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Muitos dos casos aqui sistematizados costumam ser retratados em estudos que buscam observar o fenômeno das fake news à luz da história. O primeiro exemplo remonta aos idos dos anos 44 a.C, precisamente na guerra civil que decorreu do assassinato de Júlio César já no fim do Império Romano (KAMINSKA, 2017; POSETTI; MATTHEWS, 2018). No parâmetro atual, a luta de poder entre o general Marco Antônio e o então sucessor de Júlio César, o filho adotivo Otaviano, teria correspondido a uma “guerra de desinformação sem precedentes”. “Desde o início, Otaviano provou ser o propagandista mais esperto, usando slogans curtos e afiados escritos em moedas no estilo de tweets arcaicos”27 (KAMINSKA, 2017). Isso porque mensagens curtas eram espalhadas em esquinas, ruas e cidades como tentativa de arruinar a reputação de Marco Antônio, figura respeitada entre as tropas militares28, ao narrar episódios que exploravam seu lado “mulherengo e bêbado”. “Otaviano sabia que, se conseguisse convencer o público disso, colocava-se ele próprio na posição de romano, virtuoso e tradicional - e que Antônio representaria tudo o que era estrangeiro, bárbaro e ilegítimo - e que seria capaz de criar um clima político excepcionalmente forte”29 (KAMINSKA, 2017).

27 “From the outset, Octavian proved the shrewder propagandist, using short, sharp slogans written upon

coins in the style of archaic tweets” (KAMINSKA, 2017).

28 A distribuição massiva e estratégica de rumores para desconstruir a imagem de Marco Antônio saiu do

controle porque foi evidenciada de forma escancarada, levando a população ficar do lado do general Marco Antônio por considerá-lo “o menor dos males”. No fim das contas, todavia, Otaviano acabou por vencer a Batalha de Actium (31 a.C), se consolidou como sucessor de Júlio César e recebeu o nome de Augusto, o primeiro imperador de Roma (KAMINSKA, 2017).

29 “Octavian knew that if he could convince the public he stood for everything Roman, virtuous and

traditional — and that Antony represented everything foreign, barbarian and illiberal — he would be able to tap into an exceptionally powerful political mood” (KAMINSKA, 2017).

17 No século 15 d.C, já depois da invenção da prensa por Johannes Gutenberg (1439), uma onda de boatos que se espalhou em Trento, na Itália, exemplifica como alguns destes, independentemente do meio, difunde-se muito rapidamente em um processo que se sustenta em temores e preconceitos muitas vezes contidos, mas longitudinalmente30 estabelecidos – nesse caso, o antissemitismo. A situação aconteceu em 1475, em plena Idade Média, quando o frade Bernardino da Feltre pregou em uma série de sermões que uma criança havia sido sequestrada e assassinada por judeus. Mais ainda, que o corpo da vítima havia sido encontrado no porão de uma casa cujos moradores eram judeus, que teriam bebido o seu sangue na Páscoa31. As declarações inspiraram ondas crescentes de boatos e serviram para incitar ódio a partir da ideia de que “judeus bebem sangue de crianças” (SOLL, 2016). Quinze pessoas da comunidade judaica foram presas, torturadas e executadas na fogueira32 (SOLL, 2016). De acordo com Jacob Soll, professor de História e Filosofia da Universidade do Sul da Califórnia, notadamente nos séculos 15 e 16 era muito difícil distinguir boatos de notícias, mesmo sendo época de popularização dos periódicos impressos. As fontes credíveis eram autoridades políticas e religiosas, bem como testemunhas dos fatos (oculares ou não), marinheiros e mercadores (SOLL, 2016).

Leitores em busca de fatos tinham que prestar muita atenção. No século XVI, aqueles que queriam notícias reais acreditavam que relatos secretos vazados do governo eram fontes confiáveis, como a correspondência do governo veneziano, conhecida como relazioni33. Mas não demorou muito para que os documentos originais vazados fossem logo seguidos por falsos vazamentos de relazioni. No século XVII, os historiadores começaram a desempenhar um papel na verificação das notícias, publicando suas fontes como notas de rodapé

30 De acordo com o escritor italiano Claudio Redina, autor de uma série de livros sobre “os segredos da

Igreja Católica”, o racismo contra os judeus vigorava desde 1215, com o Concílio Lateranense (RENDINA, 2012).

