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Assim como a memória, a identidade somente pode ser tratada “sob rasura”, num piscar de olhos e num brinde a Hall (2009), diante de sua polissemia, de sua demasiada complexidade, e de sua significativa presença nos estudos sociais, em particular naqueles que tem como principal objeto a cultura. Em torno de “identidade” gravitam idéias tais como “indivíduo”, “sujeito”, “pessoa”, “unidade”, “indivisibilidade”, “essência”, numa primeira abordagem rápida da palavra, sobretudo se considerarmos sua etimologia. É que a palavra remete, de pronto, ao humano indiviso, na sua singularidade, nas suas idiossincrasias.

Porém, ao mesmo tempo afastando uma abordagem essencialista e trazendo a identidade como um lugar que se toma socialmente, um lugar assumido em decorrência do contexto e da posição, veremos, primeiro, que a identidade é mais adequadamente tratada no plural, identidadeS, e, segundo, que a identidade não pode ser apartada do meio social, ainda que se refira a apenas um ser humano. Assim, as identidades podem corresponder a diversas posições de um sujeito num dado contexto social e segundo as relações travadas com outros sujeitos, outras culturas e/ou outros meios, enfim com o Outro. Assim, a melhor rima de “identidade” é com “diversidade”.

Depreende-se desse entendimento, por uma lado, que é pela fricção aos outros, portanto à diferença, que nossa identidade se constitui e se manifesta, e, por outro, que a diversidade e a pluralidade integram a identidade, ou melhor, as identidades do humano. Nessa fricção, o meio social exerce papel importante para a formação-performance das identidades, na medida em que nosso imaginário é delas impregnado, e que são transmitidas, fundamentalmente, por meio da cultura. A identidade pode ser um conjunto de traços distintivos, o que nos diferencia dos outros como pessoa, assim como um conjunto de traços conformadores do “idêntico”, o que nos caracteriza como membro de dado grupo social. Como também ela pode se constituir como um conjunto de elementos diferenciadores de um grupo (em relação a outros grupos), elementos estes em relação aos quais as pessoas se

identificam, nos quais se reconhecem, por gerarem sentidos (positivos) e um sentimento de pertença. É nesse último aspecto que nos ateremos ao tratar da coletividade acadiana, não sem antes delimitar os contornos de “identidade”, partindo da noção de identidade cultural pós- moderna proposta por Stuart Hall (2005).

Desse modo, intrinsecamente vinculada ao contexto social, a identidade seria definida pelo conjunto de papéis que desempenhamos, além de ser determinada pelas condições sociais decorrentes da produção da vida material. Assim, é na batalha do dia-a-dia que as identidades se forjam, através dos múltiplos contatos sociais, conforme a localização das pessoas ou grupos em termos cronológicos e espaciais. A identidade pode ser vista como um espaço de tensões e negociações engendradas nas inter-relações com outros modos de ser e (sobre)viver, outras maneiras de (se) representar, outras culturas.

A crise de identidade na pós-modernidade, gerada sobretudo pela globalização “glocalizante” e seus efeitos assimétricos no globo terrestre, fez da identidade um espaço de

pouso-em-travessia e/ou de parada-em-passagem, mas raramente de repouso, enraizamento

ou ancoragem. Um espaço cambiante de trânsitos e correspondências (aéreas, aquáticas ou terrestres), embora isso possa ser mitigado pelas reações desencadeadas, também, pelo medo da assimilação ocidentalizante, materializadas nos fundamentalismos.

O declínio das velhas identidades estáveis e unificadas abriu possibilidade para o aparecimento de novas identidades fragmentadoras do indivíduo moderno, identidades estas “descentradas” e “deslocadas”. Esvaziadas da sua essência, abaladas na sua fixidez e fadadas à intermitência, essas novas identidades tornam-se uma “celebração móvel” aberta à transformação contínua “em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam” (HALL, 2005, p. 13). A multiplicação e diversificação dos sistemas de significação e representação cultural na pós-modernidade, associadas à velocidade das incessantes mudanças sociais, sobremaneira aceleradas pela globalização, geraram “uma multiplicidade desconcertante e cambiante de identidades possíveis” (HALL, 2005, p. 13) com as quais somos confrontados e poderíamos nos identificar, ainda que provisoriamente.

