A crônica mostra sua ambiguidade quando se pensa que ela se move entre
no e/ou para o jornal. Então a dificuldade da escrita da crônica está também e,
sobretudo, nesse ponto, cabendo ao cronista entender que publica no meio jornalístico um gênero que “[...] oscila entre reportagem e a literatura, entre o relato impessoal frio e descolorido de um acontecimento trivial e a recriação do cotidiano por meio da fantasia” (MOISÉS, 1982, p. 247).
Assim, pela temática e desenvolvimento da crônica, o autor pode abordar diversos assuntos em um mesmo texto que lhe permitam, ao final, amarrar as matérias que escolheu. Laurito e Bender (1993, p. 50) relacionam esta gênese da crônica – jornalismo e literatura – como uma dificuldade de definir o gênero: “Até onde vai o jornalista e termina o escritor?”, perguntam. E, por todas as características que permitem uma crônica ser uma crônica, emendam: “[...] logo não vamos esperar que a Academia Brasileira de Letras31 decida conceituar nossa crônica. É crônica e só. Todos sabem do que estamos falando” (p. 44). Esse apelo expressa, entre outras coisas, a simplicidade da crônica e o sentimento intersubjetivo do gênero. A discordância sobre uma definição da crônica demonstra que esse gênero popular luta, ou lutou, contra uma possível dominação de instâncias superiores. Candido et al. (1992, p. 155), ainda sobre o debate de dominação, definem a crônica como "[...] uma cultura das margens que se exprime com a lei dos letrados, contra a lei dos letrados" – relembrando como foi tratado o gênero quando do seu desenvolvimento.
A liberdade de escrita na construção da crônica é tão grande que também a falta de assunto pode levar à transformação do autor em personagem, atitude chamada de persona literária (POLETTO, 2003, acesso em 9 dez. 2005). Fato esse
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Nota-se aqui a perda de força pela Academia Brasileira de Letras, que se transformou em "[...] uma entidade que congrega intelectuais mas sem a força e sem a repercussão de outras épocas" (CALDAS, 1990, p. 183).
que pode ser revelado pelo próprio autor, como afirmou Cony: “[...] contei uma história que começava numa infância que não era exatamente a minha, mas descrevia um mundo tal como o sentia e ainda sinto” (apud POLETTO, 2003, acesso em 9 dez. 2005). Claro que a habilidade de escrita do cronista está diretamente ligada ao sucesso desse tipo de texto. Nelson Rodrigues, na falta de assunto, buscava, entre vários outros temas, a mitologia construída em torno de Garrincha e Pelé:
Tenho varado períodos, em que não acontece rigorosamente nada. Não há clássicos, não há peladas. Todas as bolas estão postas em sossego [...]. Todos os cronistas deviam parar. Mas a coluna que cala tem a tristeza das fontes que emudecem [...]. Nessas ocasiões, eu uso um recurso infalível [...] eu escrevo sobre Garrincha e sobre Pelé (RODRIGUES, 1987, p. 151).
As experiências pessoais32 também são mote para que uma crônica tenha início. E é partindo dessa experiência pessoal,33 que Tostão, ex-jogador de futebol, médico, cidadão do mundo, se faz cronista. Seu tema preferido é o futebol: as concepções táticas e suas evoluções, os clubes, seleções, jogadores, seus gostos pessoais, suas viagens. Aqui, além da experiência pessoal, percebemos a preocupação do autor em mostrar as imagens do meio esportivo gerando "feedback": "[...] há a importância dos estereótipos ou esquemas culturais na estruturação e na interpretação do mundo” (BURKE, 2003a, p. 26). Esse pensamento sobre o meio do cronista resulta na relação cotidiano/escritor, tendo as experiências pessoais como filtro para a produção do texto e, exatamente este "filtro" – suas experiências pessoais – direciona a escrita do cronista e o estilo do seu texto.
