Sarmento e Carvalho (2014) indicam que as atividades principais de um gestor de instalações esportivas estão relacionadas ao planejamento, construção e gestão da instalação esportiva, contudo o que se vê na realidade é que o gestor dificilmente participa das duas primeiras fases, sendo atuante somente na terceira fase (gestão/funcionamento), quando a instalação já está pronta, o que é apontado pelos autores como um erro, haja visto que pode haver defasagens entre a configuração da instalação e seu uso. Como responsabilidade de um gestor, Pedroso, Menezes, Sarmento, Leonildo, Santos e Coelho (2012a) e Mulatinho (2011) afirmam que a gestão de instalações esportivas se caracteriza por ser uma tarefa complexa,
87 uma vez que será de responsabilidade do mesmo uma série de funções que exigirão a coordenação de diversas áreas, participação na concepção e planejamento da construção da instalação além de prover os recursos necessários para o funcionamento da instalação.
Os estudos que visam compreender as competências necessárias para gestores de instalações esportivas ilustram bem a complexidade deste cargo. Com intuito de construir um instrumento para determinar as competências necessárias a um gestor de instalações esportivas cobertas e academias, Tripolitsioti, Moudakis, Konstantinakos e Theodorikakos (2007) realizaram uma análise fatorial exploratória que revelou 8 fatores que reduzem 69 competências necessárias ao gestor destes espaços que estão relacionadas a: técnicas de gestão, ciência do esporte, gestão de eventos, relações públicas, habilidades em informática e pesquisa, gestão de instalações, governança e segurança e prevenção de acidentes.
Com objetivo de identificar as competências de gestores de instalações esportivas em dois níveis hierárquicos, Case e Branch (2003) verificaram que para os gestores do primeiro nível hierárquico (operacional), são 7 as competências chave: habilidades com computador e comunicação, gestão de instalações, relação com colaboradores, operação, gestão geral, planejamento financeiro e vendas/marketing. Já para os gestores de níveis hierárquicos mais altos, os autores encontram 10 competências chave: gestão geral, relação com colaboradores, compra, segurança, contabilidade, liderança, planejamento e construção de instalações, gestão de risco, gestão de instalações e vendas/marketing (CASE; BRANCH, 2003). Os autores destacam que as competências encontradas no estudo vão ao encontro das propostas de programas de graduação e pós-graduação endossada pelas entidades North American Society
for Sport Management (NASSM) e a National Association for Sport and Physical Education
(NASPE) (CASE; BRANCH, 2003).
Já em pesquisa realizada com gestores de instalações esportivas de Taiwan, a análise das competências necessárias para o desempenho da função revelou 8 áreas: Gestão organizacional, gestão de orçamento, gestão de eventos esportivos, instalação (manutenção), gestão de risco, utilização de computadores, comunicação e gestão de recursos humanos sendo que, segundo o autor, se dará ênfase a uma ou outra área, dependendo do tipo de organização em que o gestor atua (setor público, setor privado, clube, departamentos de educação física de universidades, etc.) (CHEN, 2012).
No Brasil, a própria área de gestão do esporte necessita de um maior desenvolvimento no que diz respeito à formação do profissional envolvido com a gestão, com cursos de especialização que ofereçam uma visão mais ampla (BASTOS; BARHUM; ALVES; BASTOS; MATTAR; REZENDE; MARDEGAN; BELLANGERO, 2004). Há lacunas na
88 formação do gestor do esporte no País nas competências relacionadas à Ética, Legislação, Finanças, Marketing e Comunicação no esporte (MAZZEI; AMAYA; BASTOS, 2013), além de não haver uma matriz curricular, programas de ensino ou conteúdo de disciplinas definidos (ROCHA; BASTOS, 2011). Se formos à busca de estudos que descrevam os profissionais que hoje atuam na área no Brasil, encontramos as mais diversas realidades, desde profissionais formados na área de gestão do esporte (principalmente com nível especialização) como também profissionais de outras áreas bem distintas à gestão do esporte (AMARAL, 2015b).
Ao abordar especificamente a formação de gestores de instalações esportivas, Padierna Cardona, Cachón Zagalaz e Díaz Suárez (2018) destacam a importância da formação continuada e permanente que qualifiquem esses gestores. Os autores citam a importância do conhecimento inerente à gestão do esporte, principalmente para os gestores com pouca experiência, e para aqueles que já possuem experiência no cargo, a necessidade de se manter o aprimoramento através de pós-graduação específica em gestão de instalações esportivas, e da participação em cursos de curta duração, seminários, congressos, feiras, etc. Ao final do trabalho os autores sugerem um sistema de formação permanente para gestores colombianos e os temas que esta formação deveria abordar, que vão desde conhecimentos acerca da gestão de instalações esportivas, tais como: Planejamento territorial; Tipologia das Instalações Esportivas; Considerações gerais e sociais; Terminologias básicas; Classificações; Conhecimento acerca dos diferentes tipos de instalações, e também conhecimentos mais específicos: Relacionamento com a comunidade; Gestão de Projetos; Organização de Eventos Esportivos; Marketing para Instalações Esportivas; Contabilidade de Instalações Esportivas; Qualidade em Instalações Esportivas; Tendências na Gestão de Instalações Esportivas; Capital Intelectual nas Instalações Esportivas; Relacionamento com a Ciência (PADIERNA CARDONA; CACHÓN ZAGALAZ; DÍAZ SUÁREZ, 2018).
