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Retomando as leis lógicas da imitação em Tarde (2001), uma idéia se difunde mais que outra porque algumas delas são julgadas mais úteis, relacionadas às questões de seu tempo e submetidas a fins e princípios nele estabelecidos. Nos exemplos apresentados no capítulo anterior, é possível notar como cada idéia tem suas justificativas de apropriação vinculadas ao seu tempo e a seu contexto. Na pedagogia nova, pelas novas demandas da democracia moderna em função de um novo modelo de escola que provocasse uma ruptura com as formas tradicionais de educação ligadas ao imaginário católico e ao poder rural no Brasil, por tentar implantar uma escola em consonância com o projeto de sociedade moderno capitalista. No tecnicismo, além da ênfase atribuída à reestruturação econômica e social, este veio, também, se impor como uma idéia julgada útil aos ditames de uma forte ditadura militar. No caso das idéias de Gramsci, nada mais útil do que uma idéia que serviu como referência conjuntural para justificar a incursão dos professores pela mobilização social no campo da educação no Brasil.

Em relação ao construtivismo, o duelo lógico (TARDE, 2001.) no campo educacional entre uma abordagem instrumentalista como o tecnicismo e outra assentada numa crítica aos determinantes sociais - encontradas nas teorias críticas no Brasil num período esperançoso da função da educação em relação à sociedade - foram condições social e discursiva para a disseminação de uma idéia fornecida pelos pesquisadores em educação, que se apresentava como abordagem útil ao fornecer uma resposta à pergunta “como aprender?”; posta no contexto educacional brasileiro com uma educação pública que clamava por concepções que sugerisse uma prática frente aos graves problemas de evasão e repetência escolar.

No caso do objeto de nossa análise, as repercussões das abordagens autobiográficas52 vão encontrar no Brasil um contexto de recepção favorável a propostas que exigem a individualização dos sujeitos, configurado, ao mesmo tempo, pelas exigências de responsabilização do professor no âmbito das políticas

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A tendência à individualização não foi um processo exclusivo do campo educacional no Brasil, mas interligado a exigências contemporâneas em outros domínios do saber e em nível internacional.

educacionais, pela valorização do cotidiano escolar e da vida do professor, assim como pelo excesso de discursos sobre educação e formação, oriundos da produção intelectual.

Este cenário nos dá uma visão das razões pelas quais o contexto da recepção favorece a individualização, no entanto, do mesmo modo como foi feita uma incursão pelas justificativas de apropriação das autobiografias para a formação no contexto da emergência do movimento pesquisa/formação, é importante recorrer à história da produção literária pedagógica no Brasil e fazer a história social da emergência da problemática no campo, ou seja, até se tornar uma preocupação das proposições no campo educacional foi necessária uma apropriação que conduziu a introdução destas abordagens neste em determinados momentos. Retomar esta trajetória, delineando os significados atribuídos às abordagens autobiográficas e inscritos nas produções é a parte complementar do nosso trabalho que permitirá apreender os significados destas abordagens entre os contextos da emergência e da recepção.

Nossa hipótese da relação entre os contextos (emergência e recepção) é de que os sentidos das autobiografias oriundas do contexto da emergência se sobrepõem aos da recepção. Para realizar esta tarefa tentaremos, inicialmente, fazer uma leitura de produções na literatura educacional no Brasil em dois momentos: nos anos 80, assim como durante e após os anos 90.

Bueno (2002) ao tentar explorar as motivações que levaram a adesão aos métodos autobiográficos na formação de professores situa a questão da subjetividade como tema aglutinador que levou os diferentes estudos a optarem por incluírem as vidas dos sujeitos nos processos de conhecimento e formação. Nos argumentos dela, encontram-se as mesmas justificativas de apropriação dos métodos autobiográficos para a formação anteriormente destacados no bojo da emergência das autobiografias para a formação na Europa, tais como a questão da crise das ciências, a exigência de renovação metodológica com a finalidade de construir uma teoria da formação de adultos, assim como a qualidade heurística das abordagens autobiográficas, tendo em vista sua capacidade de conjugarem diversos saberes numa perspectiva interdisciplinar.

É importante dizer que a autora propõe este texto com a finalidade de fornecer ao campo educacional no Brasil uma visão das sínteses que são realizadas pelos intelectuais em outros países. Esta visão pode apenas nos dá uma imagem, mas a esta pode estar associada à necessidade de orientar e organizar a lógica da produção do conhecimento no Brasil em conformidade e submetido às formas predominantes de saber em outros contextos e locais, facilitando, com isso, a migração de idéias e dos efeitos de translação entre os campos. Este aspecto já tem sido verificado em outros exemplos neste texto e, ao que parece, a lógica no campo da formação de professores no Brasil, nos tempos recentes, não nos concede uma exceção.

Há certa aproximação deste trabalho com a idéia apresentada por Bueno (2002) de que as justificativas de apropriação de abordagens autobiográficas se orientam pela “reivindicação da subjetividade”, própria do contexto contemporâneo, entretanto, tal como foi visto no capítulo anterior, nossa contribuição à temática inclui a valorização da individualização nos domínios da pesquisa em educação e formação, mas também nas políticas e programas de formação, ou seja, foi possível identificar que os apelos aos saberes docentes vêm acompanhados pela exigência de sua expressão: como sujeito que pode extrair de si um discurso sobre sua vida e sua formação, assim como deve ele ser responsável pelos resultados de sua ação pedagógica.

Tentando fazer um esboço das justificativas de apropriação das abordagens autobiográficas no Brasil, realizamos, inicialmente, a história social do problema no campo, isto é, tomando como base o levantamento bibliográfico realizado e comentado na parte dedicada à exposição das fontes, fizemos um esboço da trajetória do uso das historias de vida e autobiografias no campo da educação e da formação de professores no Brasil. Este momento remete aos anos 80 e segue pelos anos 90, pois é nossa intenção apontar as contradições entre os sentidos da formação autobiográfica no movimento pesquisa/formação e o contexto de recepção destes sentidos no campo da formação de professores no Brasil.

7.2 A emergência da problemática no campo: análise de produções na