Javier Santiso contextualiza o fenômeno da internacionalização das multinacionais da América Latina dentro de um movimento mais geral de crescimento dos mercados emergentes em geral e consolidação econômica dos países latino-americanos. Ele procura demonstrar que ao longo da década de 2000, houve uma intensificação das operações protagonizadas por mercados emergentes:
“Ao longo da década, mais de cinco mil empresas multinacionais emergentes lançaram operações em outros mercados em uma ordem de 12.500 investimentos greenfield que excederam 1,7 trilhão de dólares. Mais de um terço dos investimentos nos países emergentes hoje provem de outros países emergentes. Em 2010, entre mais de 11.100 fusões e aquisições, cerca de 5.600 envolviam companhias de países emergentes, como compradoras ou alvos” (SANTISO, 2013, p.22). 0,00 1.000.000,00 2.000.000,00 3.000.000,00 4.000.000,00 5.000.000,00 6.000.000,00 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2013 América Latina Ásia Oceania África
Dentro desta dinâmica mais geral, o autor elucida as mudanças pelas quais passaram as multilatinas. Embora tenham surgido em décadas anteriores, os anos 2000 são considerados um marco de ascensão porque foi neste período que se observou um aumento sem precedentes dos fluxos de investimentos enviados para o exterior e a aparição de estratégias cada vez mais ousadas de expansão e aquisições em outros países fora da região, inclusive em países da OCDE:
“Quantitativamente falando, o número delas está crescendo. Em 2006, eram 18 multilatinas destacadas pelo Boston Group Consulting (BGC) na lista das multinacionais emergentes; Em 2008 eram 22, e em 2009 eram 100. As vendas desses grupos estão crescendo, assim como o número de países onde elas estão operando. Acima de tudo, nós estamos testemunhando um aumento extraordinário do número de companhias da região que tem volumes de negócios maiores que um bilhão de dólares. Cerca de uma década atrás eram menos de 170, hoje são 500 companhias de um bilhão de dólares na América Latina” (SANTISO, 2013, p. 43).
Santiso caracteriza este período recente de auge das multinacionais emergentes, em particular as multilatinas, como um Novus Mundus, isto é, um mundo qualitativamente diferente em relação àquele de décadas atrás. Trata- se, segundo ele, de um mundo mais multipolar, em que as categorias de centro e periferia perderiam o sentido. Em sua visão, a ascensão de grandes multinacionais de países emergentes da América Latina, Ásia e Oriente Médio e a intensificação das relações entre estes revelaria uma tendência global no sentido de um mundo mais descentralizado. Os países da tríade permanecem sendo as maiores potências econômicas do mundo, mas teriam perdido espaço considerável para os países em desenvolvimento. Em suas palavras:
“Estamos testemunhando um maior equilíbrio da riqueza das nações no sentido dos mercados emergentes. Esse equilíbrio significa que mais do que nunca nós precisamos restabelecer nosso mapa cognitivo: há cada vez menos um centro e uma periferia, (...). Mais e mais, mercados emergentes como atores do mundo econômico e financeiro, fazendo comércio e investindo mais entre eles do que com os países desenvolvidos. A emergência das multilatinas é parte dessa história” (SANTISO, 2013, p. 41).
Quanto aos fatores determinantes que teriam impulsionado o processo de internacionalização das multilatinas, o autor afirma que alguns deles são de ordem estrutural, como o surgimento de tecnologias de
telecomunicações baratas e a adoção de reformas macroeconômicas que melhoraram o perfil destes países sob a ótica dos investidores estrangeiros. Pontua outros, como a abundância de recursos naturais e baixo custo de mão de obra, mas também as capacidades organizacionais eficazes adquiridas em ambientes econômicos locais difíceis – com marcos jurídicos e financeiros instáveis e infraestruturas deficientes –, a necessidade de diversificação de risco (riscos cambiais, flutuação de preços de produtos básicos) etc (SANTISO, 2008).
Notadamente, o fator considerado fundamental para a compreensão do êxito desse processo é o aumento gradativo do acesso dessas empresas aos mercados internacionais de capital a partir dos anos 1980. Isto porque, segundo ele, em fins da década de 1990, os fatores subjacentes à internacionalização das multilatinas já existiam. A mudança fundamental que explicaria a transição de muitas empresas da fase de internacionalização unicamente comercial (exportação) para o aumento dos fluxos de IED visando inclusive países da OCDE, durante os anos 2000, foi o maior acesso dessas empresas aos mercados de capital internacional. Nas palavras do autor:
“Em um sistema financeiro mundial de enorme liquidez, graças às baixas taxas de juros dos países da OCDE e minuciosa busca mundial por rendimentos, o custo do capital desmoronou para muitos países emergentes, o que deu pela primeira vez às empresas destes países acesso a um endividamento financiável, em condições relativamente comparáveis a de seus concorrentes da OCDE. Isto contribuiu enormemente a que se estabelecessem as mesmas regras do jogo para todos, brindando assim as empresas emergentes com a oportunidade de demonstrar sua valia” (livre tradução) (SANTISO, 2008, p.13).
O contexto em que evoluíram as principais multilatinas – especialmente do Brasil e México – foi marcado pela abertura econômica e o consequente ingresso massivo de fortes competidores estrangeiros nos mercados domésticos. O acirramento da concorrência colocou em xeque os grupos nacionais que dispunham de um mercado cativo para seus produtos e serviços. Alguns deles adotaram estratégias de internacionalização como forma de sobreviver e se fortalecer. Esse processo teria sido, segundo o autor, facilitado pelas condições financeiras internacionais propícias que forçaram a baixa do custo de capital para os países em desenvolvimento, e
particularmente, para a América Latina. Essa alteração das oportunidades de financiamento impulsionaram aquisições por parte de tais empresas em seus mercados de origem, e no exterior.
No que diz respeito aos anos da irrupção da crise (de 2008-2012), o autor afirma que grande parte das multilatinas manteve seu processo de expansão e, ao contrário do que ocorreu com as empresas brasileiras que voltaram sua atenção para o mercado doméstico, muitas se aproveitaram da fraqueza de suas rivais da OCDE para avançar com processos de fusão e aquisição no exterior.
Por fim, Javier Santiso afirma que a continuidade desta nova dinâmica na qual se encontram as multilatinas no futuro dependerá, em parte, da persistência dos fatores que ajudaram estas empresas a se expandir no exterior, entre eles a enorme liquidez internacional e a possibilidade de acessar crédito a baixo custo.