Diakonia é um termo grego61 que significa serviço ou ajuda de pessoas em direção a outras, já no meio cristão é traduzido por serviço ou ministério. Mas, como bem coloca Floristán (1993), na sociedade moderna o termo servir não está em alta, pois geralmente as pessoas associam com subordinação, humilhação e sacrifício. Porém, o conceito encontrado no Novo Testamento traz o servir como forma de expressar a atitude radical de Cristo e dos cristãos, e, por isso, “o serviço a Deus e aos irmãos é a maior prova de amor” (FLORISTÁN, 1993,p.654).
Nessa óptica é válido, em primeiro lugar, conceituar o que aqui se entende por diaconia e desde já, sinalizar para a dimensão em que ela está sendo compreendia:
Diaconia refere-se à Igreja enquanto comunhão ou comunidade por intermédio do qual o serviço de Cristo ao mundo deve se realizar continuamente. Nesse sentido mais amplo, todos os trabalhos e ministérios da Igreja ostentam um caráter diaconal, e todos os membros da comunidade cristã são convocados a servirem uns aos outros. “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2; cf. Jo 13.14). Da mesma forma, todos eles estão convocados para o serviço de amor ao próximo que está passando necessidade (WENDLAND, 2003 p. 261).
60 Dentro dessa condição a palavra Igreja será descrita com a primeira letra maiúscula.
61 Em português escreve-se diaconia, por isso o termo só será utilizado em grego caso for citação direta, onde o
Deste modo, o conceito de diaconia não será aqui trabalhado como ministério diaconal concreto em sentido mais restrito, que é exercido por uma pessoa, grupo ou instituições específicas que a Igreja cria para direcionar as ações de serviço, mas a intenção é justamente resgatar a compreensão de uma comunidade servidora e o ethos do amor que a impulsiona.
Sobre essa diaconia da Igreja o autor Wendland (2003) em seu artigo “A Igreja servidora e o ministério diaconal” esclarece que a Igreja é corpo de Cristo, portanto, só pode ser entendida à partir de Cristo. Assim, o ministério e envio de Cristo são o fundamento e protótipo da diaconia da Igreja. Contudo isso só acontece quando Cristo é Senhor da Igreja e cabeça de seu corpo. Nesse sentido, o autor afirma “Igreja servidora a Igreja será, em primeiro lugar e em última análise, unicamente pelo fato de ser de Cristo, o Senhor” (WENDLAND, 2003 p. 255), e é por isso que todo gesto de amor e serviço é dirigido a Ele conforme escrito em Mateus 25:40 “Sempre que o fizeste a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizeste”.
Dentro dessa lógica, da diaconia da Igreja e seu ministério diaconal, é possível verificar às funções da Igreja pelas quais se realiza seu serviço a Cristo. Lorenz (2003), aborda rapidamente na história, como foi construído a fórmula para tratar sobre as manifestações necessárias da Igreja. A primeira publicação foi nos anos 30, na Alemanha, como “martyria-leiturgia-diakonia, originalmente concebida como: dedicação ao mundo - dedicação a Deus- dedicação aos irmãos” (LORENZ, 2003, p.290). Mas devido ao movimento ecumênico, leiturgia foi substituído por koinonia, testemunho, comunhão e serviço, e neste momento a Igreja Evangélica definiu como “comunhão de testemunho e serviço”. Por fim, Michaelsbruderschaft ampliou a fórmula de três elementos para quatro, são eles: martyria- leiturgia- koinonia-diakonia. Para melhor compreensão desse “quadrângulo de forças da Igreja”, Lorenz (2003) apresenta da seguinte maneira:
Fonte: Lorenz, 2003, p.291.
Wendland (2003), embora reconheça apenas três elementos dessa fórmula, o martyria-leiturgia-diakonia, é valido recorrer aos seus escritos pois o autor aborda a relação entre estes, pois considera que nenhuma dessas ações podem estar separadas um das outras, ou a “Igreja não será Igreja em sentido pleno e genuíno” (WENDLAND, 2003, p.256).
