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Para viabilizar o processo de compreensão sobre a natureza das relações de trabalho mantidas ao longo da dinâmica organizacional do GNOME e da wiki-pt, foi realizada uma análise qualitativa dos dados coletados nas etapas anteriores. O principal objetivo dessa fase foi interpretar e compreender o significado substantivo desses dados que foram colhidos ao longo da observação participante e pelas entrevistas semiestruturadas. De forma mais específica, foi adotada uma análise de dados de natureza qualitativa que buscou examinar todo o conteúdo (impressões em campo, documentos, entrevistas, imagens, etc.) coletados por meio de um sistema de categorias, desenvolvido a partir desse material observado, mas guiado pelo referencial teórico escolhido.

Para realização desse processo, foram utilizadas as técnicas básicas ligadas à análise qualitativa de conteúdo. Para Mayring (2000), essas técnicas estão associadas a um tipo de análise sintetizada de todo o material coletado, que passa a ser organizado em “conteúdos essenciais” ou “unidades de conteúdo”. Tendo como base esse tipo de técnica, os conteúdos sistematizados conseguem representar a totalidade de informações oriundas das organizações pesquisadas sem, para isso, perder a substância qualitativa dessa mesma totalidade.

Além disso, de acordo ainda com Mayring (2000), essa técnica adota, ao mesmo tempo, um processo indutivo de desenvolvimento de categorias de análise que se soma a uma aplicação e revisão dedutiva dessas mesmas categorias, ao longo da etapa de interpretação. Dentro do processo prático adotado nesta tese,

esse método de análise qualitativa de conteúdo foi estruturado então em quatro passos: 1) Elaboração inicial de categorias analíticas com base no referencial teórico; 2) Organização, sistematização e leitura dos dados empíricos; 3) Análise parcial do material e revisão das categorias analíticas; e 4) Análise final de todo material e interpretação dos dados.

Figura 7 - Processo da análise qualitativa de conteúdo adotado nesta tese.

Fonte: adaptado de Mayring (2000).

Partindo então desse entendimento, após a definição do problema e objetivos de pesquisa, foram elaboradas 13 categorias analíticas inicias. Essas categorias foram definidas a partir de critérios oriundos do próprio referencial teórico em diálogo direto com o problema e os objetivos desta pesquisa. Por conta disso, o resultado desse passo inicial foi a criação de um conjunto de categorias para uma

determinada temática (dimensão) do referencial teórico – que é aprofundado nos capítulos 3 e 6 desta tese.

Com a definição dessas categorias iniciais, partiu-se para o segundo passo de sistematização e organização de todo o conteúdo coletado com intuito de facilitar a análise posterior. Nessa etapa dois, foi dada uma atenção especial ao material das entrevistas que foram enviadas por e-mail, tendo em vista que a coleta via imersão em campo já era feita de forma sistematizada por meio da utilização do diário de campo. Para esse processo de sistematização das entrevistas foi utilizado o software LimeSurvey32. Por ser um software para aplicação de questionários on-line,

esse sistema atendeu a todas as necessidades básicas de sistematização dessa pesquisa, dada ao seu alto nível de personalização dos layouts dos questionários e geração de estatísticas básicas. Além disso, por ser um software livre, esse sistema não requisitou nenhum tipo de custo em termos de aquisição de licenças. Já a hospedagem desse software web foi gentilmente cedida pela Colivre – Cooperativa de Tecnologias Livres, para realização dessa pesquisa.

Com as categorias iniciais definidas e a sistematização de todos os dados das entrevistas que se somaram ao diário de campo, em novembro de 2015 iniciou-se a

32Para mais informações sobre esse software de questionário: https://www.limesurvey.org Figura 8 - Interface do LimeSurvey utilizado nessa pesquisa.

análise qualitativa dos dados em si. Ao longo de todo esse processo, foi realizada uma constante revisão das categorias analíticas, com o intuito de verificar a coerência de cada uma delas com relação à realidade dessas organizações. Dentro dessa dinâmica, muitas categorias existentes foram ajustadas para a compreensão desse universo investigado, como também novas categorias foram “forçadas”, de forma dedutiva, a serem criadas também. A partir do momento em que muitas especificidades e surpresas emergiram da realidade que estava representada na riqueza dos dados colhidos, não restou outra opção para o pesquisador a não ser “mesclar” o princípio indutivo de origem com a necessidade dessa aplicação e a criação dedutiva de algumas das categorias analíticas. Afinal, essas categorias foram quase que impostas pela força da realidade dessas organizações. Por conta disso, mais 13 categorias foram criadas num total final de 26 que foram distribuídas nas duas temáticas centrais desta pesquisa – que serão detalhadas nos capítulos subsequentes.

Com essas categorias analíticas estabelecidas, é possível afirmar que a interpretação final de todo o material examinado foi realizada a partir de um sistema de categorias que está diretamente vinculado à realidade das organizações estudadas e amparada em toda a teoria subjacente, com o intuito de trazer uma resposta qualitativa à pergunta central desta pesquisa. Por fim, a sistematização de todo esse processo de investigação qualitativa foi, posteriormente, confrontada com os pressupostos teóricos que serviram de ponto de partida para esse trabalho de tese.

