipiano desses dias se achasse maduro” (1989xe [1959], p. 327).
Outra experiência em que a depressão apresenta-se como uma problemática foi vivida por Winnicott quando, a pedido Susan Issacs, ministrou por 15 anos, a partir de 1936, palestras, no Instituto de Educação. Conta que inicialmente o tema das palestras era o diagnóstico precoce da febre reumática como profilaxia para problemas cardiácos, e que após um curto período de pesquisa,42 pôde perceber que metade das pessoas encaminhadas como reumáticas eram deprimidas e metade das que eram coréicas sofriam, na verdade, de um “desassossego ansioso comum” (1989f [1967], p. 440). Comenta, então, que esses resultados o levaram a investigar isso e que demorou uns três ou quatro anos antes que pudesse associar esses casos a privação e a deprivação.
A partir dessas evidências empíricas, Winnicott não pôde evitar as discordâncias teóricas com Klein e desenvolveu seus próprios conceitos a respeito do “efeito mais profundo da perda de objeto” ou, como ele definiu, “descuido do apoio do ego”. Enunciou isso “em termos das condições emocionais primitivas” e utilizou “os termos perda de contato com a realidade externa, perda do relacionamento entre psique e soma e desintegração” (1989xe [1959], p. 328) para descrever esses fenômenos. Isso demonstra que o desenvolvimento da teoria dos estágios primitivos está associada aos processos relacionados à depressão e à negação da depressão observados por Winnicott. Ficava cada vez mais claro, à medida que aprofundava sua compreensão da realidade interna de
42 No artigo “Sobre a neurose cardíaca nas crianças” (1996d [1966], p. 164) relata o procedimento dessas pesquisas.
uma pessoa, que muitas das dificuldades relacionadas à depressão poderiam estar associadas a problemas ocorridos em estágios anteriores ao do complexo de Édipo.
Nesse momento, as diferenças com Klein haviam se estabelecido. O distanciamento dos temas edipianos,43 como base para a estruturação da personalidade, e a relevância do ambiente, como condição de possibilidade para o existir humano, eram fatos para Winnicott. Como ele mesmo coloca: “podemos construir teorias sobre o desenvolvimento dos instintos e concordar que o ambiente seja deixado de lado, mas não é possível fazê-lo quando se trata de formular hipóteses sobre o desenvolvimento do ego [eu] inicial” (1955d [1954], p. 380).
Embora as discordâncias fossem evidentes e públicas, Winnicott sempre admitiu ter ficado impressionado pelo trabalho de Klein. No debate anteriormente citado, ele mesmo comenta que o conhecimento do conceito kleiniano de defesa maníaca teve tal importância para o seu desenvolvimento teórico que, em 1935, ele escreveu seu trabalho de ingresso na Sociedade Britânica de Psicanálise sobre esse assunto. Nessa apresentação, associa alguns aspectos da defesa maníaca com a posição depressiva,44 pois, de acordo com o que vinha percebendo em seus estudos, a defesa maníaca constituía “um mecanismo empregado com bastante freqüência” (1958k [1935], p. 216) e indicava a incapacidade de uma pessoa aceitar o significado pleno da realidade interna ou, dizendo de uma outra maneira, indicava “a capacidade de alguém negar a ansiedade depressiva inerente ao desenvolvimento emocional” (ibid., p. 217). Mais uma vez, a depressão e as defesas contra a depressão apresentavam-se como as principais preocupações de Winnicott.
Porém, além da possibilidade de confirmar a depressão e suas defesas como o “vazio” teórico no qual Winnicott esbarrou, o aspecto que precisa ser considerado ao ler o artigo “A defesa maníaca” (1958k [1935]) é que, mesmo de maneira incipiente
43 Mendelson comenta que vários autores no tempo de Klein se referiram ao período pré-edípico como aquele em que a capacidade para deprimir se originava. Porém, destaca que “Klein discordou dessa visão de duas maneiras: ela considerava que o período crítico já se encontrava presente nos primeiros meses de vida, e se referia a esse período não como pré-edípico, mas sim como de fato edípico. Por acreditar nisso postulou que a criança, já nesta ocasião, experimenta fantasias edipianas. Ela considerava que estas fantasias, ou estas introjeções precoces como a elas se referia, são derivadas do seio da mãe e do pênis do pai, sobre os quais a criança presumidamente já teria alguma conceitualização” (1974, p. 173).
44 Nessa época, mesmo ainda não tendo elaborado sua redescrição da teoria da posição depressiva kleiniana, é possível observar, no artigo que apresenta para a SBP, que Winnicott trata o tema de maneira totalmente diferente da abordada pela psicanalista inglesa.
