3. Calage et validation du modèle ECO-MARS3D
3.3. Validation des modèles hydrodynamiques de rang 1 « Loire-Vilaine » et
Esta lei que orienta todas as coisas para o bem, é a própria lei de Deus, mestre e médico de almas, que, através da Providência, dá a cada um aquilo que é mais adequado. Quando o destino se realiza, os ignorantes praguejam contra aquilo que está nos desígnios do próprio Deus. Tudo o que vemos, mesmo que ocorra contrariamente às nossas expectativas, é uma expressão da ordem que mais convém à boa realização das coisas.
As contrariedades que, porventura, venhamos a sofrer nesta vida, são provas colocadas por Deus em nosso caminho, para que melhor possamos nos conhecer e caminhar a passos mais firmes e largos rumo ao Bem. É desta forma que os homens recebem do divino Criador apenas conforme os frutos de suas obras, encontrando no caminho tudo aquilo que mais necessitam para melhor se desenvolverem, estejam eles já com os pés alicerçados no caminho ao Bem, ou estejam eles ainda cegos nos desvios que os conduzem aos vícios, embora não possam entender simplesmente através dos recursos da razão a inteligência divina.
Pela primeira vez, em toda a DCP, Boécio recorre ao auxílio da fé, tendo nela a compreensão para a resolução da questão que ora se apresenta.219 De fato: a Filosofia lhe diz que há desígnios que estão para além da compreensão humana, bastando crer que há um Deus que tudo cria e tudo ordena:
Não há homem algum que possa compreender apenas com seus recursos, nem explicar com palavras todo o mecanismo da obra divina. Que baste, portanto, ter apreendido apenas isto: é o mesmo Deus, criador de todos os seres, que dispõe todas as coisas orientando-as para o bem e que, do mesmo modo, assimila e mantêm próximos a si todos os seres por ele criados, servindo-se do destino para eliminar o mal de onde se exerce a atividade divina. E é desta forma que, se observas a repartição que efetua a Providência daquilo que se acredita ocorrer ao acaso sobre a Terra, poderás ver que não há aí nenhum mal.220
219
“Compreender tal afirmação exige que a razão se volte para um nível mais elevado.” William de Siqueira Piauí, Aristóteles e Boécio: natureza das coisas e eternidade de Deus, p.10.
220
DCP, IV, prosa 6., 176-182. “Neque enim fas est homini cunctas diuinae operae machinas uel ingenio comprehendere uel explicare sermone. Hoc tantum perspexisse sufficiat quod naturarum omnium proditor
Nesta parte do diálogo, como vemos, a Filosofia reafirma a Boécio o princípio aristotélico de que todas as coisas tendem para o bem. O que implica reconhecer que não há Fortuna que não seja boa, pois seja ela favorável ou não, tudo o que ela nos proporciona está relacionado a um processo que nos encaminha para o melhor. A Fortuna sempre nos proporciona encômios ou opróbrios de acordo com nossas necessidades momentâneas, no intuito de nos encaminhar para a causa primeira de todas as coisas, Sumo Bem que é fundamento de tudo. A Fortuna que põe à prova ou corrige, mesmo não agradando aquele que a recebe, é boa, pois encaminha o homem ao bem.
A Fortuna possui em si elementos corretivos que visam levar o homem à excelência. Se ele já estiver voltado para o bem, ela pode ser favorável para colocá-lo à prova, testando, por exemplo, sua humildade e equanimidade; ou desfavorável para testá-lo em sua persistência e perseverança. Se o homem estiver voltado para os desvios viciosos, ela pode ser favorável para encaminhá-lo à percepção do próprio erro, pois a permanência no vício leva-nos à ruína, ou desfavorável, para que possamos nos emendar mais depressa. Eis porque a Fortuna em si sempre é benéfica, os homens é que costumam atribuir diferentes juízos de valor a ela. Diz a Filosofia: “Depende apenas de vós dar à Fortuna a forma que desejais. Com efeito, cada vez que a Fortuna parece adversa, se ela não põe à prova ou não emenda, é porque pune.”221
É desta forma que Boécio encerra o livro IV de seu DCP, com a tese evidenciada de que o mal não é, pois só aquilo que se volta para o bem possui o estatuto ontológico da existência. Aqueles que buscam o mal, portanto, cessam de ser, como afirmamos acima.