Como síntese resultante desse processo de investigação científica, os próximos capítulos desta tese demonstram as especificidades da natureza do trabalho adotado pelos hackers e wikipedistas nessas duas comunidades on-line e como isso impacta na viabilidade dos processos de produção por pares mediados pela Internet, e na manifestação de um sistema de dádiva na contemporaneidade. Para isso, inicialmente, o contexto do processo de produção por pares de cada uma dessas comunidades on-line é demonstrado, levando em consideração algumas dimensões de duas complexas realidades organizacionais que são mediadas por ambientes digitais, na atual conjuntura da Sociedade em Rede.

3 INFORMACIONALISMO E A GÊNESE DA PRODUÇÃO POR PARES EM REDE

Segundo o sociólogo Manuel Castells, “no final do século XX vivemos um desses raros intervalos na história. Um intervalo cuja característica é transformação da nossa 'cultura material' pelos mecanismos de um novo paradigma tecnológico que se organiza em torno das tecnologias da informação” (Castells, 2005, p.67). Segundo o autor, o tipo de tecnologia desenvolvida e difundida numa sociedade influencia decisivamente sua estrutura material, isto é, as suas relações sociais de produção. Da mesma forma como a revolução relativa à máquina a vapor e depois à eletricidade lançaram as fundações tecnológicas do industrialismo capitalista, as revoluções associadas à metalurgia, química, transportes e engenharia eletrônica, junto com uma grande variedade de outros campos tecnológicos, fundiram-se na edificação de um novo paradigma tecnológico: o informacionalismo.

Para Castells (2001), o informacionalismo é um paradigma essencialmente tecnológico, isto é, um padrão conceitual que estabelece modelos de desenvolvimento relativos ao campo tecnológico e não estão, portanto, associados a um novo sistema econômico33 que se difere do capitalismo na sua essência. Mais especificamente, ele está ligado ao desenvolvimento convergente das revolucionarias tecnologias de informação e comunicação (TICs) como, por exemplo, os computadores pessoais (PCs), os sistemas operacionais (softwares que fazem os computadores funcionar) e os protocolos da Internet como uma rede mundial de computadores. Assim, esse paradigma tecnológico não se caracteriza, necessariamente, pelo papel central do conhecimento e da informação na geração de riqueza, poder e significado – o que, de certa forma, sempre aconteceu em todos os intervalos de transição da história humana. O diferencial e ineditismo desse paradigma tecnológico está ligado à capacidade de processamento, distribuição e acesso dessa informação (agora em rede), além dos impactos que essas novas tecnologias induzem na geração e aplicação do conhecimento nos sistemas de produção do mundo contemporâneo. Assim, tendo como base a microeletrônica e a rede mundial de computadores, essa transformação tecnológica fornece novas

33 Do ponto de vista econômico, Castells (2005) ressalta que um dos fatores históricos mais relevantes para o desenvolvimento desse paradigma ligado às tecnologias da informação e comunicação foi, exatamente a sua relação direta com o processo de restruturação capitalista, empreendido nos anos 80, de modo que ele pode ser adequadamente caracterizado de “capitalismo informacional”.

capacidades a uma antiga forma de organização social: as redes. É então este paradigma que fornecerá as bases para o que Manuel Castells denomina de Sociedade em Rede.

O termo informacional indica o atributo de uma forma específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam-se as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas surgidas nesse período histórico. Minha terminologia tenta estabelecer um paralelo com a distinção entre indústria e industrial. (…) Porém, o conteúdo real de “sociedade informacional” tem de ser determinado pela observação e análise. É exatamente o objetivo desse livro. Por exemplo, uma das caraterísticas principais da sociedade informacional é a lógica da sua estrutura básica em redes. O que explica o uso do conceito de Sociedade em Rede. (CASTELLS, 2005, p.65)

No entanto, Castells (2001) ainda afirma, a partir de sua obra científica, que não existem revoluções de natureza tecnológica sem transformações culturais. Para ele, como tecnologias revolucionárias têm que ser pensadas, elas não são o resultado de um processo incremental, mas sim fruto de pensamentos subversivos ligados a gestos de rebeldia. A emergência do informacionalismo foi então decisivamente moldada por uma nova cultura que foi essencial no desenvolvimento das redes de computadores, na distribuição da capacidade de processamento e na ampliação do potencial de inovação por meio da cooperação tecnológica e compartilhamento livre do conhecimento.

A compreensão teórica dessa cultura – que pesquisadores como Castells (2003), Himanem (2001) denominam de cultura hacker e que moldou o informacionalismo é, portanto, fundamental para a compreensão da gênese da própria Sociedade em Rede e de todos os sistemas de produção que surgiram a partir dessa nova base tecnológica. Isto é, entender a ética, os costumes e a práxis social que permeiam as relações sociais e de produção entre os hackers é essencial para analisar a gênese de surgimento dos principais símbolos tecnológicos dessa era informacional como a rede mundial de computadores, os PCs e o sistema operacional GNU/ Linux. Moldadas pela manifestação dessa nova cultura, essas tecnologias subversivas, por sua vez, assumirão um papel de catalisadores de um novo sistema de produção por pares, de base comunitária e não contratual, que surgirá a partir do movimento em defesa da liberdade do conhecimento.

3.1 O PROJETO GNU E O MOVIMENTO PELA LIBERDADE DE PRODUÇÃO

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