Os avanços científicos e tecnológicos, as mudanças na produção cultural e do conhecimento, o desenvolvimento urbano e as inúmeras possibilidades de interpretação dos fenômenos, diferentes sentidos e valores, enfim, todos esses elementos, de certa maneira, fortaleceram a imagem de declínio da religião como uma expectativa a se concretizar nos últimos séculos. O pensamento racional seria o epitáfio da dissolução da religião quando houvesse a hegemonia da Modernidade, assim poder-se-ia pensar nos séculos XVIII e XIX, principalmente, após a política de separação entre estado e religião nas repúblicas. No século XX, décadas de 60 e 70, a ideia de extinção da religião teve seu ápice, devido aos mais diversos fatores, desde os movimentos hippie e estudantis ao surgimento da pílula contraceptiva que potenciou a Revolução Sexual. Para muitos, o mundo caminhava para seu “desencantamento” total. No entanto, cabe o questionamento de Barbero (2003): “?Es el sistema-mundo de la globalización el punto de llegada del desencantamiento del proprio mundo de la mano del desarrollo tecnológico y de la racionalidade administrativa?”16
(MARTIN-BARBERO, 2003, p.25). Ao que tudo indica, não. Embora todos os fatores citados e outros tenham contribuído para o enfraquecimento das instituições tradicionais, a religiosidade refloresceu nas últimas décadas do século XX com emergência e/ou fortalecimento de novos e/ou antigos grupos, com novos modos de cultuar e de dizer.
A socióloga francesa Danièle Hervieu-Léger17 vem se destacando quanto à compreensão do fenômeno religioso contemporâneo enquanto processo de racionalização. Trata da dissolução da religião e aborda sua reconstituição como utopia entre o cotidiano e o mundo das significações. A religião, para a autora, é concebida como paradoxo entre o que se esperava de um mundo atual regido pela razão científica e a realidade povoada de crenças. Além disso, “ela interpreta a religiosidade contemporânea como a passagem da religião perdida para o ‘religioso por todas as partes’, uma vez que a religião volta com força à cena política no cerne das sociedades ocidentais” (OLIVEIRA, 2013, p.119). Para a autora francesa, a secularização é a rearticulação da própria religião mediante a Modernidade frustrada por não cumprir as expectativas a respeito da realização e satisfação dos indivíduos.
16 “É o sistema-mundo da globalização o ponto de chegada do desencantamento do próprio mundo na mão do desenvolvimento tecnológico e da racionalidade administrativa? ” (Tradução nossa).
17 “Na senda aberta por cientistas sociais da ‘escola francesa’ que se debruçaram sobre o fenômeno religioso – sejam citados os nomes de Durkheim, Mauss, Griaule, Leenhardt, Bastide e Desroche –, desponta e afirma-se na atualidade o pensamento dessa autora como uma referência indispensável para a análise das relações que se estabelecem entre a modernidade e a religião” (CAMPOS, 2014, p.129).
Nessa rearticulação, a religião ultrapassou os limites das igrejas nas quais se enclausurou durante séculos:
La croyance religieuse aujourd’hui est extraordinairement présente, disséminée, elle est de moins en moins cadrée, encadrée par des grandes institutions du sens qui, pendant des siècles, ont été les lieux dans lesquels s’assuraient la transmission religieuse, la mise en conformité du peuple croyant à travers la prédication, l’enseignement religieux, la liturgie… Bref, une sorte de découplage entre l’activité religieuse instituée et le monde extraordinairement diffus des croyances contemporaines (HERVIEU- LÉGER, 2003, p.3) 18.
A secularização reorganizou o trabalho religioso, deslocou símbolos e práticas, produzindo uma plasticidade com adesão a novas formas de culto, inclusive, possibilitou o trânsito entre elas, gerando bricolagens de diferentes vivências religiosas. No contexto de ascensão do secularismo, o fenômeno religioso ganhou um impulso, embora de forma diversa e indeterminada, surgiu uma valorização da experiência e do simbólico, características próprias de uma sociedade múltipla e, ao mesmo tempo, individualista. Esse florescimento da religião na atualidade, quando há predominância da razão técnica, da tecnologia e do conhecimento científico, resulta da busca por religiosidades que atendam aos anseios pessoais mediante o espetáculo das subjetividades.
Grande parcela dos estudiosos afirma que a religião parece ter perdido sua subjetivação, pois se apresenta deslocada de seu lugar apropriado, o lugar de sua privacidade. Para Max Weber (2004), a secularização, vinculada ao espírito capitalista, é relacionada ao legado protestante que produziu como extensão a emergência de uma sociedade civil autônoma, laica e profana: “En el processo de racionalización/abstracción que, según Weber, esta a la base de la modernidade – y del capitalismo – la sociedad toda se torna uma ‘jaula de hierro’ en la que reina la razón instrumental”19 (MARTIN-BARBERO, 2003, p.29). Para
outros, não há um vínculo necessário entre modernidade, capitalismo e secularização. O Japão, por exemplo, é citado como nação cujo desenvolvimento se agrega às tradições religiosas. As interpretações dos fenômenos contemporâneos podem ser diversas, no entanto, não divergem quanto à influência da religiosidade como articulador do sentido da vida, pois continua a exercer muitas funções apesar da perda de autoridade das instituições.
18 “A crença religiosa, hoje, é extraordinariamente presente, disseminada, ela é cada vez menos enquadrada, emoldurada por grandes instituições que significaram, durante séculos, como lugares nos quais se asseguraram a transmissão religiosa, a configuração em conformidade das pessoas acreditarem através da pregação, o ensinamento religioso, a liturgia ... em suma, uma espécie de dissociação entre a atividade religiosa instituída e o mundo extraordinariamente difuso de crenças contemporâneas”(Tradução nossa).
