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Dans le document Office of the Auditor General (Page 169-189)

São diversos os estudos que têm se apoiado na Teoria dos Atos de Fala (AUSTIN, 1965; SEARLE, 1995) para a compreensão dos fenômenos discursivos da vida cotidiana. Talvez isso se deva ao fato de que, dentro da abordagem pragmática, essa teoria permitiu a investigação das ações que, de acordo com seus princípios, o indivíduo realiza na e pela linguagem. A própria abordagem pragmática parece ter se apresentado a alguns pesquisadores da linguagem como um caminho viável para o estudo desses fenômenos, visto que nem o estruturalismo de Saussure (1916/1989) fornecia recursos teóricos e metodológicos para isso –

já que sua visão sincrônica da linguagem descartava o interesse no seu “uso” (isto é, na fala, ou parole), a fim de focalizar o sistema a ela subjacente (a lingua, ou langue) – e nem o gerativismo de Chomsky (1986) dava conta da subjetividade na língua (uma vez que a inclusão do indivíduo em sua teoria serviu apenas para enfatizar os aspectos inatos da linguagem).

Assim, enquanto Saussure se interessou pela língua em seu aspecto abstrato, fora do contexto de uso, e enquanto Chomsky deu ênfase aos aspectos inatos da linguagem, alguns estudiosos passaram a eleger a corrente pragmática – particularmente, a Teoria dos Atos de Fala, que incluiu a questão do sujeito (um sujeito psicológico, que tem intenções e é consciente delas) e do mundo – para guiar seus estudos sobre a linguagem.

No entanto, como nos alerta Guimarães (2005, p. 33), essa teoria trata “do mundo das coisas recortado por sua relação com um sujeito que subsiste separadamente da linguagem”, essa concebida apenas como instrumento usado pelo sujeito para alcançar seus objetivos. Além disso, Koch (2005) nos lembra que essa perspectiva não dá conta da interação dos interlocutores durante a conversação, já que se preocupa particularmente com a ação (isoladamente) de quem produz o ato de fala (relegando a segundo plano o papel de quem interpreta o ato de fala). Nessa perspectiva, a interação entre os sujeitos envolvidos com o ato de fala é tratada como “um conjunto de trocas sistemáticas, entre dois indivíduos autônomos, ligados por um código comum” (KOCH; CUNHA-LIMA, 2009). Daí porque, segundo as autoras, essa teoria não dá conta da complexidade do processo de produção de sentidos numa conversação.

Reagindo contra essas limitações, as perspectivas consideradas interacionistas (GUMPERZ, 1982; SACKS, 1992; SCHEGLOFF, 1972) vão defender que os eventos linguísticos não são constituídos por atos individuais e independentes, mas sim na própria interação, a qual, por sua vez, constitui e é constituída pelos interlocutores. Clark (1996), por

exemplo, ressalta que nessa perspectiva a linguagem é concebida como uma ação conjunta, na qual os interlocutores se coordenam por meio de recursos cognitivos e sociais, como os conhecimentos pressupostos por eles como partilhados, os quais dão base às negociações para o mútuo entendimento. Segundo esse autor, na base dos conhecimentos partilhados estão dois outros aspectos inerentes à ação conjunta: o reconhecimento do outro como participando de uma mesma comunidade e o compartilhamento das mesmas experiências. Contudo, para essa perspectiva, conceber a linguagem como ação conjunta não é suficiente, motivo pelo qual ela também é concebida como ação social – cultural e historicamente situada (POMERANTZ, 1997).

Voltando, nesse momento, a focalizar o nosso objeto de estudo (a conversação com chatterbots), queremos lembrar que propomos anteriormente considerar a relação que o sujeito estabelece com o chatterbot como uma interação, a qual, por se fundar no imaginário do sujeito, denominamos “interação por suposição”. Embora o sujeito suponha que está interagindo com o chatterbot, claro está que não existe nesse tipo de conversação ações conjuntas, nem partilha de conhecimentos linguísticos, paralinguísticos e sócio-culturais entre os interlocutores, nem tampouco processos de cooperação (GUMPERZ, 1982). Não há, portanto, a tomada conjunta de decisões interpretativas que organizem a conversação e que promovam a produção de sentidos. Isso porque, também como já dissemos, um chatterbot (como sistema artificial e reativo que é) não considera o conteúdo semântico e pragmático dos enunciados e não possui um meta-conhecimento do mundo real (logo, não é capaz de lidar com a variedade linguística, nem com os variados e dinâmicos contextos em que as palavras são aplicáveis). Como não existem ações conjuntas nem práticas compartilhadas de interpretação ao longo da conversação, esse trabalho se restringe ao interlocutor humano.

Mas, quem é esse interlocutor humano? Para alcançarmos uma resposta que desse conta da especificidade de nosso objeto de estudo – a conversação com chatterbots – sentimos

a necessidade de avançarmos em nossas reflexões teóricas, afastando-nos da tendência em recorrer à Teoria dos Atos de Fala, para nos aproximarmos de uma perspectiva que, além de considerar a linguagem como lugar de interação, concebe o sujeito como dialogicamente constituído na e pela linguagem: o dialogismo.