Assim, o sujeito pós-moderno pode assumir diferentes identidades conforme o momento vivenciado, não sendo mais regido por um “eu” unificador e coerente, o que pode levá-lo a paradoxos identitários. O sujeito pós-moderno é, assim, habitado, ou melhor,

acampado por identidades contraditórias, sendo uma ilusão a “identidade plenamente

unificada, completa, segura e coerente”, ilusão esta nutrida pela reconfortante “narrativa do eu”. Aquela “historinha” que, convenientemente, elaboramos sobre nós mesmos para nos dar

a impressão de permanência atravessando o tempo histórico com um núcleo de imanência e imune às turbulências seculares. Uma fantasia, nos afirma Hall. Um porto seguro ao qual nos ancorávamos... e que foi profundamente abalado pelo tsunami da globalização!

Esse abalo provocou profundas transformações nas relações dos indivíduos com o tempo e com o espaçona pós-modernidade. As sociedades pós-modernas se vêem, assim, marcadas pelo “desalojamento do sistema social”, nos dizeres de Giddens (apud HALL, 2005, p. 15), pelas descontinuidades, pelo “deslocamento” e pela “diferença”. O “desalojamento do sistema social” traduz a “‘extração’ das relações sociais dos contextos locais de interação e sua reestruturação ao longo de escalas indefinidas de espaço-tempo” (GIDDENS, 1990, p. 21

apudHall, 2005, p. 16). As descontinuidades encerram um processo infinito de rompimentos

com as anterioridades e de rupturas internas, ambas libertadoras de ordens sociais tradicionais e ensejadoras de novas formas de interconexão social numa escala global. Já o “deslocamento”, conceito de Laclau (apud HALL, 2005, p. 16), geraria uma pluralidade de centros de poder ao deslocar o antigo centro sem substituí-lo por outro. Por derradeiro, a marca da “diferença” pode ser vista pela coexistência, nas sociedades pós-modernas, de “diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes ‘posições de sujeito’ - isto é, identidades - para os indivíduos.” (HALL, 2005, p. 16).

Dessa maneira, as identidades pós-modernas se consubstanciam num processo de descontinuidades, fragmentações, rupturas e deslocamentos, rumo a novas articulações, sempre pluralizantes. Nesse processo continuamente desarticulador e rearticulador, as identidades podem ser assumidas e/ou abandonadas pelos indivíduos segundo a forma como estes são representados, conforme a “convocação” social a eles dirigida. Essa dinâmica de assunção e abandono de posições é caracterizada, em particular, pela permanente abertura da identidade, inclusive em decorrência da parcialidade e transitoriedade das articulações, pela contradição e pela diversidade. Num ambiente em constante mutação, somente um sujeito cambiante e plural pode (tentar) dar conta das negociações operadas nos interstícios resultantes da “sobreposição e [d]o deslocamento de domínios da diferença.” (BHABHA, 1998, p. 20).

Dessa forma, um sujeito titular de identidade(s) fixa(s), enrijecida(s) pelo “emsimesmamento” cultural, representada(s) e apresentada(s) como una(s) ou unificada(s) pelo “eu” essencializado, não se prestaria/estaria apto a administrar a questão da identidade na pós-modernidade. No processo desestabilizador e desconstrutivo de construção das identidades, os deslocamentos pulverizadores de centros e as articulações das diferenças culturais fazem emergir entre-lugares e mobilizam estratégias de ressignificação das

subjetividades através do distanciamento. Assim, os deslocamentos provocam o

estranhamento (BHABHA, 1998, p. 29), o sentir-se forasteiro de si mesmo, e a conseqüente

necessidade de se re-alocar, ainda que transitoriamente.

