Chapitre 4. La personne handicapée en tant que personne « en situation de
4.2.3. Données, sélection des variables et sélection de la population d’étude
4.2.3.5. Variables d’ajustement
Peperzak comenta que é impossível entender a filosofia de Lévinas isolada da experiência pré-filosófica (a experiência, as convicções, os acontecimentos, o clima espiritual da época)150. À descrição fenomenológica do sujeito responsável Lévinas adiciona, além do componente ético, o elemento pré-filosófico: o rosto do próximo. Em Autrement qu’être ou au-
delà de l’essence, o filósofo reitera: “Nenhuma linguagem a não ser a ética tem condições de
igualar o paradoxo no qual entra a descrição fenomenológica” que parte “do desvelamento” do “rosto” do “próximo”, “do seu aparecer” que é “um vestígio” que “ordena” segundo uma “diacronia” não susceptível à sincronização “na representação”.151
O filósofo admite em Autrement qu’être ou au-delá de l’essence que sua filosofia não está completamente livre das “experiências pré-filosóficas”.152 Neste aspecto, o filósofo se aproxima mais uma vez de Heidegger. O autor de Sein und Zeit recorre à experiência pré- filosófica, visto como descreve a vida na sua facticidade, dinamicidade, em seu movimento, na sua relação com o mundo circundante. A fenomenologia heideggeriana analisa a experiência pré- filosófica, isto é, a vida mesma como ela é. Entretanto, Lévinas examina a experiência pré- filosófica, a vida mesma, como ela deve ser vivida. O filósofo faz esta descrição a partir de conceitos éticos, filosóficos, e recorrendo à experiência pré-filosófica que é a linguagem. Dois exemplos disso são, em primeiro lugar, a expressão “eis-me aqui” de Isaías 6, 8, e, em segundo lugar, o pronome reflexivo “se”, em Autrement qu’être ou au-delà de l’essence153.
149
SOKOLOWSKI, R. Introdução à fenomenologia, p. 71.
150
PEPERZAK, Adriaan T. To the Other: An Introduction to the Philosophy of Emmanuel Levinas, p. 209.
151
AE 120, nota n. 35.
152
AE 24: “Sans doute ne se dégaget-elle pas complètement des expériences pré-philosophiques”.
153
AE 190, nota n. 17: “Me voici, envoie-moi”; 132: “Le se du ‘se maintenir’ ou du ‘se perdre’ ou du ‘se retrouver’, n’est pas un résultat, mais la matrice même des relations ou des évènements qu’expriment ces verbes pronominaux”.
Para Peperzak, o “eis-me aqui” adquire seu significado no acusativo. O acusativo rende à expressão a característica da passividade de um sujeito sobrecarregado por uma responsabilidade infinita, antes mesmo de decidir aceitá-la154. A redução fenomenológica do sujeito é uma recondução (re-ducere), um retorno do sujeito ao seu estado e sentido originário e original – semelhante ao ser “originário” de Heidegger155. Este estado de volta ou recondução, após a redução, adquire a modalidade da passividade de um sujeito que está sob “acusação”.156 O termo “modalidade” é importante na filosofia levinasiana. Por modalidade se entende “uma lexis que não é nem afirmada nem negada, que exprime simplesmente uma relação entre dois termos”.157
Para o filósofo, a filosofia é “pensamento modal” que está separado do ser: “A filosofia, enquanto pensamento modal, se separa do ser num modo tão radical que não retorna a este nem pelo fato de que esta [a filosofia] pensa as condições de sua possibilidade”.158 A passividade então, é a modalidade de uma “criatura” que se “despe na perseguição” e se encontra sob acusação sem poder se defender159. A passividade do sujeito consente no sofrimento “sem razão” alguma160. A subjetividade que emerge nesse estado de passividade é feita de “carne e sangue”161; ela é a subjetividade da sensibilidade “à flor da pele”, e ela é capaz de suportar o “sofrimento no
154
PEPERZAK, Adriaan T. Beyond: the Philosophy of Emmanuel Levinas, p. 15, 229. Cf. AE 180-181: “A ce commandement tendu sans relâche, ne peut répondre que ‘me voici’ où le pronom ‘je’ est à l’accusatif, décliné avant toute déclinaison, possédé par l’autre”.
