Lorenço, pessoa comunicativa e afável, que demonstra vasta cultura e experiência de vida - 58 anos, Técnico de Manutenção de um hospital público, 2º grau, casado – narra animado, para o grupo de participantes desta pesquisa, que já havia se inscrito várias vezes como mesário
voluntário, mas nunca havia sido chamado e brinca que esta seria sua última tentativa, pois já estava pensando até em transferir seu título para outra zona eleitoral, “(...) mas parece que
desta vez vingou!” (CG).
Para Lorenço, ser voluntário é sinônimo de “(...) ajudar alguém ou contribuir para o bem
comum” (CF), e aponta: “O voluntário é o oposto do egoísta, critica menos, faz mais e é muito mais feliz” (QD).
Lorenço relata que, desde muito jovem, sempre se voluntariou para atuar em diversas ações e circunstâncias, demonstrando sentir enorme prazer e bem estar emocional quando tem a oportunidade de ajudar outras pessoas. Também por ser um meio de suprir suas necessidades de aprendizado e de socialização, como evidenciado nos momentos empíricos vivenciados com este participante, exemplificados pelo trecho de conversação grupal transcrito abaixo: “Sejam voluntários sempre que surgir uma oportunidade. É muito bom poder ajudar alguém
a sair de uma situação difícil, vocês terão um retorno enorme, uma bagagem que lhes acompanhará por toda vida, (...) quem mais ganha é quem ajuda: faz amigos, adquire conhecimentos, sente o coração inundado de alegria e, às vezes, ganha até presentes (risos)” (CG).
Lorenço valeu-se desta pesquisa para relembrar, na maioria das vezes empolgado, em outras emocionado, várias situações que vivenciou como voluntário, indicando que ser voluntário representa a essência de sua relação com o mundo, no sentido de buscar agir sempre em prol do bem comum, indo ao encontro de seus valores e de sua filosofia de vida, como sugerem os trechos a seguir destacados:
“Acredito que todo ser humano deveria lutar contra a miséria e a fome que inunda nosso planeta, fazer alguma coisa, por menor que seja, para melhorar a realidade das pessoas menos favorecidas, ao invés de cruzar os braços e permanecer inerte diante daquilo que não lhe atinge diretamente (...)” (CI).
“Lutar por uma sociedade melhor para todos já faz parte da minha cultura de vida” (CF). “Só consigo ser verdadeiramente feliz se minha felicidade contribuir para aliviar a dor de alguém” (CF).
Atualmente, Lorenço participa nos fins de semana de um projeto de musicalização infantil em bairros carentes de Vitória e justifica:
“(...) é uma boa forma de se aproximar das crianças e de seus pais, tentar levar até eles educação, valores, esperança (...), de outra maneira é quase impossível ser acreditado por eles” (QD).
Participar do processo eleitoral tem para Lorenço um sentido especial, por considerar as eleições como uma valiosa oportunidade que permite às pessoas indicarem seu futuro, desde que sejam responsáveis e conscientes na hora de votar, buscando conhecer o melhor possível as propostas e o passado dos candidatos. Nesse sentido, Lorenço relatou-nos, com tristeza e indignação, que tomou conhecimento, através de uma reportagem de jornal, que a maioria dos votantes, faltando poucos dias para a eleição, sabia pouquíssimo ou nada sobre os candidatos concorrentes, o que para ele soava como um absurdo, como demonstra o trecho abaixo:
“Vejo isso é um enorme desperdício, (...) um voto equivocado significa um erro irreparável e resulta em prejuízos incalculáveis para o município e sua população, principalmente para parcela mais pobre, que é mais dependente do Estado” (CI).
O trecho de conversação citado, acrescido do que se segue, demonstra a importância que o processo eleitoral representa para Lorenço.
“A eleição dá uma chance aos homens de mudar sua sociedade, que pode tornar-se melhor ou pior, dependendo, apenas, nas mãos de quem se entrega o poder (...): O mundo há de viver como está sendo fabricado por nós mesmos” (CF).
Durante as observações realizadas pôde-se confirmar o quanto Lorenço mostrava-se feliz por estar participando das eleições como mesário e, tal qual havia descrito no segundo momento da pesquisa, procurava agir como “Um verdadeiro voluntário, (...) alguém que sabe (...)
aproveitar a „doçura‟ de um sorriso e o „calor‟ de um aperto de mão” (CF). Não
presenciamos Lourenço, que transitava ativamente pela sala onde funcionava sua seção de votação, sentado uma só vez. Dedicando-se em receber e orientar todos os eleitores de forma simpática. O local onde permanecia parado por mais tempo era a entrada da seção, onde, demonstrando empolgação, conversava com os eleitores que aguardavam na fila, tornando a espera mais agradável, como relatou um deles: “A conversa tá tão boa que nem vi o tempo
passar, acho até que vou continuar o papo depois que votar! Pode!? (risos)”(Wallace, eleitor).
Conforme registrado por Lourenço, em sua redação de cinco páginas (5º momento da pesquisa), sua participação nas eleições lhe proporcionou enorme alegria, pois, além de lhe possibilitar contribuir em algo que julga importante para a sociedade, esta oportunidade constituiu-se num excelente espaço para interação e aquisição de novos conhecimentos, como destacado a seguir:
“Sinto-me realizado, participei das quatro maiores festas do planeta Terra (...) e a festa da democracia: eleições 2008 (...). Aconteceu abraço, beijo, sorriso, aperto de mão, brincadeira (...) conheci um busólogo (...), passei a conhecer sobre (...), também conheci (...). Reencontrei-me com um velho parceiro com quem trabalhei em Copenhague (...). No 1º turno perguntei a 100 pessoas se elas votariam sem a força de uma lei (...). Não dá para descrever tudo o que se vive numa festa de tal envergadura (...), enquanto houver sorriso, haverá esperança” (R).
No Quadro 14, a seguir, pode-se verificar os três sentidos subjetivos correspondentes à participação de Lourenço como mesário voluntário:
SENTIDOS SUBJETIVOS INDICADORES
OBRIGAÇÃO COMO SER HUMANO Diversas manifestações, para o que confirmaram suas atitudes durante sua participação nas eleições, de que considera um dever de todo ser humano fazer o possível para ajudar outras pessoas e amenizar as desigualdades sociais.
SOCIALIZAÇÃO
Alegria demonstrada pela oportunidade de fazer novas amizades e relacionar-se com pessoas;
Comportamentos observados nos encontros e durante as eleições.
AQUISIÇÃO E TRANSMISSÃO DE
CONHECIMENTOS, ATRAVÉS DA
POSSIBILIDADE DE INTERAÇÃO
Vontade demonstrada em vivenciar profundamente experiências que gerem aprendizado, o que percebe como decorrente da troca de conhecimentos e experiências entre pessoas;
Declarações formais, muitas vezes emocionadas, em meio aos diferentes momentos da pesquisa, sobre o valor que a interação adquire em sua vida particular e como voluntário.
ESPERANÇA NA MELHORIA DA SITUAÇÃO SOCIAL
Diversas manifestações durante os momentos da pesquisa que sustentam o valor imputado ao voto e às eleições;
Indignação demonstrada em relação aos eleitores que “desperdiçam” seu voto;
É o que parece dotar de sentido sua participação voluntária de um modo geral, impulsionando-o a “lutar por uma sociedade
melhor”.
Quadro 14 - Participação como mesário voluntário para Lourenço: sentidos subjetivos e indicadores. Fonte: Elaborado pela autora.