19 “No processo de racionalização/abstração que, de acordo com Weber, está a base da modernidade - e do capitalismo - toda a sociedade se torna uma 'jaula de ferro' na qual reina a razão instrumental” (Tradução nossa).
Os desenvolvimentos tecnológicos e científicos promoveram incredibilidade em relação ao fenômeno religioso, mas produziram aspectos que permitem e até incentivam a proliferação da religiosidade em formato mais pragmático, no século XX: “Um siglo que parecía hecho de revoluciones-sociales, culturales terminó dominado por las religiones, los mesías y los salvadores”20 (MARTIN-BARBERO, 2003, p. 33). O cenário social frente à
globalização de um modo de vida em que a ação do homem é potencializada destruindo sistematicamente a natureza acentuou o pragmatismo religioso reabastecido na experiência e no emocional, sendo a individualização sua característica mais evidente. Atualmente, cada pessoa pode definir ou escolher sua religião a partir do que acredita ou deseja, independentemente dos costumes. Há no pluralismo uma busca para preencher o lugar vazio, que resultou na modificação da religião, isto é, há o ressurgimento de uma religiosidade laica, individualizada e publicizada, uma religiosidade espetacularizada surge nos moldes da cultura midiática, valorizando o imediatismo e suas transformações:
A leitura desse fenômeno tem colocado em campos opostos os que o saúdam como sinal do revigoramento espiritual da modernidade e/ou declínio do processo de secularização e os que o compreendem como um aprofundamento mesmo desse processo ao promover o pluralismo religioso – motor do desenraizamento e indício de declínio geral do compromisso religioso agora reduzido a item de consumo e oferta de serviços pessoais (MONTERO, 2011, p. 254).
O pluralismo insere no universo religioso uma porção de relatividades que acentuam a individualização a ponto de construir uma “uniformização das religiões que, desde então, se encontrarão expostas à preferências dos consumidores confrontados a uma lógica de mercado”(WILLAIME, 2012, p. 168). Por conta do consumismo21 inflacionado, os gostos e desejos tendem a definir as identidades que se limitam às escolhas individuais e às diferenças. Isso significa o retorno de um sistema reorganizador da vida social no qual a religião deixou de ser estruturante: “Esse desenvolvimento é uma consequência direta da suposição de que o consumidor está mais qualificado do que qualquer ‘especialista’ para julgar que tratamento mais lhe convém” (CAMPBELL, 2006, p. 55). O religioso, em conformidade com a lógica da vida atual, é o maior especialista no consumo de símbolos, rituais, festas, tradições e
20 “Um século que parecia feito de revoluções sociais e culturais acabou dominado por religiões, messias e salvadores” (Tradução nossa).
21 Em nossa abordagem, consumismo se ancora ao conceito de consumo conforme o pensamento do Nestor Canclini (1996) que não o limita à aquisição de produtos nem à realização irracional dos desejos. Para o autor, o ato de consumir diz respeito aos processos socioculturais nos quais se afirmam as identidades, se dá significado e se organiza a vida social.
costumes, significados que alimentam o imaginário social. As diferenças religiosas dinamizam o cenário no qual antes a homogeneização limitaria a concorrência.
Essa atuação da religião na sociedade, em que a racionalização e a secularização são princípios gerais, reativa o seu lugar na atribuição de memória coletiva ao fornecer materiais simbólicos que recriam o imaginário e o senso moral. Ao religioso se atribui a possibilidade de ter explicações sobre o sofrimento humano e as problemáticas da vida, permitindo sua atuação nas relações afetivas, bem como na moralização da sociedade. A importância desse lugar pode ser observada nos debates políticos de um estado, mesmo laico, quando não se isenta a participação de representações religiosas. Nesse aspecto, consideramos o papel dos agentes de produção de significados em nossa cultura, principalmente para a legitimação da sociedade civil e ética.
Vale destacar que essa revalidação da religião não permite questionamentos sobre a racionalidade produtora dos sentidos, trata de uma religiosidade relativa e adequada à secularização: “a secularização é sem dúvida uma questão complexa e não parece resultar no desaparecimento completo do pensamento e atividade religiosos” (GIDDENS, 1991, p. 98). A eficiência da religião na instrumentalização desse novo sistema a torna cada vez mais presente e atuante no cenário contemporâneo: “em definitivo, devemos entender por ‘secularização’ uma mutação sociocultural global que se traduz por uma redução do papel institucional e cultural da religião” (WILLAIME, 2012, p. 159).
Enfim, ao contrário do que se esperava com a redução do poder institucional da religião, a proliferação de seitas, movimentos, grupos e igrejas nos levam a entender que há a emergência de religiosidades sem Deus, em conformidade com os anseios e preferências dos indivíduos. Nesse protagonismo da individualidade, desconfiam-se das interpretações alheias, das doutrinas externas e valorizam-se as manifestações genuínas com resquícios tradicionais. Esse processo dinamizou o campo religioso em todo mundo, movimentou cisões no Cristianismo e, no último século, intensificou no Brasil o crescimento dos carismáticos, justamente por ser o tipo de religiosidade em que os novos processos de identificação encontram fértil terreno: “Mercado, tecnociência, indivíduo: entregues apenas a si mesmos, esses princípios organizadores dominantes fizeram nascer uma cultura-mundo sem precedentes na história, geradora de um novo ‘mal-estar na civilização’, de uma nova relação cultural com o mundo” (LIPOVETSKY e SERROY, 2011, p. 32).