Após a coleta, procedeu-se à interpretação dos dados das entrevistas que serão descritos a seguir.
A análise da pesquisa buscou, inicialmente, a identificação das famílias envolvidas no artesanato quanto aos tipos familiares.
A. IDENTIFICAÇÃO TIPOLOGIA DOS ARTESÃOS.
Em relação ao trabalho das famílias, quanto à dedicação à atividade, o grau de importância:
“Tudo que faz é pra comercio, mais é na páscoa e natal, outras épocas não fazemos”.
Esse tipo familiar pode ser identificado com um grupo que trabalha somente em determinadas épocas do ano, preferencialmente, nos períodos dados como de pico maior de produção e comercialização. No restante do ano, essas famílias se dedicam a outras atividades de trabalho. Porém é o grupo que exerce maior pressão de retirada de matéria prima, pois aproveita os melhores períodos e produz um grande montante de artesanato para ser comercializado (será identificado como grupo A).
Neste mesmo sentido de questão, identificou-se outro tipo familiar:
“Trabalho o ano todo com artesanato, pois da lavoura não consigo sustenta a família, e o artesanato trabalhando bem da pra ganha um pouco”.
Aqui um grupo familiar que dedica às atividades de trabalho ao artesanato em maior parte, demonstrando que é uma atividade rentável, porém exigindo um maior aperfeiçoamento e acabamento dos produtos. Esse grupo ainda que exclusivamente dedicado ao artesanato ainda pratica agricultura de subsistência. São também os grupos de famílias que se organizam em associações de artesãos (grupo B).
B. DESCRIÇÃO DA ATIVIDADE (ASPECTO DE COLETIVIDADE). Quando perguntados sobre as formas e freqüência de trabalho:
“Trabalho individual em casa, se junta em grupo somente pra faze as pintura, também vendo sozinho”.
Nesse caso, a maior parte das famílias prefere trabalhar e comercializar individualmente somente participam de grupos de trabalho ou associação quando recebem ajuda externa para subsidiar a produção. Organização em associações é mais comum pelo grupo B. Este vem na forma de material de apoio tintas, equipamentos como panelão, tachos, máquina de entalhe, passagens para comercializar em outras cidades.
C. DESTINAÇÃO DO ARTESANATO.
Quanto à destinação dos produtos confeccionados:
“fazemos tudo pra comercializa, às vezes alguma coisa a gente enfeita a casa,
ou faz cesto pras galinha e pra guarda roupa”
Toda a produção, dos diferentes tipos de artesãos, é comercializada. Em algumas ocasiões, utilizam algum objeto de uso em casa ou de trabalho doméstico ou para animais e na lavoura (balaio para junta milho, ninho para galinha).
D. PERÍODOS DE COLETA E CONFECÇÃO.
Sobre os períodos de trabalho, épocas de coleta e confecção, tempo de envolvimento:
“Pra o Natal em outubro começa a coleta de material, em novembro sai pra comercializa os primeiros produtos e faze encomendas pelas amostras feitas, retornando e pelo final do mês de novembro confecciona as encomendas e de mais produtos e entrega e comercializa em novembro até a semana do natal. Já pra Páscoa começa em fevereiro coletando material e produzindo da mesma forma que anteriormente”.
Aqui, de acordo com a resposta do entrevistado, nota-se certa organização na produção principalmente na venda dos produtos, quando este procura trabalhar parte de seus produtos sob encomendas, o que garante a venda do artesanato diretamente aos encomendadores (também mais praticado pelo grupo B). No entanto, ainda são poucos
os que saem para fazer essas encomendas e até os consumidores ainda são em poucos casos que preferem comprar sobre encomenda.
Ainda sobre o tempo de envolvimento nesse período de produção, os artesãos começam a trabalhar dois meses antes do mês que irão somente vender (outubro a dezembro para o natal, e janeiro a março para a páscoa). A coleta dos materiais é a primeira faze desse processo e exige certo cuidado tanto para a coleta quanto do processamento será mais bem vista posteriormente.
E. COMPOSIÇÃO E MODELOS DE ARTESANATO.
Os modelos de artesanato também são de diferentes tipos de acordo com a época em que serão produzidos e vendidos.
“Para o Natal se faz Arranjos florais, balaios grandes, cestas, bonecos de
anjos de cipó, pinheiros de cipó e taquara, animais renas de cipó”.
“Para a Páscoa se faz cestarias, arranjos florais, coelhos de cipó e taquaras, ninhos de pássaros de cipó”.
Composição dos arranjos- capim coqueirinho, capim-folha-larga, capim tiriricão, palha de milho, capim-rabo-de-raposa, barro usado no fundo da cesta pra suporte dos capins.
Coelhos cestas e anjos- cipó-mil-homens, cipó-são-joão, criciume, taquaruçú, cipó-guaimbê.
Cortinas- vagens de carova, taquara bambu, feijão graúdo. Ninho de pássaro- cipó-do-chão (marronzinho).
Balaios - taquaruçú, taquara bambu, cipó-guaimbê.