31 Mais sobre a construção do sentimento antissemita que remete ao caso do frade pode ser consultado

nas obras: “MORMANDO, F. The Preacher's Demons: Bernardino of Siena and the Social Underworld of Early Renaissance Italy -Ch. 2. [S.l.]: University of Chicago Press, 1999”; “NAZÁRIO. Autos-de-fé como espetáculo de massa. Dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1998; “ABULAFIA, A. The Jewish–Christian Encounter in Medieval Preaching, ed. Jonathan Adams and Jussi Hanska, The English Historical Review, Volume 131, Issue 551, August 2016, Pages 886–887, https://doi.org/10.1093/ehr/cew178”; "HSIA, R. Trent 1475: Stories of a Ritual Murder Trial. [S.l.]: Yale University, 1992”: “FALK, A. A Psychoanalytic History of the Jews. [S.l.]: Associated University Presses, Inc, 1996”, entre outros.

32 O frade pertencente à ordem franciscana foi beatificado em 1654. Para saber mais, ver http://www.franciscanos.org/santoral/bernardinofeltre.htm; o menino Simonino, que ficou conhecido como Simão de Feltre, por sua vez, chegou a ser beatificado em 1588 pelo Papa Sixto VI, porém cassado já em 1965 pelo Papa Paulo VI, embora seja considerado mártir e ser cultuado por fies. Para saber mais, ver “Simon of Trent“. CatholicSaints.Info. 16 March 2017. Web. 23 December 2019.

https://catholicsaints.info/simon-of-trent/”.

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verificáveis. O julgamento das descobertas de Galileu em 1610 também criou um desejo por notícias cientificamente verificáveis e ajudou a criar fontes de notícias científicas influentes34 (SOLL, 2016).

Junto à onipresença de boatos, mentiras, inverdades ao longo da história, a invenção da prensa móvel permitiu o surgimento de novas publicações que não necessariamente passavam pelos crivos dos governos ou da Igreja Católica, o que gerou incômodo. No ano de 1674, por exemplo, o Rei Carlos II, da Inglaterra, publicou o documento “Proclamation to Restrain the Spreading of False News, and Licentious

Talking of Matters of State and Government”35. Mesmo com censura aos materiais impressos, em um governo ainda absolutista, “a rápida proliferação de panfletos partidários levou a uma crescente preocupação com a politização da imprensa”, o que se intensificou antes e durante a Guerra Civil Inglesa (MCMANUS; MICHAUD, 2018, p. 14–15)36.

No século XVIII, após o terremoto de 1755 que quase destruiu toda a cidade de Lisboa37, informações falsas e deturpadas eram amplamente repassadas em meio ao ambiente de desespero e calamidade pública no país. Mais uma vez, a Igreja Católica interferiu na construção de narrativas que davam contas não apenas de fantasias e sensacionalismos que apontavam a atuação de monstros marinhos e bruxas no desastre, mas também para castigar aquele povo pecador que precisava de salvação e que sobreviveu por milagre da Virgem Maria (ARAÚJO, 2006). Adicionalmente, histórias do terremoto, majoritariamente fantasiosas e inverídicas, publicadas em panfletos populares conhecidos como “relações de sucesso”, eram vendidos pela Europa com larga aceitação,

34 “Readers in search of fact had to pay close attention. In the 16th century, those who wanted real news

believed that leaked secret government reports were reliable sources, such as Venetian government correspondence, known as relazioni. But it wasn’t long before leaked original documents were soon followed by fake relazioni leaks. By the 17th century, historians began to play a role in verifying the news by publishing their sources as verifiable footnotes. The trial over Galileo’s findings in 1610 also created a desire for scientifically verifiable news and helped create influential scholarly news sources” (SOLL, 2016).

35 By the King. A proclamation to restrain the spreading of false news, and licentious talking of matters of

state and government. England and Wales. Sovereign (1660-1685: Charles II), Charles II, King of England, 1630-1685.Edinburgh: [s.n.], Re-printed in the year, 1672. Versão impressa digitalizada pode ser encontrada em https://luna.folger.edu/luna/servlet/detail/FOLGERCM1~6~6~180809~110840:By-the- King--A-proclamation-to-rest# Acessado em 06 de novembro de 2019.

