As estratégias de polidez lingüística que se manifestam de modo Off –Record são ativadas essencialmente por atos indiretos de fala e implicaturas conversacionais, que precisam do contexto interacional para ser interpretadas adequadamente. Para tanto, pressupõe-se que falante e ouvinte compartilhem o mesmo conhecimento de mundo para que a comunicação seja realizada eficientemente.
1. Faça insinuações
As insinuações podem se manifestar de diversas formas, mas as mais comuns são expressas através de atos indiretos de fala, ou seja, atos de fala que possuem duas forças ilocucionais, uma primária, que é interpretada a partir de uma segunda força, considerada por Searle (2002) como
secundária.
Exemplo 26: It is cold in here. (tradução para o português: Está frio aqui.)
No caso desse exemplo, a força ilocucional primária é um pedido que é realizado através de uma declaração. Como já foi dito anteriormente, as informações contextuais são indispensáveis para a identificação do ato indireto de fala e da natureza de sua força ilocucionária.
2. Forneça pistas associativas
Assim como o ato indireto de fala é reconhecido pelos interlocutores através do contexto da interação, as pistas associativas são geradas segundo o conhecimento compartilhado entre falante e ouvinte e consistem de uma espécie de código que suscita interpretações restritas ao universo dos interlocutores (Brown e Levinson, 1987: p.215).
Exemplo27.: Oh god, I’ve got the headache again. (tradução para o português: Oh Deus, estou
com dor de cabeça novamente.)
Ausente de um contexto particular e independente do conhecimento mútuo e compartilhado entre os interlocutores, o exemplo não manifestará qualquer indício de polidez lingüística, mas se essa expressão surgir depois de um pedido, podemos destacá-la como uma manifestação de polidez
off-record.
Exemplo 28: A: Você poderia me ajudar a lavar os pratos? / B: Oh Deus, estou com dor de
cabeça novamente.
3. Pressuponha
Esse tipo de estratégia precisa, além do contexto e do conhecimento compartilhado entre os falantes, de expressões lingüísticas que facilitem a interpretação do enunciado.
Exemplo 29: I washed the car again today. (tradução para o português: Eu lavei o carro
novamente hoje.)
A palavra again (novamente) leva ao entendimento de que o ouvinte já saiba que algo voltou a acontecer, ou, se não sabe, ele pode interpretar essa expressão como um ato indireto de fala, cuja força primária possa ser uma reclamação.
4. Minimize
relação com o princípio de lítotes de Leech (1983), que tem como principal objetivo distorcer o estado de coisas, que nesse caso pode ser considerado como um ato ameaçador de face. Geralmente quando não gostamos de algo, para manter o equilíbrio na relação, tendemos a minimizar a nossa opinião através de alguns recursos lingüísticos, tais como os modalizadores. E nesse caso, violamos propositalmente a máxima da qualidade de Grice (1982) para buscar a polidez lingüística.
Exemplo 30: That dress is quite nice. (tradução para o português: Esse vestido está
relativamente bom.)
O exemplo mostra que o modalizador quite (relativamente) busca amenizar a idéia de que o vestido não está adequado.
5. Exagere
Na mesma perspectiva, essa estratégia modifica o estado de coisa, mas dessa vez com a intenção de buscar uma aprovação, concordância, assim como chamar a atenção, como é o caso do exemplo abaixo:
Exemplo 31: I tried to call a hundred times, but... (tradução para o português: Eu tentei ligar
uma centena de vezes, mas…)
De acordo com Leech (1983), um dos problemas com o uso do exagero, é que com o tempo, passando a fazer parte do repertório lingüístico do falante, esse pode ser avaliado como bajulador, falso, exagerado, ou seja, pode gerar um efeito inverso ao esperado (simpatia, aprovação, concordância).
Diante da semelhança entre essas duas ultimas estratégias, 3 (minimize) e 4 (exagere), poderíamos propor uma acomodação em uma única estratégia, que teria como objetivo distorcer o estado de coisa no ato da enunciação, caracterizando uma violação às máximas da qualidade e da quantidade de Grice.
6. Use tautologias
As tautologias constituem o tipo de expressão que diz muito, enquanto não diz nada. Assim como as duas estratégias anteriores de algum modo violam a máxima da qualidade de Grice (1982), a tautologia viola a máxima da quantidade, pois não fornece informação suficiente, mas gera apreciação e concordância.
Exemplo 32: War is war. ((tradução para o português: Guerra é guerra.)
Desse modo, podemos dizer que os provérbios funcionam de uma forma parecida, pois buscam na generalização (outra forma de violar a máxima da quantidade) um suporte para gerar tais efeitos.
7. Use contradições
Essa estratégia surge por meio da violação de duas máximas de Grice (1983): a máxima da quantidade e a máxima da qualidade.
Exemplo 33: Well, John is here, and he isn’t here. (tradução para o português: Bem, John está
aqui e não está.)
O exemplo nos mostra que a contradição não acrescenta o nível de informação necessário, além de não permitir alguma relação com a verdade, pois parece impossível, em termos lógicos, alguém estar e não estar em algum lugar.
8. Seja irônico
Do mesmo modo que as estratégias 4 e 5 dessa seção, respectivamente, nos lembram os princípios da hipérbole e de lítotes (discutidos por Leech no capítulo seguinte), a ironia é considerada pelo lingüista como um princípio à parte da polidez, pois ela em si constitui uma forma velada de violação do princípio seja polido, já que ela trabalha a polidez apenas superficialmente, assim o sentido que pretende ser observado trata do seu contrário, ou seja, são dois sentidos opostos compartilhando da mesma expressão.