Winnicott, ao tecer as considerações a respeito da defesa contra a depressão, anuncia os aspectos teóricos que se consolidariam em sua teoria do estágio do concernimento, mais tarde sistematizada no trabalho “A posição depressiva no desenvolvimento emocional normal” (1955c [1954]).
Ainda no artigo de 1935, Winnicott confirma que as teses kleinianas sobre defesa maníaca coincidiam com um tema com o qual estava envolvido desde 1931, ocasião em que escreveu o artigo “Agitação” (1931g). Relata que, após conhecer o trabalho de Klein, percebeu que já em 1931 estava preocupado com o que chamou mais tarde realidade interna ou mundo pessoal. Interessado em conhecer a origem de um estado de agitação física em crianças sem causa orgânica específica,45 Winnicott percebeu que a agitação seria o modo encontrado por uma criança para expressar a dificuldade em lidar com os conteúdos de seu mundo pessoal e a necessidade de diminuir a tensão da realidade interna. A partir dessa observação, compreender as tensões que ocorriam na realidade interna passou a ser o objetivo do psicanalista.
Em um outro artigo, “Nota sobre normalidade e ansiedade” (1931p), Winnicott também assinala perceber em sua clínica que um certo tipo de inquietude (ansiedade) dos pacientes estava relacionado a problemas emocionais. Nesse trabalho, apresenta uma série de distúrbios físicos comuns em crianças como enurese, congestão nasal e alterações no sistema gastrointestinal, buscando relacioná-los com a ansiedade, numa tentativa de desvelar “os mecanismos através dos quais a doença física é simulada, ou realmente provocada por fatores que residem na vida emocional da criança” (1931p, p. 71).
Realmente é interessante perceber, ao analisar esses dois textos de 1931, que Winnicott abordava temas que só seriam teoricamente sistematizados muito mais tarde, em seus estudos sobre o estágio do concernimento. Por exemplo, no artigo sobre normalidade e ansiedade, considerava importante observar a capacidade da criança para tolerar a ansiedade e percebia que essa capacidade dependia tanto do grau da ansiedade como do conteúdo da mesma. Também observava que alterações físicas importantes podiam ser decorrência da ansiedade, afirmando que, em termos de desenvolvimento físico, “o metabolismo pode ser reduzido até quase a parada completa, o nascimento de
45 No texto de 1931, Winnicott se preocupa com um diagnóstico diferencial entre a ansiedade que observava em seus pacientes psicanalíticos e alguns tipos de doenças comuns naquele tempo, como a coréia e doenças cardíacas que provocavam inquietude física em crianças e apareciam na clínica pediátrica.
dentes pode ser adiado, feridas podem manter-se abertas e o cabelo é capaz de cair” (1931p, p. 71).46
Em 1945, a teoria winnicottiana do desenvolvimento emocional primitivo estava bem mais amadurecida. Quando apresenta um texto referente a esse tema na Sociedade Britânica de Psicanálise, mais uma vez retoma a idéia de que sua teoria representa um desenvolvimento da teoria clássica e a idéia de que a depressão estava incluída entre as preocupações teóricas e clínicas que o levaram à essa pesquisa. Salienta, ainda, que há pelo menos duas décadas vinha se dedicando ao estudo da psicanálise e, de modo discreto, pontua, mais uma vez, que o distanciamento da teoria instintual como norteadora da compreensão dos aspectos psíquicos emocionais foi acontecendo gradualmente, à medida que percebia as limitações dessa teoria para tratar a depressão e a psicose.
Para chegar a seu tema de interesse, que era apresentar os estágios iniciais do desenvolvimento emocional, Winnicott faz uma pequena introdução, na qual evidencia a importância do tema da depressão para seus estudos. Como sempre, mostra que partiu da psicanálise freudiana, escolhendo, dessa vez, o tema do tratamento psicanalítico para ilustrar isso. Define como “o tipo original de tratamento psicanalítico” aquele em que se leva em conta “quase que exclusivamente” os relacionamentos que o paciente mantém com outras pessoas, “junto com as fantasias conscientes e inconscientes que enriquecem e complicam esses relacionamentos entre pessoas inteiras” (1945d, p. 219). A seguir, delineando o rumo de suas pesquisas comenta que – ao dirigir seu interesse para a compreensão da importância das fantasias do paciente sobre sua organização interna procurando entender a origem desta organização na experiência instintiva – percebeu que, em certos casos, é justamente
essa fantasia do paciente sobre sua organização interna que constitui o aspecto mais vitalmente importante, fazendo com que a análise da depressão e das defesas contra a depressão não possa ser realizada com base apenas nos relacionamentos
46Essas observações contribuíram para o desenvolvimento da tese winnicottiana do adoecer psicossomático, apresentada no item 7, do Capítulo 3.
