Chapitre 2 : Stratégie d’analyse
3- Variables utilisées
5.1.3.1. A distinção entre grafemas maiúsculos e minúsculos
O milênio compreendido entre a queda do Império Romano e o advento da Imprensa viu florescer a escrita, tanto como efetivo elemento de comunicação quanto como objeto de decoração. De fato, à medida que o Império Romano declinava, o papel da escrita ia cada vez mais ficando a cargo dos monges e seus scriptoria passaram a ser os maiores centros de produção e preservação do conhecimento, através da cópia e iluminação de manuscritos. Escrita e cultura refugiam-se nos mosteiros, de modo que os livros passam a ser considerados como raras obras de arte, ganhando valor não só por seu conteúdo, mas também por sua forma. Por essa época, surgem as iluminuras, como uma forma de arte de desenhar, em caixa alta, a letra que iniciava cada capítulo de um livro, daí até hoje a letra maiúscula também ser chamada “capitular”.
De acordo com Bacelar (1998: 13),
“Nesse período, várias escritas adquiriram identidades gráficas próprias, assim como se desenvolveram formas altamente sofisticadas de decoração, transformando as letras iniciais em elementos visuais de grande beleza e variedade.”
No latim clássico não havia distinção entre grafemas maiúsculos e minúsculos: todos os grafemas eram escritos com caracteres gráficos semelhantes ao que hoje chamamos “maiúsculos”.
A criação de grafemas minúsculos se deu entre os séculos IV e VI, como uma alternativa de escrita, ou seja, o escrivão poderia recorrer a só uma das duas formas de grafia.
De acordo com Bacelar (idem, ibidem), durante o reinado de Carlos Magno (747 – 814), deu-se o chamado “renascimento científico”, o que provocou o aumento e a preocupação com a preservação e uso da palavra escrita, sobretudo de uma forma de escrita que fosse fácil de produzir e ler. Desde então,
“desenvolveu-se uma caligrafia a partir da uncial e da meia- uncial com uma grande variedade de formas, tanto rectilíneas quanto redondas, que podia ser rapidamente produzida com uma pena de ganso. Trata-se da primeira esccrita a apresentar uma minúscula normalizada e com desenho próprio, independente da forma da maiúscula correspondente.”
Com a mudança do suporte, e conseqüentemente de instrumento de escrita, na Idade Média, quando o cinzel deu lugar à pena, o uso de caracteres minúsculos se intensificou. Desde então, os caracteres maiúsculos, ou “capitais monumentais”, porque concebidos para inscrições nas pedras, passam a ser vistos como algo próprio da antiguidade clássica. É assim que nasce a noção de que os caracteres maiúsculos são usados para grafar palavras mais importantes, como nomes próprios, por exemplo.
Com a progressiva redução dos casos latinos e conseqüente formação das línguas românicas, as funções gramaticais deixam de se dar pelas declinações, o que exige uma ordem mais rígida dos termos da oração, o uso de conectores e de sinais de pontuação. A divisão dos elementos ao longo do texto passa a ser visualmente marcada e o grafema maiúsculo passa também a marcar o início de uma nova frase.
5.1.3.2. A capitalização da inicial
Entendida como “elemento gráfico suprasegmental abstrato que se caracteriza por ultrapassar o nível do grafema enquanto unidade discreta e se aplicar a seqüências inteiras de grafemas” a capitalização da inicial é elemento que “só pode ser entendido como uma instrução para se transformarem grafemas não marcados em grafemas marcados” (Gallmann, 1986 in Marquilhas, 1991: 78).
Desse modo, como já foi dito na seção anterior, as informações fornecidas a uma palavra iniciada pelo grafema inicial maiúsculo são de natureza semântica, e têm a ver com o traço de grandeza: geográfica (topônimos em geral), de consagração social (vocabulário aristocrático, nomes profissionais), de consagração espiritual (vocabulário religioso), de número (referentes a comunidades humanas), etc (Marquilhas, 1991: 80).
Em consonância com Marquilhas, Gonçalves (2003) chama a atenção a que o uso de grafemas maiúsculos veicula os valores de uma época, de modo que, no século XVII, as maiúsculas relacionam-se aos valores ligados à Igreja Católica.
5.1.3.3. As normas nos tratados ortográficos seiscentistas
As Regras geraes, de Bento Pereira, apresentam, na primeira das três partes que compõem seu tratado, a regra intitulada “Para escrever letra grande”. De acordo com ela, os grafemas maiúsculos são usados em duas situações distintas: para iniciar nomes e para iniciar períodos. De acordo com o autor (p. 01), deve-se usar “letra grande” no início de nomes próprios de pessoas (tanto o prenome quanto o sobrenome), reinos, províncias, cidades, vilas, montes, rios e meses. Deve iniciar também o nome Deus, os nomes dos deuses da gentilidade, os adjetivos que indicam origem. O autor acrescenta que também se pode usar inicial maiúscula no “nome appelativo de alguma grande dignidade, como Pontifice, Rey, & os nomes de sciencias, & artes nobres, como Theologia, Filosofia, Rhetorica ”(1-2).
Com relação aos períodos, devem-se usar os grafemas maiúsculos em “todo o principio de escritura, & qualquer período, ou clausula que se siga depois de acabar outro período, ou clausula precedente em ponto final, ou interrogativo [...] ou admirativo”. (2). Do mesmo modo, usa-se o grafema maiúsculo para introduzir uma citação, depois de “dous pontos” ou de “meio círculo”.
Igualmente, em sua Orthographia, Álvaro Ferreira de Vera se dedica ao assunto, no capítulo intitulado “Regras geeraes da Orthographia da lingua Portuguesa”. De maneira geral, Vera concorda com Pereira, acrescentando que os grafemas iniciais maiúsculos podem ser usados para destacar um assunto:
“nomes proprios de quaesquer cousas, sobrenomes, nomes de sciĕncias, artes, dignidades; & qualquer cousa, que se vai trattando; como, da Caridade: os nomes de nações [...], os patronímicos ” (46 v.).
No entanto, adverte-nos o autor que não devem ser usados grafemas maiúsculos no interior dos vocábulos, mormente em textos manuscritos: “Em meio da dicção senão põe letra grande, porque he notavel erro escreverse assi, oCasiões, oBra, orDinária: como vi de letra de mão mui perfeita mas mui errada na orthographia” (p. 47).
5.1.3.4. A capitalização da inicial nos documentos
Para falarmos da capitalização nos documentos, faz-se necessário tomarmos os textos manuscritos e os textos impressos separadamente, pois, embora os impressos sejam todos sermões escritos por jesuítas, temos manuscritos de naturezas bastante diversas: cartas, escrituras, relatórios, ofícios. Com relação especificamente aos documentos notariais, que geralmente são redigidos diante das partes interessadas e com a presença de testemunhas, sem a possibilidade de revisão, é plausível que esses documentos não apresentem o “capricho” dos textos literários ou mesmo das cartas pessoais. Somado a isso, o fato de a escrita do século XVII ser processada encadeada aumenta ainda mais a freqüência de “descuidos” no tocante à grafia, já que, por vezes, linhas inteiras são escritas sem que o notário tire a pena do papel.
Diante disso, é natural que encontremos nos textos manuscritos, em geral, uma quantidade maior de ocorrências que estejam em desacordo com as normas, conforme observaremos a seguir.