Já Gascía-Tascon, Torres-Pinazo, Teva-Villén e Morales-Cevidanes (2018) investigaram a aquisição de competências dos alunos do curso de Ciência da Atividade Física e Esporte na disciplina “Equipamentos e Instalações Esportivas” da Universidad Pablo de
Olavide (Sevilla) sob o ponto de vista dos próprios alunos. Os autores constataram que os
alunos no geral possuem uma percepção positiva de haver adquirido as competências propostas da disciplina, com destaque para o item “Desenvolver um projeto de gestão de uma organização esportiva” e aqueles relacionados à trabalho em equipe. Aqueles itens que obtiveram menor média foram os relacionados à finanças e sistema administrativo espanhol, indicando aos docentes que estes são temas que devem ser abordados com mais clareza e/ou dinamismo (GARCÍA-TASCÓN; TORRES-PINAZO; TEVA-VILLÉN; MORALES-
89 CEVIDANES, 2018).
No que diz respeito especificamente ao perfil dos gestores de instalações esportivas, a Espanha mostra uma realidade onde o assunto é foco de estudo há alguns anos. Algumas pesquisas já foram realizadas com intuito de conhecer não só o perfil do gestor envolvido com a gerência de instalações esportivas como também aspectos da gestão exercida por este profissional em várias regiões da Espanha (MARTÍNEZ-TUR; PEIRÓ; RAMOS, 1995; MORENO; GUTIÉRREZ, 1998; PEIRÓ; MARTINÉZ-TUR; TORDERA, 1999; PEIRÓ; RAMOS; GONZÁLEZ, 1993; PEIRÓ; RAMOS; GONZÁLEZ; RODRÍGEZ; TORDERA; MARTÍNEZ-TUR; WHITELY, 1998).
Mesmo recentemente algumas pesquisas podem ser encontradas. Em pesquisa com os gestores dos centros esportivos do município de Vigo, constatou-se um equilíbrio entre a participação masculina e feminina na gestão das instalações esportivas (53% homens e 47% mulheres), sendo que a maioria possuía idade entre os 25 e 39 anos, uma pequena porcentagem dos gestores (15%) possuem nível superior (a maioria possui apenas formação técnica), 34% exercem outra atividade laboral (FERNÁNDEZ; RODRÍGUEZ; SÁNCHEZ; SOIDÁN, 2004). Já em estudo realizado com 136 profissionais que realizam tarefas de organização e coordenação em instalações esportivas da Comunidade Valenciana, Campos- Izquierdo, Martínez del Castillo, Mestre-Sancho e Pablos-Abella (2007) puderam verificar que a ampla maioria dos profissionais eram do sexo masculino (72%), 45% possuíam idade ente 30 e 40 anos e a formação era em sua maioria (70%) ligada à área de educação física e esporte, desde o nível técnico até mestrado (CAMPOS-IZQUIERDO et al., 2007).
Segundo Rodriguez (2008), uma característica marcante em todos os estudos realizados a respeito do perfil do gestor de instalações esportivas na Espanha é a elevada porcentagem de homens que ocupam estes cargos. O autor afirma que os profissionais que atuam como gestores de instalações esportivas são em boa parte provenientes das áreas de Educação Física e Esporte, mas que a maioria das instalações na Espanha são municipais e neste caso os pressupostos para a contratação dos profissionais não são os mais elevados, podendo ser um impedimento importante da inserção do profissional de educação física e esporte neste campo de atuação (RODRÍGUEZ, 2008).
Em outros países da Europa e da Ásia também é possível encontrar pesquisas com intuito de conhecer o profissional envolvido com a gestão das instalações esportivas. Tripolitsioti et al. (2007) verificaram em sua pesquisa que os gestores de instalações esportivas de saúde e clubes de fitness na Grécia possuem idade média de 40,38 anos e trabalham como diretores em média há 12,8 anos. Já em estudo conduzido com gestores de
90 instalações esportivas de Taiwan, Chen (2012) verificou que estes profissionais eram majoritariamente são do sexo masculino, possuindo formação em nível superior, idade na faixa dos 41 a 45 anos e tempo no cargo entre 10 e 15.
Em pesquisas realizadas com gestores de instalações esportivas do Azerbaijão e do Iran, resultados semelhantes foram verificados, com a predominância de gestores do sexo masculino (acima dos 85% nas duas pesquisas), a faixa etária com maior representatividade é a de 31 a 35 anos, e um nível educacional também semelhante, com por volta de 60% dos sujeitos com ensino de nível superior (GHADERI, 2014; NOSRAT et al., 2013).
