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Sempre que o sol Pinta de anil Todo o céu O girassol Fica um gentil Carrossel.

O girassol é o carrossel das abelhas.

17 As páginas digitalizadas dos poemas encontram-se digitalizadas nos anexos (a partir da página 173), ao final

Pretas e vermelhas Ali ficam elas Brincando, fedelhas Nas pétalas amarelas.

- Vamos brincar de carrossel, pessoal? - “Roda, roda, carrossel

Roda, roda, rodador Vai rodando, dando mel Vai rodando, dando flor.”

- Marimbondo não pode ir, que é bicho mau! - Besouro é muito pesado!

- Borboleta tem que fingir de borboleta na entrada! - Dona cigarra fica tocando seu realejo!

- “Roda, roda, carrossel Gira, gira, girassol Redondinho como o céu Marelinho como o sol.”

E o girassol vai girando dia afora... O girassol é o carrossel das abelhas.

O poema “O girassol” faz alusão ao movimento, à dança, à brincadeira de roda. As repetições “roda, roda” e “gira, gira” remetem às cantigas de roda. Ao mesmo tempo, o paralelismo, frequente nas estrofes do texto, que lembram estrutura de refrão, contribui para o efeito sonoro, retomando o movimento de ciranda e convidando a criança a vivenciá-lo, a experimentar suas palavras com os sentidos do corpo.

A primeira estrofe anuncia a brincadeira que o poema irá propor ao leitor: “Sempre que o sol/Pinta de anil/Todo o céu/O girassol/Fica um gentil/Carrossel” (MORAES, 2004, p. 19). O formato circular da flor e o seu movimento, em busca da luz solar - embora não seja em volta de si mesma, como é, no caso do brinquedo -, faz lembrar um carrossel. O girassol, portanto, torna-se um carrossel e, logo abaixo, o texto se encaminha a informar a quem o brinquedo pertence: “O girassol é o carrossel das abelhas” (MORAES, 2004, p. 19). Com essas informações, é possível que a criança consiga imaginar os versos e, até mesmo, o que virá na sequência.

A definição inusitada que marca a segunda estrofe do poema (“O girassol é o carrossel das abelhas”) oferece ao leitor espaço para elaborar a imagem mental do verso ao mesmo tempo que insinua a brincadeira com o corpo.

O texto convida o leitor infantil a integrar-se à proposta lúdica, seja, inicialmente, pela imaginação, seja, posteriormente, pelos sentidos (do corpo), valendo-se da escolha de elementos da natureza (como o sol, o girassol e os insetos), familiares ao universo infantil – e

que, caso não o sejam, ao menos constituem alvo da curiosidade infantil. Essa proposta de integração do humano com o natural também aproxima o leitor do texto, já que a criança encontra-se em contado mais estreito com a natureza, quer pela curiosidade inerente, para quem tudo é novo, quer pelo olhar descompromissado com a lógica adulta. Mesmo que a criança nunca tenha visto um girassol, a alusão ao brinquedo carrossel já possibilita a construção de uma imagem mental que a aproxima do lido.

A intencional sonoridade, produzida a partir da combinação de palavras, constitui o fio melódico do poema, que acolhe o leitor mirim, sensível ao universo das palavras, dos sentidos e dos seus efeitos. Os pares de rimas sol/girassol, anil/gentil e céu/carrossel, ainda na primeira estrofe, chamam a atenção do público infantil, curioso e aberto às novidades da língua e às suas possibilidades de combinações. Uma atmosfera de surpresa e encantamento é capaz de envolver crianças na fase inicial da escolarização, ao entrarem em contato com um texto como “O girassol”, construído cuidadosamente para ouvidos atentos ao inusitado. A harmonia entre as palavras e a proposta de imagens, construídas a partir daquelas, proporciona o contato com a Arte, o que auxilia na constituição humana da criança.

A estrofe que segue explica o modo como as abelhas brincam no girassol: “Pretas e vermelhas/Ali ficam elas/Brincando fedelhas/Nas pétalas amarelas” (MORAES, 2004, p. 19). As abelhas brincam nas pétalas do girassol, assim como os infantes brincam no carrossel, sentadas em cavalinhos. A alusão ao universo das brincadeiras infantis acolhe os anseios do leitor mirim, que, como todo humano, busca referência e aceitação. Assim como as crianças, as abelhinhas gostam de brincar. Essa possibilidade de identificação mobiliza a emoção do leitor mirim – ela percebe, por meio da voz do eu-poético, que seus desejos, anseios e necessidades têm reflexo, têm eco no texto.

