Um sistema é definido por Bunge (2003) como um objeto estruturado e de forma complexa que inclui componentes dos quais há relação com pelo menos um outro componente. Mais especificamente, um sistema pode ser modelado como um composto quádruplo que inclui a composição do sistema (elementos componentes do sistema), ambiente (de itens que não fazem parte do sistema, mas que atuam ou sofrem ação por algum componente), estrutura (coleção de ligações entre componentes e entre esses e os itens do ambiente) e mecanismo (coleção de processos que geram a novidade qualitativa) (BUNGE, 2003). Assim, a relação semântica é essencial para a compreensão de qualquer sistema. Bunge (2003) promove sistemismo – uma visão de mundo em que cada coisa concreta e cada ideia é um sistema ou um componente de alguns sistemas. Segundo Kern (2009), dado que tudo o que existe é sistema ou componente de sistema (primeiro postulado do sistemismo), o roteiro abaixo é fundamental para se compreender a evolução de um sistema.
Figura 5 - Passos metodológicos para a evolução de sistemas sociotecnológicos Seguir a metodologia descrita no processo proposto por Bunge (2003) é o primeiro passo para se entender o processo evolutivo. Considera-se nos primeiros passos um estado da arte sobre comunidades virtuais de prática. Considera-se um sistema como um conjunto de unidades de inter-relações, ou seja, as comunidades virtuais de prática compreendidas como um sistema e suas relações. Bunge (2003) criou o modelo CESM (Composição – Ambiente – Estrutura – Mecanismo) para uma modelagem mais descritiva das relações. Para o autor, qualquer sistema concreto pode ser descrito por meio de sua composição –
coleção de elementos componentes; ambiente – coleção de itens que não fazem parte do sistema, mas atuam ou sofrem ação por algum componente; estrutura – coleção de ligações entre componentes e entre esses e itens do ambiente; e mecanismo – coleção de processos que geram a novidade qualitativa. A Figura 6 representa uma CoP estruturada segundo a sua composição, ambiente e estrutura, elementos que dão suporte a mecanismos essenciais de participação, prática e geração de novos conhecimentos. Uma comunidade que não esteja bem estruturada em sua composição, ambiente e estrutura não assegura a sua sustentabilidade e está fadada à falência. Um ambiente de CoPs – com fundamento na teoria dos sistemas – contém as seguintes características de funcionamento: a atenção passaria da parte para o todo; as entradas (inputs) seriam as interações e o interesse pela temática comum; a saída (output) do sistema representaria um produto, ou seja, os objetivos da comunidade para resolver problemas e gerar conhecimento sobre a sua temática; a interação entre as partes tomaria a forma de rede, em que os princípios são representados pelo moderador da comunidade; e a realimentação dar-se-ia pela interação e pelo interesse dos participantes, de modo manter ativa a rede e interconectá-la com atores externos ou outros sistemas.
Segundo o modelo CESM (Figura 6), pode-se compreender as CoPs como um organismo vivo que tem como componentes atuantes as pessoas participantes e um moderador para gerenciar as atividades. Tem-se como suporte a essa interação o próprio ambiente da internet, com as ferramentas de colaboração, os recursos da Web 2.03
Como todo organismo, há a necessidade de estruturas funcionais para que o sistema possa operar, tais como a moderação ou regência, as quais asseguram interações de acordo com as normas éticas definidas para a comunidade. O formalismo de registro em uma comunidade , que auxiliam o compartilhamento, e os recursos TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação). Outro componente que pode manter viva uma comunidade é a própria área de interesse, ou área temática. Essa relação faz com que as pessoas se aproximem por um interesse comum.
3 Web 2.0 é um termo criado em 2004 pela empresa americanaO'Reilly Media[1] para designar uma segunda geração de comunidades e serviços, tendo como conceito a "Web como plataforma", envolvendo wikis, aplicativos baseados em folksonomia, redes sociais e Tecnologia da Informação. Embora o termo tenha uma conotação de uma nova versão para a Web, ele não se refere à atualização nas suas especificações técnicas, mas a uma mudança na forma como ela é encarada por usuários e desenvolvedores, ou seja, o ambiente de interação e participação que hoje engloba inúmeras linguagens e motivações. http://pt.wikipedia.org/wiki/Web_2.0
favorece o conhecimento dos perfis, e os mecanismos de recuperação da informação facilitam a própria comunidade a encontrar a informação que procura. Com todos esses componentes e estruturas operantes, têm- se condições normais para que uma comunidade possa existir e mecanismos que se assemelham aos objetivos a que se propõe a comunidade. A participação coletiva, a troca e a geração de novos conhecimentos são caminhos para a comunidade atingir seus objetivos, que se concentram nessa geração e nessa troca.
Figura 6 - CoPs no modelo CESM como se apresentam na atualidade Fonte: Bunge (2003)
2.1.1 Comunidade virtual e suas relações
Uma comunidade organizada no contexto virtual é composta de elementos inter-relacionados – homem, máquinas, tecnologia e procedimentos – que são necessários para cumprir um objetivo específico. As comunidades estão inseridas nesse contexto virtual, em que cada elemento estrutural possui a sua missão.