Amaral, Bastos e Sarmento (2014) em investigação acerca do perfil dos gestores de instalaçoes esportivas do norte de Portugal verificaram que, além de uma predominância de gestores do sexo masculino e com formação na área de educação física e esporte, os profissionais dirigem a maioria de suas tarefas para atividades ligadas às áreas de manutenção e oferta e exploração da instalação, enquanto que aquelas atividades relacionadas às áreas de administração financeira, marketing e promoção são realizadas com menor frequência pelos gestores (AMARAL; BASTOS; SARMENTO, 2014).
Já no Brasil, possuímos como referência pesquisa realizada com gestores de instalações esportivas da cidade de São Paulo que indica que o perfil destes profissionais segue a mesma linha no sentido de serem majoritariamente do sexo masculino e com formação na área de educação física, entretanto alguns dados a respeito do perfil deste gestor chama a atenção, como a experiência média de apenas 2 anos no cargo e a porcentagem de gestores que ascendeu ao cargo através de indicação (59%) (AMARAL; BASTOS, 2016). Ainda sobre a atuação destes gestores, os mesmos estão envolvidos mais fortemente às áreas de manutenção e oferta e exploração da instalação, pouco atuando nas tarefas ligadas à área econômico-administrativa, demonstrando não possuírem um comportamento gerencial padrão (AMARAL, 2014).
Em pesquisa realizada por Gómez Tafalla, Gómez e Moreno (2004) com gestores de instalações esportivas públicas de municípios com mais de 10.000 habitantes da comunidade de Valência, os autores constataram que as tarefas mais realizadas pelos gestores eram aquelas relacionadas com o funcionamento geral da instalação, tais como solução de problemas diários, elaboração de horários, determinação de locais para as atividades, redação de normas de funcionamento e uso, supervisão das instalações e controle de material para as atividades. Entretanto os autores apontam para uma tendência de que os gestores estão passando a delegar algumas funções antes desempenhadas por eles mesmos, assumindo um papel mais gerencial, atuando na elaboração de projetos, construção e reformulação de novas instalações
91 (GÓMEZ TAFALLA; GÓMEZ; MORENO, 2004).
Considerando as competências verificadas nos estudos aqui apresentados, o que podemos destacar é que a gestão das instalações esportivas requer o domínio de conhecimentos diversos para administrar os locais de prática esportiva. Segundo Cunha (2007), este é um profissional que assume a responsabilidade de correr riscos e de assumir as consequências da gestão traçada para a instalação a partir dos objetivos definidos para a mesma, o que requer segurança por parte do gestor de que ele possui conhecimento e capacidades necessárias para exercer tal cargo.
Alguns autores atribuem a gestão de uma instalação esportiva a um corpo multidisciplinar de profissionais (CUNHA, 2007; MULATINHO, 2011). Esta gestão tão complexa deve ter como objetivo central a sustentabilidade da instalação, ou seja, que a mesma tenha uma gestão financeira saudável e possa se perpetuar no cenário esportivo (HARUN; SALAMUDIN; HUSHIN, 2013). A necessidade de uma equipe multidisciplinar se dá pela multiplicidade de áreas engajadas na gestão de uma instalação esportiva, como já apresentado anteriormente.
Em relação à realidade portuguesa, Sarmento e Carvalho (2014) diagnosticaram a não realização de trabalho em equipes multidisciplinares, a falta de planejamento em rede, a não definição prévia dos modelos de gestão que serão adotados nas instalações, fazendo com que a gestão das instalações esportivas no país ceda repetidamente ao conhecimento empírico, à gestão do imediato e aludindo apenas a resultados de curto prazo. Para a realidade brasileira, apesar de não possuirmos estudos que verifiquem estas variáveis, é possível que o mesmo cenário seja encontrado na prática.
Segundo os autores, este panorama leva a consequências como o desequilíbrio e a desconformidade de oferta de instalações com relação à procura, o tipo de atividades pretendidas, a fraca qualidade, a pequena capacidade multidisciplinar e a quase nula interatividade no setor (SARMENTO; CARVALHO, 2014). Para Constantino (1999), a definição e planejamento da gestão a ser adotada na instalação após a concepção e construção da mesma é um erro de metodologia que pode levar a custos em alguns casos irreparáveis.
No Brasil há poucos estudos que discutem a importância da gestão e do planejamento de instalações esportivas, além da ausência de critérios que balizem os procedimentos gerenciais (BARETA; DE LA ROCHA FREITAS; RICARDO, 2015; MULATINHO, 2011; RIBEIRO, 2011; SOUZA, 2014). O tópico “projeto de gestão de instalações esportivas” tem sido pouco tratado na literatura específica e poucos autores tratam do conteúdo que este projeto deve possuir (LÓPEZ, 2003). Na realidade que se pretendeu abordar com esta
92 pesquisa (instalações esportivas voltadas ao esporte de participação), nos deparamos com estudos acerca da função gerencial exercida pelos gestores, com pouca abrangência e pouca literatura que discuta a gestão realizada nas instalações esportivas brasileiras.
A partir do conhecimento dos processos de gestão adotados na gestão de instalações esportivas voltadas ao esporte de participação, será possível compreender melhor o gerenciamento destes recintos e propor um modelo de processos de gestão que possa ser adotado em instalações esportivas voltadas ao esporte de participação no Brasil.