Animais de madeira16 e arco e flecha - arvores tigra branca, dente de cutia. Pinheiros e animais (renas)- cipó-mil-homens, cipó-marronzinho, cipó-são- joão, barba de bode.
A grande maioria dos produtos tem em sua montagem a composição de mais de um material, dando um aspecto e forma diversificada.
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F. RECURSOS VEGETAIS (MATÉRIA-PRIMA NATIVA E INTRODUZIDA)
Essa matéria prima é encontrada na mata em diferentes ambientes para cada espécie:
“Todos são nativos da mata mesmo e também nas capoeira, os cipós na mata, os capins nos campos e capoeiras, taquaras no mato próximos de rios”.
“Somente o feijão graúdo é cultivado, e a taquara bambu que foi plantada”.
A diversificação do artesanato, também a dificuldade de encontrar a matéria prima está levando os artesãos a introduzir outros tipos de materiais em seus produtos (grupo A e B). Embora ainda se encontrem os tradicionais vegetais usados, na floresta e capoeira, só que já estão ficando escassos e difíceis de encontrar.
Os locais de ocorrência das árvores para os bichinhos de madeira e arco e flecha:
“As arvores dente de cutia no capoeirão onde não tem pedras. Tigra branca na mata fechada”.
A produção de miniaturas de animais de madeira apesar de não ser tradicionalmente do povo Kaingang vem sendo feito cada vez mais por esse povo, assim como os colares de sementes, e as plantas ou sementes utilizadas. No entanto, são de difícil ocorrência e levam bem mais tempo para se desenvolverem ao ponto de corte e também são mais difícil de ser confeccionado, por isso, poucos fazem esse tipo de artesanato (grupo A e B).
G. FORMAS DE COLETA OU EXTRAÇÃO, ASPECTOS TRADICIONAIS. Quando perguntados sobre as formas de uso, ou as partes das plantas usadas temos as respostas:
“Cipós ex: são-joão liso do mato usa de acordo com o tipo de artesanato a ser feito se quere da pra destala17 ou rapa, cipó-mil-homens usa inteiro da forma natural sem raspa da pra trança verde. Cipó-guaimbê tira a casca raspa e daí destala o miolo
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tem que usa logo se não seca e quebra na montagem do artesanato, só deixa murcha um pouco, também da pra usa a casca”.
“As taquaras são destaladas e deixadas ao sol pra murcha um pouco, ai são raspadas e pode trança já”.
“Para os animais de madeira usa os galhos das arvores, melhor de faze quando o galho ta seco”.
Em relação às partes das plantas utilizadas principalmente os cipós tudo é usado seja a casca ou o “miolo”, ou quando é usado inteiro sem rachar ou raspar usado de forma natural. As taquaras são destaladas e depois raspadas procurando dar contornos à parte que será usada tornando mais fácil de manejar e trançar. As partes das árvores geralmente usadas são os galhos mais desenvolvidos mais grossos, esses talvez sejam os que representem junto com a taquara ao serem processados, os que mais são desperdiçados em relação aos demais materiais, pois são todos modelados dando forma aos bichinhos e entalhe.
Já quanto à seleção do material para coleta são observados alguns aspectos:
“Seleciona pelo tamanho, idade do ramo ou galho e característica do material se bem uniforme sem caroço, comprimento, etc. para os capins que são mais fáceis de encontra e tem bastante tira pareio”.
“Taquaruçú seleciona as mais novas porque fica melhor de destala e raspa e não quebram como as mais velhas”.
“Criciume também escolhe os mais velhos e mais compridos, mas tem que estar maduro”.
A coleta do material é uma etapa de grande importância, pois de acordo com a mesma pode determinar o desenvolvimento da espécie de planta, se cortar a planta inteira essa pode acabar morrendo e a atividade fica comprometida. Porém os artesãos demonstram certa preocupação nesse sentido quando passam a adotar métodos de coleta seletivos e de forma que o material não acabe selecionando as partes melhores e também procurando deixar os ramos ou galhos mais novos para que a planta continue se desenvolvendo.
“Os cipó-mil-homens e são-joão sempre cortam o mais fino os broto porque ele vai brota de novo, e parte mais grossa o tronco do cipó não corta porque vai dar rebrote”.
“Pro cipó-guaimbê corta os mais velhos e mais compridos que são as raízes
melhores de trabalha os mais finos não são cortados porque não são tão flexíveis quanto os outros alem de causarem certa alergia nas mãos ao ser coletado ou trabalhado. As raízes de quaimbê também ao serem armazenadas os mais velhos não caruncha tão fácil quanto os mais novos e verdes”.
Sobre as formas de coleta:
Para os cipós são-joão e mil-homens que são plantas rasteiras são somente arrancados do chão ou desenrolados das árvores onde se espalham ou se grudam e cortados com faca ou facão a retirada é parcial como mencionado acima. Já para o cipó- guaimbê esse se desenvolve tanto no chão como aéreos, depois de selecionados as raízes maduras, eles são extraídos de duas maneiras: uma é puxando a raiz madura, o que requer uma força relativamente grande e que ocasionalmente pode vir a danificar a planta (grupo A); e a outra maneira é cortar o cipó, com auxílio de uma faca amarrada na ponta de uma vara comprida retirada na própria mata (grupo B). Ainda se o coletor tiver habilidade ou crianças junto geralmente sobem nas arvores para fazer o corte dos cipós ou raízes.