155
HEIDEGGER, M. Ser e Tempo, § 44, p. 299: “O ser – e não o ente – só ‘se dá’ porque a verdade é. Ela só é na medida e enquanto a pre-sença é. Ser e verdade ‘são’, de modo igualmente originário. Só se pode questionar concretamente o que significa dizer o ser ‘é’ e de onde ele deve se distinguir de todos os entes, caso se esclareça o sentido de ser e a envergadura da compreensão ontológica”. Compare-se a citação de Sein und Zeit com esta de Lévinas em DVI 193 (ID. De Deus que vem à i’déia, p. 170): “A fenomenologia nos ensinou, assim, a não explicitar um sentido pensado unicamente, ou principalmente, a partir de suas relações com outros sentidos objetivos, sob pena de relativizar todo sentido e de encerar toda significação no sistema sem saída. A fenomenologia nos educou a explicitar ou a elucidar um sentido a partir do psiquismo irredutível no qual ele é dado, a buscar, assim, o sentido na sua origem, a buscar o sentido originário”.
156
AE 69: “La remontée vers le Dire est la Réduction phénoménologique où l’indescriptible se décrit. Le sujet se décrit comme soi, d’emblée à l’accusatif (ou sous accusation!)”.
157
LALANDE, André. Vocabulário Técnico e Crítico da Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 1999. p. 691.
158
LÉVINAS, Emmanuel. Nomi propri. Casale Monferrato: Marietti, 1984. p. 61.
159
AE 155: “Le soi se dénude dans la persécution dont l’accusation ne se sépare pas, dans la passivité absolue de la créature”.
160
AE 64: “Le Dire est le sens de la patience et de la douleur; par le Dire la souffrance signifie sous les espèces du donner, même si (...) le sujet courait le risque de souffrir sans raison”.
161
AE 181: “Subjectivité de l’homme de chair et de sang”. Husserl emprega a expressão “carne e osso ”, em : HUSSERL, E. Meditações Cartesianas..., p. 123.
se oferecer”.162 A passividade outorga ao sujeito uma atitude de sinceridade e capacidade de doação: “O Dizer é puro por Outrem, pura doação de sinal – puro ‘se-fazer-sinal’ – pura ex- pressão de si – pura sinceridade – pura passividade”.163
A responsabilidade pelo próximo é uma “passividade mais passiva que toda passividade”.164 Ela é exposição ao próximo, e isto instaura a “sinceridade e a veracidade do Dizer”.165 O ato do Dizer é a suprema passividade da exposição a Outrem, pois que é precisamente a “responsabilidade pelas livres iniciativas do outro”.166 Esta é toda a passividade do Dizer porque se passa como “sacrifício sem reserva”.167 O Dizer como passividade é proposto pelo filósofo com a finalidade de introduzir um sujeito passível de sofrimento – na passividade, na paciência –, e isso é possível quando o próximo se aproxima. Sua aproximação instaura a “de- posição” e a “de-situação” do “eu”.168 Em estilo “quase hagiográfico”, Autrement qu’être ou au-
delà de l’essence se encarrega de mostrar o Dizer que difere da modalidade “apresentando
essência e entes” e que se diz como relação interpessoal na qual a subjetividade é deposta de seu “imperialismo”.169 A subjetividade é deposta até o ponto de se tornar “refém” do próximo170.
Na condição de refém, a subjetividade se abre à relação do um-pelo-outro. Para o autor, tal possibilidade é expressa na partícula do “pelo-outro”, e esta é “a significação do Dizer antes de se mostrar no Dito”.171 A passividade do sujeito no “pelo-outro” adquire um sentido acusativo no pronome reflexivo “se”.172 Lévinas confere ao pronome “se” o caráter de um acusativo original; acusativo porque o sujeito se encontra ao se perder, isto é, ao se abrir à responsabilidade
162
AE 18: “Sensibilité à fleur de peau”; 70: “La subjectivité de sujétion du Soi est la souffrance de la souffrance – l’ultime s’offrir ou la souffrance dans le s’offrir. La subjectivité est vulnerabilité, la subjectivité est sensibilité. La sensibilité, toute passivité du Dire”.
