CHAPITRE IV Concepts et apports en programmation par contraintes
IV. 2.2.1 – Variables de conception
Uma ideia só pode ter valor de verdade enquanto for fundada no sensível. “A realidade da ideia é, pois, a sensibilidade, mas a realidade, a verdade da ideia – portanto – a sensibilidade é a verdade da mesma.” (FEUERBACH, 1987, p.78). A teoria materialista-realista de Feuerbach aponta para uma nova orientação do pensamento humano, ou melhor, para um abandono de antigos fundamentos abstratos e uma revisão dos fundamentos sensíveis. Este, talvez, seja um dos primeiros passos para uma “filosofia do futuro” apontados pelo autor. Como ele afirma:
O real na sua realidade efetiva, ou enquanto real, é o real enquanto objeto dos sentidos, é o sensível. Verdade, realidade e sensibilidade são idênticas. Só um ser sensível é um ser verdadeiro e efetivo. Apenas através dos sentidos é que um objeto é dado numa verdadeira acepção – e não mediante o pensar por si mesmo. O objeto dado ou idêntico com o pensar é apenas o pensamento (FEUERBACH, 1987, p.79).
pensamento novo procura enterrar de vez os absolutismos religiosos e intelectuais modernos e, ao mesmo tempo, tirar o homem religioso de sua individualidade, e o homem pensante da sua própria razão individual. Com o princípio do conhecimento que flui e pode ser continuado e compartilhado, Feuerbach nos mostra que o pensamento nunca é individual. A consciência individual sempre está condicionada a diversos parâmetros contextuais e temporais, tornando impossível conceber um pensamento absolutamente individual, livre de todas as conjecturas. Todo homem está inscrito em seu próprio tempo e em seu próprio contexto, sendo impossível um pensamento exclusivo, fora dessa lógica. Pensar é uma tarefa comunitária e, sendo assim, deve ser tratado como um bem comum. No pensamento feuerbachiano, o pensar deixa de ser um exercício de poucos e torna-se uma tarefa necessária e coletiva. A filosofia deve ser para todos.
A argumentação central visa desfazer a equivalência entre sujeito e pensamento inscrita no cogito cartesiano, mostrando como o pensar não deve ser apropriado por cada um como sendo seu, uma vez que a consciência subjetiva não pensa isoladamente e por si, mas inscreve-se no fluxo de uma atividade continua, em que não há começo nem fim. Assim, nem a instancia do Eu pode ser tomada como originaria, nem o pensar pode ser reduzido a uma faculdade subjetiva, sendo, na verdade, um ato comunitário do qual todos os pensantes participam e no qual todos se encontram unidos: quando penso, estou com todos os homens (SERRÃO, 2009. p.17-18). Por isso, um dos pontos fundamentais da chamada “filosofia do futuro” se estabelece com uma incansável defesa da sensibilidade, da sensualidade, do materialismo e do altruísmo contra o egoísmo, a castração e a metafisica religiosa81.
Como se sabe, Feuerbach propõe uma filosofia especialmente pautada na realidade. Aqui, é negado qualquer tipo de pensamento fechado, sistemático e encerrado, porque a realidade não se comporta dessa maneira. Há uma fluidez no pensamento feuerbachiano que acompanha o contínuo movimento da própria vida. Ele não tenta criar uma filosofia sistemática, mas um modo de pensar baseado nos sentidos. Só o que é real tem valor de verdade, só o que existe é real e só é real
81 “[...] Feuerbach caracteriza o cristianismo como egoísmo, como uma esmagadora e arrogante
subjetividade, pois tem por fim o Indivíduo. Enquanto o humanismo da nova filosofia, outra vez não- cristã, é altruísta e comunitário, pois tem por fim a espécie, o gênero. Aqui, Feuerbach parece afastar a Ética da subjetividade radical. A ética se baseia nos atributos absolutos, não contingentes, não transitórios do homem; não é estabelecida entre indivíduos sensíveis, corpóreos. O conhecimento moral se dá quando pensamos a totalidade da humanidade” (ORNELAS, 2011, p.178-179).
aquilo que se é percebido, aquilo que se sente.
Nesse sentido, o filosofo abre um novo parâmetro para pensar o homem que vai na contramão dos sistemas filosóficos mais tradicionais que são fundamentalmente baseados na abstração, isto é, em categorias do pensamento. O homem, para Feuerbach, não é apenas o ser que pensa, mas é também o ser que sente, o ser que vive. O homem é o ser que pensa em total harmonia com o que sente. “Ser é, em última instancia, o mesmo que sentir” (SERRÃO, 2009, p.27). Dessa maneira, podemos considerar que há um ideal de homem a ser alcançado. Ora, Feuerbach propõe-se a elaborar uma nova filosofia, que traga com isso uma nova antropologia e, consequentemente, um novo modo de pensar sobre o homem e para o homem; daí naturalmente, surgirá um arquétipo de como poderiam ser suas novas formas de pensar e agir. Obviamente, Feuerbach não está preocupado em solucionar essas questões de forma sistemática, nem muito menos em defender um “ideal platônico” de homem, mas em diversos pontos de sua obra é possível notar algumas considerações sobre o assunto, dando-nos condições de falar acerca de um possível “homem integral”.
