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Utilisation des d´eclarations using dans les classes

8.1 G´en´eralit´es

9.3.2 Utilisation des d´eclarations using dans les classes

Além dos fatores que os terapeutas mencionaram como definidores dos comportamentos dos cavalos, tais como a tendência filogenética, manejo e temperamento do cavalo, bem como sua

disposição diária, o treino é a instância fundamental que constitui um cavalo de equoterapia.

O cavalo, já tendo ingressado na equoterapia, era treinado com certa regularidade, sempre que desobedecesse aos comandos, acelerasse ou se chacoalhasse demais com o praticante em cima, ou então se mordesse muito. A única pessoa encarregada de treinar os cavalos, na época de minha pesquisa, era Marina111. Com os treinos, valendo-se de técnicas de dressage112 (termo em francês traduzido como “adestramento” no Brasil) ou de equitação, buscava-se trazer disciplina para o cavalo, usando de liderança e imposição sobre ele, como assim disse a terapeuta.

O reforço ao comportamento dos cavalos por meio do treino, bem como o cultivo da

disciplina (autoridade, coerção e controle) extrapola as relações nele ensejadas, e remete, ainda, à

discussão sobre a domesticação como um processo que se dá contínua e cotidianamente, em que humanos e animais, se não parceiros, são partícipes ativos nesta relação (Fijn, 2011), e prefiguram assim, uma relação de codomesticação ou domesticação mútua.

Evidentemente, os treinos são calcados em relações assimétricas; estas, por sua vez, fundamentadas na atenção que os envolvidos ativam entre si (Haraway, 2008). O treino é ainda a instância disciplinadora que permite que o cavalo entenda o comando e faça aquilo que se lhe outorga. Por exemplo, “fazer o cavalo andar de ré” era algo que precisava ser treinado. Mas isto tudo considerando que nunca se pode treinar um cavalo batendo, mas deve envolver prêmios e

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O que mudaria quando ela deixasse seu cargo, repassando esta tarefa ao professor de equitação do local.

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Segundo a terapeuta, o termo “adestramento” não é uma boa tradução para dressage, uma vez que remete ao adestramento de pets e, portanto, trata-se de algo bastante diferente. De acordo com ela, a tradução mais próxima seria “treinamento”, porque seria algo mais técnico, em que cavaleiro e cavalo têm que se entender, e o cavalo tem que fazer

o que o cavaleiro quer. Já o termo “dressage”, de acordo com ela, tem a ver com coreografia, desenhos e contornos que

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correções, como me disse Marina, que me esclareceu também: “Por que estou dando ração? É tipo

um prêmio, para ela saber que está certa”.

Certa vez, eu os observava de longe, próxima à barreira da pista de areia. Chocolate estava sendo treinado, porque desobedecia e mordia muito. De cima do cavalo, a terapeuta me indicou: “Ele quer ir por aqui [contra a pista] porque sabe que vamos entrar na pista, e ele não quer ir”, quando Chocolate havia inclinado sua cabeça para o lado oposto por onde caminhava. Já dentro da pista, eles aqueceram e depois trotaram. Marina mandou beijinhos e passou as mãos no pescoço do animal. Galoparam por alguns instantes, e depois retomaram o ao passo. Em seguida, ela deu

tapinhas na barriga do animal, e chamou-lhe de gordo preguiçoso e fez sons com sua boca: “Rãp rãp rãp rãp!”, procurando fazer o cavalo seguir seus comandos. Em seguida, ela me perguntou:

“Você viu que ele quer me contrariar? Depois que dou chicotada, ele dá coice”. Assim, novamente, temos explícito o grau de disputa envolvido nas relações entre cavalos e humanos na equoterapia.

Sem vergonha e folgado foram também outros termos que a terapeuta utilizou com o cavalo. Por sua

vez, o coice da parte do cavalo demonstra que, por vezes, seu comportamento escapa ao controle que terapeutas pretendem impor às suas ações.

