No primeiro momento de exploração com os retratos de Egon Schiele, como descrevi anteriormente, mergulhei na multiplicidade de imagens, mas aos poucos, a investigação foi se verticalizando em dois retratos diferentes, que nomeei “a moça de costas” e “a magrela sentada”:
“A moça de costas”: andando na ponta dos pés para lá e para cá. Uma valsa pesada. Movimentos bruscos de jogar para fora, com os dois braços para cima, como se eles quisessem levantar a camiseta com esse impulso. Girando, girando e abaixando até as calças escorregarem e continuar girando, girando. Sensação de não-rosto, escondendo a face... Vocalidade: uma lamentação que cresce começando de dentro do peito e aumenta o volume num contínuo crescente até ir para o espaço e para além do espaço e sumir. Como se, ao sumir do corpo, o lamento continuasse...”.
A preparação do corpo era mais sucinta e objetiva: alongar, aquecer, articular e concentrar. Ativava o fluxo interno a partir do espreguiçamento, corridas pelo espaço, a “dança dos ventos”, “as ondulações com a coluna”, “raízes” entre outros. Dinamizava o corpo com o interesse de aguçar os sentidos e desse modo entrar em contato com a observação de um dos retratos para, em seguida, construir uma figura estática no meu corpo, sendo a mais aproximada possível da imagem real. Dessa figura estática partia para a exploração livre pelo espaço e sempre retornava para ela como sendo um novo ponto de partida, um constante recomeço. Era um movimento cíclico de ida e volta e de acúmulo de experiência. Esse retorno podia acontecer passando pela figura ou permanecendo nela por um tempo, em pausa.
“Magrela sentada”: um corpo frágil e forte ao mesmo tempo. Estável e instável. As mãos pingam. Certa ironia no olhar. Os dedos beliscam a boca, os olhos, outras partes. As pernas nunca se separam. Estiramento da musculatura do rosto, e do tronco, para emagrecer. “Sou um saco de ossos e estou nua. Olho atenta e disfarçadamente você””.
Procurava sempre reconhecer, intensificar e repetir momentos marcantes, além de registrá-los no diário de ensaio posteriormente.
Em relação à “magrela sentada”, as ações/movimentos que surgiram a partir do processo de corporificação de sua imagem tiveram, especialmente, a característica de exploração do detalhe de pequenas partes ou breves ações: um dedo na boca, as mãos sempre estiradas, o olhar de canto, as costelas saltadas, ombros pesados. Cada um desses detalhes continha em si um
universo de possibilidades e intensidades que, em geral, explorava separadamente. Por exemplo, a sensação das costelas saltadas da “magrela sentada” me conduzia para uma imensidão de universos corporais. Ao isolá-la e tê-la como ponto de partida para o movimento, investigava de que forma apenas essa costela saltada fluía para as outras partes do corpo, circulando internamente. Cada parte, com seu tônus, direcionamento e peso específicos, contaminava todo o corpo para uma exploração de energias, intensidades e estados específicos.
Por outro lado, também experimentei, em ambas as imagens, construir a figura original no meu corpo e permanecer em pausa. Experimentar a respiração de cada uma. Vibrar internamente e vivenciar o que é simplesmente “estar” cada figura, “estar” cada volume, outra pele, outro sistema, outro organismo. Permanecer e me entregar à vida dessas figuras, em pausa. Como se microscopicamente eu pudesse dançar um universo de possibilidades.
Paralelamente à investigação com os retratos, continuava explorando minhas energias “pessoais”. Principalmente nos momentos de preparação e aquecimento, ia “liberando” impulsos de movimento para, em seguida, partir para a exploração com os retratos e os seus desdobramentos. “Observava” esses impulsos, essas vontades, deixando-as aparecer cada vez mais.
“De olhos fechados ainda, entro num fluxo de dança. Uma dança contínua, confortável para o meu corpo. Mudo de dinâmica. Só depois é que noto. Sinto-me bem com o volume do meu corpo. Estou confortável. Sinto prazer. Não quero ser outro hoje. Já sou muitas”.
surgidos a partir das figuras, fizesse um movimento inverso: a partir da investigação de estados corporais pessoais eu fosse reduzindo-os no espaço a ponto de construir outras figuras estáticas, como se fossem sínteses desses estados. Duas forças diferentes: irradiar (lançar de si; movimento centrífugo) da forma estática de um dos retratos para um fluxo livre de movimentos pessoais e compilar (trazer para si; movimento centrípeto) de um fluxo livre para uma forma estática pessoal.
As bordas entre as qualidades intensivas provenientes dos retratos e as minhas estavam cada vez mais borradas. Instigava-me o eco que esses retratos estavam provocando e como que eu permitia “ser tomada” em cada situação. Eu buscava resistir a um certo tipo de controle do corpo, controle que me tornava mais propositora do que participante do movimento. Explorar cada um dos retratos era como abrir a mim mesma para esse constante “vir a ser outro”. Emoções, imagens, sensações eram como ondas vibratórias que atravessavam o corpo e o transformavam, o levavam dali, quase que involuntariamente.