163 AE 78. 164 AE 18. 165 Ibid. Cf. também AE 182. 166 AE 61. 167 AE 18. 168 Ibid. 169 AE 70, 59, 61, 155. 170
AE 142: “Le sujet est otage”.
171
AE 126.
172
AE 28: “La subjectivité – lieu et non-lieu de cette rupture – se passe comme une passivité plus passive que toute passivité”.
pelo próximo173. A responsabilidade infinita pelo próximo não é apresentada em termos ontológicos, e sim como uma passagem. A responsabilidade infinita “se passa” na modalidade do infinito na qual a passividade de um “eu” se perde e encontra sua unicidade no “se” reflexivo174. O autor prefere falar do Infinito em termos de “se passar” ao invés de “ser ou não-ser”. Fiel à tese de Autrement qu´être ou au-delà de l´essence, o filósofo não reduz o sujeito e nem as palavras a partir da ontologia, nem mesmo a palavra “Deus”: “Um Deus não contaminado pelo ser”.175 Quando o sujeito diz “eis-me aqui”, esta expressão é “o lugar por onde o Infinito entra na linguagem sem que eu possa vê-lo”; este é o lugar por onde o infinito se passa “sem se mostrar”.176 O sujeito passa passivamente ao sentido acusativo na expressão “eis-me aqui” e no pronome reflexivo “se”.177
O reflexivo pessoal “se” se exprime quando o sujeito é capaz de se responsabilizar pelo próximo, e esse se permite que o “eu” acolha o infinito. O “eu” reconhece o “vestígio”178 como a modalidade da proximidade do infinito no rosto. O infinito se passa na passividade acusativa do “se” do sujeito e do rosto do próximo quando cada um destes se manifesta. Diante deste se do rosto, o sujeito se dirige ao próximo na linguagem, e se torna responsável: é no “vestígio” do infinito que “brilha como rosto do próximo” e na “intriga da Ética e a linguagem” que o infinito se passa179.
173
AE 14: “Malgré moi, pour-un-autre – voilà la signification par excellence et le sens du soi-même, du se accusatif ne dérivant d’aucun nominatif – le fait même de se retrouver en se perdant”. O conceito do “acusativo” é descrito de modo símile em AE 55.
174
AE 23: “Il s’agira ensuite de montrer la proximité comme sens de la sensibilité (...) et comme relation entre sujet et Infini, où l’Infini se passe”. Cf. FERON, E. De l’idée de transcendance à la question du langage..., p. 243: “En un mot, l’Infini se passe dans la passivité du Se”.
175
AE X.
176
AE 190: “Dans mon ‘me voici’, d’emblée présent à l’accusatif, je témoigne de l’Infini. (...) ‘Me voici, au nom de Dieu’, sans me référer directement à sa présence. (...) Signe donné à l’autre de cette signification même, le ‘me voici’ me signifie au nom de Dieu au service des hommes qui me regardent, sans avoir rien à quoi m’identifier, sinon au son de ma voix ou à la figure de mon geste – au dire même”. Cf. LÉVINAS, Emmanuel. Ethique et Infini, p. 112- 113: “Quand, en presénce d’autrui, je dis ‘Me voici!’, ce ‘Me voici!’ est le lieu par où l’Infini entre dans le language, mais sans se donner à voir. (...) Ainsi, dans le ‘Me voici!’ de l’approche d’autrui, l’Infini ne se montre pas”.
177
AE 145: “Le mot Je signifie me voici, répondant de tout et de tous”; 181: “L’identité du sujet s’accuse ici, non pas par un repos sur soi, mais par une inquiétude qui me pourchasse hors le noyau de ma substantialité”; 10: “Unicité dont le hors de soi, la différence par rapport à soi – est la non-indifférence même et l’extra-ordinaire récurrence du pronominal ou du réfléchi, le se”.
