De acordo com os moradores do assentamento 24 de Novembro o principal objetivo das famílias através do MST é a ―terra para trabalho”. Ou seja, é terra para quem nela trabalha. Além deste objetivo estão a ―alimentação‖, ―educação‖ e ―vida digna‖.
A alimentação da família, segundo os moradores assentados, é obtida através e por causa da reforma agrária. Pode-se perceber que os assentados atribuem a vida digna que têm à luta pela reforma agrária. Foi através da reforma agrária que as famílias do assentamento 24 de Novembro abandonaram a vida de miséria em que viviam e a pobreza, tornando-se donos de sua própria terra e obtendo a vida digna tanto desejada.
Segundo a maioria das famílias deste assentamento a reforma agrária, se ocorresse de verdade em toda a sociedade, solucionaria problemas como fome, pobreza e desemprego, pois esta gera alimentos saudáveis para a subsistência e trabalho, tirando assim, as famílias da situação de pobreza. A reforma agrária traria soluções para as cidades também, ao ―desinchar‖ as cidades e ao trazer salários mais justos, alimentos saudáveis e dignidade para todos. Segundo um dos moradores assentados a ―reforma agrária é igualdade e direito para todos‖.
Algumas famílias ressaltaram durante as entrevistas que há uma grande parcela de pessoas na luta pela reforma agrária que vêm das cidades. As famílias entrevistadas explicam que antigamente, em suas épocas (quando acamparam), a maioria era do campo, mas atualmente há muita gente da cidade inserindo-se no Movimento por causa da luta pela reforma agrária. Mas grande parte dos assentados afirma que os protagonistas da luta pela reforma agrária são os próprios ―trabalhadores rurais‖. Explicam ainda que as pessoas que estão na luta pela reforma agrária podem ter vivido nas cidades, mas têm origem no campo e que isso ocorre por causa do processo de êxodo rural que ocorreu no século XX. Através deste processo, os assentados explicam que muitas pessoas que viviam no campo foram obrigadas a migrarem para as cidades em busca de empregos e que são estas mesmas pessoas, ou seus filhos e netos que hoje estão inserindo-se no MST em busca de terra para trabalhar.
Para conseguir conquistar a terra, segundo os moradores do assentamento 24 de Novembro, é necessário ―muita luta‖. De acordo com os assentados quem quer conquistar a terra tem que lutar, primeiramente inserindo-se no Movimento e ocupando a terra. Segundo um dos moradores entrevistados ―tem que se organizar e resistir no acampamento‖. Constata-se, através dos discursos dos assentados, que os que não lutam não merecem e não têm direito à terra. Além disso, constata- se ainda que tem direito à terra aqueles que precisam da mesma para viver, aqueles que ―querem a terra para trabalhar em cima dela‖, pois a terra tem a função de ―produzir alimentos”.
O discurso dos assentados de que a estagnação da produção na terra restringe o direito de obter e permanecer na mesma é muito forte. Segundo um dos moradores do assentamento 24 de Novembro ―quem conquista a terra para deixar esta parada, sem produzir, sem trabalhar em cima desta, não tem direito à terra‖. Importante ressaltar que este discurso é muito similar ao discurso dos teólogos da libertação. Abaixo a fig. 10 ilustra um quadro em uma residência do assentamento 24 de Novembro com o lema ―Terra, Trabalho, Justiça‖, o que materializa o discurso dos moradores assentados em torno na questão do trabalho na terra.
Figura 10 – Quadro com lema do Movimento, que tem origem na CPT, em residência do assentamento 24 de Novembro
Alguns moradores do assentamento 25 de Outubro afirmam, através das entrevistas, que a terra é um direito de todos, pois a terra é de Deus, e ―Deus não vendeu a terra, mas deu para todos‖.
Já outros moradores assentados explicam que para ter direito a terra é necessário ter origem no campo, pois segundo os mesmos quem não é da agricultura não tem o conhecimento da produção na terra. Além disso, de acordo com os assentados, tem direito a terra quem nela trabalha. No processo de reforma agrária não adianta somente conquistar a terra, é necessário também produzir nesta para garantir que a mesma continue sendo sua. É o trabalho na terra que dá direito a esta.
De acordo com os relatos dos moradores assentados, para conquistar a terra foi preciso ―muita luta‖, ―coragem‖, ―garra‖, ―persistência‖. Além disso, a ―organização” é uma palavra chave para compreender como os moradores do assentamento 25 de Outubro conseguiram conquistar a terra. Segundo os moradores assentados entrevistados sem a organização a terra não teria sido conquistada, pois ―quem quer a terra tem que se organizar‖. E, além disso, as famílias entrevistadas vêem essa luta como primordial, ainda hoje, para se ter direito a terra. É necessário lutar porque ―terra não se ganha, se conquista”. Através destes discursos pode-se notar a importância da ―ocupação", segundo as famílias entrevistadas, para a conquista da terra, pois é a partir da ocupação que há a organização das pessoas na luta pela reforma agrária.
Foi a pobreza e miséria que impulsionaram as famílias do assentamento 25 de Outubro a lutarem pela reforma agrária. Esta era a única solução que restava ainda a estas famílias, segundo relatos das mesmas. A luta pela reforma agrária foi uma maneira de fugir da pobreza.
Segundo as famílias do assentamento 25 de Outubro os objetivos do Movimento são ―sustento‖, ―sobrevivência‖ e ―bem-estar da família‖. Estes objetivos são alcançados não somente ao conquistar a terra, mas sim através do ―trabalho‖ realizado através da mesma. É o trabalho na terra que garante uma vida digna às famílias.
O primeiro problema que a reforma agrária soluciona, na opinião da maioria das famílias entrevistadas do assentamento 25 de Outubro, é a ―moradia‖, pois através da reforma agrária se conquista um lugar para viver ―que se pode dizer que é seu‖. A partir da reforma agrária, a terra torna-se ―terra de trabalho‖ para essas
pessoas, que produzem nessa terra. Importante ressaltar que muitas famílias explicam que é necessário plantar alimentos saudáveis, sem a utilização de agrotóxicos, pois é desses alimentos que a família sobrevive. Esse é o principal diferencial da reforma agrária, segundo estas famílias, pois os que conquistaram a terra através desta luta produzem alimentos saudáveis, tanto para a subsistência da própria família quanto para a sociedade. Este discurso está muito presente também nas entrevistas e documentos da CPT, que defende a produção de alimentos que não agrida o meio ambiente e que não utilize agrotóxicos.
A reforma agrária, de acordo com as famílias assentadas, é uma maneira de ―empregar‖ as pessoas, ―desinchando‖, assim, as cidades. Ou seja, a reforma agrária traz soluções tanto para o campo como para as cidades, pois suas conseqüências vão além do âmbito agrário.