Seguindo a estrutura da crônica, Tostão usa da ironia e do dialogismo, o que deixa sua crônica leve e permite a impressão de conversa: mas não um simples bate-papo, elevando a um debate suas opiniões sobre tática, técnica, seleção brasileira, a sociedade, o papel dos dirigentes e políticos brasileiros.
Seu espírito de (ex) jogador34 de futebol – e sua carreira vitoriosa – permite- lhe fazer alguns comentários ácidos relacionados com o futebol e suas mazelas,
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“A percepção de eventos que se produzem ´sucedendo-se no tempo´ pressupõe, com efeito, existirem no mundo seres que sejam capazes, como os homens, de identificar em sua memória acontecimentos passados, e de construir mentalmente uma imagem que os associe a outros acontecimentos mais recentes, ou que estejam em curso” (ELIAS, 1998, p. 33).
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“A crônica [...] constitui um repositório considerável para se avaliar e estabelecer historicamente a dimensão das coisas e dos homens” (RAMADAN, 1997, p. 1).
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Às vezes seu discurso se mostra romântico e nostálgico: “Eu sinto saudades de muitos amigos, outros velhos craques, e confesso que também sinto saudades de mim” (TOSTÃO, 1997a, p. 59).
sem deixar seu escrito pesado e incoerente, muito menos vulgar, mesmo usando um coloquialismo puro e sincero – é o que Sá (2002) chamou de lirismo reflexivo (emoção aliada à razão). Assim, constrói seus escritos de forma opinativa, buscando a atenção do leitor, entretendo, firmando suas concepções. A representatividade de Tostão no meio futebolístico o credencia a publicar seus escritos. Marques (2001) traz o termo “texto de griffe”, para denominar as publicações de autores que possuem grande apelo midiático, sejam eles cantores, atores, escritores, etc.
Tostão, com sua escrita de “griffe”, conta suas histórias e as de outros; cria diálogos entre personalidades diante de situações polêmicas (chegando finalmente a uma solução35 que, para ele, talvez seja a ideal); indigna-se como qualquer um de nós – um exemplo marcante é a crônica sobre a eliminação do Brasil, com dois jogadores a mais em campo, nas Olimpíadas de Atenas em 2000, quando perdeu para Camarões; emociona-se com Guga, em Roland Garros; descreve cidades e seus cidadãos; fala sobre sua nova vida perto da natureza, do mato, dos pássaros, do rio, de sua cadelinha Lambreca; e segue, fato após fato, um escândalo após outro, jogo após jogo. Por fim, cita alguns de seus autores preferidos: Clarice Lispector, Charles Chaplin, Drummond, Chico Buarque. Faz uso de citações de personalidades e fatos históricos,36 inserido em um contexto que possibilita, no uso da ficção, buscar soluções criativas em sua imaginação, sem se comunicar com agressividade.
Dessa forma, consideramos que o jornalismo brasileiro tem seu espaço aberto às crônicas ficcionais, poéticas ou informativas, opinativas. No caso do cronista Tostão, sua escrita direciona-se a tecer suas impressões e opiniões sobre os acontecimentos do esporte, e também sobre a política, a saúde, ou seja, escreve a partir do cotidiano, construído de forma realista, objetiva e, assim, sua crônica não segue a linha de escritos ficcionais. Utiliza uma linguagem equilibrada entre o coloquial, quando estabelece um contato forte com seu leitor, e o literário, ao estabelecer um contato mais forte com sua veia artística e, nesse ponto, extrapola o poético.
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Chegar a essa solução implica não apenas relatar os fatos, como registrar a coluna, mas também questionar e teorizar sobre os acontecimentos, caracterizando a relação jornalística impressa em seus escritos. Mesmo criando personagens, diálogos, o realismo e a crítica são o centro de suas crônicas, discursando sobre o esporte, fazendo, assim, crônica esportiva.
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Algumas dessas crônicas encontram-se em anexo, bem como outras que Tostão teve publicadas no jornal espanhol El País (ANEXOS A,B,C,D,E,F,G,H).