O CUCA, como discutimos nessa dissertação, apesar de estar inserido numa lógica de defesa dos direitos da juventude e ser um dos mais importantes equipamentos presentes na periferia de Fortaleza, ainda tem pontos frágeis quanto à aplicação desses direitos, principalmente o direito à comunicação, foco deste trabalho. A busca por entender como o direito à comunicação foi vivenciado nesse processo nos proporcionou algumas observações interessantes sobre o CUCA como Política Pública.
Tomamos, então, três eixos de análise que demarcamos de modo a categorizar esse direito e melhor entender esse campo, com o propósito de avaliar se e como esse direito pôde ser exercido nesse processo: a) o acesso à comunicação; b) a produção de comunicação; c) o compartilhamento de comunicação.
No que diz respeito ao acesso à comunicação, em relação às formações culturais e técnicas, observamos que no início do projeto foi comentado que eles passariam por uma série de formações para que compreendessem não só a utilizar os equipamentos, mas também a pensar criticamente a respeito das mídias. Entretanto, pelo calendário bastante corrido, e as
135 exigências impostas, essas formações foram deixadas de lado. Houve uma tentativa, ainda no final, de retomada destas, mas sem muito êxito, considerando que boa parte dos programas já havia sido produzida e descartada inúmeras vezes. Além disso, foram poucos os exemplos de materiais audiovisuais apresentados aos jovens e boa parte dizia respeito às produções de grandes empresas de comunicação, sendo os exemplos de comunicação alternativa deixados em segundo plano.
Em relação à transparência no processo, houve um momento em que o projeto foi apresentado aos jovens, com todo o seu cronograma explicado e como ele iria se desenrolar, incluindo a quantidade de programas, o que facilitou que os jovens se situassem e construíssem um panorama geral sobre o “Conexões”. Entretanto, com o passar dos meses e as mudanças que ocorreram, tanto no cronograma, quanto no que diz respeito ao convênio com a TV Ceará, o repasse de informações aos jovens começou a se tornar mais escasso. Como relatado nesta dissertação, diversas foram as vezes que eles se queixaram e mostraram insatisfação sobre essa falta de transparência.
Sobre o acesso aos materiais de produção audiovisual, consideramos que mesmo com as limitações do CUCA, em relação ao transporte desse material, os jovens puderam usufruir, de forma ampla, de vários dos equipamentos disponíveis. Praticamente, cada um deles conseguia estar com um dos equipamentos durante as aulas ou saídas para filmagens, e foram poucas as vezes que o uso desses equipamentos foi limitado ou dificultado.
No que diz respeito à produção de comunicação, consideramos que aos jovens foram dadas poucas oportunidades de participar efetivamente da produção do programa, principalmente quando consideramos as dimensões do planejamento e da avaliação dos processos. Apesar de o programa ser pensando entre os professores e os alunos, muitas ideias sugeridas por eles foram descartadas, ou tiveram que ser remodeladas, diversas vezes, por questões alheias às escolhas dos jovens, revelando uma abordagem distante dos padrões da dialogia na formação desses indivíduos.
Além disso, as avaliações dos processos eram, quase exclusivamente, realizadas pelos superiores hierárquicos - professores, gestores etc. – do Cuca, e poucos foram os espaços em que essa avaliação foi feita em conjunto com os participantes. Entretanto, na dimensão da execução, a participação deles se deu de forma bastante efetiva. Principalmente no início do projeto, eles tiveram bastante liberdade na execução das gravações dos programas, puderam aprender na prática a manusear uma câmera, segurar um microfone, a editar um vídeo, através da mediação dos professores responsáveis.
136 Em relação à autonomia dos jovens, o Professor A tentou, diversas vezes, orientar os participantes em direção a adoção de uma postura mais autônoma. Ele esperava que os jovens conseguissem desenvolver os materiais, principalmente a nível de execução, sem muita interferência dos profissionais.
Consideramos, assim, que apesar dessa autonomia ter sido cerceada, em alguns momentos, como nos descartes dos programas e nas exigências demasiadas com a produção do material, houve algum incentivo, em boa parte da formação, para que eles pudessem construir seus próprios caminhos no fazer audiovisual. Essa busca por autonomia pôde se refletir, também, na criação do grupo “Conexões das Tretas”, onde eles se organizaram para se opor aos descartes dos programas e conflitos com os funcionários do Centro.
No que diz respeito ao compartilhamento de comunicação, um dos principais pontos de debate, no nosso entendimento, girou em torno da criação do Instagram do “Conexões”. Aos jovens não foi dada a escolha de debater e decidir melhores caminhos para dialogar com seu público, nem por onde compartilhar os seus materiais, considerando que a conta foi desativada pouco tempo depois de ser criada. A única alternativa oferecida a eles seria compartilhar esse material através dos meios de comunicação institucionais utilizados pelo Centro, como já era feito.
Além disso, os prazos estabelecidos pelo CUCA para produção e veiculação dos programas não foram debatidos com o grupo de jovens, e a parceria com a TV Ceará fugia completamente ao controle deles. Ficou clara a apreensão do grupo para produzir um material sobre o qual eles não tinham nenhum controle sobre sua veiculação, além do fato de que a ponte com o meio de comunicação responsável pela distribuição era feita inteiramente pelos professores e gestores.