178
AE 149: “Le visage de l’autre dans la proximité – plus que représentation – est trace irreprésentable, façon de l’Infini”.
179
AE 14: “Trace qui luit comme visage du prochain dans l’ambiguïté de celui devant qui (...) et de celui de qui je réponds. (...) Positivité de la responsabilité qui, hors l’essence, traduit l’Infini. (...) La positivité de l’Infini, c’est la conversion en responsabilité, en approche d’atrui, de la réponse à l’Infini non–thématisable”; 192: “Que la gloire de
Os pontos de partida do filósofo são pré-filosóficos: a linguagem, o questionamento ético emitido pelo rosto do próximo, e não a ontologia; mas não obstante o distanciamento do filósofo da ontologia, a ética como filosofia primeira ainda busca a “verdade” do sujeito: “A relação ética, oposta à filosofia primeira da identificação da liberdade e do poder, não é contra a verdade, dirige-se ao ser na sua exterioridade absoluta e cumpre a própria intenção que anima a caminhada para a verdade”.180
Os pontos de partida são pré-filosóficos não pelo seu caráter de deficiência, de carência ou necessidade, nem de pré-síntese, nem de pré-acabamento na totalidade, mas porque apontam para a metafísica: uma “relação original com o ser exterior”.181 Segundo o filósofo, esta relação original é de separação, de transcendência, e ela é possível na linguagem.
Em Totalité et Infini, o autor busca descrever uma relação na qual o sujeito e o próximo permaneçam separados e na qual haja respeito em vez de posse, de manipulação, poder e violência. Para o autor, “a linguagem desempenha de fato uma relação de tal maneira que os termos não são limítrofes nessa relação, que o Outro, apesar da relação com o Mesmo, permanece transcendente ao Mesmo”.182 A linguagem implanta uma relação original com algo que está fora do “eu”, que o transcende. Para Lévinas, a linguagem é uma relação originária, visto que não recorre a um além-mundo para existir e, ao mesmo tempo, permite o acesso à originalidade ou unicidade do sujeito: ela exige que aquele sujeito particular responda, e ninguém pode fazer isto por ele ou ela. Nas palavras do filósofo:
É a presença franca de um ente que pode mentir, (...) sem poder dissimular a sua franqueza de interlocutor, que luta sempre de rosto descoberto. (...) A alternativa da verdade e da mentira, da sinceridade e da dissimulação, é o privilégio de quem se mantém na relação de absoluta franqueza, na absoluta franqueza que não se pode esconder. (...) Pode-se, por certo, conceber-se a linguagem como um ato, como um gesto do comportamento. Mas nesse caso omite-se o essencial da linguagem: a coincidência do revelador e do revelado no rosto, que se realiza situando- se sobranceiramente em relação a nós – ensinando. (...) Só o interlocutor é o termo de uma experiência pura em que outrem entra em relação (...); em que ele se exprime sem que tenhamos de o desvelar a partir de um ‘ponto de vista’, a uma luz pedida de empréstimo. (...) O que se apresenta
l’Infini ne se glorifie que par la signification de l’un-pour-l’autre, comme sincérité; que dans ma sincérité l’Infini passe le fini; que l’Infini s’y passe – voilà qui rend primordiale l’intrigue de l’Éthique et le langage”.
180
TEI 18 (ID. Totalidade e Infinito, p. 34-35).
181
TEI 38 (ID. Totalidade e Infinito, p. 53).
182
como independente de todo o movimento subjetivo é o interlocutor, cuja
maneira consiste em partir de si, em ser estranho e, no entanto, em
apresentar-se a mim183.
Na linguagem, há a coincidência entre o revelado e o revelador. No espaço da separação inerente à linguagem, o rosto se manifesta como algo revelado e revelador, como algo que ensina o sujeito. A seguir, há a análise da experiência pré-filosófica que é a linguagem e a apresentação das características principais da linguagem filosófica levinasiana para, depois, refletir sobre as características principais das três obras: Totalité et Infini, Autrement qu’être ou au-delà de
l’essence e De Dieu qui vient à l’idée.