O homem integral pode ser considerado o ideal humano dentro da filosofia nova. É o homem que se reconhece como ser finito e limitado. Sente e pensa de acordo com a realidade dos sentidos. Serrão explica que de forma contraria a maior parte das filosofias precedentes, esse “homem ideal” não é um ser abstrato e muito menos o ser perfeito, ele é o ser humano em seu maior grau de humanidade, se portando e se aceitando como tal, sem a necessidade de especular sobre uma inalcançável perfeição.
[...] a integralidade não se confunde com perfeição e fechamento, porque é abertura e inacabamento. Por outro lado, a integralidade não promove uma ingênua harmonia vital, estando antes marcada por um sentido profundamente paradoxal e por conflitos internos, exibindo um integral finito, dependente e limitado (SERRÃO, 2001, p.303).
Podemos notar que o ponto central da integralidade não constitui um ponto de vista fraco e utópico, pois não retira o homem de sua condição vital e não nega a vida humana e material; Feuerbach procura, com isso, abraçar a humanidade em seu ponto mais puro. A filosofia sensualista, que contém a ideia do
homem integral, procura pensar na felicidade a partir de categorias sensíveis.
Ainda segundo Serrão, a própria ideia de integralidade é marcada por inúmeros paradoxos que, à primeira vista, parecem contraditórios, mas são apenas decorrências do próprio tipo de proposta defendida por Feuerbach. Uma das primeiras preocupações nas obras do autor é a de estabelecer a união do homem consigo mesmo. Ou seja, ao atestar que Deus é apenas uma projeção humana – apenas uma outra face do mesmo ser – o filosofo procura uma união dessas partes. Porém, essa mesma união desdobra-se não em um fechamento do homem, não em sua perfeição82, mas justamente na consciência de sua imperfeição, de sua finitude.
Afastada fica a interpretação da integralidade como um qualquer estereótipo de perfeição ou da apoteose feuerbachiana do homem como a sua absolutização ou divinização. Embora isento de cisões ou de clivagens, o homem integral está longe de ser o homem perfeito, acabado, marcado que está pelo caráter paradoxal de uma inteireza que é impotência, de uma totalidade que é incompletude, de uma riqueza que provém da carência, de uma grandeza que é finitude ou de uma liberdade que é contingencia (SERRÃO, 2001, p. 310).
É importante salientar que o princípio do sensualismo83, que visa ao
homem integral, é justamente o princípio que coloca o homem em sintonia com os outros seres. A ideia de um homem que sente e que pensa de acordo com seus sentidos não implica em um ser sozinho, pensando e sentindo de forma individual. Pensar e sentir de forma humana é pensar e sentir dentro da comunidade.
Uma vez constatado que ser integral é ser finito e incompleto, Feuerbach vai buscar a completude precisamente no outro. “O que um não sabe, saberá o outro”. A partir desse princípio, de um conhecimento compartilhado através do tempo, é possível perceber que a busca pelo outro é imprescindível na busca pela felicidade.
82 A proposta de Feuerbach não procura uma perfeição do homem enquanto ser divino, mas
podemos afirmar que ela procura um máximo aproveitamento dos atributos humanos. Ser o melhor que pudermos enquanto seres finitos e imperfeitos.
83 Pensar é uma atividade humana e deve pertencer a todos. O sensualismo vem, dessa forma, como
um princípio que pensa o ser em si mesmo, o homem em sua totalidade enquanto ser humano. “De fato, o ‘princípio sensualista’ de Feuerbach aponta além da mera teoria do conhecimento. ‘Sensualidade’ – o conceito tem um peso maior do que o inicialmente suspeita – não se esgota em uma ‘faculdade’ subjetiva; significa ser: como objeto não só do pensamento, mas do ser mesmo [...]” (SCHIMIDT, 1975, p.73, tradução nossa).
Poderá parecer que, ao introduzir o ponto de vista da vida, Feuerbach reabilita a figura da individualidade [...]. A dificuldade teórica que poderia daqui recorrer, caso se tratasse de uma filosofia de um primeiro princípio incondicionado, é resolvida por Feuerbach com a adoção não de um, mas de dois princípios conjuntos, ou de um princípio duplo correspondendo à essência dual do ser sensível: o sensualismo e o altruísmo. A doutrina ética esclarece bem essa conjunção entre a tendência à vida plena, ou o impulso para a felicidade do Eu, e o simultâneo reconhecimento do impulso para a felicidade do Tu, sendo a felicidade “conjunta” ou “repartida” o único princípio moral (SERRÃO, 2009, p.28-29).
Portanto, o sensualismo traz à tona o altruísmo. A vida plena e feliz só é possível conjuntamente. Essa ideia vai contra o egoísmo tratado no cristianismo. O homem se completa no outro, não em Deus. A ética feuerbachiana se pontua na ideia de um homem individual que se sabe e se aceita finito e, por isso, parte de um todo. Essa dependência de algo maior – mas não divinizado e sim real e harmonioso – é positivado por Feuerbach como sendo a instancia máxima de um pensar ético do futuro.
Da dinâmica descritiva da sensibilidade extrai Feuerbach a orientação de uma filosofia ética fundada no duplo princípio do Sensualismo e do Altruísmo. O primeiro promove o aprofundamento da humanidade como felicidade conjunta ou felicidade solidaria; o segundo reconduz ao imperativo “faz o bem” a orientação moral de todo o agir que deve ter em conta a referência concreta do outro (SERRÃO, 2001, p.306).
4.5 Contra dualismos modernos: para uma filosofia em consonância com os