do paciente com pessoas reais e nas suas fantasias sobre esses relacionamentos. (1945d, p. 219)47
E, foi por entender, que a elaboração imaginativa (fantasia) a respeito da organização do mundo interno é responsável por muitos dos problemas clínicos vistos no consultório; acreditar que a análise dessa problemática precisa ser, em alguns casos, ampliada para momentos anteriores do desenvolvimento, ou seja, para os estágios em que a pessoa não alcançou o estatuto de unidade ou o fez de forma precária e por ter se ocupado prioritariamente com a compreensão e a interpretação desses estágios iniciais que Winnicott define sua contribuição como um novo desenvolvimento na psicanálise.
Para ele, a “ênfase na fantasia sobre si mesmo” (idem) consistiu em uma contribuição teórica para a psicanálise, pois “inaugurou” um outro campo de análise, a saber, a análise da hipocondria, na qual observamos que as fantasias (ou elaboração imaginativa) de uma pessoa sobre seu mundo interno incluem “a fantasia de que este se localiza no interior de seu corpo” (idem). Também possibilitou relacionar em uma análise “a mudança qualitativa no mundo interno do indivíduo às suas experiências instintivas” mediante a constatação de que “a qualidade dessas experiências instintivas dá conta da natureza boa ou má do que se encontra lá dentro, bem como de sua existência” (idem). Com a ampliação do campo de análise, o psicanalista fica agora envolvido tanto no estudo do ódio e da agressão como no estudo dos resultados dos conflitos internos relativos a esses elementos na realidade psíquica interna do paciente.
47Segundo Dias, Winnicott costumava usar o termo fantasia para designar o que mais tarde denominou elaboração imaginativa, ou seja, a “apropriação pessoal do sentido da anatomia, das sensações, dos movimentos e do funcionamento corpóreo em geral, sem a participação da mente” (2003, p. 108). Nesse sentido, o conceito de fantasia quanto o de imaginação não devem ser confundidos com o sentido tradicional de fantasia – como uma função mental “que se desdobra em mecanismos mentais, como os de introjeção e projeção”, (idem) que já estão, de acordo com a teoria psicanalítica tradicional, em funcionamento desde o início da vida. Mas, como vemos na citação a que essa nota se refere, Winnicott usa o termo fantasia em dois sentidos. Na primeira vez , Winnicott se refere à elaboração imaginativa, como definido por Dias, ou seja, como o arranjo operacional entre psique e soma que, sustentado por um apoio ambiental, facilita a integração do bebê, em particular, a personalização ou alojamento da psique no corpo. Mas, na segunda vez, fantasia tem o sentido de imaginação e está relacionado a pessoa já personalizada cuja psique elabora os acontecimentos que envolvem o relacionamento entre o mundo pessoal e o mundo externo.
Winnicott considera esse seu trabalho “um progresso natural da psicanálise”, já que envolveu uma “nova compreensão” (idem) dos distúrbios psíquicos, na medida em que estimulou o estudo e a análise de estágios mais primitivos de desenvolvimento, em relação aos estágios que eram considerados pela psicanálise tradicional. Na seqüência desse texto, ele se posiciona a respeito da importância de se compreender os distúrbios afetivos depressivos para se realizar um trabalho analítico dos estágios primitivos, dizendo:
a análise desses relacionamentos primitivos só pode ser realizada enquanto uma extensão da análise da depressão. Esses relacionamentos primitivos, quando aparecem em adultos e crianças, podem representar uma fuga às dificuldades trazidas pelos estágios seguintes de acordo com o conceito clássico de regressão. (1945d, p. 220; os itálicos são meus)
Depois de mostrar que chegou ao desenvolvimento emocional primitivo a partir da depressão, Winnicott, nesse mesmo texto, passa a fazer algumas considerações a respeito da análise em si. Ao acentuar as habilidades de um terapeuta para realizar uma “análise original”, discretamente enfatiza as diferenças que precisariam ser introduzidas na prática clínica para o tratamento de pacientes envolvidos em tarefas desenvolvimentais iniciais. Diz que é importante um analista aprender a lidar “com a ambivalência em relacionamentos externos e com a repressão simples” (idem) para poder analisar as fantasias do paciente no que se refere a seu mundo pessoal, que inclui “toda a gama de defesas contra a depressão, incluindo as origens dos elementos persecutórios” (idem).
Apesar de afirmar, ainda nesse texto, que a “técnica freudiana” não precisaria ser modificada “para permitir que a análise abarcasse a depressão e a hipocondria” (idem), acrescenta, de maneira sutil, que a técnica pode ser a mesma desde que se observe as