Nesse processo fomentador de uma profunda crise identitária, potencializada pela grande velocidade e pelo largo alcance das mudanças na contemporaneidade, impõe-se um distanciamento reflexivo no qual o sujeito, atravessado pela pós-modernidade, rachado e partido em inúmeros pedaços33, vai se articulando, na diferença e enquanto diferença, à cata de uma completude identitária - apesar de inalcançável -, em busca de um (certo) equilíbrio identitário. Contudo, a sonhada plenitude identitária, segundo a psicanálise, é um prazer fantasioso. Nesse sentido, ao apontar a descoberta do inconsciente por Freud como um dos cinco grandes avanços do pensamento da modernidade tardia que ensejaram o descentramento final do sujeito cartesiano, coloca Hall (2005):

Assim, em vez de falar da identidade como uma coisa acabada, deveríamos falar de identificação, e vê-la como um processo em andamento. A identidade surge não tanto da plenitude da identidade que já está dentro de nós como indivíduos, mas de uma falta de inteireza que é ‘preenchida’ a partir do nosso exterior, pelas formas através das quais nós imaginamos ser vistos por outros. (p. 39)

Em que pese a falta de inteireza a ser satisfeita pelas representações fomentadas pelos olhares externos, o (tal) equilíbrio identitário pode ser atingido. Contudo, será indelevelmente marcado pela precariedade em decorrência da fragilidade, da instabilidade e da transitoriedade das identificações34. É que para, eventualmente, alcançar esse equilíbrio tênue de identidades, o sujeito se vê impelido a efetuar múltiplas negociações, a desarticular e re-articular continuamente nos espaços distintivos dos “entre”, não apenas “entre-dois”, como também “entre-vários”35.

Assim, o caráter de negociação permanente das identidades pós-modernas enquanto espaços transitórios de inter-relações mutantes na diversidade (e na adversidade) encontra-se na base da fragilidade destas identidades, constituindo, porém, ao mesmo tempo, sua riqueza. É que nas novas articulações “possíveis e imagináveis” da pós-modernidade, a negociação não abarca negação entre os antagonismos. De fato, uma releitura de elementos opostos, anteriormente polarizados de forma mutuamente excludente, possibilita enxergá-los não como

33

O movimento das identidades compreende um deslizar no assoalho pós-moderno, molhado, até encharcado, pelas mutações globais e globalizantes, um escorregar, um cair e um partir em mil pedaços para todos os lados. Uma ruptura explosiva!

34 “Identificação” seria um termo mais adequado para designar o processo de construção de identidades. Vide

citação acima.

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contraditórios que se dispensam ao se relacionarem, mas como elementos complementares e suplementares a um só tempo. Numa relação de complementaridade, tais elementos mantém uma interdependência dialeticamente ontológica, constituindo, assim “os lados de uma folha de papel”. Numa relação de suplementaridade, juntos postergam o preenchimento sígnico das fendas identitárias, promovendo, assim, uma abertura perene e infinita.

Destarte, as pretensas unidade e homogeneidade da identidade, seja esta individual ou coletiva, encerram uma ilusão aprisionadora por padronizar, etiquetar, e até reduzi-la a uma característica, sem localizá-la no tempo e no espaço ou nas inter-relações com outras características, e com outras culturas, o que não raro provoca a mitificação e a fetichização da identidade, frequentemente - e duplamente - embaladas36 pela mídia para melhor servir ao mercado cultural. Isso tornaria a identidade coletiva uma espécie de “molde” ao qual o indivíduo deveria se ajustar - um “carcan” assujeitador e reificador -, a fim de ser reconhecido enquanto membro de uma coletividade. Porém, trata-se, antes, de uma associação, voluntária e involuntariamente, assumida, de uma afiliação, de um sentimento de pertença a um grupo, a uma coletividade, sentimento este consciente ou inconscientemente desenvolvido. É nessa perspectiva e considerando a identidade como uma construção-construto efetuada nas inter- relações com o Outro dos outros e de si mesmo, através de (re)articulações decorrentes da gestão das diferenças culturais, que abordaremos a identidade coletiva acadiana.

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