Nesse momento experimentei algumas vezes como seria fazer a Zona de Contágio38
estando sozinha. Era como se estivesse conduzindo e sendo conduzida por uma coletividade imaginária. Carregar e ser carregada por um bando. Entrar num fluxo contínuo, apenas aceitar e seguir o movimento do corpo, que se lança no espaço como se estivesse em contágio com o outro. Um outro qualquer. Uma sensação de outros em mim. Involuntariedade. Encontrei algo de muito paradoxal nesse processo. Movimentos desequilibrados, desarticulados, assimétricos, muita tensão, torção, desconforto, algo de grotesco e estranho estava aparecendo.
“Uma garganta que quer dizer, que engasga, cospe, faz barulho de porco, só porque quer dizer, mesmo sem saber o que”.
Foi então que escrevi no meu caderno: “sentimentos são de concreto”. Pois, em uma questão de instantes, passava da alegria ao desespero e isso não significava representação de sentimentos, mas acontecimentos reais no corpo - essa matéria constituída de afetos. Talvez quisesse dizer que um determinado sentimento, mesmo que acompanhado de algum significado racionalmente compreensível, acontece também como experiência sensorial no corpo, como vibração. Ou ainda, que sentimento e sensação acontecem simultaneamente numa relação de forças, atravessamentos e de retro-alimentação.
A experimentação prática com os retratos e com o treinamento em si estavam me levando para a busca de um corpo poroso, permeável, de estados de dança incontroláveis, intensivos, guiados por uma certa impulsividade. Havia uma tendência a jamais fixar formas no espaço, transformando-as constantemente. Formas em trânsito. Me sentia exposta, nua, frágil. E essa era a força que me fazia estar conectada com o momento presente. A tendência era sempre desestabilizar estruturas rígidas e mecanizadas do meu corpo, seja lá o que isso significasse. Algo de assimétrico e fragmentado aparecia e desaparecia.
“Um certo desespero me toma. A loucura de sentir tudo com o corpo inteiro. Desimpedir estruturas de controle. Tomo consciência do grotesco, enquanto sou, e isso assusta. Entro num fluxo de ida sem volta. As imagens, os retratos, as sensações do meu corpo em movimento me
povoam. Lembro do Mateus, no parque do Instituto39. Seu corpo torcido, deitado no banco sob o
sol. Sinto-me como ele neste exato momento. Deito no chão da sala, sob algum sol. Não faço mais nada. Sou torcida. Sou ele”.
Não sei bem a ordem, se partiu das práticas de treinamento individual, dos retratos de Egon Schiele, das memórias do meu corpo, da vontade de escrever poesia novamente ou tudo isso misturado, mas o assunto da loucura foi se instaurando cada vez mais em meu “imaginário- corpo”. Foi então que tive um “encontro” bastante feliz com a leitura do filósofo Peter Pál Pelbart através de seu livro “A nau do tempo-rei: 07 Ensaios sobre o Tempo da Loucura”40. Não
li o livro, devorei. Em muitos momentos tive a sensação que estavam ali, descritas no seu texto, muitas das inquietações sobre o porquê desse interesse pela loucura, e que eu seria capaz de enxergar. Em suas próprias palavras, um pouco do porquê do entusiasmo nessa leitura:
Este livro não é dirigido só a filósofos, psicanalistas, trabalhadores em saúde mental (embora a estes possa ser particularmente útil), mas aos que alguma vez já desconfiaram que essa vida morna e tola que nos é oferecida e alardeada como a única possível, desejável e saudável esconde outras tantas. Cuja beleza e tentação cabe reinventar (PELBART, 1993: 13).
Encontrei neste livro uma imensidão de estímulos, de pontos de encontro e de amplitude sobre o que estava testando com o corpo. De algum modo, intuía que a loucura, tanto em seu
39 Aqui me refiro ao Instituto Norberto Souza Pinto localizado na cidade de Campinas cujo trabalho é dedicado a
acompanhar pedagógica a terapeuticamente pessoas com deficiência intelectual. Tive a oportunidade de participar durante um ano de um projeto de oficinas culturais em que desenvolvia práticas ligadas à dança e ao movimento com educandos do Instituto. Mateus foi uma dessas pessoas que conheci nesse período.
aspecto clínico quanto social, político e filosófico, poderia problematizar o meu processo de pesquisa prática e a reflexão sobre o corpo em estado de criação. Um corpo que, de alguma forma, experimenta outros tipos de lógica de existência, em geral antinormatizantes. Ou seja, um corpo que, ao mesmo tempo em que se desprega do comum é atravessado por ele e também por tudo daquilo que se institui como padrão cultural, sendo assim, uma alternativa de desvio do cotidiano e uma sugestão para outras possibilidades de sentidos, outras realidades, outros modos de estar no mundo. Um corpo que escapa da representação, da ideia de modelo e que convive no caos afetivo das relações. Um corpo que desestabiliza as fronteiras entre o eu e o outro, hibridizando-se.
Gostaria de experimentar enxergar com olhos de quem vê o mundo sem separar-se muito bem dele. Enfim, a leitura deste livro me tomou e tomou essa pesquisa, reverberando nos meus pensamentos sobre o corpo, a mímesis e a dança. Afirmou vontades tímidas e pulsões ainda nebulosas. Como seria entrar em contato real com a loucura? Um novo passo estava por vir: estava prestes a ir a campo.