36 O idioma inglês, naquela altura, denominava as notícias enganosas como “false news”, como visto no

documento oficial da coroa britânica – a palavra “fake” foi inserida no dicionário apenas no século 19 (MCMANUS; MICHAUD, 2018, p. 15).

37 Para saber mais, ver:

19 segundo estudo da professora de Letras da Universidade de Coimbra, Ana Cristina Araújo. “Supostamente, eles estavam transmitindo notícias. (...) Esses relatos tipicamente distorcidos continham omissões, elementos de fantasia, negligência e incerteza. (...) Distribuídos por vendedores cegos, eram as principais fontes de informação para analfabetos (...)”38 (ARAÚJO, 2006, p. 2). Estudos são desenvolvidos ainda hoje com objetivo de entender os efeitos cognitivo do chamado “terror religioso” desse evento sísmico39, considerado o mais bem documentado da Europa, no sistema de crenças religiosas do mundo ocidental40 (NICHOLS, 2014).

Há diversos outros casos de uso e adesão popular a obras de ficção e informações manipuladas do século XVIII, como o caso dos panfletos distribuídos antes da Revolução Francesa com detalhamentos de déficits orçamentários para mostrar que o governo estava falido; os conteúdos que informavam que os nativos do território dos Estados Unidos atuavam em parceria com o então rei da Inglaterra, George II, durante a Revolução Americana; ou, do lado contrário, que o rei britânico enviaria tropas estrangeiras para “massacrar os patriotas americanos”, com objetivo de “levar as pessoas a se alistarem e a apoiarem a causa revolucionária” (SOLL, 2016). Igreja e governantes estiveram à frente da distribuição estratégica de informações falseadas, entre mentiras e boatos, com o objetivo de unificar narrativas sobre acontecimentos públicos, especialmente em tempos de instabilidade ou calamidade social. A invenção da prensa móvel, contudo, abriu espaço para folhetins partidários e ampliou a participação da sociedade civil no processo de construção da opinião pública, principalmente com a profissionalização da imprensa,

38 “Purportedly, they were transmitting news. (…) These typically distorted accounts contained omissions,

elements of fantasy, sloppiness and uncertainty. (…) Distributed by blind sellers, they were the main sources of information for the illiterate (...)” (ARAÚJO, 2006, p. 2).

39 Há muitos estudos publicados sobre o enquadramento do discurso religioso do terremoto de Lisboa.

Entre outros, ver: “DODDS, Graham G. “This Was No Act of God:” Disaster, Causality, and Politics. Risk, Hazards & Crisis in Public Policy, v. 6, n. 1, p. 44-68, 2015” e “DYNES, R. The Lisbon Earthquake in 1755: Contested meanings in the first modern disaster. 1997”.

40 O papel do filósofo iluminista francês Voltaire, que publicou o “Poème sur le désastre de Lisbonne”

(1756), contra o “faccionismo religioso” (NICHOLS, 2014, p. 10), é um aspecto curioso da história. Em outra situação, Voltaire, motivado pela leitura do folhetim “A História de Nicolas I, Rei do Paraguai e Imperador dos Mamelucos”, obra anônima que narrava experiências vividas pelos jesuítas no “novo mundo” bastante lida à época na Europa no século XVIII, chegou a escrever uma carta para o Rei do Paraguai como se ele existisse antes de descobrir que se tratava de uma completa obra de ficção (LEAL, 2019). Para saber mais, ver https://piaui.folha.uol.com.br/materia/o-imperador-de-sao-paulo/ e

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/04/obra-recupera-fake-news-do-seculo-18-que-

enganou-voltaire.shtml Casos como o do terremoto de Lisboa e a do folhetim fez com que Voltaire não apenas confrontasse as explicações da Igreja Católica, mas que se tornasse quase como um “ativista contra fake news religiosas” (SOLL, 2016).

20 motivada a organizar – ou a mediar – o caos informativo também no século XIX, o que será retratado a partir deste ponto.

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