A internet permite a comunicação e possibilita o compartilhamento e a transmissão de uma memória social que aos poucos está gerando uma inteligência coletiva, fenômeno constatado por Lévy (1998). Essa visão também é compartilhada por Castells (1996), que já considerava as redes globais “um universo de trocas instrumentais que ligam e desligam seletivamente indivíduos, grupos, regiões e até países, de acordo com sua relevância em preencher os objetivos processados na rede, num fluxo incessante de decisões estratégicas”. Nesse contexto, que envolve a comunicação, a
transmissão e o compartilhamento de informações, é que se originaram inicialmente as comunidades virtuais na internet.
As Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) fazem parte do ambiente que dá suporte às interações no contexto virtual. Há uma ampla diversidade de serviços, aplicações e tecnologias que empregam diversos tipos de equipamentos e de programas informáticos, e que às vezes são transmitidos por meio das redes de telecomunicações. (BRUM; MOLERI, 2009).
Nota-se também uma avalanche de novas tecnologias (Web 2.0) na internet e uma tendência das pessoas na procura por recursos disponíveis na Web para criar suas comunidades ou simplesmente participar delas. Outra sensação da era Web 2.0 é o serviço OpenSocial4
Finalmente, as pessoas que fazem parte desse universo interagem de acordo com o seu interesse em assuntos comuns. Por isso, áreas temáticas como subuniversos (comunidades, nichos) atraem cada vez mais pessoas à procura de novos conhecimentos. Toda essa interação é favorecida pelas TICs, com seus ambientes interativos e novas tecnologias.
, criado pela Google para permitir uma maior interação entre aplicativos Web.
As CoPs podem ser consideradas como uma nova forma de organização que não possui normas ou regulamentos. No entanto, existe uma maior consciência de que as comunidades necessitam de gerência ou moderação (GARAVAN; CARBERY; MURPHY, 2007).
Essa visão é também compartilhada por Zhihong Li, Jun Li e Minxia Li (2008). Os autores afirmam que, para facilitar a transferência de conhecimento nas comunidades de prática, as organizações devem estabelecer alguns mecanismos de gestão que possam auxiliar a partilha de conhecimentos, o armazenamento e a agilidade nos processos internos da comunidade.
Percebe-se nos argumentos acima uma emergência no processo de gestão em comunidades de prática. Muitos problemas são registrados na literatura, tais como a forma de manter os membros interagindo e o intercâmbio de informações relevantes para toda a comunidade (GOUVEA; MOTTA; SANTORO, 2006). Apesar do número crescente de organizações que utilizam CoPs, pouco se sabe sobre como conduzir
4 OpenSocial é um conjunto de API's, mantido pelo Google e por outros sites, cujo objetivo principal é poder desenvolver aplicativos que interagem com redes sociais. A grosso modo, com o OpenSocial é possível incrementar um site. Por exemplo, jogos em flash no seu orkut. Ou ainda, um msn no seu Ning. Algumas redes sociais abertas às tecnologias OpenSocial são hi5, LinkedIn, MySpace, Ning, orkut... entre outras. http://www.opensocialbrasil.com/
um processo de manutenção de uma CoP para que ela obtenha sucesso. Muitos estudos procuram responder à seguinte pergunta: quais são as práticas de gestão que podem aumentar as chances de sucesso em uma CoP intencionalmente formada? (BOURHIS; DUBÉ, 2010).
Como podemos verificar, a participação em comunidades, os fatores de sucesso e as intervenções são temas e frutos de estudos que acompanham a evolução das comunidades virtuais de prática ao longo do tempo. Muitas comunidades possuem elementos e problemas comuns e essenciais que se repetem. Dickinson (2002) e Filipe e Cordeiro (2009) analisaram as características das comunidades virtuais, identificaram elementos-chave e apresentaram uma proposição sobre as principais características que são fundamentais para proporcionar uma bem-sucedida comunidade virtual, bem como as direções futuras em termos de investigação, desenvolvimento e implementação.
Entre os diversos problemas e desafios encontrados na literatura, o que mais motivou este estudo de tese foi a localização de especialistas, que, de acordo com Vertommen et al. (2008), é uma das grandes dificuldades na configuração de uma comunidade de prática. A eficiente identificação de especialistas e pessoas que poderiam potencialmente beneficiar a comunidade com sua experiência acadêmica e profissional, especialmente nas grandes organizações, é o grande desafio deste trabalho.
As tendências recentes na ciência estão aumentando a necessidade da colaboração entre pesquisadores. Até o momento, porém, os sistemas eletrônicos têm desempenhado um papel menor no sentido de ajudar os cientistas na localização de outros cientistas.
Entre as possíveis intervenções no contexto do método CESM, caracterizadas como evolutivas para otimizar os problemas no tocante à participação e maior sustentabilidade em comunidades virtuais de prática, considera-se neste trabalho a inclusão de alguns serviços de conhecimento (Figura 7) como componentes de natureza artificial (agente). Atente-se para três intervenções como novos mecanismos: (1) agentes para localização de especialistas, (2) agentes de apoio à memória organizacional e (3) agentes de apoio à análise da efetividade nas interações.
Figura 7 - CoPs no modelo CESM com a inserção de mecanismos que promovam melhorias no sistema
Fonte: Bunge (2003)
Considerem-se essas intervenções como um pressuposto de melhoria na participação e na qualidade do ciclo de vida de uma comunidade. Nesta pesquisa, serão explorados os mecanismos para localização de especialistas.
2.2 GESTÃO DO CONHECIMENTO, INFORMAÇÃO E