Exemplo 34: John is a real genius. (tradução para o português: John é realmente um gênio.). Ressaltando, mais uma vez, a natureza irônica de uma expressão poderá ser observada pelos participantes da interação se estes compartilharem o conhecimento de mundo e reconhecerem pistas que lhe favoreçam tal interpretação, como é o caso do tom da voz e expressões faciais ou gestuais.
9. Use metáforas
Tanto, ou mais que na literatura, a metáfora habita grande parte dos diálogos, principalmente no que tange às expressões de críticas, elogios, atos de fala, que precisam necessariamente de um comprometimento do falante com aquilo que diz. Assim, elas surgem para evitar que o
enunciador se comprometa ao dizer algo, cabendo, então, ao ouvinte se responsabilizar pelo sentido escolhido.
Para compreender asserções metafóricas, o ouvinte necessita de alguma coisa além do conhecimento da língua, da consciência das condições de emissão e das suposições de base compartilhada com o falante, ele deve dispor de algum outro princípio ou de algumas outras informações factuais, ou de alguma combinação de princípios e informações, que o habilitem a imaginar que, quando o falante diz S é P, ele quer significar S é R.(Searle, 2002; p.134)
Exemplo 35: Harry’s a real fish. (tradução para o português: Harry é realmente um peixe.) No caso desse exemplo, a comparação da pessoa com um peixe pode gerar vários sentidos, dentre os quais, o ouvinte selecionará aquele mais adequado à situação em que se encontra.
10. Use questões retóricas
As questões retóricas servem para desviar a atenção do ouvinte para um determinado ato de fala. No caso do exemplo abaixo, o falante procura fazê-lo pela alegação da ignorância ou por inabilidade em realizar algo.
Exemplo 36: What can I say? (tradução para o português: O que eu posso dizer?) 11. Seja ambíguo
Essa máxima viola amplamente a máxima da maneira ou modo de Grice (1982), pois tem como objetivo principal não estabelecer a cooperação comunicativa, fazendo com que o ouvinte tenha duas ou mais opções de sentidos que possam ser adotados.
Exemplo 37: John’s a pretty sharp cookie. (tradução para o português: John não é um tolo). 12. Seja vago
A não especificação de uma ação, a falta de informação, ou a expressão de dados imprecisos podem constituir formas diversas de como essa estratégia se manifesta. Desse modo ela institui em algum nível uma distância interacional entre o falante e o ouvinte, não permitindo que ambos compartilhem das mesmas informações.
Exemplo 38: I’m going you know where. 7(tradução para o português: Eu estou indo, você sabe onde).
13. Generalize
As generalizações são próprias dos discursos políticos e têm como principal função fundamentar uma verdade através do senso comum, ou pela freqüência com que uma determinada ação, ou fenômeno acontece. Assim, quando alguém comunica uma generalização pode estar buscando na voz do outro uma forma de expressar a própria voz e desse modo, se afastar de uma possível afiliação com aquilo que é dito.
Exemplo 39: Mature people sometimes help to the dishes. (tradução para o português: Pessoas
maduras, às vezes, ajudam com os pratos.)
Apesar de proporcionarem uma grande contribuição para os estudos de polidez lingüística, a classificação das estratégias estipulada por Brown e Levinson (1987) é, em muitos momentos, confusa, e desse modo, algumas estratégias parecem funcionar de forma similar, ou seja, as estratégias não precisariam estar dispostas separadamente, constituindo, assim, uma mesma categoria; entre esses casos podemos destacar a estratégia anterior 12 (seja vago) e a atual 13
(generalize), respectivamente, pois ambas constituem uma forma de generalização, variando segundo a quantidade de informações disponíveis no enunciado, provocando, assim, violações as máxima da quantidade de Grice.
14. Desloque o ouvinte
Essa estratégia é bastante utilizada, pois, assim como a anterior, ela busca no outro, mas dessa vez no endereçamento deste, uma forma de amenizar um ato ameaçador de face.
Exemplo 40: Let’s do the homework. (tradução para o português: Vamos fazer a tarefa de casa.) Nesse exemplo, o uso do verbo let´s direciona a um conjunto o ato de realizar uma determinada ação, mas o us incluso não quer dizer que o falante participe desse conjunto, mas outras pessoas para as quais ele direciona o ato.
15. Seja incompleto, use elipses
Essa estratégia tem como princípio violar a máxima da quantidade, fazendo com que a falta de informação, ou omissão desta, possa sugerir ao ouvinte que o falante não tem a intenção de cooperar de um modo comunicativo.
Exemplo 41: Well, I didn’t see you8… (tradução para o português: Bem, eu não vi você…).
Como observamos nas ultimas seções (1.6.3.; 1.6.4.; 1.6.5.), as 40 estratégias estipuladas por Brown; Levinson (1987) tiveram como propósito primário ilustrar o funcionamento do comportamento verbal das pessoas, quando essas priorizam, em alguma medida, a preservação das faces dos participantes da interação, e, por conseguinte, a manutenção ou estabelecimento da harmonia na interação.
Contudo, também observamos alguns problemas com a disposição das estratégias e a inadequação de alguns exemplos. Desta forma, na próxima seção propomos uma nova categorização das estratégias estipuladas por Brown; Levinson (1987), segundo o desenvolvimento de um ritual típico de conversação, com o objetivo de simplificar a teoria para uma posterior análise.