O modelo de autocuidado vem substituindo ou complementando o modelo biomédico tradicional em nosso meio, segundo Chompré (1994). Ela é uma enfermeira brasileira, que assim se declarou, ao escrever um artigo na Revista Baiana de Enfermagem, sobre o “autocuidado: necessidade ou responsabilidade”. Ela aponta os limites do modelo biomédico hegemônico no processo de produção de serviços de saúde, e sugere um modelo de autocuidado, derivando-se de Orem, que propõe estratégia possível que garanta a participação do indivíduo, enquanto sujeito historicamente determinado, no processo de cuidar-se. Ao reconhecer os limites do modelo biomédico, ainda prevalente em nossa sociedade, a autora apresenta uma gama de propostas que vislumbram uma maior e mais efetiva participação dos indivíduos, grupos e de toda a sociedade civil organizada no controle do processo saúde-doença. No bojo destas propostas, cita o autocuidado como uma concepção e uma organização de ações e atividades que conduzam a uma integração e participação dos indivíduos em seu cuidado, de vez que toma o indivíduo co-responsável e ativo nos processos de promoção, prevenção, tratamento e reabilitação na manutenção de sua vida. Ressalta a importância pelo reconhecimento da “atividade de
autocuidado” como inerente ao homem em seu processo de conquistar, controlar e usufruir dos bens da natureza.
Ainda a mesma autora refere-se ao autocuidado como modelo que ultrapassa a compreensão e a atitude espontânea da natureza humana, para configurar-se em um modelo conceituai que exige atitude racional com tomada de decisão, para realizar ações antecipadas e oportunas, que busquem a responsabilidade do cuidado individual, que se traduz em ações sistematizadas, coordenadas e integradas pelo indivíduo em seu cotidiano. Para tanto, o indivíduo deve usar de recursos materiais e de energia, a fim de suprir necessidades para o funcionamento interno e estabelecer relações seguras com o meio ambiente. Diante destes elementos, a autora considera que a adoção do modelo de autocuidado não possa desresponsabilizar o Estado de seu dever com a saúde dos cidadãos. A responsabilidade do Estado com a oferta de serviço de saúde deve ser assumida, colocando à disposição tecnologias que permitam, a cada cidadão, conhecer, decidir e assumir o controle de sua própria condição de vida e saúde, com amplo apoio do sistema de serviços, considerando os princípios: universalidade, eqüidade, integralidade, oportunidade e qualidade, previstos na proposta do Sistema Único de Saúde (SUS).
Assim, o modelo de assistência ao indivíduo doente tende a desaparecer para surgir um com enfoque voltado para o bem-estar e saúde das populações, cujos elementos fundamentais de democratização do conhecimento, de promoção da saúde, de prevenção de danos e agravos, de tratamento dos fenômenos já definidos como alteração do processo saúde/doença, de recuperação das capacidades integrais do indivíduo para a vida e para o trabalho, tomem-se presentes nesta proposta emergente.
Para esta autora, autocuidado é necessidade de responsabilidade individual e coletiva. Portanto, é necessário buscar, no cidadão, o aliado para a construção de uma prática de enfermagem em que o autocuidado seja olhado
como necessidade/demanda e responsabilidade de todos. A adoção do modelo de autocuidado como uma prática profissional, especialmente na enfermagem, exige a incorporação de princípios, mudanças de comportamento, abrir mão de valores , romper ou reforçar mitos e crenças já institucionalizados na prática dos profissionais de saúde. Toma-se urgente e necessário que o autocuidado seja incorporado na prática de enfermagem como necessidade sentida e demanda, não para os clientes mas para os próprios agentes que produzem o trabalho de enfermagem. O autocuidado não pode ser apenas para o outro, mas sim para todos.
Assim, o modelo de autocuidado como uma alternativa para as práticas de saúde tem merecido destaque e apoio de vários setores e organizações, pelos benefícios populacionais que o mesmo vislumbra, contudo também tem recebido críticas pertinentes, como a que faz Garcia (1989). Este autor deixou contribuições relevantes às ciências sociais em saúde, por durante vinte anos, ao imprimir orientações construtivas decisivas da formação do pessoal de saúde e denunciar injustiças sociais em nossos países. No que tange à adoção do modelo de autocuidado na assistência primária, o autor analisa a partir de fatos históricos, quando na década de 70 surgiram programas alternativos como o do autocuidado na saúde, na maioria dos países da América Latina. Este fenômeno aparece junto com a crise fiscal dos Estados, caracterizada por um aumento dos gastos em relação às despesas, fazendo com que reduzissem os gastos financeiros sociais na busca de um equilíbrio no orçamento do Estado. Face às crescentes necessidades da população na área da saúde e à concomitante crise econômica do capitalismo, foi estimulada a adoção de alternativas mais econômicas. Entre estas alternativas mais econômicas, o autor se refere ao programa de autocuidado adotado pelos governos, na época, para resolver as dificuldades no atendimento à atenção primária de saúde, que já era desenvolvida por pessoal não profissional. A forte crítica dirigida a este acontecimento, detonada por Garcia(1989), aponta para perversão de valores.
Ele considera a prática do autocuidado de cada um dos cidadãos e por toda urna coletividade, como urna forma legítima de conquista e emancipação das populações no usufruto da melhor qualidade de vida, como um direito à responsabilidade e não significando necessariamente uma alternativa mais barata ou econômica.
3.1 Tipo de Pesquisa: esta pesquisa trata de um estudo exploratório-