Diaconia sem leiturgia significaria a transformação do serviço com caráter de misericórdia e amor em um agir social ou assistencial, e sem a esfera do sacramento a diaconia não teria a força e amor necessário, pois esses elementos são fundamentais para a ação que vem através da comunhão com Cristo. Sobretudo, considera que o ministério diaconal só pode partir do âmago mais central da ceia do Senhor e ao mesmo tempo, somente a diaconia preserva a Igreja de se “isolar do mundo em seu culto, e até de profanar e esvaziar esse culto a Deus por esquecer que seu Senhor e Rei Jesus Cristo veio não para ser servido, mas para servir (Mc 10.45 par)” (WENDLAND, 2003 p. 257).
Já sobre a relação diaconia e martyria, testemunho e proclamação da Igreja ao ver de Wendland são atividades inter-relacionadas. Uma Igreja que não proclama e/ou testemunha à salvação por meio de Cristo, perde seu caráter diaconal e se torna uma instituição beneficente. Porque, para ele a diaconia “é o serviço a partir do amor de Cristo, que deve ser comunicado e atualizado pela Igreja, e não um serviço a partir do amor humano ao semelhante ou do utilitarismo social” (WENDLAND, 2003 p. 258). Uma característica central desse amor, que nesta discussão merece total atenção, é o “amor desinteressado”, ou seja, o trabalho diaconal
não vincula o serviço de amor, com condições de interesses como ingresso da pessoa na Igreja ou arrependimento para fé.
Vale ressaltar que isso não significa que a diaconia deva permanecer muda, mas apenas sinalizar para equívocos que muitas vezes aparece na atividade prática da Igreja ao estabelecer metas ou finalidades missionárias para os serviços ofertado as pessoas62. A tentativa, na verdade, é reforçar que a Igreja deve ser da palavra e não “das palavras”, onde pessoas desejam cumprir o mandamento de amar a Deus e ao próximo.
Sobre essa centralidade da diaconia da Igreja ao mundo, Wendland, (2003) recorre a Karl Bart, o qual, de maneira clara e sucinta, coloca do seguinte modo:
Aqui, na diaconia, ela (a comunidade cristã) tem a oportunidade de tornar visível, pelo menos em forma de sinais, a natureza cósmica da reconciliação acontecida em Jesus Cristo, do reino, do amor a Deus e ao semelhante e, portanto do conteúdo de seu testemunho, que ela prestou entre as pessoas pela pregação, evangelização, aconselhamento e missão. Isso se dá exatamente aqui, onde ela se empenha de maneira especial pelo ser humano em sua existência física e material e, portanto, pelo ser humano todo. Aqui ela escapa do equivoco de que, afinal, sua mensagem na verdade não passaria de palavras, pensamentos, ideias, sentimos e, quando muito, de certos postulados morais. (BARTH apud WENDLAND, 2003, p.279).
Aqui, novamente pode ser entendida a necessidade da dimensão política na práxis cristã (Floristán, 1993) ou da diaconia voltada para a sociedade (Wendland, 2003), pois a característica fundamental dessa ação da Igreja é a edificação do Reino no espaço público, ou seja, para fora de suas fronteiras, em favor de uma sociedade justa, livre e humana. Por isso, Wendland considera “se a diaconia da Igreja quiser prestar auxílio ao indivíduo em sua aflição específica, não poderá passar ao largo dos problemas da ordem econômica” (WENDLAND, 2003, p.279).
Mas vale destacar que tanto Floristan (1993) como Wendland (2003), avaliam que o conhecimento técnico e a organização da atividade prática são elementos necessários para a práxis cristã, a diaconia. Nas palavras de Floristán, a práxis cristã corresponde à amplitude do
Exercício da existência no mundo. Todos os conhecimento e técnicas estão ao serviço da transformação da realidade ou libertação, mediante a práxis da justiça. Aqui se luta contra toda opressão, dominação ou dependência frente a criação de uma nova realidade (FLORISTAN, p.213).
