• Aucun résultat trouvé

V.2 Validation du programme :

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 159-165)

Dividi o campo em dois momentos porque tive duas abordagens metodológicas diferentes. O primeiro momento do campo foi entre os meses de junho e julho, na qual realizei entrevistas semiestruturadas com mulheres que trabalham na rua, em casas de massagem, nas boates do centro e nas boates da Praia de Iracema. O segundo momento se deu entre os meses de agosto e outubro. Depois de sentarmos, eu e meu orientador, para analisar o primeiro momento em campo, decidimos aprofundar as primeiras entrevistas a partir de tópicos específicos.

Retornando a Fortaleza, peguei os contatos de telefone ou do facebook das mulheres que entrevistei e tentei retomar os contatos para fazer novas entrevistas. Voltei à ideia anterior de encontrá-las fora do horário de trabalho para aprofundar as entrevistas. De início, duas mulheres aceitaram me encontrar novamente e uma delas que tinha uma entrevista gravada, se recusou a falar comigo novamente dizendo que já havia dito tudo que sabia, e como ela não estava mais fazendo programas, não tinha nenhuma novidade. Já havíamos pensado na possibilidade de que algumas mulheres não iriam querer falar comigo novamente, ou por pensar como Sheron, que se recusou a falar comigo porque já “tinha me dito tudo que sabia”, ou por causa do inconveniente de ter um pesquisador na sua “cola”.

As tentativas de aprofundar as entrevistas não deram certo, ou porque as mulheres não quiseram me dar outra entrevista ou porque elas marcaram um encontro e não apareceram. Contudo, encontrei Sabrina23 novamente, e esse novo contato com ela me abriu novas perspectivas para a pesquisa. Sabrina é frequentadora assídua da boate Forró Mambo e me levou para conhecer a boate. No primeiro momento da pesquisa, circulei pouco pela Rua dos Tremembés, fazendo observação mais na Av. Almirante Barroso, onde se localiza a Zipi Bar e na Av. da Abolição. Voltei a fazer observação na Beira-Mar e na Praia de Iracema, tentando conversar com outras mulheres. Ao ir com mais frequência às boates, principalmente para a boate Forró Mambo, pude conhecer outras garotas e comecei a ter um tipo de relação diferente com algumas delas, conseguindo ter um vínculo mais próximo, me tornando uma amiga e para algumas confidente.

Apesar das dificuldades iniciais de entrar no campo por ser mulher, essa mesma condição me foi benéfica por poder criar uma relação de amizade com as

23

garotas, algo que talvez para um pesquisador masculino fosse mais difícil. Segundo Gaspar (1988),

se o fato de ser mulher por um lado me trouxe dificuldade de permanecer nas boates, por outro lado, permitiu-me uma relação característica aos membros do sexo feminino, permeada de comentários do sexo oposto e sobre a chamada “intimidade feminina” (pg. 56).

1.4.1 Abordagens

No segundo momento no campo, comecei a frequentar as boates e os bares de forma mais livre, menos preocupada em entrevistar as mulheres e mais aberta para dialogar e conhecer novas pessoas. Não chegar me apresentando como pesquisadora foi importante para não despertar suspeitas de início, e a certa intimidade que acabei criando com algumas mulheres foi essencial tanto para o desenvolvimento do restante da pesquisa como para causar menos repulsa ao dizer que estava fazendo uma pesquisa. Ao começar a amizade com algumas mulheres, elas me introduziram ao seu ciclo de relações e assim pude ir conhecendo outras pessoas. Débora24, apesar de ser muita reservada em relação a sua vida, assim que soube que eu estava fazendo uma pesquisa, começou a me ajudar e me apresentar às suas amigas. Bianca25, amiga de Débora, me levou para conhecer lugares que ainda não havia frequentado de forma mais assídua como as barracas de praia Salt Roots e Boa Vida, e foi enfática ao dizer que as mulheres realmente não gostam de conversar sobre suas vidas porque acham que estão perdendo tempo. Segundo Simões (2010), o interesse das pessoas que conheci durante o trabalho de campo se detinha muito mais nas relações pessoais que eu ali começava a desenvolver do que nas explicações que pudesse vir a dar sobre os objetivos da minha pesquisa [...] (pg. 33).

Apresentar-me de início como pesquisadora as afastava de mim, o que não aconteceu quando elas pensavam que eu estava ali conhecendo o local ou me divertindo. Elas não são fechadas para conversar com pessoas que elas não conhecem muito, mas parece haver uma repulsa em relação a pesquisadores ou repórteres. Conforme nos relata Silva (2007), que faz pesquisas com travestis,

Para assegurar um lugar e conquistar confiança nesse tipo de universo, é preciso antes sofrer um processo de desqualificação. Ficar claro, por exemplo, que não se trata de policial, olheiro da polícia ou jornalista. Mas é,

24

Nome fictício. 25

sobretudo, a constância e a disponibilidade para ouvir que torna o estranho alguém familiar. Os antigos reticenciosos vão-se abrindo mais. [...] Isso se ganha noites e noites ali, bebendo, batendo papo, frequentando os lugares. (SILVA, 2007, pg. 36)

Apesar das dificuldades iniciais em conseguir entrevistar as mulheres, ao criar uma abertura para outro tipo de vínculo, pude perceber um lado mais humano da vida dessas mulheres. As relações de amizade, as competições, brigas, intrigas, romances, o cansaço, as confidências, tudo aquilo que é difícil descrever e categorizar ou classificar. Se sentir de certa forma aceita mesmo como uma amiga não tão próxima ou íntima, revigora a nossa vontade de entender o mundo dessas pessoas e certamente marcou minha forma de ver o que é o trabalho sexual, relativizando pré-conceitos, tendo um tipo de relação diferente daquela que se estabelece entre pesquisador e “objeto” de pesquisa. Silva (2007) consegue expressar ainda melhor esse sentimento: a radicalidade da experiência confere densidade às suas existências, de modo que o etnógrafo, ao lembrar o período de convivência, rearrumando o material colhido, vê-se tomado de um sentimento de saudade e falta (SILVA, 2007, pg. 33).

Poderia ainda dizer que como em qualquer outra relação existe um sentimento ambíguo de amor e ódio, que nos faz ao mesmo tempo ter vontade de ir embora e poucos instantes depois ficar, ou de em um momento estar só e depois rodeada de pessoas disputando sua atenção. Como diria mais uma vez Silva (2007), são os ossos do ofício, ofício ingrato esse de pesquisador, onde insistimos em entrar no mundo do outro para logo depois ter que voltar para o nosso gabinete.

O que o pesquisador doou em curiosidade intelectual, portanto humana, ele leva triplicado em descobertas, dados, textos, tese. Mas quem se doa apenas porque percebia uma difusa afetividade envolvendo perguntas, olhares detidos, interesse em escutar naturalmente queria aliança, que exige presença e constância. Mas o antropólogo é aquele que um dia vai embora. (SILVA, 2007, pg.175)

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 159-165)