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A visão de sexualidade aqui exposta se insere em uma linha clas- sificada por Heilborn (HEILBORN, 2003, p. 202) como construtivista, em que a socialização é o ponto chave para o entendimento do aspecto comunicacional, relacional e sociocultural que envolve a categorização de gêneros, a orientação sexual e a escolha de parceiros. Perspectiva que se contrapõe à visão essencialista, que segundo a autora, se refere à concepção da sexualidade como um instinto, com bases biológicas. Portanto, interessa investigar a potencialidade da sociologia como fonte de compreensão sobre transformações que envolvem a vivência da sexu- alidade nas diferentes sociedades modernas e,ao mesmo tempo, utilizar tais discussões para analisar os condicionantes dos desdobramentos das mudanças na sociedade brasileira.

Ao trazer para a análise sociológica3 o tema da sexualidade, Gi-

ddens (1993) inaugura uma vertente teórica promissora, traçando um paralelo entre as experiências do cotidiano e a vida social moderna, bem como entre as transformações de domínio pessoal e de domínio público -o que faz revisitando os pensadores pioneiros nos estudos da sexualida- de, Foucault e Freud –, desmistificando conceitos e reconstruindo uma nova versão a partir destes e das transformações em curso nas últimas quatro décadas do século passado.

3Giddens não se encontra sozinho como sociólogo no estudo da sexualidade. Norbert Elias já tratava do tema em perspectiva parecida em suas discussões sobre o processo civilizatório e, mais recentemente, Michel Bozon reforçou as hipóteses de Giddens na obra Sociologia da sexualidade, publicada pela Editora da Fundação Getúlio Vargas no Brasil em 2004.

Metodologicamente, ele inova, utilizando não somente as obras científicas, mas também literatura de autoajuda, por entender que esse tipo de material oferece “insights” que não poderiam ser apreendidos de outra forma. Assim, lança mão de um dos principais conceitos que orientam sua análise, que é o da reflexividade – como uma característica definidora de toda ação humana. Segundo Giddens, “as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informação re- novada sobre essas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter” (GIDDENS, 1991, p.45). Nisto consiste a reflexividade, fe- nômeno comum nas culturas anteriores à vida social moderna, mas que somente neste momento da história das sociedades passa a ser consti- tuinte de todos os aspectos da vida humana,sendo a cada dia amplificado pelo crescente acesso da população à informação. Um exemplo apre- sentado pelo autor, levando em consideração o discurso da economia, a partir de conceitos como “capital”, “investimentos”, “indústria”, ilustra como ocorre o fenômeno da reflexividade na sociedade: “A atividade econômica moderna não seria como é se não fosse o fato de que todos os membros da população dominaram estes conceitos e uma variedade de outros” (GIDDENS, 1991, p.47). Mesmo o leigo que não conhece neces- sariamente as definições formais desses conceitos, se utiliza uma conta bancária, demonstra um domínio implícito e prático dessas noções.

Do mesmo modo, a literatura de autoajuda,as revistas especia- lizadas e a produção científicacumpriramum papel importante na re- flexividade da sexualidade na era moderna, ao colaborar na difusão e reconstrução de conceitos no seio da sociedade. Entre os materiais de análise que Giddens utiliza, além dos manuais de autoajuda, encontram- se obras literárias e os famosos relatórios Kinsey e Masters & Johnson, publicados nos Estados Unidos, respectivamente, nas décadas de 50/60 e 70 do século passado, cujas discussões repercutiram no mundo intei- ro, sendo responsáveis também pelas transformações da intimidade nas sociedades modernas, pois influenciaram o reexame das práticas sociais e a alteração do formato dessas práticas que se constituíram após esse processo de leitura e incorporação das ideias àação.

A partir da análise desses diferentes materiais de estudo, Gid- dens revela que houve uma mudança social sem precedentes nas últimas quatro décadas do século passado, com implicações surpreendentes nas relações entre homens e mulheres. O autor afirma que “Para as mulhe- res – e, em certo sentido, para os homens – a sexualidade tornou-se ma- leável, sujeita a ser assumida de diversas maneiras, e uma propriedade potencial do indivíduo” (GIDDENS, 1993, p.47). Dois fenômenos foram os principais responsáveis por essa mudança social na esfera do compor- tamento sexual. O primeiro foi o da sexualidade plástica, definido como a liberação das práticas sexuais do risco da gravidez, o que marcou uma profunda transição na vida pessoal. As mulheres passaram a usufruir de uma autonomia sexual, ao se libertarem de um círculo crônico de gravidez e parto. Esse fenômeno colaborou também para mudanças no tamanho da família, que afetaram a redefinição dos papéis dos parceiros na criação e educação dos filhos e sua inserção no mercado de trabalho. O segundo foi o da emergência do relacionamento puro, conceito desenvolvido por Giddens no livro Modernity and self-identity, publicado em 1991, e que ele retoma na análise das transformações da intimidade:

Refere-se a uma situação em que se entra numa relação social apenas pela própria relação, pelo que pode ser de- rivado por cada pessoa da manutenção de uma associação com outra, e que só continua enquanto ambas as partes considerarem que extraem dela satisfações suficientes, para cada uma individualmente, para nela permanecerem (GIDDENS, 1993, p.69).

Antes do domínio desse tipo de relacionamento – que não se reduz, obviamente, apenas às relações entre parceiros sexuais – para a maior parte da população sexualmente “normal” (aspas do autor), o amor estava vinculado à sexualidade pelo casamento, principalmente para as mulheres. Na era moderna, a realização do prazer sexual recípro- co é um elemento chave na manutenção ou dissolução do relacionamen- to. Essa mudança foi possível por causa da reflexividade presente nessas sociedades.

O cultivo de habilidades sexuais, a capacidade de propor- cionar e experimentar satisfação sexual, por parte de am- bos os sexos, tornando-se organizados reflexivamente via uma multiplicidade de fontes de informação, aconselha- mento e treinamento sexual (GIDDENS, 1993, p.74).

A exclusividade sexual passa a ter valor no relacionamento de- pendendo do quanto os parceiros a considerem como essencial. A sexu- alidade tem agora que ser negociada nos relacionamentos. Para exempli- ficar, Giddens utiliza uma pesquisa realizada por Sharon Thompson, na década de 1960, com 150 adolescentes americanos, de classes e origens diferentes, sobre atitudes, valores e comportamento sexual. Nesse estudo, as adolescentes não falam mais em casamento,mas sim em relacionamen- to. Segundo Giddens, elas utilizam o termo não porque realizaram uma transição bem sucedida para um futuro não doméstico, mas porque são participantes e colaboradoras de uma reorganização importante pela qual passa o casamento e outras formas de vínculo pessoal próximo. Segundo ele, “assistindo à televisão e lendo, elas entram em contato e ativamente procuram numerosas discussões sobre sexo, relacionamentos e influên- cias que afetam a posição das mulheres.” (GIDDENS, 1993, p.63).

Há diferenças significativas entre países, subculturas e camadas socioeconômicas: podem se colocar às margens ou resistir às mudanças descritas. Algumas sociedades apresentam uma história de tolerância se- xual mais longa do que outras e as mudanças que estão sofrendo talvez não sejam tão radicais. Em muitas, entretanto, tais mudanças estão ocor- rendo em oposição a valores sexuais subjacentes, mais repressores do que aqueles característicos da sociedade americana de várias décadas atrás.

Para as pessoas que vivem nestes contextos, sobretudo para as mulheres, as transformações que estão ocorrendo são dramáticas e per- turbadoras. A sexualidade plástica foi a condição para a revolução sexual das últimas décadas. A ela seguiu-se a autonomia sexual feminina, cujas consequências para a sexualidade masculina são profundas. Esta última revolução, ainda inacabada, contribuiu também para o florescimento da homossexualidade feminina e masculina.

A alta reflexividade das sociedades modernas conduziu à abertu- ra da autoidentidade e à natureza reflexiva do corpo. Atualmente, o “eu” é um projeto conduzido em meio a uma profusão de recursos reflexivos: terapia e manuais de autoajuda de todos os tipos, programas de televisão e artigos de revistas.

A intimidade é, acima de tudo, uma questão de comunicação emocional com os outros e consigo mesmo, em um contexto de igual- dade interpessoal. Na maioria dos contextos das sociedades modernas, os homens lutam para manter o poder e a divisão sexual do trabalho permanece intacta.

Na medida em que o poder do homem está baseado na cumpli- cidade das mulheres e nos préstimos econômicos e emocionais que as mulheres proporcionam, ele está ameaçado.

Diante dos pressupostos apresentados, é possível inferir que uma nova configuração das relações e práticas sexuais está presente na sociedade e que os caminhos a serem trilhados na oferta da atenção à saúde integral não podem prescindir de uma reflexão sobre a existência de novos padrões de parentalidade, família e de conjugalidade, a serem considerados e respeitados dentro de uma visão mais ampla e inclusiva.

Sexualidade na adolescência e atenção à saúde sexual

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