PSICOSSOCIAIS
Este espaço é destinado para suscitar reflexões que poderão contribuir para o aperfeiçoamento da avaliação de saúde, tendo como referência a fundamentação teórica e as análises da pesquisa.
Cabe, antes, acentuar que esta dissertação é oriunda do curso de mestrado profissional, que conforme a Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) é uma modalidade de Pós-Graduação stricto sensu voltada para a capacitação de profissionais nas diversas áreas do conhecimento. Também é orientação nesta modalidade a articulação entre conhecimento atualizado e aplicação direcionada para o campo de atuação profissional, inclusive com a recomendação de que o trabalho final seja vinculado a problemas reais da área de atuação do profissional.
Nesse sentido, novamente apresenta-se a inserção profissional da pesquisadora como assistente social que, há dez anos, trabalha em empresa do setor elétrico, atuando diretamente com os trabalhadores no desenvolvimento de atividades que vinculam saúde e qualidade de vida. Com as novas requisições de demanda profissional, que incluem o acompanhamento sociofuncional aos trabalhadores, surgiu a necessidade de participação na avaliação de saúde, inclusive dos trabalhadores que realizam atividades consideradas de risco por envolver o trabalho em altura, além, evidentemente, da eletricidade.
Dentre as diversas atividades de acompanhamento, a pesquisadora teve a oportunidade de acompanhar in loco o trabalho dos técnicos de linha de transmissão. Naquela ocasião, a equipe retomava o treinamento de uma manobra que, cerca de 2 anos antes, ocasionou um acidente fatal de um trabalhador da mesma equipe. Salvo a tensão de reviver um momento trágico, o acompanhamento possibilitou a percepção de que a dinâmica do trabalho requer, entre outros elementos, concentração, comunicação objetiva, aceitação da opinião dos colegas e relação interpessoal harmoniosa. Essa vivência levou a pesquisadora a perceber, ainda mais, que a organização, as condições e as relações de trabalho são fatores psicossociais que devem ser priorizados tanto para a preservação da saúde e segurança desses trabalhadores como para o melhor desempenho das atividades e, por conseguinte, para a produtividade da empresa.
Esta necessidade proveniente do exercício profissional simultaneamente com a oportunidade de realizar o mestrado profissional favoreceu para que a temática avaliação de saúde do trabalhador e fatores psicossociais se tornasse uma pesquisa, que de antemão muito já contribuiu para a formação e prática profissional desta pesquisadora. No entanto, com essas reflexões e contribuições, espera-se que outros profissionais possam se apropriar desta discussão e, de alguma forma, suscitar reflexões no modo de avaliar a saúde do trabalhador.
Por isso, apresentam-se a seguir alguns tópicos voltados para o aperfeiçoamento da avaliação de saúde que inclua os fatores psicossociais. Ressalta-se que estes não encerram a diversidade de atuação diante deste tipo de avaliação, sendo necessário, a título de exemplo, de definições de condutas e procedimentos quanto à avaliação dos fatores psicossociais, haja vista que, embora esta temática já possua certo arcabouço teórico, ela ainda precisa de maior diálogo com a prática dos profissionais de saúde.
Quanto às contribuições mencionadas neste trabalho, para melhor elucidação dos tópicos, será tomada como referência um relato de
adoecimento dos trabalhadores13, cujas relações de trabalho, principalmente hierárquica, configuravam-se como um risco psicossocial, passando os trabalhadores a manifestarem sintomas que indicavam o adoecimento.
4.6.1 Compreensão dos fatores psicossociais
Um ponto de partida para uma avaliação de saúde que contemple os fatores psicossociais é que os profissionais de saúde possuam o conhecimento do que são esses fatores. No entanto, um dos resultados da pesquisa demonstrou que ainda há a falta de clareza no entendimento do que sejam os fatores psicossociais, isto porque, quando os profissionais se referem a esse termo, ainda confundem o que é causa e o que é efeito, respondendo como riscos psicossociais ou propriamente ao adoecimento mental do trabalhador.
Outra fragilidade quanto à compreensão dos fatores psicossociais ocorre pelo entendimento da avaliação de saúde, que em muitos casos ainda se restringe ao indivíduo, sem vinculá-lo ao contexto e à organização do trabalho.