Importante ressaltar que essas três dimensões apresentadas não existem de modo independente. No decorrer do projeto, nos fatos relatados ao longo deste trabalho, elas se entrelaçaram, misturaram-se e foram vivenciadas de modo complementar.
Considerando o exposto, identificamos que, na maior parte do tempo, o direito à comunicação foi exercido de forma secundária pelos jovens comunicadores do projeto. Apesar de terem ocorrido ocasiões e espaços em que esse direito recebeu mais destaque, faltou diálogo entre professores, gestores e estudantes de modo a estabelecer uma melhor aplicação deste.
Dessa forma, os momentos de execução dos materiais audiovisuais, quando os jovens saíam para realizar as gravações, o acesso aos equipamentos de produção e o incentivo à autonomia foram um dos pontos em que o direito à comunicação pôde ser exercido de forma
137 plena dentro do grupo. Entretanto, o descarte contínuo dos materiais, a falta de transparência em relação aos processos que circulavam a produção do programa, a falta de clareza das formações e o cerceamento da participação desses jovens nas esferas do planejamento e avaliação foram alguns dos aspectos observados que dificultaram a efetivação desse direito de forma primordial durante o projeto.
Avaliamos, dessa forma, que ocorreram momentos importantes de tensionamento envolvendo o exercício desse direito nas vivências do “Conexões”. Enquanto os jovens buscavam maior autonomia e compreensão sobre o processo que estavam vivendo, a equipe de funcionários do CUCA focava, em boa parte do tempo, no produto final. A experimentação audiovisual, dessa forma, também foi prejudicada pelas exigências estéticas e de conteúdo que beiravam o profissional.
Observamos que os professores e gestores do CUCA tinham uma visão pouco clara sobre o direito à comunicação, mesmo ele tendo sido mencionado na aula inaugural e, em alguns momentos, ao longo das formações. Esse direito, dessa forma, não foi tratado com a devida profundidade, e os jovens passaram pelo processo sem entenderem de forma ampla como ele se relaciona com os materiais que produziram.
Consideramos válida a iniciativa, inicial, de abordar o direito à comunicação, o Estatuto da Juventude, além da exibição de vídeos como o da Chimamanda, criando condições para que o jovem começasse a se inteirar desses assuntos desde o primeiro contato com o Centro. Entretanto, essas falas devem estar alinhadas com as vivências cotidianas do CUCA, de modo a se construir um processo formativo com foco no estímulo, no reconhecimento do esforço, e na valorização da produção deles.
Por fim, acreditamos ser importante refletir sobre os limites desta pesquisa. Voltar a este campo, depois de passado algum tempo do fim do “Conexões”, para realizar conversas com gestores e os jovens participantes sobre esta vivência, poderia ter sido um caminho para melhor se compreender as práticas que permearam esse ambiente. Entretanto, esse retorno não foi possível devido a mudanças e imprevistos que ocorreram ao longo do processo de escrita. Sabemos, também, das limitações relativas ao fato de não termos acompanhado todo o projeto – em todas as suas etapas – na produção desta temporada. Uma pesquisa desse porte demandaria muito mais tempo e energia, mas também permitiria observar as mudanças na condução do “Conexões” e dos grupos juvenis envolvidos.
Finalmente, a análise do exercício do direito à comunicação, por se tratar de um conceito tão amplo e, por vezes, abstrato, não se esgota na presente pesquisa. Entendemos ser fundamental avançar nessa reflexão, principalmente no âmbito acadêmico, de modo a
138 aprofundar o entendimento sobre os limites desse direito e aprimorar formas de promover sua efetivação, principalmente quando ele se relaciona com a aplicação de políticas públicas.
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ANEXO A – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE)
Você está sendo convidado a participar como voluntário da pesquisa “Juventude em Movimento: A Participação e o direito à comunicação na produção midiática e nas interações online dos Jovens Comunicadores do programa “Conexões Periféricas”” (título provisório). Leia atentamente as informações abaixo e faça qualquer pergunta que desejar, para que todos os procedimentos desta pesquisa sejam esclarecidos. A pesquisa tem como objetivo analisar de que maneira o Direito à Comunicação é promovido e se a participação é incentivada durante a produção da quarta temporada do programa “Conexões Periféricas” e nas interações no grupo de WhatsApp. Esta pesquisa está sendo desenvolvida por mim, Francisco George, publicitário, mestrando em Comunicação no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da Universidade Federal do Ceará (UFC), localizada em Fortaleza/CE, como atividade do mestrado, sob a orientação da Prof. Inês Sílvia Vitorino Sampaio, professora associada do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará.
Todas as informações coletadas serão estritamente confidenciais, sendo que sua identificação se dará por nome fictício, com o objetivo de garantir o sigilo, o anonimato e assegurar a sua privacidade em todas as etapas desta pesquisa. A sua identidade será tratada de acordo com padrões profissionais de sigilo, atendendo a legislação brasileira (Resolução Nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde), utilizando as informações somente para os fins acadêmicos e científicos.
Durante a pesquisa, adotaremos os seguintes procedimentos para coletar as