Já o Livro V é iniciado com a retomada da questão referente ao acaso, onde Boécio mais uma vez indaga à Filosofia sobre a existência ou não disto que denominamos acaso. A mestra de nosso filósofo enfatiza-lhe que Deus submete todas as coisas às suas leis, pressupondo isso, como poderia haver acaso? “Nada pode ser feito a partir do nada”222, nenhum fato pode produzir-se sem uma causa, o que nos leva a definirmos o acaso como um acontecimento inusitado, mas não como algo que é desprovido de ordenamento divino.
deus idem ad bonum dirigens cuncta disponat, dumque ea quae protulit in sui similitudinem retinere festinat, malum omne de rei publicae suae terminis per fatalis seriem necessitatis eliminet.”
221
DCP, IV, prosa 7, 46-48. “In uestra enim situm manu qualem uobis fortunam formare malitis; omnis enim quae uidetur aspera, nisi aut exercet aut corrigit, punit.”
222
A Filosofia lembra a Boécio que Aristóteles, na Física, nos diz que quando uma ação é realizada para um determinado fim, mas algo repentino ocorre, isto se chama acaso; como por exemplo, quando um agricultor vai cavar o solo e encontra um tesouro. Embora este acontecimento seja fortuito, ele não provém do nada. Ao contrário, tem causas próprias, pois o tesouro só estava ali porque alguém o enterrou.223
O acaso, então, pode ser definido como algo que acontece de modo imprevisto, mas regido por um ordenamento inevitável ministrado pela Providência. Diz a Filosofia:
Podemos, portanto, definir o acaso como um acontecimento inesperado, resultado de uma somatória de circunstâncias, que aparece no meio de ações realizadas com uma finalidade precisa; ora, o que provoca um tal conjunto de circunstâncias é justamente a ordem que procede de um encadeamento inevitável e tem como fonte a Providência, que dispõe todas as coisas em seus lugares e tempo.224
Eis porque podemos afirmar, com plena convicção, que o mal não existe: tudo que é, foi e será, Deus vê de uma só vez, e tudo ordena conforme seus perfeitos desígnios, o que impede não apenas a existência do acaso, como do próprio mal. Torna-se evidente a defesa boeciana da nulidade ontológica do mal, que implica fragilidade, fraqueza, despotencialização. Tudo o que existe busca permanecer, busca a unidade, busca evitar a dispersão. Esta garantia reside Naquele do qual todas as coisas provêm e ao qual todas as coisas retornarão. Tudo o que é, é ordenado dentro de um plano divino. Sendo o mal sinônimo de desordem, ele não é. De fato, ele não existe, ainda que, à primeira vista,
223
Na Física Aristóteles nos diz: “Quem deliberou é causa, assim como o pai é causa de seu filho, e, em geral, o agente é causa do que fez, assim como o que produz o movimento é causa do que mudou.” Aristóteles, Física II 3 194b. Apud. Zingano M. Particularismo e universalismo na ética aristotélica. Para Zingano, “Ação e acaso estão sob a mesma rubrica, mesmo se o homem, por hábito, aja antes assim do que não assim: o fato é que, para cada ação, ele não é mais assim do que não assim, o que vale também para o acaso. A mesma tese pode ser vista na discussão de determinação ou não total da natureza. Para Aristóteles, nem tudo é ou ocorre necessariamente. Isto vale sem dúvida para o conjunto da natureza (isto é, também para o contingente natural), mas, como esta tese não é aceita por todos, Aristóteles procura mostrar que ela é correta pondo em relevo o caso privilegiado da indeterminação. Para isso, vale-se tanto das ações quanto do acaso.” Marco Zingano, Particularismo e universalismo na ética aristotélica, p. 83.
224
DCP, V, prosa 1, 47-52. “Licet igitur definire casum esse inopinatum ex confluentibus causis in his quae ob aliquid geruntur euentum. Concurrere uero atque confluere causas facit ordo ille ineuitabili conexione procedens qui de prouidentiae fonte descendens cuncta suis locis temporibusque disponit.”
pareça ter invadido a terra; se estivermos atentos ao ordenamento da Providência, veremos que ele (o mal) não existe em parte alguma.