62 Sobre esse assunto conferir: NASCIMENTO, Analzira. Missão e alteridade: descolonizar o paradigma
missiológico. 2013. 165 fl. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) – Faculdade de Humanidades e Direito, Programa de Pós-Graduação Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2013.
Nesta mesma direção Wendland (2003) sugere que para o desenvolvimento da diaconia assistencial são necessários recursos de legislação, criação de instituições na sociedade para oferta de serviço de forma continuada, além de uma análise crítica dos problemas sociais, na perspectiva de viabilizar o bem-estar e liberdade ao ser humano e não aliená-los de sua destinação humana (WENDLAND, 2003, p.279).
Contudo, embora a dimensão social e política seja enfatizada por Wendland (2003) o autor em nenhum momento perde vista o elemento motivador, o amor. Para ele o amor não pode ser esquecido e nem permitir que este se dissolva entre as diretrizes legais da política de assistência social, pois a misericórdia não é a mesma coisa que justiça, porque misericórdia provém de Cristo, então é evangelho e não lei. Mas, ao travar a “luta por justiça social quando a arbitrariedade, a injustiça ou marginalização ameaçam o ser humano representa, por assim dizer, o mínimo da misericórdia” (WENDLAND, 2003, p.280), ou seja, em seu entendimento a misericórdia vai além dos limites traçados pela justiça ou ordenamentos jurídicos.
Floristán, entende que a finalidade da Igreja está justamente no servir, e por isso caracteriza essa ação diaconal.
A diaconia cristã tenta superar as necessidades humanas mesmo as mais urgentes, e tentar eliminar todas as barreiras de um mundo, cujo os pilares fundamentais se chamam justiça econômica, solidariedade social, liberdade política, tolerância de ideias e humanitarismo (FLORISTAN, 1993,p.655). Diante de todo o exposto, apesar de haver a limitação humana, entendimento cristão fragmentado ou dicotômico, e a transitoriedade nas formas das atividades sociais e missionários, a ênfase na dimensão diaconial para cada comunidade ou à Igreja, atesta para um amor que vem de Deus e produz ações efetivas, cria novas realidades para o ser humano, seja em sua miséria corporal, econômica ou espiritual. Portanto, nesse sentido, a Igreja “vai ao encontro do pecado dos miseráveis e da miséria dos pecadores com o testemunho do evangelho e ação diaconal do amor” (WENDLAND, 2003 p. 259).
CONSIDEAÇÕES FINAIS
Este estudo assumiu como objetivo investigar se a práxis social e missionária dos metodistas em Poços de Caldas corresponde às diretrizes do PVM, em especial o que diz respeito ao plano específico para área de vida e trabalho da Igreja, a Ação Social.
Para tal, esta análise buscou compreender, em primeiro o lugar, o paradigma missiológico no metodismo brasileiro. Para isso se fez necessário o resgate histórico, político, social, teológico e eclesial que influenciaram e até conduziram, pode-se assim dizer, a construção do documento norteador e inspirador da missão, o PVM. É possível reconhecer que este documento alterou o rumo da missão ao estabelecer que a missão acontece quando a Igreja sai de si mesmo, se envolve com a sociedade e se torna instrumento para implantação do Reino de Deus. Neste sentido, o compromisso missionário não se limita a evangelização pessoal, mas afirma a responsabilidade da Igreja Metodista em direção da justiça, do amor, da denúncia e da dignidade humana.
Dentro desse novo conceito de missão, dois elementos contidos no Plano foram essenciais para este estudo. Primeiro, o documento pressupõe a superação da dicotomia, evangelização e ação social, por demonstrar compromisso com o bem-estar total da pessoa, não só espiritual, mas também social. E o outro aspecto é reconhecer que a missão é de Deus, e a Igreja é privilegiada por poder participar do proposito de Deus para o mundo.
Nesta perspectiva, a ação social é então reconhecida como forma do amor de Deus encarnado no testemunho da Igreja em prol do mundo. Por isso este trabalho envolveu a prática dos metodistas, em especial dos membros da Igreja em Poços de Caldas, por oferecerem um serviço de assistência social no espaço público através da Associação Metodista de Ação Social - AMAS.
