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Dar sentido à realidade complexa que nos envolve por forma a lidar eficazmente com ela, constitui genericamente a razão porque tornamos familiar o que é estranho, porque formamos representações. Analisar os processos e factores subjacentes à construção das representações, bem como a sua estrutura interna e transformação, contitui o objectivo deste segundo ponto.

2.2.1. PROCESSOS SOCIO-COGNITIVOS DE CONSTRUÇÃO DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

Moscovici (1976) define dois processos interligados subjacentes à elaboração das representações sociais: a objectivação e a ancoragem. Enquanto que a

objectivação traduz a forma como um esquema conceptual se torna real, a ancoragem explica como esse esquema é influenciado pelos valores de referência e como influencia as relações sociais.

A objectivação

O percurso através do qual as ideias se transformam em objectos do senso comum, envolve três momentos principais. Num primeiro momento, as informações acerca do objecto da representação sofrem um processo de

selecção, processo este modelado pelas normas e valores (por exemplo, no

estudo de Moscovici sobre a representação da psicanálise, a libido não é seleccionada). Depois, aquelas informações são organizadas num padrão de relações estruturadas, o nó figurativo, que dá visibilidade ao invisível. Finalmente, e através da projecção do nó figurativo no exterior, os conceitos constituem-se como categorias naturais - naturalização - e adquirem materialidade: não só o abstracto se torna concreto através da sua expressão em imagens e metáforas, como o que era percepção se torna realidade, levando à fusão entre a realidade e os conceitos (no caso da psicanálise, o inconsciente e o complexo já não são imagens mas realidades inquestionáveis).

A ancoragem

Para Moscovici (1976,1984), o processo de ancoragem implica, por um lado, a

classificação de algo numa matriz de identidade, num sistema de categorias

sociais ou culturais pré-existente, por forma a tornar o novo familiar (por exemplo, Moscovici constatou que a psicanálise é assimilada a práticas familiares como a confissão), o que leva à transformação do familiar em algo novo (o facto de se ver na picanálise uma prática análoga à confissão acaba por mudar a imagem desta); por outro lado, a ancoragem envolve a

designação, operação que traduz a forma como os elementos representados contribuem para exprimir e constituir as relações sociais.

Em síntese, se "a objectivação transforma a informação representada em qualquer coisa precisa e concreta que se pode projectar no exterior e ver funcionar... a ancoragem permite classificar uma representação numa rede de categorias pré-existentes religando-a a um ou vários objectos que servem de ponto de referência" (Poeschl, 1992, p. 102). Enquanto que a objectivação, processo de carácter essencialmente cognitivo, traduz o social na representação, a ancoragem liga a representação ao social.

2.2.2. CONSTRUÇÃO DAS REPRESENTAÇÕES E PERTENÇAS SOCIAIS

Sendo os processos de objectivação e ancoragem, processos cognitivos regulados por factores sociais importa aprofundar a relação entre representação social e pertenças sociais. Como Moscovici (1976) alerta, se se pretende compreender a organização do conteúdo, a extensão e a evolução de uma representação é necessário considerar três pressupostos: primeiro, é necessário integrar a representação social como elemento da dinâmica social, e olhá-la como determinada pela estrutura da sociedade onde se desenvolve; depois, a estrutura social remete para clivagens, diferenciações, relações de dominação, que provavelmente se irão reflectir na construção de diferentes representações sociais de um mesmo objecto; finalmente, as diferenciações no campo social registam-se pelo menos ao nível das condições socioeconómicas e ao nível dos sistemas de orientação, desde as normas e valores mais persistentes, às atitudes e motivações específicas. Assim, a pluralidade das clivagens socioeconómicas e dos quadros de referência normativo-valorativos pode ser associada à pluralidade de representações sobre um mesmo objecto,

mediante o seu reflexo nas condições que afectam a emergência de uma representação social7.

Na medida em que "exprimem o sistema de referência próprio de grupos sociais específicos, as representações sociais veiculadas pelos indivíduos não podem ser compreendidas sem ter em conta as suas pertenças sociais" (Poeschl, 1992, p. 92).

De acordo com Vala (1993), a diferenciação das representações enquanto expressão das diferenciações no tecido social pode ser analisada de três perspectivas. Numa primeira perspectiva, a diferenciação das representações sociais tem sido associada a diferentes inserções dos indivíduos nos campos das estruturas socioeconómicas e socioculturais. A incapacidade desta perspectiva dar conta por si só, da complexidade do processo em causa, leva a uma segunda perspectiva cujo pressuposto principal é o de que "os indivíduos constroem representações sobre a própria estrutura social e clivagens sociais, e é no quadro das categorias oferecidas por essas representações que se autoposicionam e desenvolvem redes de relações, no interior das quais se produzem e transformam as representações sociais" (Vala, 1993, p. 381). Uma terceira perspectiva de análise da formação e da diferenciação das representações sociais decorre da consideração dos grupos estruturados, em que são salientes objectivos comuns, interdependência, e alguma forma de organização, por oposição aos grupos pré-estruturados, decorrentes dos processos de categorização.

É também na articulação entre as representações sociais e as relações sociais que Doise (1992) define três tipos de ancoragens: a ancoragem psicológica resulta da intervenção de crenças ou valores gerais que podem organizar as relações simbólicas com os outros; a ancoragem psicossociológica assenta na

7 Moscovici (1976) enunciou três dessas condições: a dispersão da informação, a focalização e

imbricação das representações sociais na maneira como os indivíduos representam as relações entre posições ou categorias sociais; e a ancoragem

sociológica apoia-se na ligação entre representações sociais e pertenças ou

posições sociais particulares ocupadas pelos indivíduos; por exemplo, Moscovici (1976) constatou diferenças na representação da psicanálise ancoradas em diferentes posições sociais.

2.2.3. ESTRUTURA INTERNA8 E TRANSFORMAÇÃO