Nessa perspectiva, concorda-se com Veloso Neto (2015, p. 6), ao afirmar a necessidade de apropriação dos fatores psicossociais, mencionando que esta é a via necessária para reduzir esta celeuma que vai muito além de uma questão semântica. O autor argumenta que “[...] o aumento dos níveis de compreensão vai continuar a ter que passar pelo aprofundamento do conhecimento, qualificação técnica e sensibilidade ao tema” (VELOSO NETO, 2015, p. 6). Igualmente, enfatiza-se esta necessidade especialmente aos profissionais de saúde que atuam nos diversos espaços ocupacionais, cuja apropriação dos fatores psicossociais e a influência na saúde dos trabalhadores sejam conhecimentos necessários para o bom desempenho da prática profissional.
Especificamente no caso dos profissionais de saúde entrevistados, que atuam no setor elétrico, considerando que esta é uma área de risco, esse cuidado com a saúde e a segurança dos trabalhadores fica ainda mais notório, sendo a avaliação de saúde um dos momentos cruciais para verificar a saúde do trabalhador. Desse modo, a qualificação
13 O exemplo de adoecimento dos trabalhadores foi relatado por alguns entrevistados da
Empresa “B”, como apresentado no item 4.5.1 - Intervenção psicossocial no ambiente de trabalho.
técnica, por meio do aprofundamento desta temática, é um dos fatores que podem contribuir para o aperfeiçoamento da avaliação de saúde que inclua os fatores psicossociais.
4.6.2 Avaliação interdisciplinar de saúde
Outro ponto de destaque na avaliação de saúde, que foi foco de análise nas entrevistas e na revisão de literatura, é a composição da equipe de saúde e a forma como esses profissionais realizam essa avaliação, em termos de interação. Como demonstrado no texto, o posicionamento e o modo de participar na avaliação de saúde está vinculado à concepção que os profissionais possuem acerca de saúde do trabalhador e, por conseguinte, ao modo de atuar, principalmente no trabalho multidisciplinar ou interdisciplinar.
Quanto a essa questão, uma das empresas conota tamanha desarticulação entre os profissionais de saúde, e que o próprio trabalho multidisciplinar já seria visto como um “primeiro passo” para a integração do trabalho. Entretanto, na outra empresa, embora os entrevistados também apontem a necessidade de uma maior interação entre os profissionais, estes já sustentam uma visão que indica a suplantação do trabalho multidisciplinar, que no caso das avaliações de saúde se revela como uma soma de avaliações. Para isso, entendem que os desafios são muitos, como a superação do modelo biomédico, a reavaliação da organização do trabalho com foco no processo, e não em pessoas.
Neste item, endossa-se o trabalho interdisciplinar como uma forma de melhor atender às demandas de saúde do trabalhador. Entende- se que as equipes de saúde devam ter uma amplitude que abarque a complexidade do que seja saúde do trabalhador, e, aqui, cabe uma crítica à composição do SEMST, que, como relatado no texto, exclui outros profissionais de saúde, como os psicólogos e assistentes sociais, colocando-os como serviços suplementares.
Todavia, mais do que a preocupação com a variedade de profissões, deve-se atentar para a dinâmica de trabalho desses profissionais, e nessa concepção o trabalho interdisciplinar se mostra uma opção integrativa das disciplinas, na qual, conforme Ruiz e Araújo (2012), os profissionais compartilham suas diferentes visões passando a produzir “interdisciplinas”.
4.6.3 Indicadores objetivos
Embora os fatores psicossociais sejam visualizados numa perspectiva subjetiva, existem indicadores objetivos que estão relacionadas às condições e à organização do trabalho, que podem sinalizar a exposição aos riscos psicossociais, como as licenças médicas, o absenteísmo e a rotatividade.
Um ambiente que não esteja saudável, por exemplo, com elevados percentuais de adoecimento, pode ter no trabalho um dos seus causadores. O exemplo tomado como referência retrata justamente esta situação, a priori, de um empregado com sintomas de ansiedade, dificuldades para dormir, entre outros, fazendo uso de psicotrópicos e acompanhamento psiquiátrico, sendo estes sintomas associados à situação do trabalho. E, após análise do caso, os profissionais dessa empresa verificaram que outros empregados da mesma área também estavam passando por um processo de adoecimento e que o trabalho estava relacionado ao sofrimento psíquico desses trabalhadores.
O caso supracitado demonstra o que a literatura já discorre ao reforçar que indicadores objetivos, quando não aprofundados, podem deixar obscuros os riscos psicossociais. Por isso, considerar esses indicadores é ampliar o olhar sobre as condições em que os trabalhadores executam suas atividades.