A este respeito, o filósofo e treinador de cavalos Paul Patton (2003) se indaga sobre a possibilidade de um método que descarte, por completo, o uso da violência, uma vez que as técnicas de treino e montaria são “fundamentalmente coercitivas” (p.85), e os cavalos, de sua parte, são tomados como se tivessem uma “natureza não-treinada intrínseca”. Para ele, o treino envolve três relações distintas: a) as relações disciplinares, que reúnem comando e obediência; b) as relações com os animais, e c) uma certa linguagem que possibilita a interação (p.95). A respeito da coerção na relação com o cavalo, Patton argumenta que toda ação que age e modifica a ação de outrem é de natureza coercitiva, e seria uma forma de governo à la Foucault. No limite, para o autor, a diferença entre, de um lado, as técnicas de treino que empregam o método cowboy convencional e são

162 violentas, e de outro, os métodos de doma gentil Jeffrei ou não violentas (como aqueles propostos pelos treinadores Monty Roberts e Vicki Hearne) estaria no modo mais ou menos direto e mais ou menos sofisticado de exercer poder sobre o outro (Patton, 2003, p.92). Ambas, portanto, são formas de governo sobre o outro, embora se diferenciem qualitativamente quanto ao compromisso que estabelecem com o entendimento e respeito ao animal.

Outros sentidos podem ser dados à agência do cavalo na relação com as pessoas. Como argumenta Daniel Lima (2013), em contextos de doma tradicional ou gaúcha, em oposição à chamada doma racional ou gentil, que se apoia na não violência e formas de estabelecer confiança com o cavalo, o cavalo pode manifestar o atributo de “velhaco”, “rebelde” ou de cavalo “manso” (Lima, 2013). No quadro das relações entre o domador (campeiro) e o cavalo, o autor tematiza que, para o domador, o cavalo, ao ser domado, torna-se um sujeito que, ao invés de apenas estar assujeitado à violência do domador (p.40), ele é também um agente de violência, uma vez que é ele quem também determina se a doma deve ser violenta ou não. É válido notar, ainda, que o autor considera este tipo de interação com o cavalo uma relação “simétrica” (por mais que se reconheça que ela acarreta o uso de força e violência explícitas); haveria simetria uma vez que o domador “ensina” algo ao cavalo, mas também “aprende” algo sobre os atributos que o animal esconde.

Mas, de outro modo, pode haver consideração e obrigações éticas entre os seres envolvidos na assimetria, o que, de acordo com Patton, não significa que as relações com os animais no treino sejam, por isso, formas corruptas ou de cooptação do poder dos animais. Como ele coloca, é possível haver igualdade moral, ética, obrigações, responsabilidades e, no limite, liberdade, mesmo dentro de um sistema de restrições (p.96). E as relações envolvem ética justamente porque, dentro das possibilidades comunicativas, há o fundamento da confiança. E exemplifica que, também nas relações sociais entre humanos, há relações de comando e obediência que, por si só, não excluem a dimensão ética das relações. Vale a pena lembrar, ainda, a já apontada sobreposição entre formas de

163 governo lançadas simultaneamente a humanos e animais, nos séculos XVII e XVIII, quando as técnicas modernas de dressage foram aplicadas aos cavalos ao mesmo tempo em que movimentos dos corpos humanos eram também alvos de técnicas de disciplina, como Foucault bem o notou (Patton, 2003, p.94). É num sentido semelhante que imaginamos estarem em ação processos simultâneos aplicados às pessoas e aos cavalos na equoterapia, e é justamente no desenrolar das sessões que podemos ver de que modo se entrecruzam os procedimentos de comando sobre os cavalos e as técnicas e exercícios de controle sobre os praticantes.

Vejamos, então, o que ocorre com os praticantes no momento de seu ingresso na equoterapia, quando estes passam por uma fase de adaptação. Mencionaremos, também, alguns sentidos dados pelos terapeutas aos movimentos dos praticantes durante as montarias.

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