Bakhtin (2004), ao questionar como a linguagem vinha sendo tratada pelo campo da filosofia da linguagem e pela lingüística, focalizou seu estudo na língua para defender que ela não pode ser explicada por meio de um sistema abstrato de formas linguísticas, ou pelo enunciado isoladamente, e nem mesmo pelo processo psicofisiológico envolvido na sua produção, mas sim pelo fenômeno social da interação verbal. Para isso, ele partiu do princípio de que a língua é um fenômeno histórico e, portanto, inseparável de seu conteúdo ideológico. No entanto, a noção de interação verbal para ele não se restringia ao diálogo de uma situação imediata entre pessoas numa interação face-a-face. Bakhtin concebeu o diálogo num sentido mais amplo, como todo tipo de comunicação verbal, incluindo o diálogo existente entre diversos discursos (ou ideologias) presentes em uma sociedade, bem como aqueles que ocorrem na ausência de um interlocutor real e concreto (como na leitura de um livro, por exemplo) – daí porque ele propôs o conceito de diálogo interno, embora reconhecesse que esse não era objeto de seu maior interesse 16.

Sua concepção de língua está intrinsecamente ligada à sua concepção de sujeito. Bakhtin partia do pressuposto de que a mente humana é dialogicamente constituída, ou seja, de que o sujeito é constituído na e pela linguagem (isto é, pela sua relação com o outro). De acordo com esse pressuposto, expressões como “o sujeito adquire a língua” ou “o sujeito usa a língua” estariam equivocadas, pois o que ocorre é que só se torna sujeito, isto é, só se tem a consciência despertada quando se mergulha na interação verbal (quando se é inserido na linguagem). Daí porque suas afirmações de que “não existe atividade mental sem expressão

16 Quem contribui com uma reflexão interessante e aprofundada a esse respeito é Ivana Markovà, cujas

proposições são discutidas mais adiante, no capítulo referente à questão da produção de sentido, por elas serem valiosas para o nosso trabalho.

semiótica” (p. 112) e que “a atividade mental do sujeito constitui (...) um território social” (p. 117). Podemos, então, concluir que nessa concepção o sujeito “é” linguagem e sua vida está sempre permeada por relações dialógicas, de modo tal que as idéias e discursos que se poderiam considerar dele próprio, na verdade, têm um caráter social: reflete os discursos de “outros” sociais presentes em sua vida desde seu nascimento e reflete também réplicas a esses discursos. Trata-se, portanto, de um sujeito histórico, social e ideológico.

É seguindo esse mesmo raciocínio que Bakhtin elabora sua concepção de enunciação como sendo socialmente dirigida e constituída de movimento dialógico: ao se originar de alguém e se destinar a alguém, ela é produto da interação e requer uma réplica, uma reação. Logo, não existe uma enunciação que possa ser isolada da cadeia de enunciados, pois ela sempre pressupõe outra que a precede e que a sucede. E, na medida em que ela consiste no elo de uma cadeia, não poderá ser estudada isolada dessa cadeia. Além disso, para ele, toda enunciação é determinada pelos participantes da interação (sejam eles explícitos ou implícitos), localizados em um determinado contexto, de tal forma que são esses dois aspectos – participantes e contexto – que vão dar forma e estilo à enunciação. Assim, ele conclui dizendo que “o centro organizador de toda enunciação, de toda expressão, não é interior, mas exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo” (p. 121), e ainda acrescenta que “qualquer enunciação, por mais significativa e completa que seja, constitui apenas uma fração de uma corrente de comunicação verbal ininterrupta” (p. 123), a qual, por sua vez, não pode ser isolada de uma comunicação global em perpétua evolução.

Essas concepções de língua, sujeito e enunciação, propostas pelo dialogismo bakhtiniano, assim como outros conceitos que discutimos mais adiante, parecem-nos dar conta da especificidade da conversação com chatterbots, resolvendo o impasse da inexistência de ações conjuntas e coordenadas necessárias à produção de sentido. Afinal, se levarmos em consideração que o chatterbot, além de ser reconhecido pelo imaginário do sujeito como um

interlocutor legítimo, também reflete um interlocutor que está implícito nos enunciados por ele apresentados (ou seja, o programador que elaborou esses mesmos enunciados), podemos com isso concluir que a conversação com o chatterbot pode deixar de ser vista como uma “simulação de conversação” (como mencionamos na página 20), para representar de fato um diálogo, no sentido mais amplo proposto por Bakhtin, tal como o que ocorre na leitura de um texto (isto é, na ausência de um interlocutor real e concreto).

Neste capítulo, debatemos sobre como alguns conceitos importantes em nosso trabalho são concebidos em diversas perspectivas e como nós os concebemos. Sentimos a necessidade de fazermos o mesmo em torno das noções de sentido e produção de sentido. No entanto, por se tratarem de conceitos-chaves em nosso trabalho, debatemos cuidadosamente sobre eles no capítulo seguinte, o qual, inclusive, contém os conceitos-chaves que dão base à nossa proposta metodológica.

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