Na terceira estrofe, o eu-poético interage com o leitor de modo a convidá-lo a participar da brincadeira: “- Vamos brincar de carrossel, pessoal?” (MORAES, 2004, p. 19). Se, até este momento da leitura, alguém encontrava-se tímido, apenas contemplando os acontecimentos, agora ela é explicitamente chamada à ação:

- Roda, roda, carrossel Roda, roda, rodador Vai rodando, dando mel Vai rodando, dando flor.

A repetição da palavra “roda” dá, por ela mesma, a ideia de círculo e, quando combinada a “carrossel” e a “rodador” proporciona, ao leitor, a sensação de se estar girando,

participando da brincadeira. Da mesma forma, a marcante presença de paralelismos e repetições (Roda, roda, carrossel/Roda, roda, rodador e Vai rodando, dando mel/Vai

rodando, dando flor)18 compõe a sonoridade do poema, favorece o interesse infantil pela

leitura e, ainda, facilita a memorização dos versos, como se uma música fosse, uma vez que a combinação desses elementos pode provocar o desejo de saber o poema de cor, para poder repetir posteriormente, como costumamos fazer com as músicas que ouvimos e gostamos: queremos aprender a cantá-las; queremos lembrar de sua letra. As rimas poucas vezes se repetem, conferindo qualidade ao texto, pois cria expectativas no leitor sobre o que virá de novidade. Os pares de rimas são os seguintes: sol/girassol, anil/gentil, céu/carrossel, vermelhas/fedelhas, elas/amarelas, carrossel/mel e rodador/flor.

Assim como o poema fala de uma brincadeira, ele propõe essa brincadeira e, ainda, em sua estrutura, constitui-se como um brinquedo, na medida em que brinca com o som das palavras e joga com os sentidos construídos a partir das combinações feitas. É o que encontramos, logo adiante, na quarta estrofe, em que não há a presença de rima; a brincadeira é com os sentidos: “- Marimbondo não pode ir, que é bicho mau!/ - Besouro é muito pesado!/ - Borboleta tem de fingir de borboleta na entrada!/ - Dona cigarra fica tocando seu realejo!” (MORAES, 2004, p. 19). Atribuindo características aos insetos, o eu-poético justifica o consentimento ou a proibição de eles brincarem no carrossel das abelhas. Essas qualidades são facilmente referendadas pelos leitores mirins, pois dialogam com o seu universo: marimbondo pica, causa dor, por isso, para as crianças, é visto como um bicho mau; a espécie de besouro mais conhecida por esse nome é o de cor preta, que, em relação às abelhas, torna- se pesado, desajeitado; a borboleta tem como principal característica voar e, quando se pensa nela, logo são suas asas que vêm à mente como referência de imagem', portanto, nada mais lógico do que uma borboleta portar-se como tal na brincadeira – e essa ruptura com a expectativa de uma justificativa também pode causar um efeito lúdico. A cigarra, por sua vez, tem sua imagem vinculada ao canto e reforçada pela fábula “A cigarra e a formiga”, narrativa que está presente, há muitas gerações, na infância dos pequenos.

A pausa de cada verso, marcada por travessão e ponto de exclamação, pode ser entendida como uma série de enunciados do eu-poético, que ditam o ritmo e o desenrolar da brincadeira; abre-se um espaço para a inserção desse leitor infantil, seja para identificar-se com os insetos, seja para sugerir uma possível brincadeira posterior à leitura, que elimina seus participantes por exclusão. Essa proposta garante a continuidade da experimentação do texto poético, agora com o corpo em movimento. Na penúltima estrofe do poema, identifica-se um

convite que o texto faz a quem o lê, cujos versos retomam o movimento do carrossel, completando a ciranda:

Roda, roda, carrossel Gira, gira, girassol Redondinho como o céu

Marelinho como o sol. (MORAES, 2004, p. 19)

“E o girassol vai girando dia afora... O girassol é o carrossel das abelhas.”. Com esses dois versos, que compõem a última estrofe do poema, é ditada a dinâmica da brincadeira: ela não termina... Assim como o círculo - formato dos elementos do poema -, que não tem marcado seu início nem seu final, a ideia de continuidade envolve a proposta lúdica de Vinícius de Moraes. Abre-se um espaço para o leitor retomar o texto assim que deseje e da maneira que eleger mais conveniente e agradável.

“O girassol”, portanto, apresenta-se como um poema centrado no ludismo, que acolhe a necessidade mais natural e primeira da criança: a de brincar. Por identificação, os pequenos têm a oportunidade de experienciar sensações de alegria e movimento do corpo, além de serem aproximadas da natureza, pela riqueza de imagens que podem ser construídas a partir da leitura. A musicalidade criada pelo jogo de palavras garante o contato com a tessitura melódica da poesia, configurando-se em uma experiência estética que contribui para a s dos leitores.

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