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Section IV: ASDI Country Analyses

4.3. Cabo Verde

O movimento sociopolítico crítico toma a discussão teórica no campo de gestão escolar e se massifica especialmente desde as décadas de 1980 e 1990. Contudo, essas novas bandeiras se tornaram mais capilares e tiveram como marco o ano de 1968. Foi um ano marcado pela efusão mundial de manifestações iniciadas na França que tomou inúmeros países, inclusive o Brasil, cujas demandas eram mais diversas possíveis, mas todas carregavam um sentido de democracia, liberdade e melhores condições de vida. O maio de 1968 traduziu-se no anseio da juventude pelo direito a questionar a autoridade, o direito à libertação feminina, à homossexualidade, à universidade sem divisão de classes, enfim, a felicidade individual e coletiva.

Para Gutierrez e Catani (2008), essa mudança cultural que o mundo atravessava passava após a Segunda Grande Guerra e atingia uma espécie de clímax nas manifestações de 1968. As instituições, a estrutura familiar, o comportamento individual, a sexualidade foram postos em xeque. Na França, em 13 de maio, mais de um milhão de pessoas desfilou lado a lado, em Paris, em manifestação popular convocada, conjuntamente em ato inédito, pelo grupo “22 de março”1, UNEF2 e CGT3. Pouco menos de uma semana depois, a França convive com uma greve geral de mais de 10 milhões de trabalhadores.

E as manifestações continuaram em todo o mundo, sob uma infinidade de bandeiras, entre as quais foi possível observar: norte-americanos – recusa da guerra do Vietnã, movimento “black Power”; alemães – universidade livre, anti-imperialismo, crítica ao marxismo ortodoxo; italianos – antiautoritarismo universitário, crítica da sociedade de consumo; poloneses e tchecos – socialismo com liberdade; japoneses – antimilitarismo, antissatelização pelos EUA; brasileiros – contra o Golpe militar de 64 e os imperialismos. Ademais, holandeses, espanhóis, belgas, suíços, ingleses, dinamarqueses, turcos, iugoslavos, argelinos,

1 O “22 de março”, grupo de ação iniciado por 142 nanterrenses, somado a um número incalculável de pessoas,

entre estudantes, professores, operários, artistas, religiosos, profissionais liberais, jornalistas.

2 União Nacional dos Estudantes Franceses.

tunisianos, marroquinos, senegaleses, mexicanos, peruanos, argentinos, chilenos venezuelanos (MATOS, 1981).

Teóricos e pesquisados buscaram classificar e compreender o fenômeno. Na França buscou-se por um “livro guia” que orientasse aquelas ações. Muitos pesquisadores, com base em seus referenciais, tentaram enquadrar aquele momento em alguma explicação teórica (RODRIGUES, 2005; GUTIERREZ; CATANI, 2008). “Mas como admitir a existência de um livro como guia, se a multidão que ocupa ruas, universidades, rádios, teatros e fábricas não fala em nome de ninguém e não deixa que ninguém fale em seu nome?” (RODRIGUES, 2005, p. 15).

O maio de 68 uniu universitários, cineastas, grávidas, operários, açougueiros, maoístas, gauches, anarquistas, futebolistas, atletas, trotskistas, meninas, rapazes, entre outros, pela busca de medidas de flexibilidade, tolerância com as diferenças, relações e poderes mais igualitários, justiça e cidadania. Segundo Gutierrez e Catani (2008), nas organizações, os padrões de relacionamento autocráticos, hierárquicos e formalistas do taylorismo nunca mais recuperaram seu antigo prestígio.

A questão da participação, em especial a partir de 1968, está permanentemente presente na discussão a respeito das formas de administrar. É difícil definir as causas desta importante mudança. Significou nada menos que uma revisão dos pressupostos teóricos do taylorismo e a sua substituição, mesmo que muito lentamente, por valores contemporâneos. (GUTIERREZ; CATANI, 2008, p. 60).

As questões ligadas à democracia e participação entram definitivamente na pauta das grandes demandas da humanidade no período em que segue. No Brasil, não é diferente. A marcha dos Cem mil no Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1968, em que estudantes, artistas, intelectuais, entre outros, pediam por democracia na luta contra a ditadura e por ensino de qualidade, gratuito (MATOS, 1981).

No período que segue, nos anos de 1970 e 1980, há, especialmente no Brasil, uma efervescência política protagonizada pelos movimentos de luta em favor da retomada da democracia e anistia política, dando continuidade, na década de 1980, com as diretas já e a convocação de assembleia constituinte e promulgação da nova Constituição Federal de 1988. Para Sander (2007), as pesquisas em gestão escolar se inserem nessa efervescência política. Há, na análise de Pereira e Andrade (2005, 2007), uma preocupação com as redefinições da identidade do administrador escolar, que necessitam ser mais condizentes com o momento sociopolítico da época que demanda pela reconstrução de novo perfil político e técnico do administrador escolar.

Mais do que isso, a educação é parte dessa efervescência, evidenciada pela intervenção evidenciada pela intervenção crescente da comunidade científica e da sociedade civil organizada nos movimentos de reforma educacional, de defesa da escola pública, de valorização do magistério e de gestão democrática do ensino (SANDER, 2007, p. 434).

Contudo, como observam Gutierrez e Catani (2008), os novos estímulos são fundamentais para a revisão dos pressupostos teóricos da administração clássica, mas isso ocorreu de maneira ainda lenta. Apesar de, desde 1968, a humanidade ter respirado novos ares advindos da eclosão mundial do desejo por democratização e participação nos destinos da sociedade, a produção acadêmica com tema sobre gestão democrática em âmbito da gestão escolar no Brasil somente ganha contornos efetivos e se instala como tema prioritário nos espaços políticos e acadêmicos desde a promulgação da Constituição de 1988. Os levantamentos de Souza (2006a, 2006b) dão conta de que, antes da Constituição Federal de 1988, não ocorreu nenhum trabalho de doutorado sobre o tema de gestão democrática, e somente uma pesquisa de mestrado (COUTO, 1988) sobre o tema. Para Sander (2007), esse quadro, em razão do aparato legal introduzido pela Constituição Federal 1988, logo mudou, e os estudos sobre gestão democrática têm ganhado a pauta do dia em termos de pesquisa, na área de gestão escolar.

É a partir da promulgação da nova Constituição que o número de estudos sobre gestão democrática cresceu rapidamente, sendo responsável por mais de 31% dos trabalhos de mestrado e doutorado da área entre 1981 e 2001, quase todos realizados na década de 1990 (SANDER, 2007, p. 435).

3 GESTÃO DEMOCRÁTICA

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