4.6.4 Indicadores subjetivos
Ainda sob um olhar que vai do individual ao coletivo do ambiente de trabalho, passa-se a analisar os indicadores subjetivos, isto é, que dependem da percepção do trabalhador, mas que nem por isso são menos confiáveis que os indicadores objetivos e, da mesma forma, refletem a condição de saúde do trabalhador. Um exemplo citado por alguns autores são os indicadores de pesquisa de clima organizacional, revelando a satisfação dos trabalhadores.
Outros instrumentos, como os citados neste trabalho, também possibilitam uma avaliação mais específica dos fatores psicossociais. Ao retomar o exemplo, que retratava o adoecimento dos trabalhadores, os profissionais relatam que um dos instrumentos utilizados para análise coletiva do grupo foi a realização de entrevistas e a aplicação do ITRA, que permitiu verificar que o grupo estava sendo exposto aos riscos psicossociais, principalmente a autonomia insuficiente, falta de reconhecimento, elevadas exigências emocionais e má qualidade das relações sociais, principalmente no estilo de gestão. Nesses casos, o
dimensionamento dos riscos psicossociais, verificados através de instrumentos, pode colaborar para o seu gerenciamento.
As avaliações de saúde que se voltam somente para os aspectos físicos e biológicos camuflam uma importante área da saúde do trabalhador, que não menos leva ao adoecimento, mas, inclusive, à incapacidade para o trabalho. Antes de chegar nessas variáveis, todavia, o trabalhador, por meio da vivência dos riscos psicossociais, experiencia a insatisfação no trabalho, o que, se não interposto, pode evoluir para o sofrimento psíquico e outros tipos de adoecimento.
Entende-se, nesse sentido, que a busca de sinais e sintomas do adoecimento psíquico ou das restrições psicossociais, como identificadas pelos entrevistados, são fatores importantes a serem considerados na avaliação de saúde, principalmente no caso dos trabalhadores que se expõem a outros riscos, como a eletricidade e a altura. Conquanto, outro fator primordial a ser considerado na avaliação de saúde é o desvelamento dos riscos psicossociais, como os instrumentos subjetivos, a exemplo de inventários e testes, importantes dispositivos para atuação de um trabalho preventivo para a satisfação e saúde do trabalhador.
4.6.5 Escuta qualificada
Outro ponto que notadamente merece atenção é o momento da escuta do trabalhador. Araújo (2013, p. 91), ao mencionar a clínica do trabalho, revela que esta “[...] significa um espaço em que o objetivo de investigação é a relação do indivíduo com a atividade laboral, em seus aspectos mais amplos e subjetivos”.
Igualmente, sinaliza-se que a escuta qualificada deve ser um espaço propício para que o trabalhador compartilhe com o profissional de saúde suas impressões e seus sentimentos quanto à organização do trabalho, às relações sociais, entre outros fatores correlacionados ao trabalho, que podem influenciar na sua saúde ou no adoecimento. À vista disso, a maneira como os profissionais de saúde recebem as demandas dos trabalhadores, a sensibilidade de ir além do aparente e verificar como está a relação saúde e o trabalho são algumas das variáveis a serem consideradas numa escuta qualificada.
O exemplo alusivo utilizado nessas contribuições demonstra que, num primeiro momento, o relato do trabalhador estaria no uso de medicamentos psicotrópicos e, caso não houvesse interesse do profissional de saúde em investigar o porquê da necessidade desses medicamentos, provavelmente não viria à tona a relação com o trabalho.
Da mesma forma, outras queixas como ansiedade, distúrbios do sono e tristeza, embora sejam sintomas comuns para outras patologias, podem também ter associação com o trabalho.
Mas essa relação só é possível de ser verificada quando os profissionais de saúde, primeiramente, possuem esta compreensão do papel do trabalho na saúde do trabalhador e, a partir dessa compreensão, aprofunda no atendimento às variáveis que corroboram para o adoecimento do trabalhador. Merlo (2014, p. 26) destaca que, quando identificadas tais situações, o acolhimento do sofrimento deve ser a primeira atitude por parte do profissional, e isso ocorreria através de uma escuta compreensiva.
Reitera-se, assim, que a escuta é um momento singular entre o profissional de saúde e o trabalhador, que, numa relação de confiança, acolhe as angústias, frustrações, entre outros sentimentos, principalmente aqueles adjacentes ao trabalho, que possam configurar os riscos psicossociais e expor os trabalhadores a possíveis quadros de adoecimento.