Como a intenção foi de aprofundar a reflexão entre teoria e ação, a pesquisa documental, através de leituras em atas e relatório, proporcionou uma aproximação da verdade no âmbito histórico e desenvolvimento de uma consciência crítica. Assim, foi possível constatar que a práxis social e missionária dos metodistas em Poços de Caldas corresponde a dimensão contemplada pelo PVM, principalmente por não apenas contemplar a ação em direção a necessidade pessoal, social e econômica, mas por propugnar por mudanças estruturais na sociedade que rompa com a desmarginalização, vulnerabilidades, injustiças e desigualdades.
É interessante aqui ressaltar a coerência entre as ações e o Plano com as diretrizes nacionais da política pública de assistência social. Isso demostra uma alteração na concepção da ação social da Igreja, onde tradicionalmente a atenção social era vista como ajuda aos pobres e necessitados, passa-se a reconhecer a estrutura desumanizante que intensificam essas relações de desigualdade social. Por isso foi interpretado o papel político da Igreja, onde ela pode e deve estar inserida na atividade social transformadora, o que é denominada pela filosofia como práxis.
Sobre essa discussão da práxis, foi reservado o capitulo três, onde pode ser visto para que haja a práxis são necessários momentos de reflexão, consciência orientada e racionalidade, o que pode ter ou não relação com os valores religiosos, mas o que determina a práxis como atividade social transformadora é sua perspectiva ideológica, política e econômica. No contexto analisado, da práxis social e missionária dos metodistas em Poços de Caldas, é possível reconhecer que as ações realizadas por intermédio da AMAS-PC tem adquirido ao “longo do caminho” maior grau de consciência da práxis e tem contribuído na vida de seus usuários, por trabalhar na direção do direito e não favor, da política e não caridade, da práxis transformadora e não da prática.
Entretanto, observou-se na investigação que esse compromisso social e preocupação com as novas realidades política, econômica e social se faz presente nas atas da diretoria executiva da AMAS-PC, porém, ao mesmo tempo, aparecem inúmeros registros que denunciam a ausência da igreja neste sentido.
Diante de todo arcabouço teórico abordado nesta pesquisa, acredita-se que este salto de consciência da práxis dos dirigentes da AMAS-PC é justamente pelo contato direto com a prática e circunstâncias cotidianas. Na perspectiva da herança wesleyana, seria explicado pelo contato com o que sofre que possibilita o desenvolvimento social do cristianismo (JOSGRILBERG, 1993). Em Vazquez (1977), é conhecida por práxis humana, onde o ser social e consciente se humaniza a si próprio. E por último, no ponto de visto do PVM, a consciência social e humana é adquiria através da conjugação dos atos de piedade, culto e piedade pessoal, e obras de misericórdia, aonde se constrói, em amor e justiça, a nova comunidade e o Reino de Deus. (IGREJA METODISTA, 2017, p.159).
Por fim, sendo esta a realidade diagnosticada, e talvez não exclusiva dos metodistas, o estudo se encerra com o resgate do debate diaconal da Igreja, dentro de uma perspectiva fundamentada na missão de Cristo, pois é a partir daí que a Igreja irá entender seu ministério de servir, ao buscar superar as necessidades humanas, eliminar as barreiras para promover a justiça econômica, liberdade, dignidade, solidariedade, tolerância, etc.
Entretanto, ao apontar para o resgate da dimensão diaconal da Igreja voltada para a sociedade de maneira nenhuma desvaloriza as ações da AMAS-PC, pelo contrário, a instituição é vista como um instrumento privilegiado de assistência social da igreja metodista em Poços de Caldas, e evidentemente necessária frente as necessidades sociais do território aonde se encontra. Mas, o interesse foi de reforçar que a Igreja, a partir de Cristo, possui em si a essência diaconal, por isso o serviço não é reservado para alguns, pois nenhum cristão fica isento do mandamento de amor, da práxis cristã ou da práxis transformadora, aqui o leitor pode escolher o termo que mais se identificou ou melhor lhe representa.
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