Quanto à freqüência de coleta na mesma planta:
“A freqüência de coleta é de ano em ano pros cipós,... Já as arvores pra faze os bichinhos são de dois a três anos”.
Essa freqüência de coleta também é de acordo com a característica de desenvolvimento das plantas e serve principalmente pra os cipós e árvores, para as taquaras é definitiva já que é cortada toda a planta (parte aérea) e nesse caso os brotos mais novos como mencionado acima em uma das respostas.
Em relação aos aspectos tradicionais características culturais as crenças:
“Preferência de coleta de cipós na lua minguante ou na lua crescente também para taquaras, não coleta na lua nova devido ao material coletado nesse período pode “caruncha” e estraga mais fácil no armazenamento e até mesmo no material confeccionado ele inteiro sem “destala” e sem raspado”.
“Não tira na lua nova se não vai caruncha tudo”.
Nesse caso todos os entrevistados têm as mesmas observações em relação à lua, pois acreditam que o material coletado nessa época estraga tanto ao ser armazenado, quanto no artesanato montado pronto, principalmente nos que são montados sem processamento (os cipós sem raspa). Até mesmo por isso começam a coleta certo tempo antes e ai tem tempo pra trabalhar na confecção com o material armazenado.
Aquisição de matéria prima, aspectos de coletivismo:
“Quando é busca cipó e taquara é mais o homem que vai tira, as mulheres
vão mais pra tira os capins pros arranjo”.
“As vezes que não da pra ir tira pede ou compra material dos visinho que tiram bastante ai eles vende”.
Esse é um importante fato que ocorre principalmente com artesãos mais velhos que devido certas limitações não podem coletar material na mata, e ai compram de outros que fazem essa coleta (grupo A). É influenciado esse fato também é influenciado pela dificuldade de encontrar as plantas na mata; às vezes tem que percorrer longa distância para coletar e pessoas que conhecem bem a mata e os locais de ocorrência acabam fazendo esse intermédio (grupo B).
H. FORMAS DE ACONDICIONAMENTO E CONSERVAÇÃO DO MATERIAL.
Quanto ao tempo de armazenamento da matéria-prima:
“cipó- seca na sombra pra fica murchando, não deixar ao sol porque estraga e fica difícil de trabalha, também dura cerca de 1 a 2meses”.
“A taquara- deixa murcha 3 dias na sombra porque se usa logo que coletada fica ruim de trabalha solta fios e farpas, depois de destalado dura mais 1 a 2 meses”.
“Guaimbê - dura 3 meses de armazenamento com a casca podendo ser usado nesse período depois desse tempo começam estraga”.
Esse período de armazenamento é de principalmente os materiais já destalados ou raspados; segundo os resultados das entrevistas esse material não que se estrague,
mas que fica difícil de serem trabalhados. Também podem durar pouco pelas condições de armazenamento que tem disponível, geralmente galpão com baixo acondicionamento, ficando propício à ocorrência de mofos, porém, ao serem montados e pintados são guardados dentro das casas ou logo comercializados tendo uma vida útil bem maior.
I. PERCEPÇÃO DE PROBLEMAS QUE AFETAM A QUALIDADE E CONSERVAÇÃO DO MATERIAL VEGETAL, FATORES EXTERNOS.
“Taquara tem furos de brocas talvez vespas, cipó tem presença de lagartas, guaimbê costuma aparecer besouros”.
“A taquara se percebe furos causados por corós ou vespas”.
Na maioria das respostas eram somente citadas a taquara e o cipó-guaimbê como os que geralmente apresentam algumas características de ataque de insetos. Na taquara essa ocorrência se dá principalmente por vespas mamangavas que fazem furo nos gomos (entrenós), ou besouro serrador, já no cipó-guaimbê presença de besouros. Já não se tem observação de doenças nas plantas ou não tem conhecimento sobre esses problemas. Talvez o único problema que ocorra é no armazenamento da matéria prima o que é resolvido de acordo com o período da lua na coleta.
Outro e importante fator foi apontado pelos artesãos em relação às queimadas que ocorrem principalmente nas capoeiras ambiente este onde desenvolvem-se os capins:
“Em época de queimada fica difícil de acha os capim pra faze os arranjo, pois quando queima vai tudo”.
“Os capim quando queima tem que espera só no outro ano pra tira de novo, às vezes acha um pouco mais faz com o que tem se não na faz arranjo”.
Como mencionado anteriormente os capins são a composição dos arranjos ou buques, esses se desenvolvem principalmente nas capoeiras e banhados. São os principais ambientes onde ocorrem as queimadas, e a produção de arranjos fica comprometida principalmente na época para a páscoa onde são mais produzidos e considerando as plantas anuais em determinadas épocas tem e outras não.